5.5.04

Mensagem ao Mundo em particular

Transcrição de um discurso captado por satélite de origem desconhecida mas destinatário identificado:

Caros árabes em geral,

Como certamente já tiveram oportunidade de saber, através das televisões que difundem a verdade pelo Mundo, estou profundamente chocado. Contaram-me que uns rapazes que mandei libertar-vos, depois de vos meterem na prisão sem que ninguém os mandasse, fizeram coisas incrivelmente divertidas que, no entanto, dizem-me para dizer que são más. Em boa verdade não vejo qual é o problema de empilhar umas dúzias de prisioneiros e posar para a fotografia atrás deles. Para todos os efeitos são prisioneiros, se estão presos é porque são maus e se são maus muito provavelmente gostam do Bin Laden. Obviamente pelo menos gostam do Saddam, se não não estariam presos. Mesmo que tenha havido algum engano e não gostem assim tanto desse ditador de que vos livrámos, tenho a certeza de que pelo menos são dos que acham que a terra deles deve ser governada por eles próprios, o que é um péssimo princípio que, nas circunstâncias actuais, justificam que estejam presos.
Acho mesmo que deviam estar-nos agradecidos, uma vez que ninguém se lembrou de os mandar para Guantanamo, onde, como se sabe, é muito pior a convivência com o barbudo comunista do que as condições de detenção em que os mantemos. Nem percebo por que é que os nossos aliados, até ingleses, acham mal, quando até vendas nos olhos lhes pomos para não verem aquele inferno comunista. Enfim, a ingratidão é algo que não me surpreende.
Mas não foi para estas reflexões profundas sobre política e estratégia à escala planetária que decidi falar-vos, caros árabes em geral. Não posso esquecer-me de que estou profundamente chocado e que isso é o mais importante que tenho para dizer-vos. Acho mesmo que, inspirando-me na minha conselheira, será um achado comunicacional enviar-vos as minhas condolezas, como dizemos lá no Texas. Hábitos que nos vêm de longe, como calculais.
Como sabeis tenho andado muito ocupado ultimamente em resolver a questão israelita de forma pacífica. A paz em Israel é um objectivo de todo o Mundo civilizado, portanto temos que exterminar aqueles radicais mais atrasados que andam com colchas na cabeça e que querem impedir o progresso na região.
Claro que quando me refiro a eles não os posso confundir com vocês, restantes árabes em geral, que apesar de também terem esse hábito para mim incompreensível de andar com o enxoval à cabeça têm a vantagem de nos receberem de braços abertos quando invadimos o vosso país. Por isso não percebi onde o meu secretário de Estado foi buscar aquela ideia de que a resistência é maior do que esperávamos. Como dizia, tenho andado muito ocupado com outras questões, sobretudo agora que tenho o Kerry à perna, e não me tem restado muito tempo para ver as notícias. De qualquer forma, poderoso como sou, calculam que tenha quem me diga o que se vai noticiando.
Uma coisa que não percebi bem foi por que razão a tropa que eu mandei libertar-vos se vos pôs a urinar em cima. No meu íntimo ainda estou convencido de que aquilo é montagem, mas disseram-me para vos pedir desculpa à mesma, não fosse dar-se o caso de se descobrir que a terceira síndroma do Golfo se começa a revelar por incontinência urinária. Também a depressão e o cansaço não é coisa para soldados e viu-se como eles foram afectados. O fundamental, no entanto, é que continuamos a recusar reconhecer o tal tribunal para julgar crimes de guerra, e assim não há perigo de aqueles que vos foram libertar serem um dia condenados por isso, se é que me faço entender. E ainda há quem diga que sou burro...
Caros árabes em geral e já agora aproveito para todos em particular: como é sabido a guerra de libertação do Iraque acabou, porque eu disse, há mais de um ano. Para ser preciso, faz amanhã um ano e oito dias. Reconheço que há para lá umas escaramuças e por isso decidi não só não tirar nenhuma da tropa que tinha dito que ia voltar como ainda mandei mais uns. É uma questão de lhes garantir a democracia, que vamos assegurar quando encontrarmos uns homens de bigode mais convincente que os que pusemos agora lá no governo. No outro dia ouvi dizer que com aqueles fatos vestidos eles não convencem ninguém, mas a verdade é que nós não os conseguimos convencer a vestir de outra maneira. Afinal são democratas que sempre conviveram connosco, e numa terra cheia de petróleo como aquela, então, o que queriam. Para andarem de saias iam para a Arábia Saudita, dizem eles, mas parece que em matéria de liberdades se sentem melhor num país em guerra. De qualquer forma isto são pormenores.
O que quero deixar claro a cada um de vós em geral é que a América nunca voltará atrás nesta decisão de impôr-vos a democracia. Prometi ao meu pai e agora, nem que quisesse não podia. Não sei muito bem que negócios é que foram feitos, mas sei que foram e eu sou Presidente e quem manda diz que tem que haver guerra em países com petróleo e assim é. Como sabem, tive a brilhante ideia de mandar para lá, agora, tropas africanas mas eles disseram que já têm problemas que cheguem. Enquanto eles lutavam nós vendiamos o petróleo, uma vez que basta olhar para o Mundo para perceber que eles são bons para a traulitada mas zeros à esquerda, ou mesmo à direita, na economia. A história há-de dar-me razão e confirmar esta como uma visão de diplomacia que há-de fazer escola.
Caro Mundo em particular, árabes em geral e eventualmente algum extraterrestre que tenha já percebido a dimensão do meu poder:
É tempo de terminar esta minha comunicação que serviu, convém lembrar porque até eu já me esquecia, para dizer que estou inconsolável com as o que se passou no Iraque. Não podiam ter feito aquilo no princípio, como as bombas de Napalm de que já ninguém se lembra e que portanto não entra na campanha eleitoral? Duvidam, então, do meu arrependimento? Quero dizer, eu não tenho que estar arrependido, aquilo são maçãs podres que lá andam no meio do ramalhete de malmequeres. Quer dizer, bem-me-queres.
Quê? Calar-me? Está bem.
Viva a liberdade, saudações democráticas deste vosso George W. C

Perdeu-se o sinal

Havemos de voltar

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