17.2.04

Notícias de quarentena

São incompreensíveis, por vezes, os critérios que fazem com que algumas notícias ganhem honras de publicação e outras fiquem para sempre longe do público.
Nas redacções, naturalmente, discute-se o que deve merecer honras de divulgação e o que não interessa nem ao menino Jesus, muito menos aos leitores, ouvintes ou tele espectadores. Parte-se sempre do princípio de que é conhecido o perfil dos destinatários.
Há, no entanto, notícias que apenas por moda passam a constituir o nosso dia-a-dia informativo sem que seja analisada a importância que elas encerram. É o caso do folhetim bem vendido das chamadas eleições «primárias» norte americanas, em que os diligentes editores se ocupam a relatar a vitória (ou derrota) de um proto-candidato em eleições que não envolvem sequer uma centena de eleitores. O mais caricato é que esse mesmo número de eleitores é referido como se conferisse importância à notícia quando, efectivamente, só lhe retira.
Outras notícas, vá-se lá saber por quê, ficam eternamente no limbo, apesar de envolverem muito mais gente, problemas bem mais importantes, determinarem modificações fundamentais na vida e futuro de milhões de pessoas e, ainda por cima, dizerem-nos muito mais respeito – ou seja, os critérios que conferem importância a uma notícia.
A agência LUSA, (fonte credível e nunca suspeita de estar comprada pelo terrível polvo que é a tenebrosa corrupção angolana, onde, pelo que se publica, cada ministro não consegue virar uma esquina sem que lhe caia do bolso dinheiro sujo e não há negócio que não implique baús de dólares despachados de avião para a Suíça) noticiou há duas semanas que 29 mil, sim, vinte e nove milhares, de professores foram contratados em Angola para suprir faltas que, mesmo assim, vão continuar a fazer-se sentir. Apenas para o ensino primário.
Seria tomar o leitor por estulto discorrer aqui sobre a importância da educação, ainda mais quando falamos de um país destroçado. A contratação de 29 mil professores, em tal cenário, é uma medida de inequívoca importância.
Sendo o Governo angolano a jolda que, tão eméritas quanto desconhecidas organizações denunciam, a medida só pode ter sido tomada no âmbito de uma negociata cujos contornos, obviamente, escapam ao cidadão comum e mesmo ao jornalista diligente. Diga-se a propósito que essas denúncias partem habitualmente de ONG, ou seja, organizações não governamentais.
Nos tempos que correm ser ONG corresponde a uma espécie de atestado de idoneidade que ninguém outroga e que serve, obviamente, para aproveitar o prestígio das primeiras associações que assim se deram a conhecer e que têm trabalho reconhecido e de inquestionável valor – a Médicos Sem Fronteiras é, apenas, uma delas. Descoberto o filão, muitas ONG aparecem em todos os terrenos com todos os fins.
Uma há – dados fornecidos por uma responsável da própria ONG, por sinal esposa do outro responsável, segundo e último membro da associação – que enquanto põe em prática o belo princípio de explicar aos necessitados como hão-de construir uma casa em Moçambique, aproveita para, a expensas dos Estados envolvidos (no caso Portugal e Moçambique), negociar na Europa ouro que compra na África do Sul. Tudo gente séria, no entanto, capaz de denunciar o primeiro acto corrupto do polícia de trânsito de Nampula.
Outras há, mais descaradas, que não passando de associações políticas – e sendo associações são, obviamente, não governamentais! – enganam o distraído enquanto prosseguem o seu único objectivo: a propaganda.
Facto é que, passados quinze dias sobre a notícia da LUSA, não houve ainda uma ONG que viesse explicar os malefícios da contratação de 29 mil professores. Cumprido, pois, o período de quarentena, podemos tomar a notícia, pelo menos, como verdadeira. O que certamente, o milhão de crianças que vai beneficiar com a medida em Angola não agradecerá tanto hoje como no futuro, mas é assim a infância.
Habituados que estamos a epidemias como a síndroma respiratória aguda e epizootias como a gripe das aves, sabemos bem que os períodos de quarentena variam, quando se aplicam. O período de incubação do vírus da síndroma respiratória aguda, salvo erro, é de 14 dias. Findo esse prazo, o indivíduo suspeito de ter contraído a doença podia respirar de alívio e fazer o seu caminho. Já qualquer franganote que tenha tido o azar de conviver com galináceo infectado não tem direito sequer direito a quarentena onde possa rezar as últimas preces – é extermínio certo e imediato.
Foi o que aconteceu à notícia da LUSA sobre os professores, naqueles periódicos que tudo sabem e publicam sobre Angola.

Havemos de voltar

4.2.04

Contribuição atípica para a discusão curricular

Não é ruído comunicacional, mas muito barulho o que se ouve em torno da reforma curricular da Escola Portuguesa de Macau. Parece que ninguém sabe bem o que se está a discutir, com razão. De quem compete expôr as regras só se obtêm adiamentos. Quem cá está, sem poder decisório nem capacidade de intervenção, vai fazendo o que não envergonha, ou se calhar apenas respondendo àquilo que lhe perguntam.
Há, no entanto, algumas conclusões iniludíveis: a primeira é que o Ministério da Educação português faz tarde, e mal, o que se comprometeu a fazer. A segunda, que em Macau quem se relaciona com a Ecola Portuguesa não consegue consensualizar sobre o fuuro que deseja. Em terceiro, e mais grave, que nem uns nem outros pensam a presença do ensino («de matriz», como gostam de dizer) em português com perspectivas de futuro.
Tudo parte de Portugal, sem dúvida. É ao Ministério da Educação do governo português que cabem as decisões – mas de lá só chegam indecisões e adiamentos. Nada de espantar, nem inédito, de resto. Os que acham que lá não percebem nada do que aqui se passa ganham, dia a dia, novos argumentos para sustentar a tese. À boa maneira portuguesa, um presidente com ar vagamente chinês basta para gerir a presença lusa na que sería a pérola do Oriente.
Na dúvida, por cá, vai-se discutindo o menor. Quando o que se quer saber é qual a língua a ensinar (sendo que língua, por estas paragens, há só uma), põe-se a hipótese do ensino do dialecto cantonense. Ao que consta a discussão chega a Lisboa.
É neste ponto que é de justiça elogiar as recentes declarações do deputado Leonel Alves: evitando entrar em polémicas, explicou aos incautos que o importante é os ensinandos conseguirem decifrar «os riscos». Isso mesmo: ler chinês.
Parce indiscutível que, a quem chegue à Ásia e se instale em Macau, interesse, se for caso disso, dar uma educação que proporcione futuro a um filho em idade escolar. Concretizando: chegados agora dos Estados Unidos, para trabalhar num dos casinos que os magnatas aí vão abrir, com a perspectiva de permanência de cinco anos (o ensino primário, ou secundário, grosso modo), os pais de uma criança queiram assegurar-lhe uma educação que garanta algo no futuro. A aprendizagem do Mandarim é, sem dúvida, uma mais valia, aqui em Macau, em Guangdong ou em Nova Iorque. O cantonense servirá para quê?
Serve o exemplo para se porem questões: não deverá a Escola Portuguesa assumir-se definitivamente como um estabelecimento de ensino elitista, de qualidade, prestigiado, que atraia e garanta a formação dos melhores filhos da cidade de Macau? E assim assegurar propinas que lhe garantam a existência? Ou deverá, em alternativa, ser o espelho da curta visão dos emigrantes que aqui vêm passar uns anos e amealhar uns cobres, sem cuidarem (como não o fizeram durante séculos) de projectar o português com perspectivas de futuro? Por que raio hão-de ser canadianos, americanos ou ingleses a abrir a escola «referência» aqui em Macau?
É isso mesmo que se anda a pedir!
É certo que há um parti pris de algumas gerações mais recentes de chineses de Macau em relação ao que tem origem portuguesa. Embora compreensível, a atitude não é sustentável. Além do mais está a degenerar num inacreditável clima de distanciamento que só resulta numa crescente diminuição das aptidões de gestão nos organismos públicos. Em Macau está a surgir um «terceiro sistema» - social, este. Não é o primeiro por razões óbvias. Não é o segundo, porque não foi esse que o primeiro assinou em tratado internacioalmente registado. É aquele que faz com que o é avançado na gestão seja mau porque tem origem preconceituada, mas opta por regredir em todos os conceitos, porque não sabem mais.
Não seria a Escola Portuguesa o sítio onde se deveriam formar os governantes e administradores do Macau do futuro. Parece óbvio que sim, face à propaganda que vende Macau como uma terra do não-sei-quê entre o Ocidente com o Oriente.
Não se vê é nada. As nuvens vão baixas e não admira, portanto, que quem vem do continente estranhe o comportamento das gentes daqui, e os de cá não se identifiquem com a forma de funcionar mesmo dos que mandam na terra – como parece provar a recente sondagem divulgada, que revela o que todos já sabiamos: o Chefe é grande, à sua volta é o deserto.
O caso é mais grave do que a paz reinante permite viver. Macau vive, na comunidade portuguesa, que não sabe olhar o futuro nem perspectivar uma presença actualizada no Oriente, do dia-a-dia. A comunidade chinesa, a que tem todas as responsabilidades agora, não diz nada e não quer mais que ser mandada.
Razão tem, pois, quem diz que democracia à moda Ocidental não é para aqui. Pelo que nos é dado ver, não faz falta a ninguém.

Havemos de voltar

1.2.04

Contra a morte

Estou tolhido pelo frio.
Estou mirrado por uma gripe que não me larga.
Estou deprimido por não ver o sol nem sentir a fotosíntese a que temos direito há já muitos dias.
Estava já triste com tudo isto e por ter passado horas demais a dormir decidi acordar a horas de ouvir o relato do Guimarães – Benfica. Gozava esses momentos quentes entre lençóis, com a rádio em fundo, e entre tossidelas, senti algum conforto.
Apeteceu-me pensar que ia ser a nossa vez, que nos últimos minutos íamos marcar, e cumprir a nossa obrigação.
E marcámos. Marquei eu ao acertar na previsão, marcou o Aguiar, na molhada, quando a bola lhe foi parar aos pés.
Era ainda noite, e noite ía continuar a ser, prometendo aquele sono sem igual que cai sobre nós quando o dia raia.
Há sempre um melhor aconchego que se consegue na almofada quando se chama pelo sono pensando em algo agradável. Deixei a bola e pensei em ti, fora, distante e bela, com promessas de viagens que se hão-de fazer. São os momentos em que do sono passamos ao sonho, ainda acordados, e por uma vez os comandamos. Assim adormeço todos os dias, em instantes tranquilos.
Mas o jogo não acabou. Os camaradas da Antena 1 falavam de «lesão grave», seguramente, do Miguel com as mãos na cabeça e o Tiago lavado em lágrimas.
Não percebi. Amo a Rádio, como os livros. Deixar que um dos sentidos comande todos os outros, levar a nossa imaginação a produzir a imagem completa que, imperfeita, nos é transmitida, é exercício que não dispenso. Mas não imaginei que tudo vinha de uma queda desamparada que tudo mudou.
Estou ainda tolhido pelo frio, melhor da gripe, mas mais triste. Muito mais triste.
De há uns (poucos) anos a esta parte tenho uma cada vez pior relação com a morte. Não a minha morte, que essa trato-a por tu e não temo que chegue. Falo da morte injusta, como sempre que ela atinge alguém que não tenha, pelo menos, idade bastante. Da morte traiçoeira, que chega sem avisar. Da morte bastarda, que faz sofrer e diminui antes de lavrar a derradeira ceifa. Não consigo aceitar, nem explicar.
Foi o Miki, um dos nossos rapazes. Sim, aqueles rapazes são nossos e nós deles. Eles sabem que as alegrias são de todos, as tristezas igualmente. Nós tratamo-los pelo nome, eles sabem que nós existimos e eles são grandes porque somos todos do emblema. Cresci no tempo em que se combatia esses sentimentos clubistas e até se lhes chamava alienação. Quem o dizia pouco percebia do que é a grandeza da alma humana quando comunga.
Seria redundante, agora, enaltecer a forma como todos, sem filosofar, perceberam e expressaram o valor que atribuem à vida quando confrontados com a fragilidade deste valor maior que temos e que em tantas outras situações se dilui.
Algum de nós se refere com o mesmo sentimento quando se trata de dezenas de vítimas de calamidades, centenas de perdas em acidentes, milhares de perdidos em combate, com a noção do valor da vida que um, apenas um jovem provocou em todo o Mundo? É o Mundo que tem feito com que a vida perca valor, e não me conformo.
Pouco sobra: resta a família e o futebol.
Estava triste com falta de sol, de calor, de carinho que o frio afasta. Mais triste fiquei quando a morte me atacou, assim, a meio da madrugada. Pior fiquei por pensar no que acabo de partilhar com vocês. E não me conformo, e não aceito a morte, e não quero viver assim.
Não consigo pensar noutra coisa. Por isso, por uma vez, ocupo estas linhas falando na primeira pessoa, uma vez que será, espero, única.
Que seja entendido como homenagem ao Miki, e, nos jovens, à vida – valor inalienável e tão desconsiderado.

Havemos de voltar