21.11.03

O caminho das mentalidades

O maior problema de Macau é o das mentalidades. Não é um problema irresolúvel numa cidade como esta, que dispõe dos meios materiais para construir tudo, para comprar o que faz falta. É, no entanto, o mais difícil de resolver, porque o «produto» não está à venda no mercado internacional.
Na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) Edmund Ho elegeu a educação como alvo do principal investimento no próximo ano. Ao traçar em tom particularmente duro os contornos da situação actual (como, de resto, ontem notava o Director deste jornal) o Chefe do Executivo terá querido fazer sobressair este tema dos restantes. Julgo entender a razão que levou Edmund Ho a adoptar tal tom: já no ano passado, quando anunciou que 2003 seria o ano de aposta nas potencialidades que o português traz a Macau, o Chefe sabia que isso iria provocar incómodos. A aposta na educação não é, também, tema que adoce a boca do status. Quando se fala de educação fala-se de civismo, de progresso, de cultura, de criatividade, de responsabilidade individual, de capacidade de decisão, enfim, dos valores que formam o indivíduo das sociedades modernas. O projecto que existe para Macau é o de uma cidade moderna, que não se compadece com mentalidades retrógradas.
No próximo ano, como no que está a acabar, não há dúvida nenhuma de que o tema eleito por Edmund Ho como bandeira das LAG foi alvo de acerto com o Governo central. Outra coisa não seria de esperar e assim é que está bem. Curiosamente, agora como há um ano, isso parece contradizer os que põem a tónica da sua acção política no mais tradicional da cultura chinesa e no amor à Pátria. A visão de longo alcance que os dirigentes de Pequim vêm manifestando demonstra que não há contradição nenhuma entre os valores em causa e os interesses da China enquanto Nação. A Pequim interessa ter em Macau um povo culto, instruído, de elevado civismo porque esse requisito é necessário para que o projecto «Macau» vingue.
A educação de um povo sempre assustou o Poder, quando este assenta na obediência cega. O exemplo de Hong Kong, com uma população incomparavelmente mais esclarecida e interveniente que a de Macau, assusta muitos, mas pelos vistos não o Chefe do Executivo. É sabido que a existência de opinião pública é um problema para os governos, mas ela decorre da concentração de massa crítica.
Em última análise as próprias LAG demonstram aquilo quer alterar: de ano para ano se repetem os parágrafos, as ideias, os conceitos. Por isso houve um coro de considerações menos abonatórias do conteúdo do documento. Por isso, no ano passado como neste, a conferência de Imprensa foi o momento escolhido por Edmund Ho para explicar o que realmente pretende fazer. O que demonstra existir um fosso entre as ideias do Chefe do Executivo e a capacidade que a administração tem para as executar. Se outra razão não houvesse, era bastante para que Edmund Ho anunciasse a educação como prioridade.
Para Macau, a evolução das mentalidades, não é necessária – é vital. É certo que isso não se faz da noite para o dia, e é virtualmente impossível em sectores mais idosos e desfavorecidos. Esse é um problema com que a própria China se debate e que Macau importa, e vai continuar a importar, com o crescimento populacional constante. Macau tem, no entanto, meios materiais que o Continente, no seu todo, não possui. Tem também a necessidade absoluta de atingir esse objectivo nos próximos tempos. Pequim – e isso viu-se no Fórum para a Cooperação Económica – possui quadros altamente qualificados, capazes de executar os planos que encontram no papel e com isso arrastar os quadros locais para a evolução desejada. Devemos pois esperar – e acolher com agrado – quem vier ajudar a fazer avançar a mentalidade reinante.

Havemos de voltar

12.11.03

A sondagem

Partindo do conteúdo de um despacho da agência LUSA, que traduzia a publicação de um inquérito publicado «na imprensa chinesa» de Hong Kong (e não havendo razões para desconfiar da fidelidade da transcrição) ficámos a saber, entre outras coisas, que «a população de Hong Kong está "mais descontente" com o Governo do que os habitantes de Macau». Nada de novo.
A notícia dá conta de «um estudo efectuado pela Universidade Baptista de Hong Kong». O que, por si, não faria sobressaltar ninguém. Já os dados que permitem aferir da credibilidade do estudo de opinião não são tão pacíficos. Continuando a transcrever o texto da agência, o estudo é «baseado em entrevistas feitas a 761 residentes de Hong Kong e a 590 de Macau». Aqui, alguma coisa bate mal. Qualquer ignaro em matérias destas, indisponível para ser papado por papalvo, há-de questionar-se por que razão os estudiosos se deram ao trabalho de entrevistar 590 cidadãos de um universo de aproximadamente 440 mil cidadãos de Macau, quando para representar a opinião dos quase sete milhões de hongkongers se considerou bastante entrevistar uma centena e meia mais.
Não que seja incomodativo saber que «58,5 por cento da população da antiga colónia britânica não acredita que o Governo consiga resolver os seus problemas, uma percentagem que, no caso de Macau, se cifra em 43,8». É até elogioso para o executivo de Tung Chee-wa, se tivermos em conta que «o índice de satisfação pelo trabalho do Chefe do Executivo Edmund Ho situa-se nos 80 por cento». Embora fique por resolver o problema do terço de população de Macau que, estando embora satisfeita com o nosso chefe do Executivo, ao mesmo tempo não está.
«Herbert Lee, professor do departamento de Política Governamental e Internacional da Universidade, indicou que o estudo revela também que apenas 40 por cento da população de Hong Kong está satisfeita com o trabalho do Chefe do Executivo local, Tung Che-hwa», o que faz todo o sentido e revela a indisponibilidade chinesa para a indecisão.
O que se torna incompreensível é a conclusão de que «esta diferença de opiniões está directamente ligada ao crescimento das economias de ambos os lados do delta do Rio das Pérolas, com Macau a apresentar crescimentos positivos, ao contrário do que ocorre em Hong Kong». É sabido que apesar de ter sido a região proporcionalmente mais afectada pelo surto de pneumonia atípica, e muito por legítima ajuda do governo de Pequim, Hong Kong vai atingir, se não ultrapassar, as perspectivas de crescimento económico em 2003. Há qualquer coisa que começa a não bater certo, no estudo.
O caso piora quanddo Herbert Lee continua a concluir: «a população de Macau demonstra um conservantismo [sic] maior do que a população de Hong Kong, espelhado [...] no facto de menos de 50 por cento da população considerar legítimo que os membros da Falungong possam disseminar a sua informação». Apesar de nunca ter visto qualquer obstrução à actividade ou propaganda da seita em Macau, é passível de aceitação a conclusão que por aqui se revelem em sondagens o que não transparece da realidade. Assim queira concluir o autor de tão baptista estudo, contra plebeias análises.
Tudo isso faz sentido quando percebemos que «em Hong Kong, 70 por cento da população entende que os membros da Falungong devem ser livres de publicitar os seus pensamentos». E não são?
A sondagem dá-nos ainda um excelente exercício de maioria relativa, segundo o professor: «em Hong Kong 21,4 por cento da população pensa que um governo democrático tem de ser eleito pelo povo», o que, apesar de democraticamente absurdo, é excelente se comparado com o facto de em Macau tal requisito ser «apenas reclamado por 7,1 por cento dos residentes». Mas e os 78,8 de residentes de Hong Kong que não decidiram ainda por quem deve a democracia ser exercida? Sem falar nos 96,9 por cento dos residentes de Macau que apoiariam uma (necessariamente) democrática ditadura.
Não adimra, portanto, que «o estudo indica ainda que 74,9 por cento dos inquiridos em Hong Kong não acreditam que as suas opiniões possam fazer alterar a política do Governo, enquanto em Macau 57,4 por cento pensam da mesma maneira».
Desde que elas sejam expressas desta maneira – uma opinião que obteve unanimidade cá em casa.
Havemos de voltar

4.11.03

Só a ONU é solução no Iraque

Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair. Não apenas os prejuízos causados ao próprio povo iraquiano, mas, agora, também ao povo americano e desconhecemos em que verdadeira medida aos ingleses e, por exemplo, aos polacos ou espanhóis.
Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais. Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas. Ficou clara a falácia que constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo.
No Iraque, a administração dos Estados Unidos está mergulhada num pântano de que não sabe como sair, onde procura desesperadamente envolver outras Nações, apenas com o objectivo de partilharem no presente e descartarem no futuro o ónus de um negócio mal calculado. Não é necessário recorrer a outras que não insuspeitas, conservadoras e circunspectas fontes que não norte-americanas e britânicas para verificar que se começa a preparar o terreno para um recuo norte-americano – depois do mal feito. De uma organização não governamental dos Estados Unidos chegam relatórios de como, vergonhosamente, os negócios da «reconstrução» do Iraque foram entregues, sem concurso, aos amigos de Bush. A sempre bem informada The Economist teve a primazia de falar em fracasso sobre os intentos de Rumsfeld e Bush, se é que este os pensa, quanto ao Iraque.
O cúmulo da desvergonha surgiu por parte da conselheira Rice: no mesmo dia em que eram conhecidos os números dos negócios das as empresas que financiaram a campanha de Bush no Iraque, a senhora voltava a pedir à França e à Alemanha que abrissem os cordões à bolsa. O eufemismo adoptado para «empresas norte americanas» foi então «refém povo iraquiano». Fica por explicar como é que um povo que foi «libertado» meses antes pela coligação anglófona se tornou refém de Maio para Outubro – mas são contingências da política. Obviamente, a gargalhada solta por Chirac e Schroder foi também eufemisticamente traduzida por ONU. E têm razão os dois lúcidos dirigentes europeus – avisaram antes, puseram condições, não se lhes deve pedir agora que vão pagar os desmandos alheios. Contudo, o Iraque necessita de ajuda, ninguém o nega. Pede-se apenas que se faça agora o que foi reclamado no início: que as Nações Unidas assumam os destinos da transição iraquiana, que se volte à legalidade internacional, que então se reclame apoio a um povo massacrado sucessivamente por um ditador local, uma guerra regional, outra, internacional, provocada para a sobrevivência do próprio regime, depois sanções internacionais e finalmente por uma guerra de vingança familiar com petrodólares à mistura. Só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos.
O que a administração norte americana menos quer é abrir mão do poder que busca desesperadamente em Bagdad. Internamente, o governo instituído, (fantoche, como se lhes chamava há uns anos atrás nos exemplos latino-americanos dos noriegas deste mundo) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente, meio ano passado sobre o fim declarado das hostilidades «de grande envergadura»? Por que não foram então previstas as acções de mais pequena envergadura? Clamar pelo «terrorismo internacional», um CD já só comparável à «cassete» vermelha de antanho, não chega. Admitindo que a Al-Qaida opere efectivamente no Iraque rapinando descontentamentos (e para essa inevitabilidade se alertou sucessivamente antes da intervenção armada), será estultícia chamar terrorismo a um ataque de tropas que nunca deixaram de ser leais ao regime que serviam, quando abatem um helicóptero carregado de militares inimigos. Por muito que se pretenda confundir os planos, também aqui o petróleo virá à tona.
Neste cenário não resta senão aos Estados Unidos retirarem-se do Iraque sem cumprirem a missão a que se propuseram. Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras. Se os governantes estadunidenses respeitassem a vida humana – nem que fosse apenas a dos seus próprios cidadãos – mudavam a agulha rapidamente. No entanto, porque as razões que levaram à intervenção militar no Iraque não tiveram nada que ver no plano da liberdade ou da democracia, isso não será feito tão cedo. Provavelmente isso só acontecerá depois de Bush ser apeado do poder, o que, para todos os efeitos, ainda demorará mais tempo do que o desejável e acarretará mais mortes que as admissíveis.

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