Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair. Não apenas os prejuízos causados ao próprio povo iraquiano, mas, agora, também ao povo americano e desconhecemos em que verdadeira medida aos ingleses e, por exemplo, aos polacos ou espanhóis.
Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais. Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas. Ficou clara a falácia que constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo.
No Iraque, a administração dos Estados Unidos está mergulhada num pântano de que não sabe como sair, onde procura desesperadamente envolver outras Nações, apenas com o objectivo de partilharem no presente e descartarem no futuro o ónus de um negócio mal calculado. Não é necessário recorrer a outras que não insuspeitas, conservadoras e circunspectas fontes que não norte-americanas e britânicas para verificar que se começa a preparar o terreno para um recuo norte-americano – depois do mal feito. De uma organização não governamental dos Estados Unidos chegam relatórios de como, vergonhosamente, os negócios da «reconstrução» do Iraque foram entregues, sem concurso, aos amigos de Bush. A sempre bem informada The Economist teve a primazia de falar em fracasso sobre os intentos de Rumsfeld e Bush, se é que este os pensa, quanto ao Iraque.
O cúmulo da desvergonha surgiu por parte da conselheira Rice: no mesmo dia em que eram conhecidos os números dos negócios das as empresas que financiaram a campanha de Bush no Iraque, a senhora voltava a pedir à França e à Alemanha que abrissem os cordões à bolsa. O eufemismo adoptado para «empresas norte americanas» foi então «refém povo iraquiano». Fica por explicar como é que um povo que foi «libertado» meses antes pela coligação anglófona se tornou refém de Maio para Outubro – mas são contingências da política. Obviamente, a gargalhada solta por Chirac e Schroder foi também eufemisticamente traduzida por ONU. E têm razão os dois lúcidos dirigentes europeus – avisaram antes, puseram condições, não se lhes deve pedir agora que vão pagar os desmandos alheios. Contudo, o Iraque necessita de ajuda, ninguém o nega. Pede-se apenas que se faça agora o que foi reclamado no início: que as Nações Unidas assumam os destinos da transição iraquiana, que se volte à legalidade internacional, que então se reclame apoio a um povo massacrado sucessivamente por um ditador local, uma guerra regional, outra, internacional, provocada para a sobrevivência do próprio regime, depois sanções internacionais e finalmente por uma guerra de vingança familiar com petrodólares à mistura. Só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos.
O que a administração norte americana menos quer é abrir mão do poder que busca desesperadamente em Bagdad. Internamente, o governo instituído, (fantoche, como se lhes chamava há uns anos atrás nos exemplos latino-americanos dos noriegas deste mundo) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente, meio ano passado sobre o fim declarado das hostilidades «de grande envergadura»? Por que não foram então previstas as acções de mais pequena envergadura? Clamar pelo «terrorismo internacional», um CD já só comparável à «cassete» vermelha de antanho, não chega. Admitindo que a Al-Qaida opere efectivamente no Iraque rapinando descontentamentos (e para essa inevitabilidade se alertou sucessivamente antes da intervenção armada), será estultícia chamar terrorismo a um ataque de tropas que nunca deixaram de ser leais ao regime que serviam, quando abatem um helicóptero carregado de militares inimigos. Por muito que se pretenda confundir os planos, também aqui o petróleo virá à tona.
Neste cenário não resta senão aos Estados Unidos retirarem-se do Iraque sem cumprirem a missão a que se propuseram. Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras. Se os governantes estadunidenses respeitassem a vida humana – nem que fosse apenas a dos seus próprios cidadãos – mudavam a agulha rapidamente. No entanto, porque as razões que levaram à intervenção militar no Iraque não tiveram nada que ver no plano da liberdade ou da democracia, isso não será feito tão cedo. Provavelmente isso só acontecerá depois de Bush ser apeado do poder, o que, para todos os efeitos, ainda demorará mais tempo do que o desejável e acarretará mais mortes que as admissíveis.
Havemos de voltar
4.11.03
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário