27.4.04

Um azar nunca vem só

É a todos os títulos vergonhosa a actuação do governo norte-coreano face à tragédia que ocorreu numa cidade fronteiriça, onde um acidente ferroviário provocou mais de 160 mortos e para cima de 1300 feridos, além de ter deixado marcas em mais de oito mil edifícios. Vergonhosa, deplorável, reincidente e reveladora do respeito que o poder norte-coreano não tem pelo seu povo.
Tarde e a más horas, quando não havia forma de esconder o facto (porque se houvesse, certamente ele teria sido negado), lá foi anunciado que havia «estragos são consideravelmente elevados» na sequência da explosão que, não interessa por quê, ocorreu em vagões de combóio carregados de produtos químicos. O número de vítimas apresentado era tão redondo – 150 – quanto a importância que cada vida tem para aqueles governantes: zero. Sintomaticamente certo foi também o número de feridos fornecido pela agência de informação norte-coreana: 1300. Mais simples foi tratar dos desaparecidos: não se sabe quantos são, já que «está a ser investigado». Uma pena que os mortos não tenham, simplesmente, desaparecido também, dirão as autoridades, que ficariam com muito mais o que investigar e muito menos para revelar.
Para que conste, segundo a Cruz Vermelha, o número de vítimas mortais encontradas foi de 161. A mesma instituição queixou-se, na altura, de que tinha sido impedida, «sem justificação», de fazer chegar ajuda proveniente da Coreia do Sul.
O povo da Coreia do Norte tem a infelicidade de ter o governo mais obnóxio que se encontra à face da terra. E não é uma infelicidade pequena: dos mais de 22,4 milhões de habitantes daquela parte da península coreana poucos, muito poucos, acreditam nas versões oficiais para tudo o que acontece. Não acreditam os que sofrem na pele o resultado de uma política incompreensivelmente isolacionista, nem acreditam os que a fazem porque sabem que falam mentira para criar um embuste militarista. Mas não está tudo perdido: enquanto acreditar o líder parlamentar dos comunistas portugueses, Bernardino Soares de seu nome, o filho Kim Yong-il do pai Kim Il-Sung terá um momento de estúpido reconforto.
Alguém consegue justificar a sucessão dinástica, à luz do mais ferrenho estalinismo que fosse? O problema é esse: não há nada que justifique o que vivem os norte-coreanos.
Nem os que ocupam o poder conseguem justificar o miserável mundo que criaram e que nem todos os bloqueios do Mundo explicam. Tome-se como exemplo a mortalidade infantil. Tomando-se como boas as únicas estatísticas que há, em cada mil crianças que nascem na Coreia do Norte, morrem 25,6. Uma taxa superior à da China, país com o qual é impossível haver comparações, dada a abissal diferença de população. Cuba, que também se pode queixar de um bloqueio, conseguiu reduzir esse valor para apenas 7,15‰, valor semelhante ao português, por exemplo. O que é muito mau e torna ainda mais abusiva a utilização da palavra «socialista» para designar o regime.
Quem exerce o poder da forma que Kim Jong-il o faz (chame-se-lhe autoritário militarista ou ditatorial estalinista) teme, acima de tudo, o seu povo. Por isso a história relata massacres, prisões e deportações sempre que trata de regimes como o que está instalado em Pyongyang.
De como se revela o medo que o pequeno líder tem do povo que diz servir observou-se em Busan, na Coreia do Sul, um exemplo esclarecedor. Durante os Jogos Asiáticos, onde depois de muitas negociações os governantes do Norte decidiram fazer-se representar, a Aldeia Olímpica tinha duas forças de segurança. Uma, nem melhor nem pior que as outras, encarregava-se de velar pela salvaguarda de pessoas e bens e observação das regras que uma aglomeração de largos milhares de atletas, técnicos dirigentes e todos mais que eram precisos aconselha. Havia depois outra, norte-coreana, que se encarregava apenas de um edifício – onde estava toda a delegação (incluindo uma patética claque). A entrada do prédio confrontava com as instalações ocupadas pela comitiva de Macau. Das nossas janelas podia ver-se, dia e noite, os polícias do Norte sentados à porta de acesso, principal e única. De costas para a rua, virados para a entrada.

Havemos de voltar

21.4.04

Memória

1.
«Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair.»
«Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais».
«Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas».
«Ficou clara a falácia que constitui constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo».
Afirmações que decorrem da convicção de que «só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos. Internamente, o governo instituído, (...) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente (...)?» Para concluir: «Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras».
Tudo o que vem acima foi escrito, nesta secção, em Novembro do ano passado, há mais de seis meses, portanto. [http://www.cabecadepeixe.blogspot.com/2003_11_02_cabecadepeixe_archive.html, para quem se quiser dar ao trabalho].
Ainda não tinha espoletado a agora reconhecida crise que, sublinhe-se antes que os desonestos tentem aproveitar, começou mesmo antes do anúncio da retirada das tropas espanholas.
Meio ano depois os Estados Unidos dão mostras de reconhecer (contrariados, embora) a inevitabilidade da solução ONU no Iraque. Mas ainda há quem não queira ver.

2.
Entre os que não querem reconhecer o lodaçal em que se envolveram está o primeiro-ministro português. Durão Barroso disse da decisão do novo governo espanhol o que o presidente norte-americano, apesar da sua irresponsável verborreia, não soltou. Das palavras de Durão Barroso, além de muitas outras, pode tirar-se uma conclusão: a promessa eleitoral de Zapatero (de retirar as tropas espanholas do Iraque) que foi sufragada, deveria ser letra morta após a chegada ao poder. Um democrata exemplar.

3.
Por falar em democracia: lídimos democratas manifestavam a sua preocupação – e devem agora rezar aos deuses – pela possibilidade de o ANC, na África do Sul, obter 70 por cento dos votos num acto eleitoral à prova do teste do algodão. Um dos que primeiro se disponibilizou para manifestar, via TV, essa supremacia da conveniência democrática face ao desígnio popular foi um padre português que por lá prega. Resumindo, e pasmando simultaneamente, o senhor padre sabe melhor (por via divina, supõe-se), o que convém ao povo que mais de dois terços dos eleitores. Um crente na democracia.

4.
No afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução de (cruzes, canhoto) Abril o governo português passou a chamar-lhe «Evolução». Para não evocar os feitos dos (cruzes, canhoto) revolucionários decidiu fazer publicar livros de estatística sobre os 30 anos que inevitavelmente passaram sobre (cruzes, canhoto) 1974. Mau grado a (cruzes, canhoto) Revolução Portugal é agora um país onde (cruzes, canhoto) Durão Barroso diz que os homens já não andam de bigode e vestidos de preto. O problema é que quem fez a (cruzes, canhoto) Revolução, (cruzes, canhoto) diz que Abril ainda está por cumprir.
Apesar de tudo, o afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução, traduzindo-a em números, equações e comparações estatísticas, em vez de tornarem inacessível e incompreensível a dita (cruzes, canhoto) Revolução, trá-la para um nível de comunicação que os (cruzes, canhoto) revolucionários não conseguem fazer passar quando marcham em manifestação pela Avenida da Liberdade (cruzes, canhoto?)

Havemos de voltar

16.4.04

A cor do voto

Em dois mundos que nos tocam está lançado o debate sobre democracia. Por razões diferentes, em Portugal e em Hong Kong se discute democracia. Curiosamente, onde ela se encontra implantada na sua fórmula mais comum nestes tempos, clama-se contra a qualidade que não tem; onde formalmente não existe, exercem-se democraticamente práticas reivindicativas e expressão livre de opinião favorável à aproximação àquele modelo.
Num e noutro lado se extremam posições e se usa a manipulação da realidade para obter o objectivo que os junta: uma melhor democracia. Claramente, o objectivo de José Saramago ao lançar a polémica sobre a qualidade da democracia vai no sentido de a aproximar daquilo que os regimes socialistas propõem e o escritor professa: a possibilidade de outros argumentos, além dos económicos, vingarem no acesso e exercício do poder.
As democracias ocidentais estão reféns do poder económico e nem o voto popular o consegue refrear. As aberrações legislativas que Silvio Berlosconi tem vindo a produzir para evitar condenações judiciais são disso exemplo. O poder de comunicação que ele mantém através do seu império de comunicação social é sem dúvida um factor de disfunção democrática. Se se critica o controlo absoluto e a manipulação que as ditaduras exercem sobre os órgãos de comunicação social, o que dizer da impossibilidade de qualquer intervenção numa televisão que é privada? A atestar que esse não é caso isolado recorde-se, apenas, a afirmação de Emídio Rangel, nos primórdios da portuguesa SIC, que o todo poderoso director considerou ser capaz de eleger um presidente da República.
Dêem-se os moderados, apesar de graves, exemplos europeus, para não voltar ao inadjectivável Bush, eleito apesar de ter obtido menos votos que o adversário eleitoral, para tripudiar sobre direitos humanos e liberdades individuais, interna e externamente, ao mesmo tempo que alardeia desavergonhadamente princípios que de todo lhe escapam. A «democrática» luta para impôr à força uma «democracia» num país soberano, que acaba por resultar no aumento exponencial do terrorismo que supostamente queria combater, é bastante para que se conclua ser necessário e urgente o tratamento das democracias ocidentais. Como disse o social-democrata Miguel Veiga, a propósito do livro de Saramago, a democracia está sujeita a «perturbantes derivas, que é preciso corrigir», antes que esta rota a fira de morte.
Em Hong Kong, as legítimas aspirações dos democratas conhecem livremente expressão numa comunicação social que se supõe controlada por um poder adjectivado pejorativamente de «pró-Pequim», onde se noticia, com manifesto exagero e óbvia intenção, a morte do princípio «um País, dois sistemas».
De resto essa mesma comunicação social, como as liberdades individuais e colectivas de manifestação, são utilizadas para fazer passar a ideia de que o poder central está a usurpar direitos que não tem. A interpretação que o comité permanente da Assembleia Nacional Popular fez da Lei Básica de Hong Kong foi equilibrada. Não é preciso ser-se doutor de leis para perceber que em lado nenhum da «mini-constituição» da RAEHK aparece escrito que tem que haver eleições directas e universais já em 2007, como também nunca surge que tal não é possível. Foi isso que os legisladores clarificaram.
Na mais desconfortável questão da necessidade de aval prévio de Pequim a qualquer alteração na eleição do Chefe do Executivo, essa é, de facto, uma leitura plausível do que ingleses e chineses deixaram escrito. Já na eleição do Conselho Legislativo o caso é diferente e aparece diferentemente tratado na Lei Básica – como foi diferentemente interpretado pelos mais de 170 legisladores de Pequim.
Assim, a questão da interpretação da Lei Básica de Hong Kong volta ao terreno em que, de facto, se joga: o político. Está tudo em aberto, tudo é possível. O governo central deu provas de abertura política ao admitir, expressamente, que 2007 pode ser o ano em que alterações podem ter efeito. Assim os democratas têm terreno, à luz da interpretação de Pequim, para forçar em Hong Kong passos no sistema eleitoral que conduzam a eleições directas e universais para o Conselho Legislativo. É no terreno político que isso se vai jogar. Falta conhecer a capacidade de mobilização e poder de intervenção que os democratas têm agora que não já se pode atribuir o descontentamento popular às dificuldades económicas.

Havemos de voltar

7.4.04

Crónica do regresso

Sendo certo que ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, certo é que, para quem escreve regularmente num jornal, a ausência provoca, no regresso à crónica, um problema de actualidade que a escrita regular resolve. Pelo menos é esse o caso presente, pelo que se fará aqui uma revisão sem preocupações de imediatismo que geralmente estão presentes.
Neste contexto, surge a interrogação sobre a importância relativa de factos – algo que ao jornalista (geralmente) se põe sistematicamente, embora haja exemplos que a cada passo bradam à terra: a inqualificável importância e tempo de antena que se deu à inauguração de novas instalações da RTP é disso exemplo.
Questão: a esta distância temporal terá sido mais importante o atentado de 11 de março em Madrid ou as consequências eleitorais, espoletadas pelo comportamento do governo espanhol, que ele teve? Com todo o respeito pelas vítimas e suas famílias, pelas consequências civilizacionais e ilações decorrentes o resultado eleitoral teve maior importância.
Pouco importa saber se aos facínoras que cometeram os atentados de Madrid agradou o resultado. As acções terroristas deste novo tipo – as que radicam num suposto diferendo insanável entre ocidente e islão – não têm em conta o que apenas ao desenvolvimento das democracias ocidentais diz respeito, porque essas democracias, para o bem e para o mal, continuarão a ser construidas pelos povos desses países, quantas vezes ao arrepio dos seus governos, enquanto os desejos dos fundamentalistas se baseiam em desejos de poder, contrários aos desejos populares, obviamente.
Inquestionável é que o povo espanhol, bem diferente do americano, tirou ilações muito precisas do sigificado dos atentados de Madrid. Envolto ainda em dor, soube perceber a dupla ignomínia de Aznar e seus sucessores, que num só acto pretenderam alijar responsabilidades políticas pela participação no conflito iraquiano e simultaneamente as consequências da relação entre a essa decisão e os atentados. Uma bela resposta foi dada pelos eleitores espanhóis, que só fortalece a decisão do primeiro ministro eleito e demonstra a superioridade do sistema, nunca podendo, pois, a decisão de retirar as tropas do Iraque ser entendida como capitulação ou cedência aos terroristas. São questões diferentes, que não se devem misturar, ao contrário da sarrabulhada que Bush, Blair e Aznar propositadamente cozinharam para dar avançar no aventureirismo.
Seja o povo norte americano capaz de perceber a experiência espanhola.
Ainda com os atentados de Madrid como pano de fundo, ficou a saber-se através de sondagens o que já se esperava: os portugueses temem que a qualquer momento sejam vítmas de um atentado, apesar de tudo indicar que os esforços de Durão Barroso para pôr Portugal como alvo potencial saíram gorados. De qualquer forma o foguetório de páscoa, potenciado pelo nobre cagaço lusitano, promete.

A China marca pontos. Sem necessidade de exercícios de retórica, simplesmente, contrapõe a inqualificável e concreta situação dos detidos de Guantanamo às acusações difusas sobre violações de direitos humanos de que é alvo. Simultaneamente obtém a preciosa ajuda do deplorável exercício de democracia que foram as eleições em Taiwan, cujo desfecho é ainda imprevisível, apesar do recurso a investigadores criminais norte americanos para esclarecer o sucedido. Dos «liberais» de Hong Kong (e de Macau, já agora) espera-se uma tomada de posição sobre os acontecimentos: fazer política não pode ser alarido em tempos favoráveis e recolher à toca quando os ventos correm adversos. Depois de tantos silêncios comprometedores este é um momento em que uma tomada de posição seria esclarecedora.


Ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, muito menos onde ele esteve, ou como de lá voltou. Certo é que este foi à terra dos cabeças de peixe e a encontrou mais bela na sua simplicidade, recuperada embora ainda muito carente, feliz entre a pobreza, cheia de sons e cores e risos e olhares luminosos, sobretudo grande, muito grande, porque única e sempre olhando horizontes que não têm fim, porque o mar como o deserto nunca acabam na vista humana. Mesmo se algum homem lhes achasse o fim, a sua imaginação e engenho o fariam ganhar novo horizonte.

Havemos de voltar