29.5.04

O estado da união

Sem ministro
 
Não se ouviram brados de indignação pelo cancelamento da visita que o então ministro da Educação de Portugal viria fazer a Macau. Surgiu um comentário mais incendiário alí, outro acolá, mas tem razão quem disse que, sem sentido, seria a vinda de um ministro que o seria à partida, mas já não à chegada. O que viria fazer David Justino a Macau? Nada, porque quando cá chegasse o governo que integrava não seria mais que os destroços em gestão de um executivo abandonado à sua triste sina por um primeiro-ministro em debandada.
Faça-se justiça a Justino: foi a última, mas excelente decisão. Porque não fez em tempo útil, o tempo se encarregou de o fazer inútil. Como já estamos habituados, só o cenário mudou, a banda sonora é a do costume. Afinal, alguém acreditava que ía haver novo currículo na Escola Portuguesa de Macau no próximo ano lectivo? Além do mais, tal seria inaceitável, já que a inscrição dos alunos corresponderia à passagem de um cheque em branco à decisão tomada, já que ia surgir em cima do período de matrículas. Portanto, reste a fé a quem a tenha de que o próximo será melhor.

Por Portugal

Apesar de tudo há que estar solidário com o ministro, como se deve ser complacente com todas as vítimas da desgraça: por muitos avisos que se façam a quem prossegue em caminho errado, quando o malho chega a recriminação não é o melhor remédio.
Assim foram sendo lançados alertas contra o caminho que o governo português seguia. Sendo bem verdade que um mal nunca vem só, eis que à crise económica se junta agora a crise política. O problema agora é que habitualmente não há duas sem três – só faltava Santana Lopes suceder dinasticamente, em golpe palaciano cujos contornos, reconheça-se, estão bem urdidos.
Durão Barroso deu às-de-Vila-Diogo, como era de prever, e quer agora passar o ónus da fuga para o presidente português, caso, como aconselha a sensibilidade política expressa na opinião das mais avisadas personalidades locais, opte por dissolver o parlamento e convocar eleições que legitimem um novo primeiro-ministro – como, apesar da coligação pós-eleitoral, este estava. Um primeiro-ministro não sufragado de uma coligação de bastidores seria, ao contrário do que diz o candidato a governante, coisa nunca vista em democracias adultas. De resto, e contra a verborreia populista de Santana Lopes, concorre desde logo o facto de nenhum outro primeiro-ministro em funções ter aceite abandonar o mandato para que tinha sido eleito, a começar pelo próprio irlandês que encontrou em Durão o mínimo denominador comum que lhe salvou a presidência do Conselho.
Vá então Durão à vida e prove a sorte que santos da casa não fazem milagres.

Todos à Torre

Em boa hora a Casa de Portugal em Macau decidiu avançar para uma iniciativa que pode envolver muita gente numa festa memorável. Esta é uma na ‘mouche’. O local escolhido é o mais certo: amplo, agradável, e alheio a conotações ou alergias que um qualquer outro mais tradicional pudesse causar; o momento é entusiasmante, sendo já evidente que as madrugadas futeboleiras têm envolvido muita gente que habitualmente até se alheia do futebol; parece garantida a presença de quantidade suficiente de gente para que não se centre a iniciativa nesta ou naquela personalidade; torna-se o evento (palavra tão de Macau, esta) aberto a todos, aos distraídos e circunstantes, eliminando-se empecilhos em que tropeçamos todos os dias; sobretudo, põe-se à disposição de quem quiser, sem convites nem ameias, um local para se conviver e partilhar emoções, descarregar energias, celebrar alegrias e dispender considerações, regar o esófago e desgastar a laringe, enrouquecer saudavelmente enquanto se cospem unhas roídas, enfim, tudo o que faz de um jogo de futebol decisivo um momento só repetível na final ansiada. Afinal, a tantos milhares de quilómetros do palco original, quem não quer encurtar distâncias? Bolas!

Dar bandeira

Pretendeu um leitor corrigir a última crónica aqui publicada onde se dizia que o apelo de Luiz Felipe Scolari tinha produzido o efeito de uma febre de ostentação do estandarte português por alturas do Euro 2004. Dizia a prosa que tinha sido Marcelo Rebelo de Sousa, e não o seleccionador de Portugal, o autor da ideia. Vamos então atribuir o seu a seu dono: Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, fala na televisão sobre o assunto, referindo-se a uma carta que recebera de um jovem, Bernardo Teotónio Pereira, que lançava o apelo, sendo então, e até melhor opinião, quem poderá reclamar os louros. Bernardo Senna Fernandes, o leitor, omitiu essa parte. Como não quis perceber que foi, efectivamente (e pelo que nos é dado apreender a esta distância), a partir do apelo lançado por Scolari que as bandeiras começaram a surgir penduradas.
Por cá, ouvi um cabotino considerar «idiota» o acto de ostentar a bandeira portuguesa depois da vitória da selecção de futebol sobre a Inglaterra. Ridícula, a observação, de uma criatura esdrúxula, obviamente. Esperemos que haja razões para, após o jogo com a Holanda, poder partir-se em caravana festiva com tantas bandeiras quantas se queiram. Que se possa ver em Macau o que se observou na Praia, em S. Tomé, Maputo e Bissau, Luanda ou Díli, onde o passado não condiciona o presente individual e os laços históricos proporcionam a festa comum. Que isso possa depois ser mostrado ao Mundo, como aqui vemos as outras festas.

Havemos de voltar

11.5.04

A bola

Dizer que a bola é redonda nem sempre é uma verdade lapaliciana. Mesmo no jargão futebolês essa expressão é usada recorrentemente e com razão.
Porque o fenómeno onde a bola é mais popular provoca alterações de visão que a tornam num outro sólido de forma indefinida e muito ainda não nomeável. Uma das formas que o esférico adopta ultimamente poderá ser designada, se assim o quiserem os cronistas desportivos, por «cunhado» ou «alvalângulo». Naturalmente que o objecto terá que possuir lados e ângulos – aqueles por que o principal arauto do novo sólido geométrico decidir observar a bola, que como se sabe, o presidente «leonino» já o sabia antes de muitos de nós, também tem dois lados: o de dentro e o de fora. Tinha, porque a bola que rola aos olhos do tão respeitável quão tremeliquento (por que será?) senhor tem muitos mais. Quando hezagonal provocas faltas invisíveis às restantes dezenas de milhares de olhos presentes no mesmo recinto – mas que resultam em indigesto golo. Pelo menos octogonal quando transformam os 11, ou 23, ou quantos foram, que a ela andaram ao biqueiro durante nove meses para parirem uma modesta prestação, constituindo-se, apesar de tudo, na melhor equipa do campeonato. Trata-se, obviamente, de uma questão de sistema, ou de falta dele – o táctico, obviamente. Outra hipótese é tratar-se de contaminação pelo vapores bafientos da nobreza que empestam o novo Alvalade viscondal.
Dizer que a bola é redonda, em desporto, não é o mesmo que dizer que um quadrado tem quatro lados. Pela mesma razão que dizer que um homem tem dois pés não significa o mesmo se estivermos a falar de um carpinteiro ou de um futebolista. Por isso mesmo quando Geovani fuzilou Ricardo nenhum dos polícias presentes pensou em dar-lhe ordem de prisão por homicídio qualificado e bastamente testemunhado, nem sequer sair abraçado a ele em direcção ao balneário, com o chapéu em baixo do braço, para lhe pedir a identificação.
É assim o mundo da bola, uma sociedade à parte, que pede emprestada aqui e ali a língua deste e daquele para lhe dar novos significados, que tem regras próprias e se mantém, no geral, fora das instâncias judiciais civis, a menos que se misturem os papéis e lá tenha a justiça dos homens que se meter com os homens da bola. É como quem diz: se o presidente da Câmara licenciar ilegalmente três loteamentos em troca de uma contribuição ao clube da terra, pode ter problemas por ser autarca, não sócio da agremiação. Se ao atleta for detectada cocaína no organismo, fica uns meses sem jogar em público, mas não chega a poisar as nalgas no madeiro do tribunal. Não interessa se de facto ou de jure, certo é que há duas medidas e pelo menos outros tantos pesos.
Os cidadãos mais avessos ao fenómeno desportivo tendem a ver nisto se não o fim do Mundo pelo menos sinal inequívoco de que ele está perdido. Inquietam-se alguns da cultura com a alienação, da religião com as faltas ao sacramento, do intelecto com a brutalidade, outros, avulsos, com não perceberem as regras. A bola, essa, lá vai girando, e quando pára gera suspiros.
A bola faz mais pela Paz, pela Felicidade, pelas Culturas, pela economia e pela cooperação do que os protagonistas do jogo pretendem. Obviamente, muito mais do que o que os dirigentes dos clubes alguma vez pretendem – eles que ambicionam, regra geral, metas materiais e proventos pessoais que nada têm que ver naqueles valores. Mas a bola é dos povos e sai do controlo dos Estados – por isso resulta, passa barreiras, ultrapassa dificuldades, obtem feitos impossíveis para comunidades que doutra forma se mantêm presas nas redes que os sistemas políticos criaram para envolver, e manietar, as sociedades.
Se assim não fosse, o Futebol Clube do Porto seria apenas «bimbo», não alcançaria, com nenhum Mourinho, a fama merecida e a glória conquistada que nenhuma outra instituição daquela atrasada região europeia obteve, se propõe ou sequer vislumbra.
Por isso, sem sequer fazerem ideia de quem foi Camões, nos confins da China há quem saiba uma palavra em português e a use quando precisam de dizer Bem Vindo Portugal. Que dizer quando, no desempenho de funções profissionais, a curadora da Fundação Oriente chegou a uma pequena cidade do interior da China e, tendo à sua espera alguém que não sabia como a identificar, leu num cartaz (com que o improvisado motorista se desenrascou) a palavra Benfica?
A bola, que até pode ser um ovo, um sabre, apenas uma fita, as mãos, consegue maravilhas. Seria estultícia pretender reduzir tudo à bola, tanto quanto tentar a quadratura do círculo. Mas é tempo para os que têm responsabilidades na difusão da língua e cultura perceberem que há formas menos arcaicas e gente menos vetusta para fazer florescer o que definha ricamente.
É assim o mundo da bola, universal, que dá para falar de tudo e tudo pôr em causa, provando que nem tudo o que é bola rola e, mais ainda, que nem tudo o rebola é redondo.

Havemos de voltar

5.5.04

Mensagem ao Mundo em particular

Transcrição de um discurso captado por satélite de origem desconhecida mas destinatário identificado:

Caros árabes em geral,

Como certamente já tiveram oportunidade de saber, através das televisões que difundem a verdade pelo Mundo, estou profundamente chocado. Contaram-me que uns rapazes que mandei libertar-vos, depois de vos meterem na prisão sem que ninguém os mandasse, fizeram coisas incrivelmente divertidas que, no entanto, dizem-me para dizer que são más. Em boa verdade não vejo qual é o problema de empilhar umas dúzias de prisioneiros e posar para a fotografia atrás deles. Para todos os efeitos são prisioneiros, se estão presos é porque são maus e se são maus muito provavelmente gostam do Bin Laden. Obviamente pelo menos gostam do Saddam, se não não estariam presos. Mesmo que tenha havido algum engano e não gostem assim tanto desse ditador de que vos livrámos, tenho a certeza de que pelo menos são dos que acham que a terra deles deve ser governada por eles próprios, o que é um péssimo princípio que, nas circunstâncias actuais, justificam que estejam presos.
Acho mesmo que deviam estar-nos agradecidos, uma vez que ninguém se lembrou de os mandar para Guantanamo, onde, como se sabe, é muito pior a convivência com o barbudo comunista do que as condições de detenção em que os mantemos. Nem percebo por que é que os nossos aliados, até ingleses, acham mal, quando até vendas nos olhos lhes pomos para não verem aquele inferno comunista. Enfim, a ingratidão é algo que não me surpreende.
Mas não foi para estas reflexões profundas sobre política e estratégia à escala planetária que decidi falar-vos, caros árabes em geral. Não posso esquecer-me de que estou profundamente chocado e que isso é o mais importante que tenho para dizer-vos. Acho mesmo que, inspirando-me na minha conselheira, será um achado comunicacional enviar-vos as minhas condolezas, como dizemos lá no Texas. Hábitos que nos vêm de longe, como calculais.
Como sabeis tenho andado muito ocupado ultimamente em resolver a questão israelita de forma pacífica. A paz em Israel é um objectivo de todo o Mundo civilizado, portanto temos que exterminar aqueles radicais mais atrasados que andam com colchas na cabeça e que querem impedir o progresso na região.
Claro que quando me refiro a eles não os posso confundir com vocês, restantes árabes em geral, que apesar de também terem esse hábito para mim incompreensível de andar com o enxoval à cabeça têm a vantagem de nos receberem de braços abertos quando invadimos o vosso país. Por isso não percebi onde o meu secretário de Estado foi buscar aquela ideia de que a resistência é maior do que esperávamos. Como dizia, tenho andado muito ocupado com outras questões, sobretudo agora que tenho o Kerry à perna, e não me tem restado muito tempo para ver as notícias. De qualquer forma, poderoso como sou, calculam que tenha quem me diga o que se vai noticiando.
Uma coisa que não percebi bem foi por que razão a tropa que eu mandei libertar-vos se vos pôs a urinar em cima. No meu íntimo ainda estou convencido de que aquilo é montagem, mas disseram-me para vos pedir desculpa à mesma, não fosse dar-se o caso de se descobrir que a terceira síndroma do Golfo se começa a revelar por incontinência urinária. Também a depressão e o cansaço não é coisa para soldados e viu-se como eles foram afectados. O fundamental, no entanto, é que continuamos a recusar reconhecer o tal tribunal para julgar crimes de guerra, e assim não há perigo de aqueles que vos foram libertar serem um dia condenados por isso, se é que me faço entender. E ainda há quem diga que sou burro...
Caros árabes em geral e já agora aproveito para todos em particular: como é sabido a guerra de libertação do Iraque acabou, porque eu disse, há mais de um ano. Para ser preciso, faz amanhã um ano e oito dias. Reconheço que há para lá umas escaramuças e por isso decidi não só não tirar nenhuma da tropa que tinha dito que ia voltar como ainda mandei mais uns. É uma questão de lhes garantir a democracia, que vamos assegurar quando encontrarmos uns homens de bigode mais convincente que os que pusemos agora lá no governo. No outro dia ouvi dizer que com aqueles fatos vestidos eles não convencem ninguém, mas a verdade é que nós não os conseguimos convencer a vestir de outra maneira. Afinal são democratas que sempre conviveram connosco, e numa terra cheia de petróleo como aquela, então, o que queriam. Para andarem de saias iam para a Arábia Saudita, dizem eles, mas parece que em matéria de liberdades se sentem melhor num país em guerra. De qualquer forma isto são pormenores.
O que quero deixar claro a cada um de vós em geral é que a América nunca voltará atrás nesta decisão de impôr-vos a democracia. Prometi ao meu pai e agora, nem que quisesse não podia. Não sei muito bem que negócios é que foram feitos, mas sei que foram e eu sou Presidente e quem manda diz que tem que haver guerra em países com petróleo e assim é. Como sabem, tive a brilhante ideia de mandar para lá, agora, tropas africanas mas eles disseram que já têm problemas que cheguem. Enquanto eles lutavam nós vendiamos o petróleo, uma vez que basta olhar para o Mundo para perceber que eles são bons para a traulitada mas zeros à esquerda, ou mesmo à direita, na economia. A história há-de dar-me razão e confirmar esta como uma visão de diplomacia que há-de fazer escola.
Caro Mundo em particular, árabes em geral e eventualmente algum extraterrestre que tenha já percebido a dimensão do meu poder:
É tempo de terminar esta minha comunicação que serviu, convém lembrar porque até eu já me esquecia, para dizer que estou inconsolável com as o que se passou no Iraque. Não podiam ter feito aquilo no princípio, como as bombas de Napalm de que já ninguém se lembra e que portanto não entra na campanha eleitoral? Duvidam, então, do meu arrependimento? Quero dizer, eu não tenho que estar arrependido, aquilo são maçãs podres que lá andam no meio do ramalhete de malmequeres. Quer dizer, bem-me-queres.
Quê? Calar-me? Está bem.
Viva a liberdade, saudações democráticas deste vosso George W. C

Perdeu-se o sinal

Havemos de voltar

27.4.04

Um azar nunca vem só

É a todos os títulos vergonhosa a actuação do governo norte-coreano face à tragédia que ocorreu numa cidade fronteiriça, onde um acidente ferroviário provocou mais de 160 mortos e para cima de 1300 feridos, além de ter deixado marcas em mais de oito mil edifícios. Vergonhosa, deplorável, reincidente e reveladora do respeito que o poder norte-coreano não tem pelo seu povo.
Tarde e a más horas, quando não havia forma de esconder o facto (porque se houvesse, certamente ele teria sido negado), lá foi anunciado que havia «estragos são consideravelmente elevados» na sequência da explosão que, não interessa por quê, ocorreu em vagões de combóio carregados de produtos químicos. O número de vítimas apresentado era tão redondo – 150 – quanto a importância que cada vida tem para aqueles governantes: zero. Sintomaticamente certo foi também o número de feridos fornecido pela agência de informação norte-coreana: 1300. Mais simples foi tratar dos desaparecidos: não se sabe quantos são, já que «está a ser investigado». Uma pena que os mortos não tenham, simplesmente, desaparecido também, dirão as autoridades, que ficariam com muito mais o que investigar e muito menos para revelar.
Para que conste, segundo a Cruz Vermelha, o número de vítimas mortais encontradas foi de 161. A mesma instituição queixou-se, na altura, de que tinha sido impedida, «sem justificação», de fazer chegar ajuda proveniente da Coreia do Sul.
O povo da Coreia do Norte tem a infelicidade de ter o governo mais obnóxio que se encontra à face da terra. E não é uma infelicidade pequena: dos mais de 22,4 milhões de habitantes daquela parte da península coreana poucos, muito poucos, acreditam nas versões oficiais para tudo o que acontece. Não acreditam os que sofrem na pele o resultado de uma política incompreensivelmente isolacionista, nem acreditam os que a fazem porque sabem que falam mentira para criar um embuste militarista. Mas não está tudo perdido: enquanto acreditar o líder parlamentar dos comunistas portugueses, Bernardino Soares de seu nome, o filho Kim Yong-il do pai Kim Il-Sung terá um momento de estúpido reconforto.
Alguém consegue justificar a sucessão dinástica, à luz do mais ferrenho estalinismo que fosse? O problema é esse: não há nada que justifique o que vivem os norte-coreanos.
Nem os que ocupam o poder conseguem justificar o miserável mundo que criaram e que nem todos os bloqueios do Mundo explicam. Tome-se como exemplo a mortalidade infantil. Tomando-se como boas as únicas estatísticas que há, em cada mil crianças que nascem na Coreia do Norte, morrem 25,6. Uma taxa superior à da China, país com o qual é impossível haver comparações, dada a abissal diferença de população. Cuba, que também se pode queixar de um bloqueio, conseguiu reduzir esse valor para apenas 7,15‰, valor semelhante ao português, por exemplo. O que é muito mau e torna ainda mais abusiva a utilização da palavra «socialista» para designar o regime.
Quem exerce o poder da forma que Kim Jong-il o faz (chame-se-lhe autoritário militarista ou ditatorial estalinista) teme, acima de tudo, o seu povo. Por isso a história relata massacres, prisões e deportações sempre que trata de regimes como o que está instalado em Pyongyang.
De como se revela o medo que o pequeno líder tem do povo que diz servir observou-se em Busan, na Coreia do Sul, um exemplo esclarecedor. Durante os Jogos Asiáticos, onde depois de muitas negociações os governantes do Norte decidiram fazer-se representar, a Aldeia Olímpica tinha duas forças de segurança. Uma, nem melhor nem pior que as outras, encarregava-se de velar pela salvaguarda de pessoas e bens e observação das regras que uma aglomeração de largos milhares de atletas, técnicos dirigentes e todos mais que eram precisos aconselha. Havia depois outra, norte-coreana, que se encarregava apenas de um edifício – onde estava toda a delegação (incluindo uma patética claque). A entrada do prédio confrontava com as instalações ocupadas pela comitiva de Macau. Das nossas janelas podia ver-se, dia e noite, os polícias do Norte sentados à porta de acesso, principal e única. De costas para a rua, virados para a entrada.

Havemos de voltar

21.4.04

Memória

1.
«Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair.»
«Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais».
«Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas».
«Ficou clara a falácia que constitui constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo».
Afirmações que decorrem da convicção de que «só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos. Internamente, o governo instituído, (...) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente (...)?» Para concluir: «Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras».
Tudo o que vem acima foi escrito, nesta secção, em Novembro do ano passado, há mais de seis meses, portanto. [http://www.cabecadepeixe.blogspot.com/2003_11_02_cabecadepeixe_archive.html, para quem se quiser dar ao trabalho].
Ainda não tinha espoletado a agora reconhecida crise que, sublinhe-se antes que os desonestos tentem aproveitar, começou mesmo antes do anúncio da retirada das tropas espanholas.
Meio ano depois os Estados Unidos dão mostras de reconhecer (contrariados, embora) a inevitabilidade da solução ONU no Iraque. Mas ainda há quem não queira ver.

2.
Entre os que não querem reconhecer o lodaçal em que se envolveram está o primeiro-ministro português. Durão Barroso disse da decisão do novo governo espanhol o que o presidente norte-americano, apesar da sua irresponsável verborreia, não soltou. Das palavras de Durão Barroso, além de muitas outras, pode tirar-se uma conclusão: a promessa eleitoral de Zapatero (de retirar as tropas espanholas do Iraque) que foi sufragada, deveria ser letra morta após a chegada ao poder. Um democrata exemplar.

3.
Por falar em democracia: lídimos democratas manifestavam a sua preocupação – e devem agora rezar aos deuses – pela possibilidade de o ANC, na África do Sul, obter 70 por cento dos votos num acto eleitoral à prova do teste do algodão. Um dos que primeiro se disponibilizou para manifestar, via TV, essa supremacia da conveniência democrática face ao desígnio popular foi um padre português que por lá prega. Resumindo, e pasmando simultaneamente, o senhor padre sabe melhor (por via divina, supõe-se), o que convém ao povo que mais de dois terços dos eleitores. Um crente na democracia.

4.
No afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução de (cruzes, canhoto) Abril o governo português passou a chamar-lhe «Evolução». Para não evocar os feitos dos (cruzes, canhoto) revolucionários decidiu fazer publicar livros de estatística sobre os 30 anos que inevitavelmente passaram sobre (cruzes, canhoto) 1974. Mau grado a (cruzes, canhoto) Revolução Portugal é agora um país onde (cruzes, canhoto) Durão Barroso diz que os homens já não andam de bigode e vestidos de preto. O problema é que quem fez a (cruzes, canhoto) Revolução, (cruzes, canhoto) diz que Abril ainda está por cumprir.
Apesar de tudo, o afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução, traduzindo-a em números, equações e comparações estatísticas, em vez de tornarem inacessível e incompreensível a dita (cruzes, canhoto) Revolução, trá-la para um nível de comunicação que os (cruzes, canhoto) revolucionários não conseguem fazer passar quando marcham em manifestação pela Avenida da Liberdade (cruzes, canhoto?)

Havemos de voltar

16.4.04

A cor do voto

Em dois mundos que nos tocam está lançado o debate sobre democracia. Por razões diferentes, em Portugal e em Hong Kong se discute democracia. Curiosamente, onde ela se encontra implantada na sua fórmula mais comum nestes tempos, clama-se contra a qualidade que não tem; onde formalmente não existe, exercem-se democraticamente práticas reivindicativas e expressão livre de opinião favorável à aproximação àquele modelo.
Num e noutro lado se extremam posições e se usa a manipulação da realidade para obter o objectivo que os junta: uma melhor democracia. Claramente, o objectivo de José Saramago ao lançar a polémica sobre a qualidade da democracia vai no sentido de a aproximar daquilo que os regimes socialistas propõem e o escritor professa: a possibilidade de outros argumentos, além dos económicos, vingarem no acesso e exercício do poder.
As democracias ocidentais estão reféns do poder económico e nem o voto popular o consegue refrear. As aberrações legislativas que Silvio Berlosconi tem vindo a produzir para evitar condenações judiciais são disso exemplo. O poder de comunicação que ele mantém através do seu império de comunicação social é sem dúvida um factor de disfunção democrática. Se se critica o controlo absoluto e a manipulação que as ditaduras exercem sobre os órgãos de comunicação social, o que dizer da impossibilidade de qualquer intervenção numa televisão que é privada? A atestar que esse não é caso isolado recorde-se, apenas, a afirmação de Emídio Rangel, nos primórdios da portuguesa SIC, que o todo poderoso director considerou ser capaz de eleger um presidente da República.
Dêem-se os moderados, apesar de graves, exemplos europeus, para não voltar ao inadjectivável Bush, eleito apesar de ter obtido menos votos que o adversário eleitoral, para tripudiar sobre direitos humanos e liberdades individuais, interna e externamente, ao mesmo tempo que alardeia desavergonhadamente princípios que de todo lhe escapam. A «democrática» luta para impôr à força uma «democracia» num país soberano, que acaba por resultar no aumento exponencial do terrorismo que supostamente queria combater, é bastante para que se conclua ser necessário e urgente o tratamento das democracias ocidentais. Como disse o social-democrata Miguel Veiga, a propósito do livro de Saramago, a democracia está sujeita a «perturbantes derivas, que é preciso corrigir», antes que esta rota a fira de morte.
Em Hong Kong, as legítimas aspirações dos democratas conhecem livremente expressão numa comunicação social que se supõe controlada por um poder adjectivado pejorativamente de «pró-Pequim», onde se noticia, com manifesto exagero e óbvia intenção, a morte do princípio «um País, dois sistemas».
De resto essa mesma comunicação social, como as liberdades individuais e colectivas de manifestação, são utilizadas para fazer passar a ideia de que o poder central está a usurpar direitos que não tem. A interpretação que o comité permanente da Assembleia Nacional Popular fez da Lei Básica de Hong Kong foi equilibrada. Não é preciso ser-se doutor de leis para perceber que em lado nenhum da «mini-constituição» da RAEHK aparece escrito que tem que haver eleições directas e universais já em 2007, como também nunca surge que tal não é possível. Foi isso que os legisladores clarificaram.
Na mais desconfortável questão da necessidade de aval prévio de Pequim a qualquer alteração na eleição do Chefe do Executivo, essa é, de facto, uma leitura plausível do que ingleses e chineses deixaram escrito. Já na eleição do Conselho Legislativo o caso é diferente e aparece diferentemente tratado na Lei Básica – como foi diferentemente interpretado pelos mais de 170 legisladores de Pequim.
Assim, a questão da interpretação da Lei Básica de Hong Kong volta ao terreno em que, de facto, se joga: o político. Está tudo em aberto, tudo é possível. O governo central deu provas de abertura política ao admitir, expressamente, que 2007 pode ser o ano em que alterações podem ter efeito. Assim os democratas têm terreno, à luz da interpretação de Pequim, para forçar em Hong Kong passos no sistema eleitoral que conduzam a eleições directas e universais para o Conselho Legislativo. É no terreno político que isso se vai jogar. Falta conhecer a capacidade de mobilização e poder de intervenção que os democratas têm agora que não já se pode atribuir o descontentamento popular às dificuldades económicas.

Havemos de voltar

7.4.04

Crónica do regresso

Sendo certo que ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, certo é que, para quem escreve regularmente num jornal, a ausência provoca, no regresso à crónica, um problema de actualidade que a escrita regular resolve. Pelo menos é esse o caso presente, pelo que se fará aqui uma revisão sem preocupações de imediatismo que geralmente estão presentes.
Neste contexto, surge a interrogação sobre a importância relativa de factos – algo que ao jornalista (geralmente) se põe sistematicamente, embora haja exemplos que a cada passo bradam à terra: a inqualificável importância e tempo de antena que se deu à inauguração de novas instalações da RTP é disso exemplo.
Questão: a esta distância temporal terá sido mais importante o atentado de 11 de março em Madrid ou as consequências eleitorais, espoletadas pelo comportamento do governo espanhol, que ele teve? Com todo o respeito pelas vítimas e suas famílias, pelas consequências civilizacionais e ilações decorrentes o resultado eleitoral teve maior importância.
Pouco importa saber se aos facínoras que cometeram os atentados de Madrid agradou o resultado. As acções terroristas deste novo tipo – as que radicam num suposto diferendo insanável entre ocidente e islão – não têm em conta o que apenas ao desenvolvimento das democracias ocidentais diz respeito, porque essas democracias, para o bem e para o mal, continuarão a ser construidas pelos povos desses países, quantas vezes ao arrepio dos seus governos, enquanto os desejos dos fundamentalistas se baseiam em desejos de poder, contrários aos desejos populares, obviamente.
Inquestionável é que o povo espanhol, bem diferente do americano, tirou ilações muito precisas do sigificado dos atentados de Madrid. Envolto ainda em dor, soube perceber a dupla ignomínia de Aznar e seus sucessores, que num só acto pretenderam alijar responsabilidades políticas pela participação no conflito iraquiano e simultaneamente as consequências da relação entre a essa decisão e os atentados. Uma bela resposta foi dada pelos eleitores espanhóis, que só fortalece a decisão do primeiro ministro eleito e demonstra a superioridade do sistema, nunca podendo, pois, a decisão de retirar as tropas do Iraque ser entendida como capitulação ou cedência aos terroristas. São questões diferentes, que não se devem misturar, ao contrário da sarrabulhada que Bush, Blair e Aznar propositadamente cozinharam para dar avançar no aventureirismo.
Seja o povo norte americano capaz de perceber a experiência espanhola.
Ainda com os atentados de Madrid como pano de fundo, ficou a saber-se através de sondagens o que já se esperava: os portugueses temem que a qualquer momento sejam vítmas de um atentado, apesar de tudo indicar que os esforços de Durão Barroso para pôr Portugal como alvo potencial saíram gorados. De qualquer forma o foguetório de páscoa, potenciado pelo nobre cagaço lusitano, promete.

A China marca pontos. Sem necessidade de exercícios de retórica, simplesmente, contrapõe a inqualificável e concreta situação dos detidos de Guantanamo às acusações difusas sobre violações de direitos humanos de que é alvo. Simultaneamente obtém a preciosa ajuda do deplorável exercício de democracia que foram as eleições em Taiwan, cujo desfecho é ainda imprevisível, apesar do recurso a investigadores criminais norte americanos para esclarecer o sucedido. Dos «liberais» de Hong Kong (e de Macau, já agora) espera-se uma tomada de posição sobre os acontecimentos: fazer política não pode ser alarido em tempos favoráveis e recolher à toca quando os ventos correm adversos. Depois de tantos silêncios comprometedores este é um momento em que uma tomada de posição seria esclarecedora.


Ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, muito menos onde ele esteve, ou como de lá voltou. Certo é que este foi à terra dos cabeças de peixe e a encontrou mais bela na sua simplicidade, recuperada embora ainda muito carente, feliz entre a pobreza, cheia de sons e cores e risos e olhares luminosos, sobretudo grande, muito grande, porque única e sempre olhando horizontes que não têm fim, porque o mar como o deserto nunca acabam na vista humana. Mesmo se algum homem lhes achasse o fim, a sua imaginação e engenho o fariam ganhar novo horizonte.

Havemos de voltar

17.2.04

Notícias de quarentena

São incompreensíveis, por vezes, os critérios que fazem com que algumas notícias ganhem honras de publicação e outras fiquem para sempre longe do público.
Nas redacções, naturalmente, discute-se o que deve merecer honras de divulgação e o que não interessa nem ao menino Jesus, muito menos aos leitores, ouvintes ou tele espectadores. Parte-se sempre do princípio de que é conhecido o perfil dos destinatários.
Há, no entanto, notícias que apenas por moda passam a constituir o nosso dia-a-dia informativo sem que seja analisada a importância que elas encerram. É o caso do folhetim bem vendido das chamadas eleições «primárias» norte americanas, em que os diligentes editores se ocupam a relatar a vitória (ou derrota) de um proto-candidato em eleições que não envolvem sequer uma centena de eleitores. O mais caricato é que esse mesmo número de eleitores é referido como se conferisse importância à notícia quando, efectivamente, só lhe retira.
Outras notícas, vá-se lá saber por quê, ficam eternamente no limbo, apesar de envolverem muito mais gente, problemas bem mais importantes, determinarem modificações fundamentais na vida e futuro de milhões de pessoas e, ainda por cima, dizerem-nos muito mais respeito – ou seja, os critérios que conferem importância a uma notícia.
A agência LUSA, (fonte credível e nunca suspeita de estar comprada pelo terrível polvo que é a tenebrosa corrupção angolana, onde, pelo que se publica, cada ministro não consegue virar uma esquina sem que lhe caia do bolso dinheiro sujo e não há negócio que não implique baús de dólares despachados de avião para a Suíça) noticiou há duas semanas que 29 mil, sim, vinte e nove milhares, de professores foram contratados em Angola para suprir faltas que, mesmo assim, vão continuar a fazer-se sentir. Apenas para o ensino primário.
Seria tomar o leitor por estulto discorrer aqui sobre a importância da educação, ainda mais quando falamos de um país destroçado. A contratação de 29 mil professores, em tal cenário, é uma medida de inequívoca importância.
Sendo o Governo angolano a jolda que, tão eméritas quanto desconhecidas organizações denunciam, a medida só pode ter sido tomada no âmbito de uma negociata cujos contornos, obviamente, escapam ao cidadão comum e mesmo ao jornalista diligente. Diga-se a propósito que essas denúncias partem habitualmente de ONG, ou seja, organizações não governamentais.
Nos tempos que correm ser ONG corresponde a uma espécie de atestado de idoneidade que ninguém outroga e que serve, obviamente, para aproveitar o prestígio das primeiras associações que assim se deram a conhecer e que têm trabalho reconhecido e de inquestionável valor – a Médicos Sem Fronteiras é, apenas, uma delas. Descoberto o filão, muitas ONG aparecem em todos os terrenos com todos os fins.
Uma há – dados fornecidos por uma responsável da própria ONG, por sinal esposa do outro responsável, segundo e último membro da associação – que enquanto põe em prática o belo princípio de explicar aos necessitados como hão-de construir uma casa em Moçambique, aproveita para, a expensas dos Estados envolvidos (no caso Portugal e Moçambique), negociar na Europa ouro que compra na África do Sul. Tudo gente séria, no entanto, capaz de denunciar o primeiro acto corrupto do polícia de trânsito de Nampula.
Outras há, mais descaradas, que não passando de associações políticas – e sendo associações são, obviamente, não governamentais! – enganam o distraído enquanto prosseguem o seu único objectivo: a propaganda.
Facto é que, passados quinze dias sobre a notícia da LUSA, não houve ainda uma ONG que viesse explicar os malefícios da contratação de 29 mil professores. Cumprido, pois, o período de quarentena, podemos tomar a notícia, pelo menos, como verdadeira. O que certamente, o milhão de crianças que vai beneficiar com a medida em Angola não agradecerá tanto hoje como no futuro, mas é assim a infância.
Habituados que estamos a epidemias como a síndroma respiratória aguda e epizootias como a gripe das aves, sabemos bem que os períodos de quarentena variam, quando se aplicam. O período de incubação do vírus da síndroma respiratória aguda, salvo erro, é de 14 dias. Findo esse prazo, o indivíduo suspeito de ter contraído a doença podia respirar de alívio e fazer o seu caminho. Já qualquer franganote que tenha tido o azar de conviver com galináceo infectado não tem direito sequer direito a quarentena onde possa rezar as últimas preces – é extermínio certo e imediato.
Foi o que aconteceu à notícia da LUSA sobre os professores, naqueles periódicos que tudo sabem e publicam sobre Angola.

Havemos de voltar

4.2.04

Contribuição atípica para a discusão curricular

Não é ruído comunicacional, mas muito barulho o que se ouve em torno da reforma curricular da Escola Portuguesa de Macau. Parece que ninguém sabe bem o que se está a discutir, com razão. De quem compete expôr as regras só se obtêm adiamentos. Quem cá está, sem poder decisório nem capacidade de intervenção, vai fazendo o que não envergonha, ou se calhar apenas respondendo àquilo que lhe perguntam.
Há, no entanto, algumas conclusões iniludíveis: a primeira é que o Ministério da Educação português faz tarde, e mal, o que se comprometeu a fazer. A segunda, que em Macau quem se relaciona com a Ecola Portuguesa não consegue consensualizar sobre o fuuro que deseja. Em terceiro, e mais grave, que nem uns nem outros pensam a presença do ensino («de matriz», como gostam de dizer) em português com perspectivas de futuro.
Tudo parte de Portugal, sem dúvida. É ao Ministério da Educação do governo português que cabem as decisões – mas de lá só chegam indecisões e adiamentos. Nada de espantar, nem inédito, de resto. Os que acham que lá não percebem nada do que aqui se passa ganham, dia a dia, novos argumentos para sustentar a tese. À boa maneira portuguesa, um presidente com ar vagamente chinês basta para gerir a presença lusa na que sería a pérola do Oriente.
Na dúvida, por cá, vai-se discutindo o menor. Quando o que se quer saber é qual a língua a ensinar (sendo que língua, por estas paragens, há só uma), põe-se a hipótese do ensino do dialecto cantonense. Ao que consta a discussão chega a Lisboa.
É neste ponto que é de justiça elogiar as recentes declarações do deputado Leonel Alves: evitando entrar em polémicas, explicou aos incautos que o importante é os ensinandos conseguirem decifrar «os riscos». Isso mesmo: ler chinês.
Parce indiscutível que, a quem chegue à Ásia e se instale em Macau, interesse, se for caso disso, dar uma educação que proporcione futuro a um filho em idade escolar. Concretizando: chegados agora dos Estados Unidos, para trabalhar num dos casinos que os magnatas aí vão abrir, com a perspectiva de permanência de cinco anos (o ensino primário, ou secundário, grosso modo), os pais de uma criança queiram assegurar-lhe uma educação que garanta algo no futuro. A aprendizagem do Mandarim é, sem dúvida, uma mais valia, aqui em Macau, em Guangdong ou em Nova Iorque. O cantonense servirá para quê?
Serve o exemplo para se porem questões: não deverá a Escola Portuguesa assumir-se definitivamente como um estabelecimento de ensino elitista, de qualidade, prestigiado, que atraia e garanta a formação dos melhores filhos da cidade de Macau? E assim assegurar propinas que lhe garantam a existência? Ou deverá, em alternativa, ser o espelho da curta visão dos emigrantes que aqui vêm passar uns anos e amealhar uns cobres, sem cuidarem (como não o fizeram durante séculos) de projectar o português com perspectivas de futuro? Por que raio hão-de ser canadianos, americanos ou ingleses a abrir a escola «referência» aqui em Macau?
É isso mesmo que se anda a pedir!
É certo que há um parti pris de algumas gerações mais recentes de chineses de Macau em relação ao que tem origem portuguesa. Embora compreensível, a atitude não é sustentável. Além do mais está a degenerar num inacreditável clima de distanciamento que só resulta numa crescente diminuição das aptidões de gestão nos organismos públicos. Em Macau está a surgir um «terceiro sistema» - social, este. Não é o primeiro por razões óbvias. Não é o segundo, porque não foi esse que o primeiro assinou em tratado internacioalmente registado. É aquele que faz com que o é avançado na gestão seja mau porque tem origem preconceituada, mas opta por regredir em todos os conceitos, porque não sabem mais.
Não seria a Escola Portuguesa o sítio onde se deveriam formar os governantes e administradores do Macau do futuro. Parece óbvio que sim, face à propaganda que vende Macau como uma terra do não-sei-quê entre o Ocidente com o Oriente.
Não se vê é nada. As nuvens vão baixas e não admira, portanto, que quem vem do continente estranhe o comportamento das gentes daqui, e os de cá não se identifiquem com a forma de funcionar mesmo dos que mandam na terra – como parece provar a recente sondagem divulgada, que revela o que todos já sabiamos: o Chefe é grande, à sua volta é o deserto.
O caso é mais grave do que a paz reinante permite viver. Macau vive, na comunidade portuguesa, que não sabe olhar o futuro nem perspectivar uma presença actualizada no Oriente, do dia-a-dia. A comunidade chinesa, a que tem todas as responsabilidades agora, não diz nada e não quer mais que ser mandada.
Razão tem, pois, quem diz que democracia à moda Ocidental não é para aqui. Pelo que nos é dado ver, não faz falta a ninguém.

Havemos de voltar

1.2.04

Contra a morte

Estou tolhido pelo frio.
Estou mirrado por uma gripe que não me larga.
Estou deprimido por não ver o sol nem sentir a fotosíntese a que temos direito há já muitos dias.
Estava já triste com tudo isto e por ter passado horas demais a dormir decidi acordar a horas de ouvir o relato do Guimarães – Benfica. Gozava esses momentos quentes entre lençóis, com a rádio em fundo, e entre tossidelas, senti algum conforto.
Apeteceu-me pensar que ia ser a nossa vez, que nos últimos minutos íamos marcar, e cumprir a nossa obrigação.
E marcámos. Marquei eu ao acertar na previsão, marcou o Aguiar, na molhada, quando a bola lhe foi parar aos pés.
Era ainda noite, e noite ía continuar a ser, prometendo aquele sono sem igual que cai sobre nós quando o dia raia.
Há sempre um melhor aconchego que se consegue na almofada quando se chama pelo sono pensando em algo agradável. Deixei a bola e pensei em ti, fora, distante e bela, com promessas de viagens que se hão-de fazer. São os momentos em que do sono passamos ao sonho, ainda acordados, e por uma vez os comandamos. Assim adormeço todos os dias, em instantes tranquilos.
Mas o jogo não acabou. Os camaradas da Antena 1 falavam de «lesão grave», seguramente, do Miguel com as mãos na cabeça e o Tiago lavado em lágrimas.
Não percebi. Amo a Rádio, como os livros. Deixar que um dos sentidos comande todos os outros, levar a nossa imaginação a produzir a imagem completa que, imperfeita, nos é transmitida, é exercício que não dispenso. Mas não imaginei que tudo vinha de uma queda desamparada que tudo mudou.
Estou ainda tolhido pelo frio, melhor da gripe, mas mais triste. Muito mais triste.
De há uns (poucos) anos a esta parte tenho uma cada vez pior relação com a morte. Não a minha morte, que essa trato-a por tu e não temo que chegue. Falo da morte injusta, como sempre que ela atinge alguém que não tenha, pelo menos, idade bastante. Da morte traiçoeira, que chega sem avisar. Da morte bastarda, que faz sofrer e diminui antes de lavrar a derradeira ceifa. Não consigo aceitar, nem explicar.
Foi o Miki, um dos nossos rapazes. Sim, aqueles rapazes são nossos e nós deles. Eles sabem que as alegrias são de todos, as tristezas igualmente. Nós tratamo-los pelo nome, eles sabem que nós existimos e eles são grandes porque somos todos do emblema. Cresci no tempo em que se combatia esses sentimentos clubistas e até se lhes chamava alienação. Quem o dizia pouco percebia do que é a grandeza da alma humana quando comunga.
Seria redundante, agora, enaltecer a forma como todos, sem filosofar, perceberam e expressaram o valor que atribuem à vida quando confrontados com a fragilidade deste valor maior que temos e que em tantas outras situações se dilui.
Algum de nós se refere com o mesmo sentimento quando se trata de dezenas de vítimas de calamidades, centenas de perdas em acidentes, milhares de perdidos em combate, com a noção do valor da vida que um, apenas um jovem provocou em todo o Mundo? É o Mundo que tem feito com que a vida perca valor, e não me conformo.
Pouco sobra: resta a família e o futebol.
Estava triste com falta de sol, de calor, de carinho que o frio afasta. Mais triste fiquei quando a morte me atacou, assim, a meio da madrugada. Pior fiquei por pensar no que acabo de partilhar com vocês. E não me conformo, e não aceito a morte, e não quero viver assim.
Não consigo pensar noutra coisa. Por isso, por uma vez, ocupo estas linhas falando na primeira pessoa, uma vez que será, espero, única.
Que seja entendido como homenagem ao Miki, e, nos jovens, à vida – valor inalienável e tão desconsiderado.

Havemos de voltar

12.1.04

O bom exemplo francês

É à França que a cultura e a política ocidental deve os fundamentos da moderna civilização em que vive. A Revolução Francesa implantou e alastraram, porque bons, os princípios da Liberdade, Igualdade e Fraterninade que a enformaram.
As políticas dominantes nas últimas décadas, mais marcadas pelas concepções anglo-saxonicas e liberais, iniciadas pela temível dupla Margaret Thatcher / Ronald Reagan, a par da impossibilidade prática de contrariar a expansão da cultura mercantilista, fizeram com que Igualdade e Fraterninade sejam valores hoje secundarizados.
Hoje, presidida por um político insuspeito de tendências revolucionárias ou teses esquerdistas, mas sempre fiel aos princípios de Humanismo que fundaram a República, a França volta a dar ao Mundo exemplos de progresso civilizacional.
Em tempos marcados pelo suposto «choque de civilizações» a França não recua nos princípios, mas recusa o simplismo e a agressividade, apostando para encontrar soluções naquilo que efectivamente faz do Homem a mais maravilhosa criatura da Natureza: pensar.
Políticos, investigadores, académicos, diplomatas e jornalistas foram convidados a debater, desde o passado fim de semana, em Paris essa teoria do «choque de civilizações» entre o Ocidente e o Oriente. Os participantes convidados pela associação Euro-Mediterrâneo, coligiram, durante três dias, argumentos contrariando a tentar a ideia de que o confronto entre a civilização ocidental e o islamismo é inevitável. Partem do princípio da absoluta necessidade de promoção do diálogo entre as civilizações, em contraponto à tese de Samuel Huntington, assentes na inevitabilidade do choque entre os países com culturas judaico-cristã e os muçulmanos e confucionistas. Sintomaticamente, os mentores das políticas que se baseiam nessa teoria (embora não a defendam abertamente) recusaram os convites para participar no fórum.
Neste cenário, como se comporta o presidente francês, Jacques Chirac? Simultaneamente reafirmando os princípios da sociedade francesa, em diversos e não pacíficos assuntos. Aos dilemáticos voltou a afirmar o empenhamento francês na constituição de uma força de defesa europeia, absolutamente compatível com a NATO, e fundamental para travar os desmandos norte-americanos; e não recuou na indmnização exigida à Líbia por um atentado contra um avião francês, menos mediático que o de Lockerbie, é certo, mas que provocou 170 mortos, em 1989, no deserto de Ténéré, na Nigéria.
Internamente, reafirmou os princípios de laicidade do Estado, que aos poucos vão sendo postos em causa, um pouco por todo o lado. Obviamente, no Islão radical, com os péssimos resultados que se vêm em matéria de acesso ao ensino ou liberdades individuais. Mas também no Ocidente, onde ainda há países de amplas liberdades a obrigar ao ensino de que a origem do Homem é Deus, e ponto final. Face a esses fundamentalismos, Chirac lembra que os «sinais ostensivos de pertença religiosa» são para ficar afastados das escolas e do funcionalismo público francês. Assim, a necessária «neutralidade do serviço público» numa sociedade multicultural como a francesa leva a que o véu islâmico, a kippa dos judeus e os crucifixos católicos, ficam fora das salas de aula e das repartições públicas. Enfrentando embora protestos, a lei que tal determina avança, e deve ser aplaudida. Porque, de facto há que separar águas.
Não significa isso, no entanto, o esquecimento dessa fundamental componente da humanidade que é a religião. Recentemente o presidente francês recebeu cumprimentos de ano novo dos representantes das diferentes comunidades religiosas existentes em França, e aproveitou a ocasião para explicar os contornos da medida. Lá estava, pela primeira vez, o presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano e simultaneamente reitor da mesquita de Paris, a par do cardeal-arcebispo de Paris e do grande rabino de França.
Assim, sim.

Havemos de voltar

6.1.04

Paranóia? Não, obrigado!

Têm-se recusado no Mundo as entidades que foram directamente questionadas, a aceder à paranóia securitária norte americana de impor a presença de polícias armados a bordo de vôos comerciais. Num assomo de bom senso que contrariou, regra geral, o alinhamento dos governos com a política guerreira da administração norte americana, a British Airways não só deu o mote, recusando a pretenção do governo americano, como acrescentou que apesar da estrutura policial inglesa se dizer capacitada para desempenhar tal tarefa, continuava a considerar melhor opção manter as armas fora dos aviões do que tornar as aeronaves palco de coboiadas. E acrescentou, bem, a companhia de bandeira britânica, que estava convicta de que a generalidade das companhias aéreas lhe iriam seguir o caminho. Assim se vem a confirmar.
Voltou-me à memória o premiado documentário «Bowling for Columbine», que tão bem explica a má relação que os estadunidenses têm com as armas. Para quem não viu, diga-se que é um trabalho feito por Michael Moore, um americano capaz de questionar o meio em que vive. Com poucas respostas, sobram-lhe perguntas. Como aquela fundamental que é saber por que razão, havendo muitas mais armas per capita no Canadá, nem de perto os vizinhos do Norte se matam uns aos outros na mesma proporção.
Sabe-se que a maioria dos norte americanos não percebe por que é que (no mínimo) meio mundo não pode com eles nem (literalmente) à lei da bala. Escusado será dizer que, incapazes de perceberem isso, menos hábeis são ainda para compreender a responsabilidade que têm na criação dos facínoras Bin Laden que por aí polulam, ostentando certificados de treino militar americano. Portanto, a última coisa que lhes poderá ocorrer é quanto do seu próprio veneno ainda lhes está destinado no refluxo das aventuras arábicas com que alimentam a sua indústria de armamento. Não resta senão lamentar a miopia que jaz ocultada pelos ray ban dos marines consagrados por Hollywood.
Não tem limites a paranóia securitária norte americana. Esta história de pôr polícias armados nos aviões equivale a pôr veneno para ratos numa fábrica de lacticínios. Pior é que a lógica faria corar Maquiavel: as companhias de aviação que não aceitarm as regras estão sujeitas a tantas buscas e rebuscas que não haverá voo que debande os aeroportos norte americanos com menos de 72 horas de atraso (como se queixa a mesma british Airwyas), até que não haja quem lá queira viajar. De uma cajadada mata-se pois também a coelha, a concorrência. São ignorantes mas não estúpidos, então, o que faz deles poderosos, obviamente.
Escandalizou-se, entretanto, uma diplomata norte americana porque os brasileiros decidiram (e bem, e danço o samba!) aplicar o velho conceito de reciprocidade aos estadunidenses que demandem ao Brasil. É simples: se um brasileiro que desembarca em Nova Iorque é fotografado como qualquer meliante, e deixa as impressões digitais decalcadas para cadastro, trate-se do empresário melhor sucedido ou do (mais que improvável) pé-descalço que vá visitar a emigrada irmã do meio, por que razão não há-de um norte americano que chegue no Rio de Janeiro só porque sim deixar a chipala mais as gadugas para arquivo? Em matéria de reciprocidade, e a avaliar pelo que regularmente se lê na imprensa de Hong Kong sobre o tratamento discriminatório que sofrem os asiáticos (dificilmente confundíveis com perigosos terroristas árabes, certamente) nos aeroportos norte americanos, muito está ainda por fazer. Também aqui os bons velhos princípios internacionalmente estabelecidos foram postos em causa despeitadamente.
Certamente o Mundo vai ultrapassar, sacudindo como caspa da gola, esta incomodidade que Bush causa à ordem mundial.
Quando a paranóia que discorre dos noticiários norte-americanos sobre o terrorismo pode, substancialmente, ser posta em causa porque decorre de acções, conceitos e exercícios de política externa unilaterais; quando se sucedem as cínicas declarações políticas de alinhamento com o combate àquele terrorismo quando do que se trata (na China, Rússia, Espanha ou Índia) é de questões de independências de Nações que querem ser Estados; quando os métodos que têm sido adoptados dão os piores resultados e alimentam reacções extremadas que sempre irrompem do desespero – é tempo, já, de seguir outro caminho.
Entretanto, é de esperar, pelo menos, que a seguir-se este método, haja aviso de «Polícia Armado a Bordo» – para que se possa evitar.

Havemos de voltar

16.12.03

Uma ideia para o Mundo

Eu sou o resto
O resto do Mundo
Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu sou...
Eu num sou ninguém


Gabriel O Pensador

Neste mundo que vive dias, se não globalmente conturbados, pelo menos confusos, há uma linha mestra, que escapa à mediatização dos que consomem a informação ocidental, que vem fazendo caminho: o Grito do Ipiranga que ecoa por todos os países não conformados com a miséria a que estão submetidos.
A eleição de Luís Inácio ‘Lula’ da Silva para a presidência do Brasil foi uma pedrada no charco da política subserviente da América Latina aos interesses dos Estados Unidos. Há ainda o caso, que nos tem sido mal contado, da Venezuela – e todo o resto do panorama latino-americano é passível do estereotipo 90 por cento da riqueza concentrada nas mãos de 10 por cento da população, e pelo menos uma quota semelhante a viver em condições que do ponto de vista humano nos é impossível imaginar, tal como o valor real do número de zeros que aparecem nos milhares de milhões da riqueza daqueles poucos.
‘Lula’ da Silva elegeu os países em desenvolvimento como os seus principais aliados. Obviamente a China, como país que, no outro lado do Mundo, está numa situação de desenvolvimento semelhante à brasileira, constituía um aliado fundamental para a concretização da ideia do Presidente do Brasil – que se arrisca a entrar para a história, neste início de século, como o único estadista com uma ideia que vá além das fronteiras do seu país e, em simultâneo, para uma ordem mundial. Obviamente, o actual presidente norte americano está fora da contenda quer porque entende tanto das suas próprias fronteiras como se preocupa com qualquer ordem mundial, embora seja sério candidato a ter um lugar ímpar na história.
São inúmeros os exemplos que têm surgido do estreitamento de laços entre a China e o Brasil, em extraordinário benefício mútuo, com reflexos positivos ainda para países terceiros. O nível de importações recorde de aço brasileiro pela China, o sucesso do projecto de aeronáutica conjunto ontem dado a conhecer, ou o sucesso no bloqueio às condições leoninas que os países ricos queria impor, sobretudo, às Nações africanas em questões agrícolas, no âmbito da Organização Mundial do Comércio são disso exemplo.
A África, sugada até ao tutano pelo Ocidente, e depois acusada de malbaratar recursos quando não raro a cooperação lhe era proposta (ou imposta) a troco de negócios que obrigatoriamente envolviam a indústria do armamento tem agora para onde se virar. Não vale, aqui, justificar com a contraposição ao malévolo papel soviético, já que essa política continuou bem para além do colapso do bloco socialista, até aos nossos dias. Nem falar dos corruptos que governam esses países, porque não há um, um só caso, em que o corruptor não leve o soldo da multinacional do Ocidente.
‘Lula’ da Silva fez questão de bem no início do seu mandato deslocar-se a África, num périplo em que tornou claras as suas prioridades, onde África do Sul e Angola, pelas suas potencialidades, não podem ser menosprezadas. Agora anunciou para o próximo ano a vinda à China e à Índia. Um titubeante México – peça fundamental neste xadrez – governado por um ex-senhor da Coca-Cola que deu aos Estados Unidos um acordo económico que o Brasil soube rejeitar, foi agora visitado pelo primeiro-ministro chinês, que voou de lá direitinho para a simbólica Etiópia, onde participou numa cimeira com mais de três dezenas chefes de Estado e governo. Aí foram traçadas as linhas de cooperação entre a China e os países africanos – promessas, apenas, por enquanto. Mas como nós bem sabemos o valor político das promessas é radicalmente diferente nestas paragens e no Ocidente.
Começam pois a desenhar-se, com clareza, os eixos por que passa essa aliança contra a prepotência que sucedeu às superpotências.
Há, em todo este processo, um exemplo que ilustra na perfeição a diferença de interesses que separa o ultra-liberalismo reinante do pensamento com preocupações sociais: uma das batalhas ganhas contra os interesses das multinacionais foi a dos medicamentos para combater a SIDA. Índia, China, África do Sul e Brasil levaram avante (e, por exemplo, Moçambique já beneficia disso) a produção de substâncias anti-retrovirais que são colocadas no mercado com o intuito de salvar milhões de vidas em vez de arrecadar milhões de dólares.
Caberia aqui falar ainda da recente reunião que a Organização das Nações Unidas promoveu com vista a fazer alastrar a Sociedade da Informação. Tudo o que foi solicitado por quem necessita de meios para desenvolver os meios que permitam tirar partido dos benefícios que a internet traz ficou remetido para as calendas, que pelos vistos se acharam em 2005. Nasceu, entretanto, pela voz do secretário geral Kofi Annan o conceito de «fractura numérica». Quer-se com isto significar o problema que leva a que milhões de crianças em todo o Mundo não possam utilizar a internet pelo simples facto de não saberem ler.

Havemos de voltar

9.12.03

Dos gardenias para ti

Foi ontem anunciada a morte de Rubén González.
Nada que espante quem sabia que desde há três anos o músico passou a estar cada vez mais confinado a casa, vítima de uma doença que o imobilizou progressivamente e prenunciava a paragem do coração com que percutia aquele piano.
Depois de Compay Segundo, é a segunda figura eternizada por Buena Vista Social Clube a desaparecer este ano. O que também não é de admirar, dada a provecta idade da maioria dos intervenientes dessa obra onde Ry Cooder conseguiu congregar génios até ali ignorados pelo Mundo.

Cuba e a música são inseparáveis. Não existiria aquele país se não corresse nas veias do povo a mistura perfeita dos calores latinos e africanos, fermentados nas praias do Caribe, destilados nas serras guajiras. Não teria havido a inconformação que levou a constantes revoltas contra quem quisesse parar a música da vida, não importa no meio de que pobreza, fosse contra o domínio espanhol, inglês, ou cacique norte-americano. Os heróis cubanos perduram e são celebrados em cada puro que se fuma, em cada trago de rum com que o povo dança a vida, seja em que condições for.
Os músicos internacionalmente projectados por Buena Vista Social Clube eram de há muito estrelas naquele país que não sobrevive sem a cultura que o enforma. A Casa del Caribe, em Santiago de Cuba, não existe para organizar uns festivais que dêem corpo a qualquer política cultural. Todos os dias junta os músicos, actores, pintores, escultores, malabaristas, ilusionistas aos santiagueros que com eles partilham o sortilégio da arte e atrai os forasteiros para o que será o espectáculo genuíno. Santiago de Cuba onde a Casa da Vieja Trova, chamada cubana, mas santiaguera ela própria na origem, assegura em permanência um palco, instrumentos e públicos aos artistas, jovens e consagrados, que queiram expressar o que lhes vai na alma. E quem conhece essa casa da música conhece as galerias que a circundam, os ateliês nos conservados palacetes de antanho, as lojecas de artesanato campesino. E quem diz Santiago, provavelmente a mais cubana cidade de Cuba, diz necessariamente a em todos os sentidos capital Havana, a irredutível Las Tunas de património admirável, apesar das três vezes que a sua população a reduziu a cinzas para evitar o domínio, a mítica cheguevariana Santa Clara, onde nasceu Ruben Gonzalez.

Evocar o pianista é evocar a cultura e o povo cubano. E como fazê-lo sem cantar também a mulher da maior das caribenhas? Ela que é a maior fonte de inspiração em todas as artes, porque passeia beleza nas ancas de salsa, nos lábios de guaracha, nos cabelos mestiços do son. Elas, a poesia ali, como escreveu Isolina Carrillo, em Dos Gardenias, que Rubén González enfeitou com o seu piano nesse mesmo Buena Vista e agora ficam depositadas na sua campa

A tu lado viviran y se hablarán
Como cuando estás conmigo
Y hasta creerás que te dirán:
Te quiero.
Pero se un entardecer
Las gardenias de mi amor se mueren
Es porque han adivinado
Que tu amor me ha traicionado
Porque existe otro querer.


Havemos de voltar

21.11.03

O caminho das mentalidades

O maior problema de Macau é o das mentalidades. Não é um problema irresolúvel numa cidade como esta, que dispõe dos meios materiais para construir tudo, para comprar o que faz falta. É, no entanto, o mais difícil de resolver, porque o «produto» não está à venda no mercado internacional.
Na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) Edmund Ho elegeu a educação como alvo do principal investimento no próximo ano. Ao traçar em tom particularmente duro os contornos da situação actual (como, de resto, ontem notava o Director deste jornal) o Chefe do Executivo terá querido fazer sobressair este tema dos restantes. Julgo entender a razão que levou Edmund Ho a adoptar tal tom: já no ano passado, quando anunciou que 2003 seria o ano de aposta nas potencialidades que o português traz a Macau, o Chefe sabia que isso iria provocar incómodos. A aposta na educação não é, também, tema que adoce a boca do status. Quando se fala de educação fala-se de civismo, de progresso, de cultura, de criatividade, de responsabilidade individual, de capacidade de decisão, enfim, dos valores que formam o indivíduo das sociedades modernas. O projecto que existe para Macau é o de uma cidade moderna, que não se compadece com mentalidades retrógradas.
No próximo ano, como no que está a acabar, não há dúvida nenhuma de que o tema eleito por Edmund Ho como bandeira das LAG foi alvo de acerto com o Governo central. Outra coisa não seria de esperar e assim é que está bem. Curiosamente, agora como há um ano, isso parece contradizer os que põem a tónica da sua acção política no mais tradicional da cultura chinesa e no amor à Pátria. A visão de longo alcance que os dirigentes de Pequim vêm manifestando demonstra que não há contradição nenhuma entre os valores em causa e os interesses da China enquanto Nação. A Pequim interessa ter em Macau um povo culto, instruído, de elevado civismo porque esse requisito é necessário para que o projecto «Macau» vingue.
A educação de um povo sempre assustou o Poder, quando este assenta na obediência cega. O exemplo de Hong Kong, com uma população incomparavelmente mais esclarecida e interveniente que a de Macau, assusta muitos, mas pelos vistos não o Chefe do Executivo. É sabido que a existência de opinião pública é um problema para os governos, mas ela decorre da concentração de massa crítica.
Em última análise as próprias LAG demonstram aquilo quer alterar: de ano para ano se repetem os parágrafos, as ideias, os conceitos. Por isso houve um coro de considerações menos abonatórias do conteúdo do documento. Por isso, no ano passado como neste, a conferência de Imprensa foi o momento escolhido por Edmund Ho para explicar o que realmente pretende fazer. O que demonstra existir um fosso entre as ideias do Chefe do Executivo e a capacidade que a administração tem para as executar. Se outra razão não houvesse, era bastante para que Edmund Ho anunciasse a educação como prioridade.
Para Macau, a evolução das mentalidades, não é necessária – é vital. É certo que isso não se faz da noite para o dia, e é virtualmente impossível em sectores mais idosos e desfavorecidos. Esse é um problema com que a própria China se debate e que Macau importa, e vai continuar a importar, com o crescimento populacional constante. Macau tem, no entanto, meios materiais que o Continente, no seu todo, não possui. Tem também a necessidade absoluta de atingir esse objectivo nos próximos tempos. Pequim – e isso viu-se no Fórum para a Cooperação Económica – possui quadros altamente qualificados, capazes de executar os planos que encontram no papel e com isso arrastar os quadros locais para a evolução desejada. Devemos pois esperar – e acolher com agrado – quem vier ajudar a fazer avançar a mentalidade reinante.

Havemos de voltar

12.11.03

A sondagem

Partindo do conteúdo de um despacho da agência LUSA, que traduzia a publicação de um inquérito publicado «na imprensa chinesa» de Hong Kong (e não havendo razões para desconfiar da fidelidade da transcrição) ficámos a saber, entre outras coisas, que «a população de Hong Kong está "mais descontente" com o Governo do que os habitantes de Macau». Nada de novo.
A notícia dá conta de «um estudo efectuado pela Universidade Baptista de Hong Kong». O que, por si, não faria sobressaltar ninguém. Já os dados que permitem aferir da credibilidade do estudo de opinião não são tão pacíficos. Continuando a transcrever o texto da agência, o estudo é «baseado em entrevistas feitas a 761 residentes de Hong Kong e a 590 de Macau». Aqui, alguma coisa bate mal. Qualquer ignaro em matérias destas, indisponível para ser papado por papalvo, há-de questionar-se por que razão os estudiosos se deram ao trabalho de entrevistar 590 cidadãos de um universo de aproximadamente 440 mil cidadãos de Macau, quando para representar a opinião dos quase sete milhões de hongkongers se considerou bastante entrevistar uma centena e meia mais.
Não que seja incomodativo saber que «58,5 por cento da população da antiga colónia britânica não acredita que o Governo consiga resolver os seus problemas, uma percentagem que, no caso de Macau, se cifra em 43,8». É até elogioso para o executivo de Tung Chee-wa, se tivermos em conta que «o índice de satisfação pelo trabalho do Chefe do Executivo Edmund Ho situa-se nos 80 por cento». Embora fique por resolver o problema do terço de população de Macau que, estando embora satisfeita com o nosso chefe do Executivo, ao mesmo tempo não está.
«Herbert Lee, professor do departamento de Política Governamental e Internacional da Universidade, indicou que o estudo revela também que apenas 40 por cento da população de Hong Kong está satisfeita com o trabalho do Chefe do Executivo local, Tung Che-hwa», o que faz todo o sentido e revela a indisponibilidade chinesa para a indecisão.
O que se torna incompreensível é a conclusão de que «esta diferença de opiniões está directamente ligada ao crescimento das economias de ambos os lados do delta do Rio das Pérolas, com Macau a apresentar crescimentos positivos, ao contrário do que ocorre em Hong Kong». É sabido que apesar de ter sido a região proporcionalmente mais afectada pelo surto de pneumonia atípica, e muito por legítima ajuda do governo de Pequim, Hong Kong vai atingir, se não ultrapassar, as perspectivas de crescimento económico em 2003. Há qualquer coisa que começa a não bater certo, no estudo.
O caso piora quanddo Herbert Lee continua a concluir: «a população de Macau demonstra um conservantismo [sic] maior do que a população de Hong Kong, espelhado [...] no facto de menos de 50 por cento da população considerar legítimo que os membros da Falungong possam disseminar a sua informação». Apesar de nunca ter visto qualquer obstrução à actividade ou propaganda da seita em Macau, é passível de aceitação a conclusão que por aqui se revelem em sondagens o que não transparece da realidade. Assim queira concluir o autor de tão baptista estudo, contra plebeias análises.
Tudo isso faz sentido quando percebemos que «em Hong Kong, 70 por cento da população entende que os membros da Falungong devem ser livres de publicitar os seus pensamentos». E não são?
A sondagem dá-nos ainda um excelente exercício de maioria relativa, segundo o professor: «em Hong Kong 21,4 por cento da população pensa que um governo democrático tem de ser eleito pelo povo», o que, apesar de democraticamente absurdo, é excelente se comparado com o facto de em Macau tal requisito ser «apenas reclamado por 7,1 por cento dos residentes». Mas e os 78,8 de residentes de Hong Kong que não decidiram ainda por quem deve a democracia ser exercida? Sem falar nos 96,9 por cento dos residentes de Macau que apoiariam uma (necessariamente) democrática ditadura.
Não adimra, portanto, que «o estudo indica ainda que 74,9 por cento dos inquiridos em Hong Kong não acreditam que as suas opiniões possam fazer alterar a política do Governo, enquanto em Macau 57,4 por cento pensam da mesma maneira».
Desde que elas sejam expressas desta maneira – uma opinião que obteve unanimidade cá em casa.
Havemos de voltar

4.11.03

Só a ONU é solução no Iraque

Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair. Não apenas os prejuízos causados ao próprio povo iraquiano, mas, agora, também ao povo americano e desconhecemos em que verdadeira medida aos ingleses e, por exemplo, aos polacos ou espanhóis.
Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais. Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas. Ficou clara a falácia que constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo.
No Iraque, a administração dos Estados Unidos está mergulhada num pântano de que não sabe como sair, onde procura desesperadamente envolver outras Nações, apenas com o objectivo de partilharem no presente e descartarem no futuro o ónus de um negócio mal calculado. Não é necessário recorrer a outras que não insuspeitas, conservadoras e circunspectas fontes que não norte-americanas e britânicas para verificar que se começa a preparar o terreno para um recuo norte-americano – depois do mal feito. De uma organização não governamental dos Estados Unidos chegam relatórios de como, vergonhosamente, os negócios da «reconstrução» do Iraque foram entregues, sem concurso, aos amigos de Bush. A sempre bem informada The Economist teve a primazia de falar em fracasso sobre os intentos de Rumsfeld e Bush, se é que este os pensa, quanto ao Iraque.
O cúmulo da desvergonha surgiu por parte da conselheira Rice: no mesmo dia em que eram conhecidos os números dos negócios das as empresas que financiaram a campanha de Bush no Iraque, a senhora voltava a pedir à França e à Alemanha que abrissem os cordões à bolsa. O eufemismo adoptado para «empresas norte americanas» foi então «refém povo iraquiano». Fica por explicar como é que um povo que foi «libertado» meses antes pela coligação anglófona se tornou refém de Maio para Outubro – mas são contingências da política. Obviamente, a gargalhada solta por Chirac e Schroder foi também eufemisticamente traduzida por ONU. E têm razão os dois lúcidos dirigentes europeus – avisaram antes, puseram condições, não se lhes deve pedir agora que vão pagar os desmandos alheios. Contudo, o Iraque necessita de ajuda, ninguém o nega. Pede-se apenas que se faça agora o que foi reclamado no início: que as Nações Unidas assumam os destinos da transição iraquiana, que se volte à legalidade internacional, que então se reclame apoio a um povo massacrado sucessivamente por um ditador local, uma guerra regional, outra, internacional, provocada para a sobrevivência do próprio regime, depois sanções internacionais e finalmente por uma guerra de vingança familiar com petrodólares à mistura. Só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos.
O que a administração norte americana menos quer é abrir mão do poder que busca desesperadamente em Bagdad. Internamente, o governo instituído, (fantoche, como se lhes chamava há uns anos atrás nos exemplos latino-americanos dos noriegas deste mundo) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente, meio ano passado sobre o fim declarado das hostilidades «de grande envergadura»? Por que não foram então previstas as acções de mais pequena envergadura? Clamar pelo «terrorismo internacional», um CD já só comparável à «cassete» vermelha de antanho, não chega. Admitindo que a Al-Qaida opere efectivamente no Iraque rapinando descontentamentos (e para essa inevitabilidade se alertou sucessivamente antes da intervenção armada), será estultícia chamar terrorismo a um ataque de tropas que nunca deixaram de ser leais ao regime que serviam, quando abatem um helicóptero carregado de militares inimigos. Por muito que se pretenda confundir os planos, também aqui o petróleo virá à tona.
Neste cenário não resta senão aos Estados Unidos retirarem-se do Iraque sem cumprirem a missão a que se propuseram. Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras. Se os governantes estadunidenses respeitassem a vida humana – nem que fosse apenas a dos seus próprios cidadãos – mudavam a agulha rapidamente. No entanto, porque as razões que levaram à intervenção militar no Iraque não tiveram nada que ver no plano da liberdade ou da democracia, isso não será feito tão cedo. Provavelmente isso só acontecerá depois de Bush ser apeado do poder, o que, para todos os efeitos, ainda demorará mais tempo do que o desejável e acarretará mais mortes que as admissíveis.

Havemos de voltar

31.10.03

Dos americanos que aí vêm

Um episódio recente, numa cerimónia pública, em que o animador de serviço (um norte-americano) leva à letra a função que lhe foi atribuída e põe em prática o que aprendeu na terra donde vem, e a as inúmeras reflexões e informações que nos chegaram de Las Vegas, onde foi um grupo de jornalistas da terra para ver como o jogo também pode ser gerido e o turismo se explora até à medula, põem em evidência algumas questões que a entrada dos estadunidenses em Macau vai colocar.
Não é a escolha das empresas norte-americanas para explorar o jogo em Macau que está em causa – não só o assunto deve ser deixado aos especialistas, como a generalidade destes se tem pronunciado elogiosamente quanto à decisão do chefe do executivo. Aliás, nem está nada em causa – o mínimo que se pode dizer da entrada dos americanos em Macau é que também um dia os portugueses entraram, e esses não foi propriamente por concurso público. Mas as crónicas fazem-se do tempo, e este é aquele em que os episódios da forma de ser e estar dos americanos começam a marcar o dia-a-dia desta terra.
A presença norte-americana no Mundo e a presença de norte-americanos não é a mesma coisa. Uma curta permanência em Macau permite, pelo menos, perceber a grande apetência das novas gerações por todo o fast-food que caracteriza a globalização – a que não há muito tempo se chamava a presença imperialista ou sinais de colonialismo – cultural, de consumo, na moda e, tantas vezes, mesmo ideológico. A primeira é uma realidade enraízada, a que as pessoas se adaptam. Depois, consomem ou não. Têm sempre a possibilidade de deixar na borda do prato o que não quiserem comer. Com os americanos já não é bem assim.
Quando se generaliza, comete-se inevitavelmente a injustiça de englobar no todo partes que dele se destinguem. Mas não será por isso que é errado dizer que os americanos vivem em permanente espectáculo, fazem doutrina do show-off, expõem-se constantemente de forma que nos surge ridícula, por vezes. Isso decorre de uma característica que o bom representante do Tio Sam tem: não faz da cultura um bem a desenvolver, o conhecimento não é o seu forte, a não ser que venha embrulhado numa excelente embalagem comercial. É assim, por exemplo, com o cinema de Hollywood, onde poucos conseguem dizer algo interessante obedecendo às regras que a indústria dita. Depois chamam-lhes «independentes».
No caso do animador que se refere, o homem entendeu que se os presentes não estavam reunidos para velar um defunto, então, necessariamente, teriam que se manifestar com gritos e aplausos a cada boçalidade que soltasse, de preferência repetindo-as. O que revela ausência de noção de meio-termo, por um lado, mas sobretudo a ignorância relativamente ao meio em que se está – e a formalidade, na cultura local, tem um peso proverbial.
Será interessante verificar como é que esse estilo espalhafatoso se vai desenvolver em Macau e, sobretudo, como irá a sociedade reagir a ele. Os cronistas desse tempo certamente se encarregarão de o fazer.
Atenção dos sociólogos deverá merecer também a forma como os norte-americanos se vão organizar socialmente por cá (a propósito, não estará a sociologia demasiado esquecida em Macau?). Infelizmente, não será certamente de nova-iorquinos cosmopolitas ou de cultos quadros que se comporá essa comunidade. Ainda que de quadros se trate, é consabida a característica etnocêntrica da educação norte-americana, que resulta nesse espantoso resultado de muito mais de metade dos mais de 290 milhões de norte-americanos não conseguir apontar à primeira no planisfério o continente europeu.
A viagem que foi promovida pelo governo para que se conhecesse a realidade de Las Vegas poderia ter uma correspondente, por exemplo, a Seul, para se ver a forma como essa presença se manifesta. Aos bares, restaurantes e clubes apenas para americanos, na zona «ianque» da cidade, contrapõem-se reacções discriminatórias de coreanos nas zonas francas, onde não é difícil ser barrada a entrada numa qualquer discoteca a um estrangeiro confundível.
Haverá ainda outro fenómeno que merecerá observação cuidada: a reacção da comunidade portuguesa em Macau a essa presença, sempre um abraço de urso.
Cingindo agora a perspectiva a uma parte, que claramente se diferencia da maioria mas que nem por isso deixa de ser considerável, será curioso assistir também à reacção daqueles que, ciosos de um estatuto que não têm, e que supostamente lhes advém dos anos que aqui já passaram, se põem a puxar idiotamente de galões que ninguém descortina, no que não passa de estrebucho de quem vê fantasmas a passear na sua quintinha. Desses, que mal sabem reagir à chegada de compatriotas, sempre tementes de que o parceiro do lado lhes vá ao prato, se podem esperar reacções conflituosas quando chegarem os outros, para fazerem o que tiverem que fazer. Quanto ao resto, à maioria que interessa – e que já ocupa funções fundamentais nas estruturas que se preparam para iniciar actividade em Macau – vai manter-se o papel fundamental e insubstituível de fazer a ponte entre as culturas em confronto. Sendo que a maior qualidade dos portugueses reside nas relações humanas e na capacidade passar pelo Mundo, sabendo como se encaixar na realidade em que caem (saber genético empiricamente provado), e não sendo crível que nos próximos tempos daqui desapareçam, estão reunidas as condições para que Macau tenha pela frente muitos e bons anos como caso único em todo o Oriente. Haja quem se ocupe de cuidar das coisas cultivadas do espírito, já que está garantido que o material continuará a florescer.

29.10.03

Havemos de voltar
Deselegantes e anacrónicos

Além de apostar numa estratégia de desvalorização do Fórum China/Países Lusófonos, com que não poderia obter nenhuns resultados vantajosos, o comportamento de Portugal nesse encontro ainda foi de desconsideração relativamente aos países africanos. O discurso adoptado revelou-se anacrónico.
Ao enviar um ministro de funções políticas à mais importante reunião dos últimos tempos que congregou todas as Nações onde se fala português, em vez do desejado e aconselhado ministro com capacidade e conhecimentos técnicos para negociar um acordo económico, o governo de Lisboa pretendeu retirar importância à iniciativa. A presença do secretário de Estado adjunto do ministro da Economia português disfarçou mal o défice de capacidade negocial e, como o ‘Ponto Final’ noticiou já esta semana, provocou sério mal estar no seio das restantes delegações (por maioria de razão, em primeiro lugar na chinesa), além de uma péssima imagem durante as negociações.
Portugal cedo percebeu que esta iniciativa chinesa não seria muito benéfica para as suas pretensões de parceiro privilegiado no relacionamento com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). No processo que antecedeu o Fórum, foi dando mostras desse desconforto, visíveis nomeadamente nas alterações que forçou à designação do evento. A questão é que a China e os PALOP se assumem como países em desenvolvimento que têm tudo a ganhar cooperando à margem e defendendo-se dos grandes mecanismos internacionais de comércio, dominados por políticas que, na prática, sufocam quem mais necessita de apoio. Portugal acha que está suficientemente desenvolvido e que o seu lugar é sempre no concerto dos poderosos – não só na economia, mas também na política externa. Partindo desse princípio não poderia alinhar com políticas alternativas às liberais que a China e o Brasil, neste momento, concertam. Lá saberá o governo português o que é mais benéfico para o país, os resultados atestam e hão-de continuar a atestar a correcção das opções.
O discurso dos governantes portugueses presentes foi de aposta no bilateralismo das relações económicas. Percebe-se: de uma assentada põe-se em pé de igualdade com a China e reserva-se o direito de, ainda à margem do grupo agora criado, manter um relacionamento caso-a-caso com os PALOP. Ou seja, Portugal quis afastar-se daquilo que o ministro guineense dos Negócios Estrangeiros caracterizou como o lançamento das «bases para o nascimento de uma promissora e abrangente comunidade económica do Mundo» - a ideia dominante no Fórum.
Ao adoptar a valorização da «bilateralidade» do relacionamento económico, iniciada logo com o deselegante anúncio de uma cimeira, no próximo ano, com a China, visando os mesmo fins que os negociados em Macau, Portugal provocou críticas e mau estar, também junto dos PALOP. O secretário de Estado português, que sobrou para a sessão de encerramento onde pontificou o vice-ministro do Comércio chinês, seria mesmo confrontado com o facto pela jornalista angolana que acompanhou os trabalhos. Refugiou-se no tradicional «ainda bem que me faz a pergunta» para deixar transparecer que é mesmo no encontro particular Portugal/China que o seu governo está interessado. Foi a cereja da desconsideração no bolo da desvalorização cozinhado no decorrer dos trabalhos.
Os políticos portugueses vieram com um discurso preparado que passava por valorizar o relacionamento histórico com os PALOP, ainda na senda da demonstração da pouca utilidade para os lusitanos deste Fórum. Desde o início ouvimos as histórias dos cinco séculos de encontros entre ventos e marés e como isso é um elemento importante para o relacionamento presente e futuro. Dando a imagem de um país em andropausa mal resolvida, em que ridículas maquilhagens dão um ar de modernidade a quem se vai limitando a ver nas estátuas o valor da sua própria vida, Portugal, autista, não ouviu, por exemplo, os moçambicanos a tratar por «camarada» a vice-primeira ministra Wu Yi, os angolanos chamarem «povo amigo» aos chineses ou os guineenses a lembrarem os tempos em que a China apoiou o movimento de libertação, como razão lógica para que apoie agora a manutenção do Estado que conquistaram com a luta armada. Acresce que muitos dos homens que, das mais variadas formas, combateram com o apoio chinês o colonialismo são agora governantes nos seus países. A China, no entanto, não sentiu necessidade de chamar a atenção para o já longo relacionamento histórico que também tem com estes países para justificar as suas pretensões actuais. E evitou o incómodo e deselegância que seria lembrar o apoio que deu numa luta armada contra, precisamente, um dos seus convidados. Infelizmente os políticos portugueses não perceberam em que águas se moviam e retomaram o assunto mesmo na sessão de encerramento, dando de si uma imagem de desfasamento em relação aos tempos em que vivemos. Portugal não precisava de ter dito naquele palco que vive «no âmbito específico da política de apoio ao desenvolvimento da União Europeia, seja ao nível da cooperação seja ao nível do quadro da política comercial».
Portugal apostou, pois, se não no insucesso, pelo menos na irrelevância do Fórum China/Países Lusófonos. Desconhecem-se, por enquanto, as reacções portuguesas ao inegável sucesso em que resultou o encontro, para efeitos de cooperação futura. A China chegou sabendo bem o que queria e, laboriosamente, construiu o acordo que vai beneficiar, seguramente, sete dos oito signatários do Acordo final.
Como se disse numa das intervenções finais, o Fórum produziu mais do que se esperava. Infelizmente, por inépcia do secretariado em Macau, os trabalhos e os resultados obtidos não tiveram o impacto desejado na comunicação social dos países envolvidos, muito menos na imprensa mundial. Assim se perdeu mais uma oportunidade de elevar o estatuto internacional da RAEM e dar do território uma imagem que vá além do jogo e do prazer. Obviamente, não bastava fazer publicar notas dizendo que os «Media adere (sic) em força ao Fórum», para que as atenções dos jornalistas se focassem no evento. É provável que essa forma de funcionar não se repita.

22.10.03

Havemos de voltar
Há golpes e golpes

O golpe de Estado na Guiné-Bissau serve às mil maravilhas a quem pretender demonstrar o que é a real politic. A reacção da comunidade internacional ao golpe militar que depôs o inqualificável Kumba Ialá foi de condenação – e nem podia deixar de ser. Mandam as regras que assim se faça, e não passaria pela cabeça de ninguém ver os países desenvolvidos, os que têm que tomar posição sobre tudo, (nem os outros), dizer «Sim senhor, muito bem, apoiado». Portanto, foi com naturalidade que se viu a generalidade dos governos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa condenar o golpe comandado pelo general Correia Seabra, mas sempre contextualizando com um «não é de admirar». Por isso, não foi de espantar também que os Estados Unidos (cuja administração curiosamente voltou a atrasar-se na reacção), mais pragmáticos – e especialistas – nestas coisas de golpes, nem sequer se tenham dado ao trabalho de condenar: apenas apelaram aos militares para que devolvam o mais rapidamente possível o poder à sociedade civil, coisa que, de resto, o próprio general prometeu fazer antes mesmo que alguém o questionasse sobre a matéria. Ou seja: quem pode, dá a entender que este foi um golpe bom.
A maior diferença entre o golpe de Estado na Guiné-Bissau e o que de S. Tomé e Príncipe, ainda fresco na memória, é o lado em que estão os «bons». Claramente, a comunidade internacional deixou o sinal que golpes de Estado não são coisas que se façam, mas este, que já está feito, é melhor deixá-lo seguir caminho. De facto não se ouviu uma voz levantar-se para reclamar o regresso de Kumba Ialá ao poder. Pediu-se a reposição da legalidade constitucional, a manutenção (impossível) da data de 12 de outubro para a realização de eleições, a já citada devolução do poder aos civis – mas sobre Ialá, nada. E ainda bem.
De facto, se a política não fosse hipócrita, levaria a que se disse claramente que o golpe não só tinha toda a razão de ser como ainda bem que teve lugar. Ialá e os seus apaniguados preparavam-se para outro golpe de dimensões bem piores – a fraude eleitoral que os havia de manter no poder. Mas como nem assim a coisa estaria garantida, e já era de fartar vilanagem, houve quem pusesse cobro ao descalabro – por interesse próprio e da Nação.
O problema que aqui se levanta é o da qualidade das democracias. Não é original dizer-se que a democracia não é para ser exportada à moda ocidental para todos os países do Mundo. Não discutindo a superioridade da democracia, contesto a inevitabilidade do modelo ocidental – o que permitiu a Ialá chegar ao poder numa sociedade ainda mal refeita do consulado de Nino Vieira. E veio-me à memória o complexo problema argelino, onde os resultados eleitorais que guindaram ao poder os islamitas não foram aceites pelos derrotados, a começar pela ex-potência colonial.
Só por se pretender que tanto o princípio como o sistema que lhe vem colado deve ser aplicado em todo o Mundo onde os governos não sejam capitalistas é que se chega a situações como esta.

Esperança
O Brasil e a China, para falar apenas nos países que aqui nos são afins, celebraram vitória na cimeira de Cancun, onde a hipocrisia das nações desenvolvidas queria impor um acordo leonino aos países que lutam por se desenvolver.
No meio do muito ruído que a linguagem económica provoca percebeu-se que os poderosos queriam impor a abertura de mercados em todo o Mundo aos produtos agrícolas que produzem subsidiados, limitando ao mesmo tempo a possibilidade de esses países subsidiarem os produtos que têm necessidade de vender. Pior é saber que a abertura dos mercados, quando não convém, é letra morta – como se confere com o problema do aço para os Estados Unidos.
Lula da Silva falou alto e congratulou-se com a vitória que o G-21, dos mais pobres, teve sobre o G-8 mais uns. Deve ter-se atenção a este movimento e ao desempenho de Lula da Silva, que conseguiu congregar em torno de interesses comuns os países africanos e fazer abortar os objectivos que os ricos tinham apontado para a cimeira mexicana da OMC.
O presidente brasileiro ainda não foi a África para os contactos a que atribui importância fundamental – dificuldade políticas internas fizeram-no adiar para o próximo mês essa viajem. Mas começa a ver-se crescer um bloco alternativo neste mundo unipolar. Há sempre razões para acreditar.

18.09.03

Havemos de voltar