Sem ministro
Não se ouviram brados de indignação pelo cancelamento da visita que o então ministro da Educação de Portugal viria fazer a Macau. Surgiu um comentário mais incendiário alí, outro acolá, mas tem razão quem disse que, sem sentido, seria a vinda de um ministro que o seria à partida, mas já não à chegada. O que viria fazer David Justino a Macau? Nada, porque quando cá chegasse o governo que integrava não seria mais que os destroços em gestão de um executivo abandonado à sua triste sina por um primeiro-ministro em debandada.
Faça-se justiça a Justino: foi a última, mas excelente decisão. Porque não fez em tempo útil, o tempo se encarregou de o fazer inútil. Como já estamos habituados, só o cenário mudou, a banda sonora é a do costume. Afinal, alguém acreditava que ía haver novo currículo na Escola Portuguesa de Macau no próximo ano lectivo? Além do mais, tal seria inaceitável, já que a inscrição dos alunos corresponderia à passagem de um cheque em branco à decisão tomada, já que ia surgir em cima do período de matrículas. Portanto, reste a fé a quem a tenha de que o próximo será melhor.
Por Portugal
Apesar de tudo há que estar solidário com o ministro, como se deve ser complacente com todas as vítimas da desgraça: por muitos avisos que se façam a quem prossegue em caminho errado, quando o malho chega a recriminação não é o melhor remédio.
Assim foram sendo lançados alertas contra o caminho que o governo português seguia. Sendo bem verdade que um mal nunca vem só, eis que à crise económica se junta agora a crise política. O problema agora é que habitualmente não há duas sem três – só faltava Santana Lopes suceder dinasticamente, em golpe palaciano cujos contornos, reconheça-se, estão bem urdidos.
Durão Barroso deu às-de-Vila-Diogo, como era de prever, e quer agora passar o ónus da fuga para o presidente português, caso, como aconselha a sensibilidade política expressa na opinião das mais avisadas personalidades locais, opte por dissolver o parlamento e convocar eleições que legitimem um novo primeiro-ministro – como, apesar da coligação pós-eleitoral, este estava. Um primeiro-ministro não sufragado de uma coligação de bastidores seria, ao contrário do que diz o candidato a governante, coisa nunca vista em democracias adultas. De resto, e contra a verborreia populista de Santana Lopes, concorre desde logo o facto de nenhum outro primeiro-ministro em funções ter aceite abandonar o mandato para que tinha sido eleito, a começar pelo próprio irlandês que encontrou em Durão o mínimo denominador comum que lhe salvou a presidência do Conselho.
Vá então Durão à vida e prove a sorte que santos da casa não fazem milagres.
Todos à Torre
Em boa hora a Casa de Portugal em Macau decidiu avançar para uma iniciativa que pode envolver muita gente numa festa memorável. Esta é uma na ‘mouche’. O local escolhido é o mais certo: amplo, agradável, e alheio a conotações ou alergias que um qualquer outro mais tradicional pudesse causar; o momento é entusiasmante, sendo já evidente que as madrugadas futeboleiras têm envolvido muita gente que habitualmente até se alheia do futebol; parece garantida a presença de quantidade suficiente de gente para que não se centre a iniciativa nesta ou naquela personalidade; torna-se o evento (palavra tão de Macau, esta) aberto a todos, aos distraídos e circunstantes, eliminando-se empecilhos em que tropeçamos todos os dias; sobretudo, põe-se à disposição de quem quiser, sem convites nem ameias, um local para se conviver e partilhar emoções, descarregar energias, celebrar alegrias e dispender considerações, regar o esófago e desgastar a laringe, enrouquecer saudavelmente enquanto se cospem unhas roídas, enfim, tudo o que faz de um jogo de futebol decisivo um momento só repetível na final ansiada. Afinal, a tantos milhares de quilómetros do palco original, quem não quer encurtar distâncias? Bolas!
Dar bandeira
Pretendeu um leitor corrigir a última crónica aqui publicada onde se dizia que o apelo de Luiz Felipe Scolari tinha produzido o efeito de uma febre de ostentação do estandarte português por alturas do Euro 2004. Dizia a prosa que tinha sido Marcelo Rebelo de Sousa, e não o seleccionador de Portugal, o autor da ideia. Vamos então atribuir o seu a seu dono: Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, fala na televisão sobre o assunto, referindo-se a uma carta que recebera de um jovem, Bernardo Teotónio Pereira, que lançava o apelo, sendo então, e até melhor opinião, quem poderá reclamar os louros. Bernardo Senna Fernandes, o leitor, omitiu essa parte. Como não quis perceber que foi, efectivamente (e pelo que nos é dado apreender a esta distância), a partir do apelo lançado por Scolari que as bandeiras começaram a surgir penduradas.
Por cá, ouvi um cabotino considerar «idiota» o acto de ostentar a bandeira portuguesa depois da vitória da selecção de futebol sobre a Inglaterra. Ridícula, a observação, de uma criatura esdrúxula, obviamente. Esperemos que haja razões para, após o jogo com a Holanda, poder partir-se em caravana festiva com tantas bandeiras quantas se queiram. Que se possa ver em Macau o que se observou na Praia, em S. Tomé, Maputo e Bissau, Luanda ou Díli, onde o passado não condiciona o presente individual e os laços históricos proporcionam a festa comum. Que isso possa depois ser mostrado ao Mundo, como aqui vemos as outras festas.
Havemos de voltar
29.5.04
11.5.04
A bola
Dizer que a bola é redonda nem sempre é uma verdade lapaliciana. Mesmo no jargão futebolês essa expressão é usada recorrentemente e com razão.
Porque o fenómeno onde a bola é mais popular provoca alterações de visão que a tornam num outro sólido de forma indefinida e muito ainda não nomeável. Uma das formas que o esférico adopta ultimamente poderá ser designada, se assim o quiserem os cronistas desportivos, por «cunhado» ou «alvalângulo». Naturalmente que o objecto terá que possuir lados e ângulos – aqueles por que o principal arauto do novo sólido geométrico decidir observar a bola, que como se sabe, o presidente «leonino» já o sabia antes de muitos de nós, também tem dois lados: o de dentro e o de fora. Tinha, porque a bola que rola aos olhos do tão respeitável quão tremeliquento (por que será?) senhor tem muitos mais. Quando hezagonal provocas faltas invisíveis às restantes dezenas de milhares de olhos presentes no mesmo recinto – mas que resultam em indigesto golo. Pelo menos octogonal quando transformam os 11, ou 23, ou quantos foram, que a ela andaram ao biqueiro durante nove meses para parirem uma modesta prestação, constituindo-se, apesar de tudo, na melhor equipa do campeonato. Trata-se, obviamente, de uma questão de sistema, ou de falta dele – o táctico, obviamente. Outra hipótese é tratar-se de contaminação pelo vapores bafientos da nobreza que empestam o novo Alvalade viscondal.
Dizer que a bola é redonda, em desporto, não é o mesmo que dizer que um quadrado tem quatro lados. Pela mesma razão que dizer que um homem tem dois pés não significa o mesmo se estivermos a falar de um carpinteiro ou de um futebolista. Por isso mesmo quando Geovani fuzilou Ricardo nenhum dos polícias presentes pensou em dar-lhe ordem de prisão por homicídio qualificado e bastamente testemunhado, nem sequer sair abraçado a ele em direcção ao balneário, com o chapéu em baixo do braço, para lhe pedir a identificação.
É assim o mundo da bola, uma sociedade à parte, que pede emprestada aqui e ali a língua deste e daquele para lhe dar novos significados, que tem regras próprias e se mantém, no geral, fora das instâncias judiciais civis, a menos que se misturem os papéis e lá tenha a justiça dos homens que se meter com os homens da bola. É como quem diz: se o presidente da Câmara licenciar ilegalmente três loteamentos em troca de uma contribuição ao clube da terra, pode ter problemas por ser autarca, não sócio da agremiação. Se ao atleta for detectada cocaína no organismo, fica uns meses sem jogar em público, mas não chega a poisar as nalgas no madeiro do tribunal. Não interessa se de facto ou de jure, certo é que há duas medidas e pelo menos outros tantos pesos.
Os cidadãos mais avessos ao fenómeno desportivo tendem a ver nisto se não o fim do Mundo pelo menos sinal inequívoco de que ele está perdido. Inquietam-se alguns da cultura com a alienação, da religião com as faltas ao sacramento, do intelecto com a brutalidade, outros, avulsos, com não perceberem as regras. A bola, essa, lá vai girando, e quando pára gera suspiros.
A bola faz mais pela Paz, pela Felicidade, pelas Culturas, pela economia e pela cooperação do que os protagonistas do jogo pretendem. Obviamente, muito mais do que o que os dirigentes dos clubes alguma vez pretendem – eles que ambicionam, regra geral, metas materiais e proventos pessoais que nada têm que ver naqueles valores. Mas a bola é dos povos e sai do controlo dos Estados – por isso resulta, passa barreiras, ultrapassa dificuldades, obtem feitos impossíveis para comunidades que doutra forma se mantêm presas nas redes que os sistemas políticos criaram para envolver, e manietar, as sociedades.
Se assim não fosse, o Futebol Clube do Porto seria apenas «bimbo», não alcançaria, com nenhum Mourinho, a fama merecida e a glória conquistada que nenhuma outra instituição daquela atrasada região europeia obteve, se propõe ou sequer vislumbra.
Por isso, sem sequer fazerem ideia de quem foi Camões, nos confins da China há quem saiba uma palavra em português e a use quando precisam de dizer Bem Vindo Portugal. Que dizer quando, no desempenho de funções profissionais, a curadora da Fundação Oriente chegou a uma pequena cidade do interior da China e, tendo à sua espera alguém que não sabia como a identificar, leu num cartaz (com que o improvisado motorista se desenrascou) a palavra Benfica?
A bola, que até pode ser um ovo, um sabre, apenas uma fita, as mãos, consegue maravilhas. Seria estultícia pretender reduzir tudo à bola, tanto quanto tentar a quadratura do círculo. Mas é tempo para os que têm responsabilidades na difusão da língua e cultura perceberem que há formas menos arcaicas e gente menos vetusta para fazer florescer o que definha ricamente.
É assim o mundo da bola, universal, que dá para falar de tudo e tudo pôr em causa, provando que nem tudo o que é bola rola e, mais ainda, que nem tudo o rebola é redondo.
Havemos de voltar
Porque o fenómeno onde a bola é mais popular provoca alterações de visão que a tornam num outro sólido de forma indefinida e muito ainda não nomeável. Uma das formas que o esférico adopta ultimamente poderá ser designada, se assim o quiserem os cronistas desportivos, por «cunhado» ou «alvalângulo». Naturalmente que o objecto terá que possuir lados e ângulos – aqueles por que o principal arauto do novo sólido geométrico decidir observar a bola, que como se sabe, o presidente «leonino» já o sabia antes de muitos de nós, também tem dois lados: o de dentro e o de fora. Tinha, porque a bola que rola aos olhos do tão respeitável quão tremeliquento (por que será?) senhor tem muitos mais. Quando hezagonal provocas faltas invisíveis às restantes dezenas de milhares de olhos presentes no mesmo recinto – mas que resultam em indigesto golo. Pelo menos octogonal quando transformam os 11, ou 23, ou quantos foram, que a ela andaram ao biqueiro durante nove meses para parirem uma modesta prestação, constituindo-se, apesar de tudo, na melhor equipa do campeonato. Trata-se, obviamente, de uma questão de sistema, ou de falta dele – o táctico, obviamente. Outra hipótese é tratar-se de contaminação pelo vapores bafientos da nobreza que empestam o novo Alvalade viscondal.
Dizer que a bola é redonda, em desporto, não é o mesmo que dizer que um quadrado tem quatro lados. Pela mesma razão que dizer que um homem tem dois pés não significa o mesmo se estivermos a falar de um carpinteiro ou de um futebolista. Por isso mesmo quando Geovani fuzilou Ricardo nenhum dos polícias presentes pensou em dar-lhe ordem de prisão por homicídio qualificado e bastamente testemunhado, nem sequer sair abraçado a ele em direcção ao balneário, com o chapéu em baixo do braço, para lhe pedir a identificação.
É assim o mundo da bola, uma sociedade à parte, que pede emprestada aqui e ali a língua deste e daquele para lhe dar novos significados, que tem regras próprias e se mantém, no geral, fora das instâncias judiciais civis, a menos que se misturem os papéis e lá tenha a justiça dos homens que se meter com os homens da bola. É como quem diz: se o presidente da Câmara licenciar ilegalmente três loteamentos em troca de uma contribuição ao clube da terra, pode ter problemas por ser autarca, não sócio da agremiação. Se ao atleta for detectada cocaína no organismo, fica uns meses sem jogar em público, mas não chega a poisar as nalgas no madeiro do tribunal. Não interessa se de facto ou de jure, certo é que há duas medidas e pelo menos outros tantos pesos.
Os cidadãos mais avessos ao fenómeno desportivo tendem a ver nisto se não o fim do Mundo pelo menos sinal inequívoco de que ele está perdido. Inquietam-se alguns da cultura com a alienação, da religião com as faltas ao sacramento, do intelecto com a brutalidade, outros, avulsos, com não perceberem as regras. A bola, essa, lá vai girando, e quando pára gera suspiros.
A bola faz mais pela Paz, pela Felicidade, pelas Culturas, pela economia e pela cooperação do que os protagonistas do jogo pretendem. Obviamente, muito mais do que o que os dirigentes dos clubes alguma vez pretendem – eles que ambicionam, regra geral, metas materiais e proventos pessoais que nada têm que ver naqueles valores. Mas a bola é dos povos e sai do controlo dos Estados – por isso resulta, passa barreiras, ultrapassa dificuldades, obtem feitos impossíveis para comunidades que doutra forma se mantêm presas nas redes que os sistemas políticos criaram para envolver, e manietar, as sociedades.
Se assim não fosse, o Futebol Clube do Porto seria apenas «bimbo», não alcançaria, com nenhum Mourinho, a fama merecida e a glória conquistada que nenhuma outra instituição daquela atrasada região europeia obteve, se propõe ou sequer vislumbra.
Por isso, sem sequer fazerem ideia de quem foi Camões, nos confins da China há quem saiba uma palavra em português e a use quando precisam de dizer Bem Vindo Portugal. Que dizer quando, no desempenho de funções profissionais, a curadora da Fundação Oriente chegou a uma pequena cidade do interior da China e, tendo à sua espera alguém que não sabia como a identificar, leu num cartaz (com que o improvisado motorista se desenrascou) a palavra Benfica?
A bola, que até pode ser um ovo, um sabre, apenas uma fita, as mãos, consegue maravilhas. Seria estultícia pretender reduzir tudo à bola, tanto quanto tentar a quadratura do círculo. Mas é tempo para os que têm responsabilidades na difusão da língua e cultura perceberem que há formas menos arcaicas e gente menos vetusta para fazer florescer o que definha ricamente.
É assim o mundo da bola, universal, que dá para falar de tudo e tudo pôr em causa, provando que nem tudo o que é bola rola e, mais ainda, que nem tudo o rebola é redondo.
Havemos de voltar
5.5.04
Mensagem ao Mundo em particular
Transcrição de um discurso captado por satélite de origem desconhecida mas destinatário identificado:
Caros árabes em geral,
Como certamente já tiveram oportunidade de saber, através das televisões que difundem a verdade pelo Mundo, estou profundamente chocado. Contaram-me que uns rapazes que mandei libertar-vos, depois de vos meterem na prisão sem que ninguém os mandasse, fizeram coisas incrivelmente divertidas que, no entanto, dizem-me para dizer que são más. Em boa verdade não vejo qual é o problema de empilhar umas dúzias de prisioneiros e posar para a fotografia atrás deles. Para todos os efeitos são prisioneiros, se estão presos é porque são maus e se são maus muito provavelmente gostam do Bin Laden. Obviamente pelo menos gostam do Saddam, se não não estariam presos. Mesmo que tenha havido algum engano e não gostem assim tanto desse ditador de que vos livrámos, tenho a certeza de que pelo menos são dos que acham que a terra deles deve ser governada por eles próprios, o que é um péssimo princípio que, nas circunstâncias actuais, justificam que estejam presos.
Acho mesmo que deviam estar-nos agradecidos, uma vez que ninguém se lembrou de os mandar para Guantanamo, onde, como se sabe, é muito pior a convivência com o barbudo comunista do que as condições de detenção em que os mantemos. Nem percebo por que é que os nossos aliados, até ingleses, acham mal, quando até vendas nos olhos lhes pomos para não verem aquele inferno comunista. Enfim, a ingratidão é algo que não me surpreende.
Mas não foi para estas reflexões profundas sobre política e estratégia à escala planetária que decidi falar-vos, caros árabes em geral. Não posso esquecer-me de que estou profundamente chocado e que isso é o mais importante que tenho para dizer-vos. Acho mesmo que, inspirando-me na minha conselheira, será um achado comunicacional enviar-vos as minhas condolezas, como dizemos lá no Texas. Hábitos que nos vêm de longe, como calculais.
Como sabeis tenho andado muito ocupado ultimamente em resolver a questão israelita de forma pacífica. A paz em Israel é um objectivo de todo o Mundo civilizado, portanto temos que exterminar aqueles radicais mais atrasados que andam com colchas na cabeça e que querem impedir o progresso na região.
Claro que quando me refiro a eles não os posso confundir com vocês, restantes árabes em geral, que apesar de também terem esse hábito para mim incompreensível de andar com o enxoval à cabeça têm a vantagem de nos receberem de braços abertos quando invadimos o vosso país. Por isso não percebi onde o meu secretário de Estado foi buscar aquela ideia de que a resistência é maior do que esperávamos. Como dizia, tenho andado muito ocupado com outras questões, sobretudo agora que tenho o Kerry à perna, e não me tem restado muito tempo para ver as notícias. De qualquer forma, poderoso como sou, calculam que tenha quem me diga o que se vai noticiando.
Uma coisa que não percebi bem foi por que razão a tropa que eu mandei libertar-vos se vos pôs a urinar em cima. No meu íntimo ainda estou convencido de que aquilo é montagem, mas disseram-me para vos pedir desculpa à mesma, não fosse dar-se o caso de se descobrir que a terceira síndroma do Golfo se começa a revelar por incontinência urinária. Também a depressão e o cansaço não é coisa para soldados e viu-se como eles foram afectados. O fundamental, no entanto, é que continuamos a recusar reconhecer o tal tribunal para julgar crimes de guerra, e assim não há perigo de aqueles que vos foram libertar serem um dia condenados por isso, se é que me faço entender. E ainda há quem diga que sou burro...
Caros árabes em geral e já agora aproveito para todos em particular: como é sabido a guerra de libertação do Iraque acabou, porque eu disse, há mais de um ano. Para ser preciso, faz amanhã um ano e oito dias. Reconheço que há para lá umas escaramuças e por isso decidi não só não tirar nenhuma da tropa que tinha dito que ia voltar como ainda mandei mais uns. É uma questão de lhes garantir a democracia, que vamos assegurar quando encontrarmos uns homens de bigode mais convincente que os que pusemos agora lá no governo. No outro dia ouvi dizer que com aqueles fatos vestidos eles não convencem ninguém, mas a verdade é que nós não os conseguimos convencer a vestir de outra maneira. Afinal são democratas que sempre conviveram connosco, e numa terra cheia de petróleo como aquela, então, o que queriam. Para andarem de saias iam para a Arábia Saudita, dizem eles, mas parece que em matéria de liberdades se sentem melhor num país em guerra. De qualquer forma isto são pormenores.
O que quero deixar claro a cada um de vós em geral é que a América nunca voltará atrás nesta decisão de impôr-vos a democracia. Prometi ao meu pai e agora, nem que quisesse não podia. Não sei muito bem que negócios é que foram feitos, mas sei que foram e eu sou Presidente e quem manda diz que tem que haver guerra em países com petróleo e assim é. Como sabem, tive a brilhante ideia de mandar para lá, agora, tropas africanas mas eles disseram que já têm problemas que cheguem. Enquanto eles lutavam nós vendiamos o petróleo, uma vez que basta olhar para o Mundo para perceber que eles são bons para a traulitada mas zeros à esquerda, ou mesmo à direita, na economia. A história há-de dar-me razão e confirmar esta como uma visão de diplomacia que há-de fazer escola.
Caro Mundo em particular, árabes em geral e eventualmente algum extraterrestre que tenha já percebido a dimensão do meu poder:
É tempo de terminar esta minha comunicação que serviu, convém lembrar porque até eu já me esquecia, para dizer que estou inconsolável com as o que se passou no Iraque. Não podiam ter feito aquilo no princípio, como as bombas de Napalm de que já ninguém se lembra e que portanto não entra na campanha eleitoral? Duvidam, então, do meu arrependimento? Quero dizer, eu não tenho que estar arrependido, aquilo são maçãs podres que lá andam no meio do ramalhete de malmequeres. Quer dizer, bem-me-queres.
Quê? Calar-me? Está bem.
Viva a liberdade, saudações democráticas deste vosso George W. C
Perdeu-se o sinal
Havemos de voltar
Caros árabes em geral,
Como certamente já tiveram oportunidade de saber, através das televisões que difundem a verdade pelo Mundo, estou profundamente chocado. Contaram-me que uns rapazes que mandei libertar-vos, depois de vos meterem na prisão sem que ninguém os mandasse, fizeram coisas incrivelmente divertidas que, no entanto, dizem-me para dizer que são más. Em boa verdade não vejo qual é o problema de empilhar umas dúzias de prisioneiros e posar para a fotografia atrás deles. Para todos os efeitos são prisioneiros, se estão presos é porque são maus e se são maus muito provavelmente gostam do Bin Laden. Obviamente pelo menos gostam do Saddam, se não não estariam presos. Mesmo que tenha havido algum engano e não gostem assim tanto desse ditador de que vos livrámos, tenho a certeza de que pelo menos são dos que acham que a terra deles deve ser governada por eles próprios, o que é um péssimo princípio que, nas circunstâncias actuais, justificam que estejam presos.
Acho mesmo que deviam estar-nos agradecidos, uma vez que ninguém se lembrou de os mandar para Guantanamo, onde, como se sabe, é muito pior a convivência com o barbudo comunista do que as condições de detenção em que os mantemos. Nem percebo por que é que os nossos aliados, até ingleses, acham mal, quando até vendas nos olhos lhes pomos para não verem aquele inferno comunista. Enfim, a ingratidão é algo que não me surpreende.
Mas não foi para estas reflexões profundas sobre política e estratégia à escala planetária que decidi falar-vos, caros árabes em geral. Não posso esquecer-me de que estou profundamente chocado e que isso é o mais importante que tenho para dizer-vos. Acho mesmo que, inspirando-me na minha conselheira, será um achado comunicacional enviar-vos as minhas condolezas, como dizemos lá no Texas. Hábitos que nos vêm de longe, como calculais.
Como sabeis tenho andado muito ocupado ultimamente em resolver a questão israelita de forma pacífica. A paz em Israel é um objectivo de todo o Mundo civilizado, portanto temos que exterminar aqueles radicais mais atrasados que andam com colchas na cabeça e que querem impedir o progresso na região.
Claro que quando me refiro a eles não os posso confundir com vocês, restantes árabes em geral, que apesar de também terem esse hábito para mim incompreensível de andar com o enxoval à cabeça têm a vantagem de nos receberem de braços abertos quando invadimos o vosso país. Por isso não percebi onde o meu secretário de Estado foi buscar aquela ideia de que a resistência é maior do que esperávamos. Como dizia, tenho andado muito ocupado com outras questões, sobretudo agora que tenho o Kerry à perna, e não me tem restado muito tempo para ver as notícias. De qualquer forma, poderoso como sou, calculam que tenha quem me diga o que se vai noticiando.
Uma coisa que não percebi bem foi por que razão a tropa que eu mandei libertar-vos se vos pôs a urinar em cima. No meu íntimo ainda estou convencido de que aquilo é montagem, mas disseram-me para vos pedir desculpa à mesma, não fosse dar-se o caso de se descobrir que a terceira síndroma do Golfo se começa a revelar por incontinência urinária. Também a depressão e o cansaço não é coisa para soldados e viu-se como eles foram afectados. O fundamental, no entanto, é que continuamos a recusar reconhecer o tal tribunal para julgar crimes de guerra, e assim não há perigo de aqueles que vos foram libertar serem um dia condenados por isso, se é que me faço entender. E ainda há quem diga que sou burro...
Caros árabes em geral e já agora aproveito para todos em particular: como é sabido a guerra de libertação do Iraque acabou, porque eu disse, há mais de um ano. Para ser preciso, faz amanhã um ano e oito dias. Reconheço que há para lá umas escaramuças e por isso decidi não só não tirar nenhuma da tropa que tinha dito que ia voltar como ainda mandei mais uns. É uma questão de lhes garantir a democracia, que vamos assegurar quando encontrarmos uns homens de bigode mais convincente que os que pusemos agora lá no governo. No outro dia ouvi dizer que com aqueles fatos vestidos eles não convencem ninguém, mas a verdade é que nós não os conseguimos convencer a vestir de outra maneira. Afinal são democratas que sempre conviveram connosco, e numa terra cheia de petróleo como aquela, então, o que queriam. Para andarem de saias iam para a Arábia Saudita, dizem eles, mas parece que em matéria de liberdades se sentem melhor num país em guerra. De qualquer forma isto são pormenores.
O que quero deixar claro a cada um de vós em geral é que a América nunca voltará atrás nesta decisão de impôr-vos a democracia. Prometi ao meu pai e agora, nem que quisesse não podia. Não sei muito bem que negócios é que foram feitos, mas sei que foram e eu sou Presidente e quem manda diz que tem que haver guerra em países com petróleo e assim é. Como sabem, tive a brilhante ideia de mandar para lá, agora, tropas africanas mas eles disseram que já têm problemas que cheguem. Enquanto eles lutavam nós vendiamos o petróleo, uma vez que basta olhar para o Mundo para perceber que eles são bons para a traulitada mas zeros à esquerda, ou mesmo à direita, na economia. A história há-de dar-me razão e confirmar esta como uma visão de diplomacia que há-de fazer escola.
Caro Mundo em particular, árabes em geral e eventualmente algum extraterrestre que tenha já percebido a dimensão do meu poder:
É tempo de terminar esta minha comunicação que serviu, convém lembrar porque até eu já me esquecia, para dizer que estou inconsolável com as o que se passou no Iraque. Não podiam ter feito aquilo no princípio, como as bombas de Napalm de que já ninguém se lembra e que portanto não entra na campanha eleitoral? Duvidam, então, do meu arrependimento? Quero dizer, eu não tenho que estar arrependido, aquilo são maçãs podres que lá andam no meio do ramalhete de malmequeres. Quer dizer, bem-me-queres.
Quê? Calar-me? Está bem.
Viva a liberdade, saudações democráticas deste vosso George W. C
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