É à França que a cultura e a política ocidental deve os fundamentos da moderna civilização em que vive. A Revolução Francesa implantou e alastraram, porque bons, os princípios da Liberdade, Igualdade e Fraterninade que a enformaram.
As políticas dominantes nas últimas décadas, mais marcadas pelas concepções anglo-saxonicas e liberais, iniciadas pela temível dupla Margaret Thatcher / Ronald Reagan, a par da impossibilidade prática de contrariar a expansão da cultura mercantilista, fizeram com que Igualdade e Fraterninade sejam valores hoje secundarizados.
Hoje, presidida por um político insuspeito de tendências revolucionárias ou teses esquerdistas, mas sempre fiel aos princípios de Humanismo que fundaram a República, a França volta a dar ao Mundo exemplos de progresso civilizacional.
Em tempos marcados pelo suposto «choque de civilizações» a França não recua nos princípios, mas recusa o simplismo e a agressividade, apostando para encontrar soluções naquilo que efectivamente faz do Homem a mais maravilhosa criatura da Natureza: pensar.
Políticos, investigadores, académicos, diplomatas e jornalistas foram convidados a debater, desde o passado fim de semana, em Paris essa teoria do «choque de civilizações» entre o Ocidente e o Oriente. Os participantes convidados pela associação Euro-Mediterrâneo, coligiram, durante três dias, argumentos contrariando a tentar a ideia de que o confronto entre a civilização ocidental e o islamismo é inevitável. Partem do princípio da absoluta necessidade de promoção do diálogo entre as civilizações, em contraponto à tese de Samuel Huntington, assentes na inevitabilidade do choque entre os países com culturas judaico-cristã e os muçulmanos e confucionistas. Sintomaticamente, os mentores das políticas que se baseiam nessa teoria (embora não a defendam abertamente) recusaram os convites para participar no fórum.
Neste cenário, como se comporta o presidente francês, Jacques Chirac? Simultaneamente reafirmando os princípios da sociedade francesa, em diversos e não pacíficos assuntos. Aos dilemáticos voltou a afirmar o empenhamento francês na constituição de uma força de defesa europeia, absolutamente compatível com a NATO, e fundamental para travar os desmandos norte-americanos; e não recuou na indmnização exigida à Líbia por um atentado contra um avião francês, menos mediático que o de Lockerbie, é certo, mas que provocou 170 mortos, em 1989, no deserto de Ténéré, na Nigéria.
Internamente, reafirmou os princípios de laicidade do Estado, que aos poucos vão sendo postos em causa, um pouco por todo o lado. Obviamente, no Islão radical, com os péssimos resultados que se vêm em matéria de acesso ao ensino ou liberdades individuais. Mas também no Ocidente, onde ainda há países de amplas liberdades a obrigar ao ensino de que a origem do Homem é Deus, e ponto final. Face a esses fundamentalismos, Chirac lembra que os «sinais ostensivos de pertença religiosa» são para ficar afastados das escolas e do funcionalismo público francês. Assim, a necessária «neutralidade do serviço público» numa sociedade multicultural como a francesa leva a que o véu islâmico, a kippa dos judeus e os crucifixos católicos, ficam fora das salas de aula e das repartições públicas. Enfrentando embora protestos, a lei que tal determina avança, e deve ser aplaudida. Porque, de facto há que separar águas.
Não significa isso, no entanto, o esquecimento dessa fundamental componente da humanidade que é a religião. Recentemente o presidente francês recebeu cumprimentos de ano novo dos representantes das diferentes comunidades religiosas existentes em França, e aproveitou a ocasião para explicar os contornos da medida. Lá estava, pela primeira vez, o presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano e simultaneamente reitor da mesquita de Paris, a par do cardeal-arcebispo de Paris e do grande rabino de França.
Assim, sim.
Havemos de voltar
12.1.04
6.1.04
Paranóia? Não, obrigado!
Têm-se recusado no Mundo as entidades que foram directamente questionadas, a aceder à paranóia securitária norte americana de impor a presença de polícias armados a bordo de vôos comerciais. Num assomo de bom senso que contrariou, regra geral, o alinhamento dos governos com a política guerreira da administração norte americana, a British Airways não só deu o mote, recusando a pretenção do governo americano, como acrescentou que apesar da estrutura policial inglesa se dizer capacitada para desempenhar tal tarefa, continuava a considerar melhor opção manter as armas fora dos aviões do que tornar as aeronaves palco de coboiadas. E acrescentou, bem, a companhia de bandeira britânica, que estava convicta de que a generalidade das companhias aéreas lhe iriam seguir o caminho. Assim se vem a confirmar.
Voltou-me à memória o premiado documentário «Bowling for Columbine», que tão bem explica a má relação que os estadunidenses têm com as armas. Para quem não viu, diga-se que é um trabalho feito por Michael Moore, um americano capaz de questionar o meio em que vive. Com poucas respostas, sobram-lhe perguntas. Como aquela fundamental que é saber por que razão, havendo muitas mais armas per capita no Canadá, nem de perto os vizinhos do Norte se matam uns aos outros na mesma proporção.
Sabe-se que a maioria dos norte americanos não percebe por que é que (no mínimo) meio mundo não pode com eles nem (literalmente) à lei da bala. Escusado será dizer que, incapazes de perceberem isso, menos hábeis são ainda para compreender a responsabilidade que têm na criação dos facínoras Bin Laden que por aí polulam, ostentando certificados de treino militar americano. Portanto, a última coisa que lhes poderá ocorrer é quanto do seu próprio veneno ainda lhes está destinado no refluxo das aventuras arábicas com que alimentam a sua indústria de armamento. Não resta senão lamentar a miopia que jaz ocultada pelos ray ban dos marines consagrados por Hollywood.
Não tem limites a paranóia securitária norte americana. Esta história de pôr polícias armados nos aviões equivale a pôr veneno para ratos numa fábrica de lacticínios. Pior é que a lógica faria corar Maquiavel: as companhias de aviação que não aceitarm as regras estão sujeitas a tantas buscas e rebuscas que não haverá voo que debande os aeroportos norte americanos com menos de 72 horas de atraso (como se queixa a mesma british Airwyas), até que não haja quem lá queira viajar. De uma cajadada mata-se pois também a coelha, a concorrência. São ignorantes mas não estúpidos, então, o que faz deles poderosos, obviamente.
Escandalizou-se, entretanto, uma diplomata norte americana porque os brasileiros decidiram (e bem, e danço o samba!) aplicar o velho conceito de reciprocidade aos estadunidenses que demandem ao Brasil. É simples: se um brasileiro que desembarca em Nova Iorque é fotografado como qualquer meliante, e deixa as impressões digitais decalcadas para cadastro, trate-se do empresário melhor sucedido ou do (mais que improvável) pé-descalço que vá visitar a emigrada irmã do meio, por que razão não há-de um norte americano que chegue no Rio de Janeiro só porque sim deixar a chipala mais as gadugas para arquivo? Em matéria de reciprocidade, e a avaliar pelo que regularmente se lê na imprensa de Hong Kong sobre o tratamento discriminatório que sofrem os asiáticos (dificilmente confundíveis com perigosos terroristas árabes, certamente) nos aeroportos norte americanos, muito está ainda por fazer. Também aqui os bons velhos princípios internacionalmente estabelecidos foram postos em causa despeitadamente.
Certamente o Mundo vai ultrapassar, sacudindo como caspa da gola, esta incomodidade que Bush causa à ordem mundial.
Quando a paranóia que discorre dos noticiários norte-americanos sobre o terrorismo pode, substancialmente, ser posta em causa porque decorre de acções, conceitos e exercícios de política externa unilaterais; quando se sucedem as cínicas declarações políticas de alinhamento com o combate àquele terrorismo quando do que se trata (na China, Rússia, Espanha ou Índia) é de questões de independências de Nações que querem ser Estados; quando os métodos que têm sido adoptados dão os piores resultados e alimentam reacções extremadas que sempre irrompem do desespero – é tempo, já, de seguir outro caminho.
Entretanto, é de esperar, pelo menos, que a seguir-se este método, haja aviso de «Polícia Armado a Bordo» – para que se possa evitar.
Havemos de voltar
Voltou-me à memória o premiado documentário «Bowling for Columbine», que tão bem explica a má relação que os estadunidenses têm com as armas. Para quem não viu, diga-se que é um trabalho feito por Michael Moore, um americano capaz de questionar o meio em que vive. Com poucas respostas, sobram-lhe perguntas. Como aquela fundamental que é saber por que razão, havendo muitas mais armas per capita no Canadá, nem de perto os vizinhos do Norte se matam uns aos outros na mesma proporção.
Sabe-se que a maioria dos norte americanos não percebe por que é que (no mínimo) meio mundo não pode com eles nem (literalmente) à lei da bala. Escusado será dizer que, incapazes de perceberem isso, menos hábeis são ainda para compreender a responsabilidade que têm na criação dos facínoras Bin Laden que por aí polulam, ostentando certificados de treino militar americano. Portanto, a última coisa que lhes poderá ocorrer é quanto do seu próprio veneno ainda lhes está destinado no refluxo das aventuras arábicas com que alimentam a sua indústria de armamento. Não resta senão lamentar a miopia que jaz ocultada pelos ray ban dos marines consagrados por Hollywood.
Não tem limites a paranóia securitária norte americana. Esta história de pôr polícias armados nos aviões equivale a pôr veneno para ratos numa fábrica de lacticínios. Pior é que a lógica faria corar Maquiavel: as companhias de aviação que não aceitarm as regras estão sujeitas a tantas buscas e rebuscas que não haverá voo que debande os aeroportos norte americanos com menos de 72 horas de atraso (como se queixa a mesma british Airwyas), até que não haja quem lá queira viajar. De uma cajadada mata-se pois também a coelha, a concorrência. São ignorantes mas não estúpidos, então, o que faz deles poderosos, obviamente.
Escandalizou-se, entretanto, uma diplomata norte americana porque os brasileiros decidiram (e bem, e danço o samba!) aplicar o velho conceito de reciprocidade aos estadunidenses que demandem ao Brasil. É simples: se um brasileiro que desembarca em Nova Iorque é fotografado como qualquer meliante, e deixa as impressões digitais decalcadas para cadastro, trate-se do empresário melhor sucedido ou do (mais que improvável) pé-descalço que vá visitar a emigrada irmã do meio, por que razão não há-de um norte americano que chegue no Rio de Janeiro só porque sim deixar a chipala mais as gadugas para arquivo? Em matéria de reciprocidade, e a avaliar pelo que regularmente se lê na imprensa de Hong Kong sobre o tratamento discriminatório que sofrem os asiáticos (dificilmente confundíveis com perigosos terroristas árabes, certamente) nos aeroportos norte americanos, muito está ainda por fazer. Também aqui os bons velhos princípios internacionalmente estabelecidos foram postos em causa despeitadamente.
Certamente o Mundo vai ultrapassar, sacudindo como caspa da gola, esta incomodidade que Bush causa à ordem mundial.
Quando a paranóia que discorre dos noticiários norte-americanos sobre o terrorismo pode, substancialmente, ser posta em causa porque decorre de acções, conceitos e exercícios de política externa unilaterais; quando se sucedem as cínicas declarações políticas de alinhamento com o combate àquele terrorismo quando do que se trata (na China, Rússia, Espanha ou Índia) é de questões de independências de Nações que querem ser Estados; quando os métodos que têm sido adoptados dão os piores resultados e alimentam reacções extremadas que sempre irrompem do desespero – é tempo, já, de seguir outro caminho.
Entretanto, é de esperar, pelo menos, que a seguir-se este método, haja aviso de «Polícia Armado a Bordo» – para que se possa evitar.
Havemos de voltar
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