1.2.04

Contra a morte

Estou tolhido pelo frio.
Estou mirrado por uma gripe que não me larga.
Estou deprimido por não ver o sol nem sentir a fotosíntese a que temos direito há já muitos dias.
Estava já triste com tudo isto e por ter passado horas demais a dormir decidi acordar a horas de ouvir o relato do Guimarães – Benfica. Gozava esses momentos quentes entre lençóis, com a rádio em fundo, e entre tossidelas, senti algum conforto.
Apeteceu-me pensar que ia ser a nossa vez, que nos últimos minutos íamos marcar, e cumprir a nossa obrigação.
E marcámos. Marquei eu ao acertar na previsão, marcou o Aguiar, na molhada, quando a bola lhe foi parar aos pés.
Era ainda noite, e noite ía continuar a ser, prometendo aquele sono sem igual que cai sobre nós quando o dia raia.
Há sempre um melhor aconchego que se consegue na almofada quando se chama pelo sono pensando em algo agradável. Deixei a bola e pensei em ti, fora, distante e bela, com promessas de viagens que se hão-de fazer. São os momentos em que do sono passamos ao sonho, ainda acordados, e por uma vez os comandamos. Assim adormeço todos os dias, em instantes tranquilos.
Mas o jogo não acabou. Os camaradas da Antena 1 falavam de «lesão grave», seguramente, do Miguel com as mãos na cabeça e o Tiago lavado em lágrimas.
Não percebi. Amo a Rádio, como os livros. Deixar que um dos sentidos comande todos os outros, levar a nossa imaginação a produzir a imagem completa que, imperfeita, nos é transmitida, é exercício que não dispenso. Mas não imaginei que tudo vinha de uma queda desamparada que tudo mudou.
Estou ainda tolhido pelo frio, melhor da gripe, mas mais triste. Muito mais triste.
De há uns (poucos) anos a esta parte tenho uma cada vez pior relação com a morte. Não a minha morte, que essa trato-a por tu e não temo que chegue. Falo da morte injusta, como sempre que ela atinge alguém que não tenha, pelo menos, idade bastante. Da morte traiçoeira, que chega sem avisar. Da morte bastarda, que faz sofrer e diminui antes de lavrar a derradeira ceifa. Não consigo aceitar, nem explicar.
Foi o Miki, um dos nossos rapazes. Sim, aqueles rapazes são nossos e nós deles. Eles sabem que as alegrias são de todos, as tristezas igualmente. Nós tratamo-los pelo nome, eles sabem que nós existimos e eles são grandes porque somos todos do emblema. Cresci no tempo em que se combatia esses sentimentos clubistas e até se lhes chamava alienação. Quem o dizia pouco percebia do que é a grandeza da alma humana quando comunga.
Seria redundante, agora, enaltecer a forma como todos, sem filosofar, perceberam e expressaram o valor que atribuem à vida quando confrontados com a fragilidade deste valor maior que temos e que em tantas outras situações se dilui.
Algum de nós se refere com o mesmo sentimento quando se trata de dezenas de vítimas de calamidades, centenas de perdas em acidentes, milhares de perdidos em combate, com a noção do valor da vida que um, apenas um jovem provocou em todo o Mundo? É o Mundo que tem feito com que a vida perca valor, e não me conformo.
Pouco sobra: resta a família e o futebol.
Estava triste com falta de sol, de calor, de carinho que o frio afasta. Mais triste fiquei quando a morte me atacou, assim, a meio da madrugada. Pior fiquei por pensar no que acabo de partilhar com vocês. E não me conformo, e não aceito a morte, e não quero viver assim.
Não consigo pensar noutra coisa. Por isso, por uma vez, ocupo estas linhas falando na primeira pessoa, uma vez que será, espero, única.
Que seja entendido como homenagem ao Miki, e, nos jovens, à vida – valor inalienável e tão desconsiderado.

Havemos de voltar

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