12.1.04

O bom exemplo francês

É à França que a cultura e a política ocidental deve os fundamentos da moderna civilização em que vive. A Revolução Francesa implantou e alastraram, porque bons, os princípios da Liberdade, Igualdade e Fraterninade que a enformaram.
As políticas dominantes nas últimas décadas, mais marcadas pelas concepções anglo-saxonicas e liberais, iniciadas pela temível dupla Margaret Thatcher / Ronald Reagan, a par da impossibilidade prática de contrariar a expansão da cultura mercantilista, fizeram com que Igualdade e Fraterninade sejam valores hoje secundarizados.
Hoje, presidida por um político insuspeito de tendências revolucionárias ou teses esquerdistas, mas sempre fiel aos princípios de Humanismo que fundaram a República, a França volta a dar ao Mundo exemplos de progresso civilizacional.
Em tempos marcados pelo suposto «choque de civilizações» a França não recua nos princípios, mas recusa o simplismo e a agressividade, apostando para encontrar soluções naquilo que efectivamente faz do Homem a mais maravilhosa criatura da Natureza: pensar.
Políticos, investigadores, académicos, diplomatas e jornalistas foram convidados a debater, desde o passado fim de semana, em Paris essa teoria do «choque de civilizações» entre o Ocidente e o Oriente. Os participantes convidados pela associação Euro-Mediterrâneo, coligiram, durante três dias, argumentos contrariando a tentar a ideia de que o confronto entre a civilização ocidental e o islamismo é inevitável. Partem do princípio da absoluta necessidade de promoção do diálogo entre as civilizações, em contraponto à tese de Samuel Huntington, assentes na inevitabilidade do choque entre os países com culturas judaico-cristã e os muçulmanos e confucionistas. Sintomaticamente, os mentores das políticas que se baseiam nessa teoria (embora não a defendam abertamente) recusaram os convites para participar no fórum.
Neste cenário, como se comporta o presidente francês, Jacques Chirac? Simultaneamente reafirmando os princípios da sociedade francesa, em diversos e não pacíficos assuntos. Aos dilemáticos voltou a afirmar o empenhamento francês na constituição de uma força de defesa europeia, absolutamente compatível com a NATO, e fundamental para travar os desmandos norte-americanos; e não recuou na indmnização exigida à Líbia por um atentado contra um avião francês, menos mediático que o de Lockerbie, é certo, mas que provocou 170 mortos, em 1989, no deserto de Ténéré, na Nigéria.
Internamente, reafirmou os princípios de laicidade do Estado, que aos poucos vão sendo postos em causa, um pouco por todo o lado. Obviamente, no Islão radical, com os péssimos resultados que se vêm em matéria de acesso ao ensino ou liberdades individuais. Mas também no Ocidente, onde ainda há países de amplas liberdades a obrigar ao ensino de que a origem do Homem é Deus, e ponto final. Face a esses fundamentalismos, Chirac lembra que os «sinais ostensivos de pertença religiosa» são para ficar afastados das escolas e do funcionalismo público francês. Assim, a necessária «neutralidade do serviço público» numa sociedade multicultural como a francesa leva a que o véu islâmico, a kippa dos judeus e os crucifixos católicos, ficam fora das salas de aula e das repartições públicas. Enfrentando embora protestos, a lei que tal determina avança, e deve ser aplaudida. Porque, de facto há que separar águas.
Não significa isso, no entanto, o esquecimento dessa fundamental componente da humanidade que é a religião. Recentemente o presidente francês recebeu cumprimentos de ano novo dos representantes das diferentes comunidades religiosas existentes em França, e aproveitou a ocasião para explicar os contornos da medida. Lá estava, pela primeira vez, o presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano e simultaneamente reitor da mesquita de Paris, a par do cardeal-arcebispo de Paris e do grande rabino de França.
Assim, sim.

Havemos de voltar

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