Dos americanos que aí vêm
Um episódio recente, numa cerimónia pública, em que o animador de serviço (um norte-americano) leva à letra a função que lhe foi atribuída e põe em prática o que aprendeu na terra donde vem, e a as inúmeras reflexões e informações que nos chegaram de Las Vegas, onde foi um grupo de jornalistas da terra para ver como o jogo também pode ser gerido e o turismo se explora até à medula, põem em evidência algumas questões que a entrada dos estadunidenses em Macau vai colocar.
Não é a escolha das empresas norte-americanas para explorar o jogo em Macau que está em causa – não só o assunto deve ser deixado aos especialistas, como a generalidade destes se tem pronunciado elogiosamente quanto à decisão do chefe do executivo. Aliás, nem está nada em causa – o mínimo que se pode dizer da entrada dos americanos em Macau é que também um dia os portugueses entraram, e esses não foi propriamente por concurso público. Mas as crónicas fazem-se do tempo, e este é aquele em que os episódios da forma de ser e estar dos americanos começam a marcar o dia-a-dia desta terra.
A presença norte-americana no Mundo e a presença de norte-americanos não é a mesma coisa. Uma curta permanência em Macau permite, pelo menos, perceber a grande apetência das novas gerações por todo o fast-food que caracteriza a globalização – a que não há muito tempo se chamava a presença imperialista ou sinais de colonialismo – cultural, de consumo, na moda e, tantas vezes, mesmo ideológico. A primeira é uma realidade enraízada, a que as pessoas se adaptam. Depois, consomem ou não. Têm sempre a possibilidade de deixar na borda do prato o que não quiserem comer. Com os americanos já não é bem assim.
Quando se generaliza, comete-se inevitavelmente a injustiça de englobar no todo partes que dele se destinguem. Mas não será por isso que é errado dizer que os americanos vivem em permanente espectáculo, fazem doutrina do show-off, expõem-se constantemente de forma que nos surge ridícula, por vezes. Isso decorre de uma característica que o bom representante do Tio Sam tem: não faz da cultura um bem a desenvolver, o conhecimento não é o seu forte, a não ser que venha embrulhado numa excelente embalagem comercial. É assim, por exemplo, com o cinema de Hollywood, onde poucos conseguem dizer algo interessante obedecendo às regras que a indústria dita. Depois chamam-lhes «independentes».
No caso do animador que se refere, o homem entendeu que se os presentes não estavam reunidos para velar um defunto, então, necessariamente, teriam que se manifestar com gritos e aplausos a cada boçalidade que soltasse, de preferência repetindo-as. O que revela ausência de noção de meio-termo, por um lado, mas sobretudo a ignorância relativamente ao meio em que se está – e a formalidade, na cultura local, tem um peso proverbial.
Será interessante verificar como é que esse estilo espalhafatoso se vai desenvolver em Macau e, sobretudo, como irá a sociedade reagir a ele. Os cronistas desse tempo certamente se encarregarão de o fazer.
Atenção dos sociólogos deverá merecer também a forma como os norte-americanos se vão organizar socialmente por cá (a propósito, não estará a sociologia demasiado esquecida em Macau?). Infelizmente, não será certamente de nova-iorquinos cosmopolitas ou de cultos quadros que se comporá essa comunidade. Ainda que de quadros se trate, é consabida a característica etnocêntrica da educação norte-americana, que resulta nesse espantoso resultado de muito mais de metade dos mais de 290 milhões de norte-americanos não conseguir apontar à primeira no planisfério o continente europeu.
A viagem que foi promovida pelo governo para que se conhecesse a realidade de Las Vegas poderia ter uma correspondente, por exemplo, a Seul, para se ver a forma como essa presença se manifesta. Aos bares, restaurantes e clubes apenas para americanos, na zona «ianque» da cidade, contrapõem-se reacções discriminatórias de coreanos nas zonas francas, onde não é difícil ser barrada a entrada numa qualquer discoteca a um estrangeiro confundível.
Haverá ainda outro fenómeno que merecerá observação cuidada: a reacção da comunidade portuguesa em Macau a essa presença, sempre um abraço de urso.
Cingindo agora a perspectiva a uma parte, que claramente se diferencia da maioria mas que nem por isso deixa de ser considerável, será curioso assistir também à reacção daqueles que, ciosos de um estatuto que não têm, e que supostamente lhes advém dos anos que aqui já passaram, se põem a puxar idiotamente de galões que ninguém descortina, no que não passa de estrebucho de quem vê fantasmas a passear na sua quintinha. Desses, que mal sabem reagir à chegada de compatriotas, sempre tementes de que o parceiro do lado lhes vá ao prato, se podem esperar reacções conflituosas quando chegarem os outros, para fazerem o que tiverem que fazer. Quanto ao resto, à maioria que interessa – e que já ocupa funções fundamentais nas estruturas que se preparam para iniciar actividade em Macau – vai manter-se o papel fundamental e insubstituível de fazer a ponte entre as culturas em confronto. Sendo que a maior qualidade dos portugueses reside nas relações humanas e na capacidade passar pelo Mundo, sabendo como se encaixar na realidade em que caem (saber genético empiricamente provado), e não sendo crível que nos próximos tempos daqui desapareçam, estão reunidas as condições para que Macau tenha pela frente muitos e bons anos como caso único em todo o Oriente. Haja quem se ocupe de cuidar das coisas cultivadas do espírito, já que está garantido que o material continuará a florescer.
29.10.03
Havemos de voltar
31.10.03
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