Um dos elementos do juri do Festival de Cinema de Cannes disse, no certame deste ano, que não se importava por aí além com o facto de os seus filmes serem copiados e depois reproduzidos ilegalmente na China, porque essa era, provavelmente, a única forma de chegar aos espectadores chineses.
Essa é a forma como ‘Fahrenheit 9/11’, o documentário que ganhou a Palma de Ouro daquele festival este ano, está acessível a quem vive por cá, por enquanto. A edição oficial em DVD não foi ainda lançada, nem consta que alguma sala de cinema programe a obra para apresentação. É o que temos, dêmo-nos por felizes assim.
‘Fahrenheit 9/11’ é, como se disse, um documentário. O tema vagueia, objectivamente, entre a guerra no Iraque, a forma de George Bush filho fazer política e os interesses económicos instalados na Casa Branca, por um lado; do outro os povos que sofrem com a guerra: o iraquiano – e o afegão, que também tem que ver na contenda – e o americano, cujos filhos combatem os iraquianos.
Esse é apenas um dois aspectos que ‘Fahrenheit 9/11’, de Michael Moore, quer focar. De resto, é no sentido dessa conclusão que encaminha a obra, cujo epílogo é questionar se os filhos do povo norte-americano, o fornecedor de carne para canhão, continuarão a confiar no sistema depois do episódio iraquiano. A questão é académica, a resposta, provavelmente, é «sim», mas não é isso que vem ao caso.
O documentário do geralmente apelidado de «polémico» realizador (adjectivo que os jornalistas se permitem utilizar com displicência), é feito para combater a reeleição de George Bush. Disse-o o autor. Muito ao gosto americano é construído na dicotomia bem/mal, aqui representado pela verdade-documentário/mentira-política ‘bushiana’.
Antes ainda do combate entre a verdade e a mentira que o próprio documentário encerra (ou seja, quão verdade são as afirmações que Moore produz na obra), há uma verdade indesmentível: a administração Bush tentou (e conseguiu) que o filme não fosse distribuido por uma das maiores cadeias americanas, apesar de ter contrato assinado.
Dentro do confronto exposto pelo conteúdo do filme há as provas, publicadas após a contestação produzida pelos assessores do presidente norte americano, pelo próprio Moore no seu site (michaelmoore.com) a sustentar o que diz.
A obra é, no entanto, muito mais que esse confronto. Trata-se de um documento que perdurará na história e ficará como sinal dos tempos. Traz à luz muitos factos conhecidos de alguns, poucos desconhecidos até aqui, mas sobretudo dá corpo àquilo que se apreende e carece do «ver-para-crer» com que se tomam as decisões.
Do ponto de vista estritamente cinematográfico a obra é boa. Questiona-se se suficientemente boa para vencer a Palma de Ouro, por outras razões que não as políticas (como o juri fez questão de salientar). A resposta só pode ser dada por quem tenha visto as outras.
São as questões políticas que justificam ‘Fahrenheit 9/11’. Michael Moore não se conforma com o rumo que os Estados Unidos estão a tomar com a administração Bush e pôs a nu uma série de verdades. Vejamos as que são menos conhecidas (dizer que os americanos financiaram os talibãs é o mesmo que afirmar que Luís Piçarra era do Benfica) e são objectivas.
A administração Bush (leia-se: o próprio, Rumsfeld, Rice e Powell), antes dos atentados do 11 de setembro juravam a pés juntos que Saddam Hussein (Alá nos livre dele) não possuía armas de destruição em massa nem capacidade para as produzir, muito menos ligações à Al Qaida. Depois daquela data, garantiram também que nem aos atentados tinha ligação. De um momento para o outro passou a ter tudo.
Prova-se também com toda a clareza que Bush filho foi, nos negócios que mantinha antes de ascender à presidência dos Estados Unidos, um sócio importante dos sauditas, a quem a família de Bin Laden entregou milhares de milhões de dólares. Donde poderia até nem vir mal ao Mundo, não fosse dar-se o caso de ter sido o próprio governo norte americano a proporcionar aos muitos familiares do abominável terrorista uma cómoda viagem para fora do país, escassos dois dias depois dos ataques às torres de Nova Iorque.
Fica ainda demonstrado, com objectividade, que um dos lugares do planeta mais seguros para se viver neste momento são os centros de exploração de petróleo no... Iraque. Helas! De facto, não há registo de ataques aos americanos das companhias petrolíferas que exploram o petróleo praticamente desde que a guerra começou. Funcionará melhor essa segurança privada que o mais poderoso exército planetário? Os planos, pelo menos, seguramente que sim.
Além das verdades objectivas, há também as constatações cuja subjectividade aumenta à medida da simpatia. Como a que Moore nutre por Bush não é das maiores, a estupidez do presidente norte americano fica plenamente evidenciada, embora (reconheça-se) não em todo o seu esplendor. O conhecido episódio de Bush a ler um livro infantil, durante largos minutos, com ar de puto a quem tiraram o chupa-chupa, após saber que um segundo avião atingiu o World Trade Center, é apenas um.
Há porém outras verdades apenas abordadas. Entre elas as que se relacionam com as liberdades nos Estados Unidos: as cívicas, que sofreram um rude golpe com o chamado «acto patriótico», que troca privacidade pela falácia do medo. O que se passa com os prisioneiros em Guantanamo é inqualifícável e deveria enrouquecer os defensores dos direitos humanos, sempre tão solícitos em relação a qualquer traque chinês. Muito pior se explica como há censura na imprensa supostamente mais livre do mundo: a verdade é que desde os ataques do 11 de setembro a imprensa e a televisão estão proibidas de mostrar imagens de mortos norte-americanos vítimas dos inimigos. Atrás dessa proibição, outras vêm. Também as agências de notícias são vítimas desse constrangimento, que transforma em mito a liberdade de imprensa norte-americana. Consulte-se, a propósito, o site thememoryhole.org, para se perceber a dimensão do facto.
‘Fahrenheit 9/11’ é, mais que um manifesto anti-Bush, um apelo à Paz – sobretudo quando não há nada, a não ser o dinheiro, a justificar a guerra. É o «por quê», «em nome de quê», das mortes, ditos pelos famíliares dos que caem em combate ou vítimas das explosões, que fica. O que o nóvel e ignoto apaniaguado ‘bushiano’, escriba do ‘Público’, deixou nas páginas deste jornal registado como cena «que faria as delícias [...] de um canal de televisão especializado [...] na exploração de tragédias pessoais», é a dor da perda, retratada, com justificação, para explicar do que se trata. Em contraponto à propaganda ‘bushiana’ que ele segue. A vida versus a hipocrisia.
A vida humana, valor supremo entre os valores, acima da liberdade, porque irreversível quando se vai.9,11 graus fahrenheit são precisamente 12,9 graus centígrados, a temperatura a que a liberdade arde, segundo Michael Moore. Depois, arde tudo.
10.8.04
29.7.04
O meu reino não é deste Mundo
O dingníssimo cônsul dos Estados Unidos em Hong Kong surpreendeu todos (ou quase) ao afirmar que as relações daquele país com a China eram mais antigas que a presença portuguesa em Macau. A coisa foi dita na festa de aniversário da independência, comemorada com alguns dias de atraso. Deve desculpar-se-lhe.
O presidente dele também diz coisas como «Não é a poluição que ameaça o meio ambiente, mas sim a impureza do ar e da água»; ou, a propósito da abstenção: «Um número baixo de votantes é uma indicação de que menos pessoas vão votar»; mas não exaspere, amigo leitor, porque Bush filho garante que «o futuro será melhor amanhã». Assim esperamos todos.
Certamente sem se aperceber da verdade que produzia, sendo no entanto uma das suas mais certeiras reflexões filosóficas, debitou Bush que «gente realmente muito estranha pode assumir posições-chave e provocar um terrível impacto na história». Pensaria ele em Buffalo Bill?
O brilhante raciocínio do recandidato à Casa Branca tem, no entanto, outros explendores, que nos permitem ir mais longe na compreensão da história dos nossos dias. Sobre os motins que se seguiram ao tristemente célebre espancamento de um negro em Los Angeles, esclareceu o visionário, questionado por um jornalista: «Quando me perguntaram quem provocou a revolta e as mortes em Los Angeles, a minha resposta foi directa e simples: quem devemos responsabilizar pela revolta? Os revoltosos são os culpados. Quem devemos responsabilizar pelas mortes? Os que mataram são os culpados». Conclusão: o homem tem qualidades para ser nomeado cônsul em Hong Kong, pelo menos.
O saber, nos Estados Unidos, não é coisa que se cultive. Há anos foi divulgado um inquérito revelador de que mais de metade da população da potência não conseguia indicar a Europa – sim, o Continente – num planisfério. Não há razões para crer que a situação mudou, antes pelo contrário.
As mais conhecidas declarações do presidente norte-americano sobre educação postulam que «o sistema de ensino público é um dos fundamentos da nossa [deles] democracia. Além do mais, é onde as crianças da América aprendem a ser cidadãos responsáveis e as habilitações necessárias para aproveitar as vantagens da nossa sociedade oportunista». No momento em que tentou clarificar o raciocínio, a alimária esclareceu(?): «Quero dizer que a Administração Bush está orientada para o resultado, porque acredito no resultado de focalizar a própria atenção e energia na educação das crianças na leitura, porque temos um sistema educativo atento às crianças e aos seus pais, mais que ao objectivo de um sistema que recusa a mudança e que fará da América o que queremos que seja, um país de gente que sabe ler e que sabe esperar». Não se pede que leiam enquanto esperam.
Tudo isto a propósito, também, das declarações da esposa do candidato democrata à substituição de Bush. Garante ela que o marido não só lê, como até gosta de história. Esperemos sinceramente que isso lhe valha alguma coisa.
Não se pense, no entanto, que a estulta afirmação do cônsul norte-americano sobre as relações com a China são novidade em matéria de política externa. Também aí, a cartilha é ditada por Bush. Foi ele quem afirmou, após a eleição do presidente mexicano: «Falei com Vicente Fox sobre o envio de petróleo para os Estados Unidos. Assim não dependemos de petróleo estrangeiro». Ninguém se admirou, portanto, quando esclareceu a Nação que «a grande maioria das nossas [deles] importações vêm de fora do país». Sobre o «fora», numa tirada lapidar sobre as negociatas no Iraque, explicou Bush que «o problema dos franceses é que não têm uma palavra para entrepreneur». OK. Aos europeus, garantiu: «Fazemos parte da NATO. Nós temos um compromisso firme com a Europa. Nós fazemos parte da Europa». Felizmente, enganou-se.
Directamente ao ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso perguntou o ente: «vocês também têm negros?» Já agora, e índios?
Desculpe-se ao sr. Cônsul porque há a possibilidade de que seja o Oriente a fazer-lhes mal. Se não veja-se o que disse Bush em Tóquio: «A minha viagem à Ásia começa no Japão por uma razão importante. Começa aqui porque há um século e meio que a América e o Japão formam uma das maiores e mais duradouras alianças dos tempos modernos. Desta aliança nasceu uma era de Paz no Pacífico». Por que raio não saiu também ele disparado num dos intervalos, qual Major Kong, do Dr. Strangelove?!?
Sendo que todas as citações são absolutamente comprováveis e abundantemente publicadas, pensa-se que o néscio se retrata? Nem por sombras: «Mantenho todas as declarações equivocadas que fiz», disse não há muito. Uma que lhe pode servir de epitáfio.
Disse ainda a criatura, aproveitando-se aqui para concluir, antes que isto faça mal: «O holocausto foi um período obsceno na história da nossa [deles] Nação... Quero [queria ele] dizer, na história deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi nesse século!»Pois não, também o meu reino não é deste mundo.
Havemos de voltar
O presidente dele também diz coisas como «Não é a poluição que ameaça o meio ambiente, mas sim a impureza do ar e da água»; ou, a propósito da abstenção: «Um número baixo de votantes é uma indicação de que menos pessoas vão votar»; mas não exaspere, amigo leitor, porque Bush filho garante que «o futuro será melhor amanhã». Assim esperamos todos.
Certamente sem se aperceber da verdade que produzia, sendo no entanto uma das suas mais certeiras reflexões filosóficas, debitou Bush que «gente realmente muito estranha pode assumir posições-chave e provocar um terrível impacto na história». Pensaria ele em Buffalo Bill?
O brilhante raciocínio do recandidato à Casa Branca tem, no entanto, outros explendores, que nos permitem ir mais longe na compreensão da história dos nossos dias. Sobre os motins que se seguiram ao tristemente célebre espancamento de um negro em Los Angeles, esclareceu o visionário, questionado por um jornalista: «Quando me perguntaram quem provocou a revolta e as mortes em Los Angeles, a minha resposta foi directa e simples: quem devemos responsabilizar pela revolta? Os revoltosos são os culpados. Quem devemos responsabilizar pelas mortes? Os que mataram são os culpados». Conclusão: o homem tem qualidades para ser nomeado cônsul em Hong Kong, pelo menos.
O saber, nos Estados Unidos, não é coisa que se cultive. Há anos foi divulgado um inquérito revelador de que mais de metade da população da potência não conseguia indicar a Europa – sim, o Continente – num planisfério. Não há razões para crer que a situação mudou, antes pelo contrário.
As mais conhecidas declarações do presidente norte-americano sobre educação postulam que «o sistema de ensino público é um dos fundamentos da nossa [deles] democracia. Além do mais, é onde as crianças da América aprendem a ser cidadãos responsáveis e as habilitações necessárias para aproveitar as vantagens da nossa sociedade oportunista». No momento em que tentou clarificar o raciocínio, a alimária esclareceu(?): «Quero dizer que a Administração Bush está orientada para o resultado, porque acredito no resultado de focalizar a própria atenção e energia na educação das crianças na leitura, porque temos um sistema educativo atento às crianças e aos seus pais, mais que ao objectivo de um sistema que recusa a mudança e que fará da América o que queremos que seja, um país de gente que sabe ler e que sabe esperar». Não se pede que leiam enquanto esperam.
Tudo isto a propósito, também, das declarações da esposa do candidato democrata à substituição de Bush. Garante ela que o marido não só lê, como até gosta de história. Esperemos sinceramente que isso lhe valha alguma coisa.
Não se pense, no entanto, que a estulta afirmação do cônsul norte-americano sobre as relações com a China são novidade em matéria de política externa. Também aí, a cartilha é ditada por Bush. Foi ele quem afirmou, após a eleição do presidente mexicano: «Falei com Vicente Fox sobre o envio de petróleo para os Estados Unidos. Assim não dependemos de petróleo estrangeiro». Ninguém se admirou, portanto, quando esclareceu a Nação que «a grande maioria das nossas [deles] importações vêm de fora do país». Sobre o «fora», numa tirada lapidar sobre as negociatas no Iraque, explicou Bush que «o problema dos franceses é que não têm uma palavra para entrepreneur». OK. Aos europeus, garantiu: «Fazemos parte da NATO. Nós temos um compromisso firme com a Europa. Nós fazemos parte da Europa». Felizmente, enganou-se.
Directamente ao ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso perguntou o ente: «vocês também têm negros?» Já agora, e índios?
Desculpe-se ao sr. Cônsul porque há a possibilidade de que seja o Oriente a fazer-lhes mal. Se não veja-se o que disse Bush em Tóquio: «A minha viagem à Ásia começa no Japão por uma razão importante. Começa aqui porque há um século e meio que a América e o Japão formam uma das maiores e mais duradouras alianças dos tempos modernos. Desta aliança nasceu uma era de Paz no Pacífico». Por que raio não saiu também ele disparado num dos intervalos, qual Major Kong, do Dr. Strangelove?!?
Sendo que todas as citações são absolutamente comprováveis e abundantemente publicadas, pensa-se que o néscio se retrata? Nem por sombras: «Mantenho todas as declarações equivocadas que fiz», disse não há muito. Uma que lhe pode servir de epitáfio.
Disse ainda a criatura, aproveitando-se aqui para concluir, antes que isto faça mal: «O holocausto foi um período obsceno na história da nossa [deles] Nação... Quero [queria ele] dizer, na história deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi nesse século!»Pois não, também o meu reino não é deste mundo.
Havemos de voltar
22.7.04
Contribuição
Aproxima-se a campanha eleitoral para de Chefe do Executivo de Macau, com um candidato celebrado, o actual ocupante do cargo, Edmund Ho. No acto que marcou o anúncio da candidatura, quando foi levantar o boletim de inscrição, Edmund Ho reconheceu que há algo a mudar na governação, embora sem especificar o quê, e disse esperar que os cidadão sejam mais exigentes durante este segundo mandato.
Avance-se, então, para saber o que deve ser mudado. Importa mais dizer o que, e como, deve ser feito, do que estar a apontar erros, simplesmente. A metodologia adoptada para a identificação das necessidades e carências da sociedade é, em Macau, a auscultação das associações. Como sistema é tão legítimo como qualquer outro, dependendo, sobretudo, da capacidade de entender o que é dito – se for dito, naturalmente. É, pois, a forma como se põe o sistema a funcionar que determina a bondade da governação, sabendo-se de ciência certa que, por exemplo, o partidarismo fornece inúmeros exemplos de autismo, como também o contrário.
Se Edmund Ho é consensual como líder de Macau, acordo generalizado se obtém também quanto à necessidade de que a nossa sociedade se modernize. Pouco importam milhões de quilovatios/hora gastos em todo o tipo de luzes e reclamos, se a população, e a sua prática diária, sobretudo, não se iluminar. Em todas as áreas, sempre, é possível fazer melhor. Na administração pública como nos serviços privados, na organização judicial e na saúde. No que se queira: na competência dos funcionários ou na qualificação dos empregados. No fim, o que estará sempre em equação, é a forma como se servem os cidadãos.
A comunicação social é um meio que todas as entidades, públicas e privadas, usam para chegar ao cidadão destinatário. No geral, não há, no entanto, noção do meio. Ao pespegar com uma credencial ao peito do jornalista que vai cobrir um qualquer evento, documento onde consta regra geral a palavra «media», ou seja, «meio», quem nos credencia raramente se comporta como quem tem, ali, na pessoa do jornalista, o meio para comunicar com a população.
Na administração pública como nos órgãos de governo, não raro, o «meio» é tratado como meliante. Ser tratado por supostos assessores de imprensa que, em vez de fornecerem as informações pedidas, se assumem como guarda-costas de inusitada agressividade é comum. Isto não é civilizado, não é próprio de uma sociedade moderna e, sobretudo, não se justifica.
É comum ser-se convidado para assistir a actos, com hora marcada, em que se é obrigado a esperar horas por declarações sobre o que se passou. Em qualquer lugar do Mundo onde o senso comum impere, convoca-se os jornalistas para uma hora estabelecida, em que os responsáveis sabem que já podem prestar informações, a meio ou no fim de uma reunião. Não é o que se passa, por exemplo, nos Conselhos que discutem e propõem medidas em áreas específicas da governação. Isso é fazer perder tempo a quem trabalha.
Há a sensível questão das duas línguas oficiais em Macau, geralmente bem resolvida, mas com problemas crónicos em alguns serviços. Nos de Saúde, por exemplo, convocou-se recentemente a imprensa para assistir a um seminário onde, apesar de a sala estar equipada com os meios para tradução simultânea, ela não estava a funcionar. Os primeiros oradores optaram pelo inglês, sabendo que parte dos seminaristas não dominava o português ou o cantonense. O terceiro comunicou em inglês que ia falar em cantonese. Isso, além de falta de respeito por participantes e jornalistas, é desperdício num seminário técnico.
No Instituto Cultural a prática é mais aberrante: convoca-se a imprensa para uma conferência em determinada data, mas põe-se, dias antes, uma funcionária a antecipar o exacto conteúdo a divulgar, num jornal. Isso, além de ser o grau zero da correcção no relacionamento com a comunicação social, faz a funcionária do Instituto incorrer em evidente falta deontológica na pele de jornalista.
Macau é cada vez mais um local de eventos internacionais onde, por essa razão, se encontram jornalistas habituados a parâmetros internacionais de trabalho. Há, nos inúmeros eventos organizados recentemente, exemplos bastantes para que os diversos serviços possam aprender a funcionar correctamente no relacionamento com a imprensa.
Na sociedade de comunicação, que sucede à era contemporânea, não saber manter um relacionamento correcto com os agentes da comunicação social é sinal de incompetência.Quando se aproxima a segunda eleição do Chefe do Executivo, cargo ocupado por Edmund Ho, seria bom aproveitar a oportunidade para debater e assim orientar as diversas instituições para um correcto relacionamento com a comunicação social. Edmund Ho, ele próprio, é um exemplo a seguir de correcção na forma como trata os jornalistas, além, obviamente, de saber a importância que eles têm (não individualmente, mas a que decorre do papel de «meio» que incorporam). Por isso, pelo respeito que, através da comunicação social, demontra ter pela população, obtém o consenso que se reconhece. Esse é, no entanto, um aspecto que o próximo Executivo deverá ter preocupação em melhorar, no seu próprio funcionamento e no dos organismos dele dependentes.
Havemos de voltar
Avance-se, então, para saber o que deve ser mudado. Importa mais dizer o que, e como, deve ser feito, do que estar a apontar erros, simplesmente. A metodologia adoptada para a identificação das necessidades e carências da sociedade é, em Macau, a auscultação das associações. Como sistema é tão legítimo como qualquer outro, dependendo, sobretudo, da capacidade de entender o que é dito – se for dito, naturalmente. É, pois, a forma como se põe o sistema a funcionar que determina a bondade da governação, sabendo-se de ciência certa que, por exemplo, o partidarismo fornece inúmeros exemplos de autismo, como também o contrário.
Se Edmund Ho é consensual como líder de Macau, acordo generalizado se obtém também quanto à necessidade de que a nossa sociedade se modernize. Pouco importam milhões de quilovatios/hora gastos em todo o tipo de luzes e reclamos, se a população, e a sua prática diária, sobretudo, não se iluminar. Em todas as áreas, sempre, é possível fazer melhor. Na administração pública como nos serviços privados, na organização judicial e na saúde. No que se queira: na competência dos funcionários ou na qualificação dos empregados. No fim, o que estará sempre em equação, é a forma como se servem os cidadãos.
A comunicação social é um meio que todas as entidades, públicas e privadas, usam para chegar ao cidadão destinatário. No geral, não há, no entanto, noção do meio. Ao pespegar com uma credencial ao peito do jornalista que vai cobrir um qualquer evento, documento onde consta regra geral a palavra «media», ou seja, «meio», quem nos credencia raramente se comporta como quem tem, ali, na pessoa do jornalista, o meio para comunicar com a população.
Na administração pública como nos órgãos de governo, não raro, o «meio» é tratado como meliante. Ser tratado por supostos assessores de imprensa que, em vez de fornecerem as informações pedidas, se assumem como guarda-costas de inusitada agressividade é comum. Isto não é civilizado, não é próprio de uma sociedade moderna e, sobretudo, não se justifica.
É comum ser-se convidado para assistir a actos, com hora marcada, em que se é obrigado a esperar horas por declarações sobre o que se passou. Em qualquer lugar do Mundo onde o senso comum impere, convoca-se os jornalistas para uma hora estabelecida, em que os responsáveis sabem que já podem prestar informações, a meio ou no fim de uma reunião. Não é o que se passa, por exemplo, nos Conselhos que discutem e propõem medidas em áreas específicas da governação. Isso é fazer perder tempo a quem trabalha.
Há a sensível questão das duas línguas oficiais em Macau, geralmente bem resolvida, mas com problemas crónicos em alguns serviços. Nos de Saúde, por exemplo, convocou-se recentemente a imprensa para assistir a um seminário onde, apesar de a sala estar equipada com os meios para tradução simultânea, ela não estava a funcionar. Os primeiros oradores optaram pelo inglês, sabendo que parte dos seminaristas não dominava o português ou o cantonense. O terceiro comunicou em inglês que ia falar em cantonese. Isso, além de falta de respeito por participantes e jornalistas, é desperdício num seminário técnico.
No Instituto Cultural a prática é mais aberrante: convoca-se a imprensa para uma conferência em determinada data, mas põe-se, dias antes, uma funcionária a antecipar o exacto conteúdo a divulgar, num jornal. Isso, além de ser o grau zero da correcção no relacionamento com a comunicação social, faz a funcionária do Instituto incorrer em evidente falta deontológica na pele de jornalista.
Macau é cada vez mais um local de eventos internacionais onde, por essa razão, se encontram jornalistas habituados a parâmetros internacionais de trabalho. Há, nos inúmeros eventos organizados recentemente, exemplos bastantes para que os diversos serviços possam aprender a funcionar correctamente no relacionamento com a imprensa.
Na sociedade de comunicação, que sucede à era contemporânea, não saber manter um relacionamento correcto com os agentes da comunicação social é sinal de incompetência.Quando se aproxima a segunda eleição do Chefe do Executivo, cargo ocupado por Edmund Ho, seria bom aproveitar a oportunidade para debater e assim orientar as diversas instituições para um correcto relacionamento com a comunicação social. Edmund Ho, ele próprio, é um exemplo a seguir de correcção na forma como trata os jornalistas, além, obviamente, de saber a importância que eles têm (não individualmente, mas a que decorre do papel de «meio» que incorporam). Por isso, pelo respeito que, através da comunicação social, demontra ter pela população, obtém o consenso que se reconhece. Esse é, no entanto, um aspecto que o próximo Executivo deverá ter preocupação em melhorar, no seu próprio funcionamento e no dos organismos dele dependentes.
Havemos de voltar
14.7.04
Oquintresséoadani
Estou feliz da vida. Voltei a deliciar-me com as soculentas prosas que as mais férteis imaginações ao serviço do jornalismo português conseguem produzir. Refiro-me, naturalmente, às páginas diárias de três queridos jornais desportivos (chamesmos-lhes «qdd», que penaram e me fizeram penar durante o chamado «defeso». Aqui está: onde mais se podem usar expressões sucolentas como esta? Sobre essas particularidades da linguagem desportiva já aqui se discorreu, portanto, façamos apenas a actualização: sirvo-me, para tanto, da crónica de uma consagrada e ultimamente ressabiada benfiquista, na «bíblia».
Conta Leonor Pinhão que durante o Euro2004 pegou um novo tique de linguagem, de calibre tal que já não se ouvia desde o pintacostal «pensar de que». Escreve Leonor Pinhão: «Não sei se repararam, mas foi qualquer coisa má que deu em comentadores, artífices e até em pessoas com maiores responsabilidades dada a escolaridade que ostentam nos títulos de «doutores». Foi a praga maior deste Euro. Impossível de escapar durante três semanas a frases como estas:
— A equipa tal jogou bem «onde» o ponta-de-lança nos parecesse em baixa de forma.— Fulano promete que vai marcar três golos «onde» está muito optimista. — A organização está pelo melhor «onde» alguns problemas ainda subsistem.»
Nós não tivemos oportunidade de acompanhar os comentários produzidos na lusa tv, o que não significa que tenhamos ficado dispensados de dislates tão grandes, ou maiores. Se bem que o erro não se caracterizasse pela repetição, fomos brindados pela constância, para compensar.
Não é certamente daqui que me vem a alegria. Ainda n’«A Bola» encontrou-se exemplo, esse sim, motivo de satisfação: a capa do jornal que todos esperavam viesse dedicada ao resultado da final do campeonato da Europa estava, afinal, cheia com o tema do novo treinador do Benfica. Há clubes assim. A partir daí, do fim do campeonato e do início da actividade clubistica, há a cada dia um pedaço de prosa que nos traz o espírito, o suor, a força e o querer dos artistas que se anseia comecem a pontapeá-la em competições a sério. Para já, fica-se a actualidade por apresentações, contratações e negociações, algumas reais, outras fictícias.
Cabe aqui registar o trabalho merecedor de prémio para ficção, a atribuir aos esforçados jornalistas do Record. Não houve dia em que não jurassem estar o Benfica pronto para assinar contrato com o francês tal, o holandês seguinte, o alemão anterior e assim sucessivamente, até errarem no italiano. Como bons desportistas que são, encaixaram a derrota vaticinal como senhores, isto é, sem dizer ai nem ui, muito menos desculpem lá qualquer coisinha, bem ao estilo «Correio da Manhã». Depois queixam-se, mas não são os únicos.
E que nos trazem então, de matéria noticiosa (logo não especulativa) os qdd? Na minha opinião, só confirmações. A confirmação de que o Futebol Clube do Porto tem os cofres cheios (por mérito próprio, diga-se) e vai contruir uma equipa fortíssima. Fica a dúvida do que será capaz o treinador, sendo que Pinto da Costa geralmente não se engana, embora já tenha enfiado barretes; A confirmação de que no Benfica se vive uma nova era, de organização que vai permitindo contruir uma equipa igualmente forte, comandada por um treinador que em duas corridas acabou com as más línguas que lhe chamavam velho. Resta a dúvida se terá os tais três reforços que lhe faltam para preencher, como quer, cada posição com dois jogadores de igual quilate; A confirmação de que o presidente do Sporting foi inapelavelmente afectado pelo sistema, nervoso talvez, o que se vai reflectindo numa série de medidas que ninguém entende e o próprio não é capaz de explicar, e resultam, em apenas dois anos, numa sombra do que foi o Sporting campeão. Não restam dúvidas.
A concorrer directamente com os qdd tivemos toda a restante imprensa e ainda o que de tv conseguimos apanhar, com um folhetim por vezes não menos especulativo, de resultado igualmente incerto até ao último minutos, e que deixou metade dos adeptos chorosos enquanto a outra metade esfregou as mão de contente. Tendo como protagonista um reconhecido adepto do clube de Dias da Cunha, note-se. Jorge Sampaio, presidente da República Portuguesa, no jogo da substituição de Durão Barroso. O resultado foi já noticiado, mas eis que surgem agora as análises às, digamos, incidências da partida. Entre elas, e depois da angústia quanto à substituição a efectuar, a ansiedade agora prende-se em saber quem irá treinar a oposição. O que, não sendo dispiciendo, é certamente irrelevante face a políticas inovadoras em tempo de vacas magras.
Solidário com as políticas de contenção, não estarei presente nem me farei representar na tomada de posse do novo Executivo. Confesso que me preocupa muito mais, neste momento, saber se conseguimos ou não contratar o italiano Adani para o eixo da defesa.
Havemos de voltar
Conta Leonor Pinhão que durante o Euro2004 pegou um novo tique de linguagem, de calibre tal que já não se ouvia desde o pintacostal «pensar de que». Escreve Leonor Pinhão: «Não sei se repararam, mas foi qualquer coisa má que deu em comentadores, artífices e até em pessoas com maiores responsabilidades dada a escolaridade que ostentam nos títulos de «doutores». Foi a praga maior deste Euro. Impossível de escapar durante três semanas a frases como estas:
— A equipa tal jogou bem «onde» o ponta-de-lança nos parecesse em baixa de forma.— Fulano promete que vai marcar três golos «onde» está muito optimista. — A organização está pelo melhor «onde» alguns problemas ainda subsistem.»
Nós não tivemos oportunidade de acompanhar os comentários produzidos na lusa tv, o que não significa que tenhamos ficado dispensados de dislates tão grandes, ou maiores. Se bem que o erro não se caracterizasse pela repetição, fomos brindados pela constância, para compensar.
Não é certamente daqui que me vem a alegria. Ainda n’«A Bola» encontrou-se exemplo, esse sim, motivo de satisfação: a capa do jornal que todos esperavam viesse dedicada ao resultado da final do campeonato da Europa estava, afinal, cheia com o tema do novo treinador do Benfica. Há clubes assim. A partir daí, do fim do campeonato e do início da actividade clubistica, há a cada dia um pedaço de prosa que nos traz o espírito, o suor, a força e o querer dos artistas que se anseia comecem a pontapeá-la em competições a sério. Para já, fica-se a actualidade por apresentações, contratações e negociações, algumas reais, outras fictícias.
Cabe aqui registar o trabalho merecedor de prémio para ficção, a atribuir aos esforçados jornalistas do Record. Não houve dia em que não jurassem estar o Benfica pronto para assinar contrato com o francês tal, o holandês seguinte, o alemão anterior e assim sucessivamente, até errarem no italiano. Como bons desportistas que são, encaixaram a derrota vaticinal como senhores, isto é, sem dizer ai nem ui, muito menos desculpem lá qualquer coisinha, bem ao estilo «Correio da Manhã». Depois queixam-se, mas não são os únicos.
E que nos trazem então, de matéria noticiosa (logo não especulativa) os qdd? Na minha opinião, só confirmações. A confirmação de que o Futebol Clube do Porto tem os cofres cheios (por mérito próprio, diga-se) e vai contruir uma equipa fortíssima. Fica a dúvida do que será capaz o treinador, sendo que Pinto da Costa geralmente não se engana, embora já tenha enfiado barretes; A confirmação de que no Benfica se vive uma nova era, de organização que vai permitindo contruir uma equipa igualmente forte, comandada por um treinador que em duas corridas acabou com as más línguas que lhe chamavam velho. Resta a dúvida se terá os tais três reforços que lhe faltam para preencher, como quer, cada posição com dois jogadores de igual quilate; A confirmação de que o presidente do Sporting foi inapelavelmente afectado pelo sistema, nervoso talvez, o que se vai reflectindo numa série de medidas que ninguém entende e o próprio não é capaz de explicar, e resultam, em apenas dois anos, numa sombra do que foi o Sporting campeão. Não restam dúvidas.
A concorrer directamente com os qdd tivemos toda a restante imprensa e ainda o que de tv conseguimos apanhar, com um folhetim por vezes não menos especulativo, de resultado igualmente incerto até ao último minutos, e que deixou metade dos adeptos chorosos enquanto a outra metade esfregou as mão de contente. Tendo como protagonista um reconhecido adepto do clube de Dias da Cunha, note-se. Jorge Sampaio, presidente da República Portuguesa, no jogo da substituição de Durão Barroso. O resultado foi já noticiado, mas eis que surgem agora as análises às, digamos, incidências da partida. Entre elas, e depois da angústia quanto à substituição a efectuar, a ansiedade agora prende-se em saber quem irá treinar a oposição. O que, não sendo dispiciendo, é certamente irrelevante face a políticas inovadoras em tempo de vacas magras.
Solidário com as políticas de contenção, não estarei presente nem me farei representar na tomada de posse do novo Executivo. Confesso que me preocupa muito mais, neste momento, saber se conseguimos ou não contratar o italiano Adani para o eixo da defesa.
Havemos de voltar
7.7.04
A temperatura
1.
Está de parabéns o Cônsul de Portugal na RAEM, Pedro Moitinho de Almeida. Não por ter conseguido perceber a importância da final do campeonato da Europa de futebol para os portugueses e afins em Macau (que era óbvia), mas por ter promovido uma festa que juntou mais de meio milhar de pessoas, pouco preocupadas com as baboseiras do elitismo do local ou de quem promoveria o acontecimento. Além do mais, na Torre de Macau, não havia sequer uma «mesa de honra», onde os dignitários haveriam de alapar, à boa maneira local. O promotor da festa foi um, sem honras de primus inter pares, que dispensou para poder viver como todos os outros o que a televisão trazia de Portugal. Porque Pedro Moitinho de Almeida já vai habituando as pessoas a esse comportamento, o que se pode dizer para explicar quem e como estava lá, é afirmar que estavam todos e bem. A sala esteve ao rubro a cada passe, remate ou defesa, esfriando muito menos do que seria de esperar quando o balde de água fria se abateu sobre a Luz. Assim, no final ainda se viam bandeiras desfraldadas e escutavam palmas para quem as merecia. Que sirva de exemplo aos emproados da terra, já que esta sim, é a forma de preservar um legado português em Macau.
2.
Pena foi que a festa não pudesse ter sido estendida, depois, às ruas, mas essas são contas de outro rosário. Parabéns aos gregos.
3.
Passada a euforia da bola espera-se, em Macau como em Portugal, espera-se que o Presidente Jorge Sampaio se decida em relação à crise política aberta pela fuga de Durão Barroso. É tema de conversa em cada escritório ou café a dúvida que a todos assalta quanto ao lado para onde Sampaio vai cair. Em primeiro lugar isso leva á inevitável conclusão de que o mais alto magistrado português comporta-se de forma que deixa sempre dúvidas, ou seja, nunca se sabe quando se vai esquecer de quem o elegeu e para quê. Calafrios desses não são inéditos.
Já o putativo sucessor de Durão Barroso sabe bem o caminho para que não foi eleito mas faz questão de trilhar e age em conformidade. Esperemos um final digno ou então nunca mais se pronuncie uma única palavra contra o alheamento dos cidadãos portugueses dos actos eleitorais.
3.
Dez dias depois da farsa da transferência de poderes no Iraque, tudo como antes. À vergonha e recolhimento da cerimónia com que os fantoches a soldo dos Estados Unidos assumiram os cargos mas não o poder, não se alterou uma vírgula nas notícias que chegam de Bagdad e arredores: atentados e mais ataques contra as forças de ocupação, os que as querem servir e o petróleo com que enchem os bolsos. Ao rubro, portanto. hamem Al-Qaida já não há idade para histórias da carochinha. Que andem por lá terroristas a aproveitar-se de um fundamentalismo religioso que já existia, é o mais provável e natural. Que Saddam Hussein tinha como entretimento favorito acabar com a vida daqueles que agora se entretêm a atacar americanos, só não entende quem tiver acordado agora. Que o fundamental do que se passa no Iraque é resistência popular a ocupação estrangeira, não diz quem está comprometido. A cada dia que passa, a cada episódio que se noticia, cada vez fica mais claro que vai acabar mal, muito mal, a aventura ocidental no Iraque. É pena, porque Saddam merecia um fim pior.
Seguramente o cidadão norte americano Michael Moore estará de acordo com esta ideia, ele que é um batalhador pelas causas da verdade e da justiça no Mundo. Quando ainda subsiste a dúvida se Bush será ou não derrotado nas eleições presidenciais, para já, perdeu as salas de cinema. O documentário Fahrenheit 9 11 foi um sucesso retumbante na estreia. Não se trata de nenhum filme de heróis, antes um retrato factual, por isso documentário, do que são e o que andaram a fazer o presidente dos estados Unidos mailo Rumsfeld, Rice e companhia nos últimos tempos. Depois de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes conseguiu contornar a censura imposta pela Disney, pressionada pela administração norte-americana, e chegar às salas para bater recordes. Estão a aquecer as eleições norte-americanas, à medida que arrefece a confiança dos republicanos.
4.
Aproxima-se a passos largos aquela que, noutrs paragens, é chamada de silly season. Por cá é apenas verão, tanto quanto percebi nos passados. Este vai ser animado pela mais que certa reeleição do Chefe do Executivo, o que não aquece (e ainda bem) nem arrefece (e é pena), mas sempre dá para a gente se entreter. Em matéria noticiosa, bem entendido, que a não reeleição de Edmund Ho seria bem pior que um acentuado arrefecimento nocturno para a cidadania. Certo é que a coisa vai de tal forma que este ano não há tufão que cá chegue.
Havemos de voltar
Está de parabéns o Cônsul de Portugal na RAEM, Pedro Moitinho de Almeida. Não por ter conseguido perceber a importância da final do campeonato da Europa de futebol para os portugueses e afins em Macau (que era óbvia), mas por ter promovido uma festa que juntou mais de meio milhar de pessoas, pouco preocupadas com as baboseiras do elitismo do local ou de quem promoveria o acontecimento. Além do mais, na Torre de Macau, não havia sequer uma «mesa de honra», onde os dignitários haveriam de alapar, à boa maneira local. O promotor da festa foi um, sem honras de primus inter pares, que dispensou para poder viver como todos os outros o que a televisão trazia de Portugal. Porque Pedro Moitinho de Almeida já vai habituando as pessoas a esse comportamento, o que se pode dizer para explicar quem e como estava lá, é afirmar que estavam todos e bem. A sala esteve ao rubro a cada passe, remate ou defesa, esfriando muito menos do que seria de esperar quando o balde de água fria se abateu sobre a Luz. Assim, no final ainda se viam bandeiras desfraldadas e escutavam palmas para quem as merecia. Que sirva de exemplo aos emproados da terra, já que esta sim, é a forma de preservar um legado português em Macau.
2.
Pena foi que a festa não pudesse ter sido estendida, depois, às ruas, mas essas são contas de outro rosário. Parabéns aos gregos.
3.
Passada a euforia da bola espera-se, em Macau como em Portugal, espera-se que o Presidente Jorge Sampaio se decida em relação à crise política aberta pela fuga de Durão Barroso. É tema de conversa em cada escritório ou café a dúvida que a todos assalta quanto ao lado para onde Sampaio vai cair. Em primeiro lugar isso leva á inevitável conclusão de que o mais alto magistrado português comporta-se de forma que deixa sempre dúvidas, ou seja, nunca se sabe quando se vai esquecer de quem o elegeu e para quê. Calafrios desses não são inéditos.
Já o putativo sucessor de Durão Barroso sabe bem o caminho para que não foi eleito mas faz questão de trilhar e age em conformidade. Esperemos um final digno ou então nunca mais se pronuncie uma única palavra contra o alheamento dos cidadãos portugueses dos actos eleitorais.
3.
Dez dias depois da farsa da transferência de poderes no Iraque, tudo como antes. À vergonha e recolhimento da cerimónia com que os fantoches a soldo dos Estados Unidos assumiram os cargos mas não o poder, não se alterou uma vírgula nas notícias que chegam de Bagdad e arredores: atentados e mais ataques contra as forças de ocupação, os que as querem servir e o petróleo com que enchem os bolsos. Ao rubro, portanto. hamem Al-Qaida já não há idade para histórias da carochinha. Que andem por lá terroristas a aproveitar-se de um fundamentalismo religioso que já existia, é o mais provável e natural. Que Saddam Hussein tinha como entretimento favorito acabar com a vida daqueles que agora se entretêm a atacar americanos, só não entende quem tiver acordado agora. Que o fundamental do que se passa no Iraque é resistência popular a ocupação estrangeira, não diz quem está comprometido. A cada dia que passa, a cada episódio que se noticia, cada vez fica mais claro que vai acabar mal, muito mal, a aventura ocidental no Iraque. É pena, porque Saddam merecia um fim pior.
Seguramente o cidadão norte americano Michael Moore estará de acordo com esta ideia, ele que é um batalhador pelas causas da verdade e da justiça no Mundo. Quando ainda subsiste a dúvida se Bush será ou não derrotado nas eleições presidenciais, para já, perdeu as salas de cinema. O documentário Fahrenheit 9 11 foi um sucesso retumbante na estreia. Não se trata de nenhum filme de heróis, antes um retrato factual, por isso documentário, do que são e o que andaram a fazer o presidente dos estados Unidos mailo Rumsfeld, Rice e companhia nos últimos tempos. Depois de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes conseguiu contornar a censura imposta pela Disney, pressionada pela administração norte-americana, e chegar às salas para bater recordes. Estão a aquecer as eleições norte-americanas, à medida que arrefece a confiança dos republicanos.
4.
Aproxima-se a passos largos aquela que, noutrs paragens, é chamada de silly season. Por cá é apenas verão, tanto quanto percebi nos passados. Este vai ser animado pela mais que certa reeleição do Chefe do Executivo, o que não aquece (e ainda bem) nem arrefece (e é pena), mas sempre dá para a gente se entreter. Em matéria noticiosa, bem entendido, que a não reeleição de Edmund Ho seria bem pior que um acentuado arrefecimento nocturno para a cidadania. Certo é que a coisa vai de tal forma que este ano não há tufão que cá chegue.
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26.6.04
A cor do voto
Em dois mundos que nos tocam está lançado o debate sobre democracia. Por razões diferentes, em Portugal e em Hong Kong se discute democracia. Curiosamente, onde ela se encontra implantada na sua fórmula mais comum nestes tempos, clama-se contra a qualidade que não tem; onde formalmente não existe, exercem-se democraticamente práticas reivindicativas e expressão livre de opinião favorável à aproximação àquele modelo.
Num e noutro lado se extremam posições e se usa a manipulação da realidade para obter o objectivo que os junta: uma melhor democracia. Claramente, o objectivo de José Saramago ao lançar a polémica sobre a qualidade da democracia vai no sentido de a aproximar daquilo que os regimes socialistas propõem e o escritor professa: a possibilidade de outros argumentos, além dos económicos, vingarem no acesso e exercício do poder.
As democracias ocidentais estão reféns do poder económico e nem o voto popular o consegue refrear. As aberrações legislativas que Silvio Berlosconi tem vindo a produzir para evitar condenações judiciais são disso exemplo. O poder de comunicação que ele mantém através do seu império de comunicação social é sem dúvida um factor de disfunção democrática. Se se critica o controlo absoluto e a manipulação que as ditaduras exercem sobre os órgãos de comunicação social, o que dizer da impossibilidade de qualquer intervenção numa televisão que é privada? A atestar que esse não é caso isolado recorde-se, apenas, a afirmação de Emídio Rangel, nos primórdios da portuguesa SIC, que o todo poderoso director considerou ser capaz de eleger um presidente da República.
Dêem-se os moderados, apesar de graves, exemplos europeus, para não voltar ao inadjectivável Bush, eleito apesar de ter obtido menos votos que o adversário eleitoral, para tripudiar sobre direitos humanos e liberdades individuais, interna e externamente, ao mesmo tempo que alardeia desavergonhadamente princípios que de todo lhe escapam. A «democrática» luta para impôr à força uma «democracia» num país soberano, que acaba por resultar no aumento exponencial do terrorismo que supostamente queria combater, é bastante para que se conclua ser necessário e urgente o tratamento das democracias ocidentais. Como disse o social-democrata Miguel Veiga, a propósito do livro de Saramago, a democracia está sujeita a «perturbantes derivas, que é preciso corrigir», antes que esta rota a fira de morte.
Em Hong Kong, as legítimas aspirações dos democratas conhecem livremente expressão numa comunicação social que se supõe controlada por um poder adjectivado pejorativamente de «pró-Pequim», onde se noticia, com manifesto exagero e óbvia intenção, a morte do princípio «um País, dois sistemas».
De resto essa mesma comunicação social, como as liberdades individuais e colectivas de manifestação, são utilizadas para fazer passar a ideia de que o poder central está a usurpar direitos que não tem. A interpretação que o comité permanente da Assembleia Nacional Popular fez da Lei Básica de Hong Kong foi equilibrada. Não é preciso ser-se doutor de leis para perceber que em lado nenhum da «mini-constituição» da RAEHK aparece escrito que tem que haver eleições directas e universais já em 2007, como também nunca surge que tal não é possível. Foi isso que os legisladores clarificaram.
Na mais desconfortável questão da necessidade de aval prévio de Pequim a qualquer alteração na eleição do Chefe do Executivo, essa é, de facto, uma leitura plausível do que ingleses e chineses deixaram escrito. Já na eleição do Conselho Legislativo o caso é diferente e aparece diferentemente tratado na Lei Básica – como foi diferentemente interpretado pelos mais de 170 legisladores de Pequim.Assim, a questão da interpretação da Lei Básica de Hong Kong volta ao terreno em que, de facto, se joga: o político. Está tudo em aberto, tudo é possível. O governo central deu provas de abertura política ao admitir, expressamente, que 2007 pode ser o ano em que alterações podem ter efeito. Assim os democratas têm terreno, à luz da interpretação de Pequim, para forçar em Hong Kong passos no sistema eleitoral que conduzam a eleições directas e universais para o Conselho Legislativo. É no terreno político que isso se vai jogar. Falta conhecer a capacidade de mobilização e poder de intervenção que os democratas têm agora que não já se pode atribuir o descontentamento popular às dificuldades económicas.
Havemos de voltar
Num e noutro lado se extremam posições e se usa a manipulação da realidade para obter o objectivo que os junta: uma melhor democracia. Claramente, o objectivo de José Saramago ao lançar a polémica sobre a qualidade da democracia vai no sentido de a aproximar daquilo que os regimes socialistas propõem e o escritor professa: a possibilidade de outros argumentos, além dos económicos, vingarem no acesso e exercício do poder.
As democracias ocidentais estão reféns do poder económico e nem o voto popular o consegue refrear. As aberrações legislativas que Silvio Berlosconi tem vindo a produzir para evitar condenações judiciais são disso exemplo. O poder de comunicação que ele mantém através do seu império de comunicação social é sem dúvida um factor de disfunção democrática. Se se critica o controlo absoluto e a manipulação que as ditaduras exercem sobre os órgãos de comunicação social, o que dizer da impossibilidade de qualquer intervenção numa televisão que é privada? A atestar que esse não é caso isolado recorde-se, apenas, a afirmação de Emídio Rangel, nos primórdios da portuguesa SIC, que o todo poderoso director considerou ser capaz de eleger um presidente da República.
Dêem-se os moderados, apesar de graves, exemplos europeus, para não voltar ao inadjectivável Bush, eleito apesar de ter obtido menos votos que o adversário eleitoral, para tripudiar sobre direitos humanos e liberdades individuais, interna e externamente, ao mesmo tempo que alardeia desavergonhadamente princípios que de todo lhe escapam. A «democrática» luta para impôr à força uma «democracia» num país soberano, que acaba por resultar no aumento exponencial do terrorismo que supostamente queria combater, é bastante para que se conclua ser necessário e urgente o tratamento das democracias ocidentais. Como disse o social-democrata Miguel Veiga, a propósito do livro de Saramago, a democracia está sujeita a «perturbantes derivas, que é preciso corrigir», antes que esta rota a fira de morte.
Em Hong Kong, as legítimas aspirações dos democratas conhecem livremente expressão numa comunicação social que se supõe controlada por um poder adjectivado pejorativamente de «pró-Pequim», onde se noticia, com manifesto exagero e óbvia intenção, a morte do princípio «um País, dois sistemas».
De resto essa mesma comunicação social, como as liberdades individuais e colectivas de manifestação, são utilizadas para fazer passar a ideia de que o poder central está a usurpar direitos que não tem. A interpretação que o comité permanente da Assembleia Nacional Popular fez da Lei Básica de Hong Kong foi equilibrada. Não é preciso ser-se doutor de leis para perceber que em lado nenhum da «mini-constituição» da RAEHK aparece escrito que tem que haver eleições directas e universais já em 2007, como também nunca surge que tal não é possível. Foi isso que os legisladores clarificaram.
Na mais desconfortável questão da necessidade de aval prévio de Pequim a qualquer alteração na eleição do Chefe do Executivo, essa é, de facto, uma leitura plausível do que ingleses e chineses deixaram escrito. Já na eleição do Conselho Legislativo o caso é diferente e aparece diferentemente tratado na Lei Básica – como foi diferentemente interpretado pelos mais de 170 legisladores de Pequim.Assim, a questão da interpretação da Lei Básica de Hong Kong volta ao terreno em que, de facto, se joga: o político. Está tudo em aberto, tudo é possível. O governo central deu provas de abertura política ao admitir, expressamente, que 2007 pode ser o ano em que alterações podem ter efeito. Assim os democratas têm terreno, à luz da interpretação de Pequim, para forçar em Hong Kong passos no sistema eleitoral que conduzam a eleições directas e universais para o Conselho Legislativo. É no terreno político que isso se vai jogar. Falta conhecer a capacidade de mobilização e poder de intervenção que os democratas têm agora que não já se pode atribuir o descontentamento popular às dificuldades económicas.
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24.6.04
Portugal a ganhar
1
Houve quem contestasse o seleccionador da equipa de Portugal que participa no Campeonato da Europa de Futebol por ter uma espinha na garganta, que dá pelo nome de Vitor Baía. Ao fim e ao cabo as coisas correram bem e as vozes de contestação estão caladas à espera da oportunidade para voltarem às cobras e lagartos em relação a Luiz Felipe Scolari. Ninguém duvide de que elas voltariam a ouvir-se na eventualidade de Portugal ser eliminado pela Inglaterra no jogo que se segue. Terão, no entanto que reter o fel, porque antes das meias finais não terão espaço para o despejar. Mesmo depois é um caso a ver, já que provavelmente Portugal atinge a final (depois dos ingleses as perspectivas de adversários nas «meias» não são de molde a desanimar). Isto pela análise da evolução das prestações já neste campeonato e não pelas habituais candidaturas prenunciadas. O que se tem visto confirma, efectivamente, Portugal como um sério candidato à final.
2
Entretanto, consta que vai uma febre de nacionalismo em Portugal, traduzida num inusitado exibir do estandarte, sobretudo. Tudo motivado por um estridente apelo do brasileiro Scolari, de pronto correspondido pelo povo. O que merece referência não só pelo facto de, em todos os momentos, o brasileiro falar como se de um português se tratasse, como por fazê-lo com toda a convicção – até à extrema, mas justificada, de ter aconselhado um humorista espanhol a ir «tomar no cu» em vez de o importunar com idiotices. Luiz Felipe Scolari encarna o espírito universalista dos portugueses, de resto espelhado na selecção, onde têm lugar jogadores com origens ou nascimento em África, América e em outros países europeus. Os que sentem legitimamente a selecção portuguesa como sua são muitos mais no Mundo do que aqueles que têm raízes ou interesses em Portugal, o que é notável.
3
No fim do jogo entre Portugal e Espanha, quando se abordava precisamente a questão de como a vitória portuguesa era vivida nos quatro cantos do Mundo, espantosamente, surgiu Macau. A frase foi, aproximadamente, «esta festa a que aqui assistimos continua em todo o lado. E há mesmo gente que deixa de dormir para ficar a acompanhar os jogos, que neste momento também está a festejar, como em Macau». Disse-a Toni, na Antena 1 – um português que passou por cá recentemente sem estar distraído e que, portanto, se lembra do que é importante nos momentos em que a lembrança é sinónimo de consideração. Enorme, Toni.
4
Noutra competição europeia, a corrida pela presidência da Comissão Europeia, entrou um «outsider» que pode vir a ser o vencedor surpresa. Durão Barroso, primeiro ministro português, tem tudo para ser o eleito: é primeiro ministro de um dos pequenos dos 25; da família política conservadora, que venceu as recentes eleições para o Parlamento Europeu; tem o apoio da Inglaterra, e Tony Blair, que terá sido quem aventou o nome, terá as suas razões, apesar de ser(?) de outra corrente política; e fala francês fluentemente, o que é condição sine qua non para o presidente François Miterrand. Encontrado o sucessor de Romano Prodi? Não.
Não que o problema seja uma eventual falta de capacidade de liderança, ausência de projecto político para a Europa, ou inexistência de mérito intelectual ou académico. O óbice é que, qual Wally que requer toda a atenção para ser descoberto, há fotografias da «cimeira da guerra» nos Açores em que se esforçou por aparecer. Esse é o argumento usado pelo chefe de governo espanhol para se opor à nomeação, embora os inaceitáveis comentários feitos sobre decisões do governo espanhol e o seu envolvimento no Iraque devam ainda estar frescos na memória de José Luís Zapatero.
Eis como, a aventura iraquiana ainda vai tendo consequências políticas para quem nela se meteu, com prejuízo tanto dos responsáveis como mesmo daqueles que pouca culpa têm. No caso, para os portugueses, que se veriam livres de Durão Barroso num passe de mágica – a sair o primeiro ministro, e após a derrota eleitoral que sofreu a coligação que lidera, seriam de prever eleições antecipadas; para o próprio Durão, que assim arranjava uma saída airosa para o berbicacho em que está metido; e para a própria Comissão Europeia, que continua enredada em teias que levam ao descrédito junto dos povos da União. Esperemos que Durão vá presidir à Comissão: ganhava ele, ganhava Portugal e à Europa não havia de ir mal maior.
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Houve quem contestasse o seleccionador da equipa de Portugal que participa no Campeonato da Europa de Futebol por ter uma espinha na garganta, que dá pelo nome de Vitor Baía. Ao fim e ao cabo as coisas correram bem e as vozes de contestação estão caladas à espera da oportunidade para voltarem às cobras e lagartos em relação a Luiz Felipe Scolari. Ninguém duvide de que elas voltariam a ouvir-se na eventualidade de Portugal ser eliminado pela Inglaterra no jogo que se segue. Terão, no entanto que reter o fel, porque antes das meias finais não terão espaço para o despejar. Mesmo depois é um caso a ver, já que provavelmente Portugal atinge a final (depois dos ingleses as perspectivas de adversários nas «meias» não são de molde a desanimar). Isto pela análise da evolução das prestações já neste campeonato e não pelas habituais candidaturas prenunciadas. O que se tem visto confirma, efectivamente, Portugal como um sério candidato à final.
2
Entretanto, consta que vai uma febre de nacionalismo em Portugal, traduzida num inusitado exibir do estandarte, sobretudo. Tudo motivado por um estridente apelo do brasileiro Scolari, de pronto correspondido pelo povo. O que merece referência não só pelo facto de, em todos os momentos, o brasileiro falar como se de um português se tratasse, como por fazê-lo com toda a convicção – até à extrema, mas justificada, de ter aconselhado um humorista espanhol a ir «tomar no cu» em vez de o importunar com idiotices. Luiz Felipe Scolari encarna o espírito universalista dos portugueses, de resto espelhado na selecção, onde têm lugar jogadores com origens ou nascimento em África, América e em outros países europeus. Os que sentem legitimamente a selecção portuguesa como sua são muitos mais no Mundo do que aqueles que têm raízes ou interesses em Portugal, o que é notável.
3
No fim do jogo entre Portugal e Espanha, quando se abordava precisamente a questão de como a vitória portuguesa era vivida nos quatro cantos do Mundo, espantosamente, surgiu Macau. A frase foi, aproximadamente, «esta festa a que aqui assistimos continua em todo o lado. E há mesmo gente que deixa de dormir para ficar a acompanhar os jogos, que neste momento também está a festejar, como em Macau». Disse-a Toni, na Antena 1 – um português que passou por cá recentemente sem estar distraído e que, portanto, se lembra do que é importante nos momentos em que a lembrança é sinónimo de consideração. Enorme, Toni.
4
Noutra competição europeia, a corrida pela presidência da Comissão Europeia, entrou um «outsider» que pode vir a ser o vencedor surpresa. Durão Barroso, primeiro ministro português, tem tudo para ser o eleito: é primeiro ministro de um dos pequenos dos 25; da família política conservadora, que venceu as recentes eleições para o Parlamento Europeu; tem o apoio da Inglaterra, e Tony Blair, que terá sido quem aventou o nome, terá as suas razões, apesar de ser(?) de outra corrente política; e fala francês fluentemente, o que é condição sine qua non para o presidente François Miterrand. Encontrado o sucessor de Romano Prodi? Não.
Não que o problema seja uma eventual falta de capacidade de liderança, ausência de projecto político para a Europa, ou inexistência de mérito intelectual ou académico. O óbice é que, qual Wally que requer toda a atenção para ser descoberto, há fotografias da «cimeira da guerra» nos Açores em que se esforçou por aparecer. Esse é o argumento usado pelo chefe de governo espanhol para se opor à nomeação, embora os inaceitáveis comentários feitos sobre decisões do governo espanhol e o seu envolvimento no Iraque devam ainda estar frescos na memória de José Luís Zapatero.
Eis como, a aventura iraquiana ainda vai tendo consequências políticas para quem nela se meteu, com prejuízo tanto dos responsáveis como mesmo daqueles que pouca culpa têm. No caso, para os portugueses, que se veriam livres de Durão Barroso num passe de mágica – a sair o primeiro ministro, e após a derrota eleitoral que sofreu a coligação que lidera, seriam de prever eleições antecipadas; para o próprio Durão, que assim arranjava uma saída airosa para o berbicacho em que está metido; e para a própria Comissão Europeia, que continua enredada em teias que levam ao descrédito junto dos povos da União. Esperemos que Durão vá presidir à Comissão: ganhava ele, ganhava Portugal e à Europa não havia de ir mal maior.
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9.6.04
Especificidade
O que significa a tantas vezes utilizada expressão da especificidade de Macau? A palavra é horrível e os conceitos que se lhe associam, geralmente, são como um capote para abrigar todos os rotos. Nos últimos dias, na comunicação social, surgiram opiniões que demonstram como Macau é, sobretudo, única.
A importante entrevista que o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau, Wan Yongxiang, deu ontem à agência portuguesa de notícias dá uma visão sobre o assunto. Diz o representante da China na RAEM que o governo central «constata com satisfação» que a comunidade portuguesa «tem apoiado o trabalho do Governo da Região Administrativa Especial de Macau e se tem dedicado activamente a promover a prosperidade e o desenvolvimento local». Disse-o, certamente, em português. O facto de Wan Yongxiang dominar a língua portuguesa terá, de resto, sido determinante para a sua nomeação para o cargo que ocupa. Sendo capaz de compreender qualquer conversa, ler a opinião ou ouvir as notícias em português, o responsável pela ligação do governo de Pequim ao de Macau sabe do que fala e faz questão de o dizer em nome do executivo que serve.
Não passa pela cabeça a ninguém que estas sejam palavras de circunstância, muito menos apenas um instrumento para levar a bom porto a política económica de penetração da China nos mercados dos países lusófonos. O entendimento que o ex-diplomata chinês no Brasil tem é de vistas largas e coração aberto.
O futuro não se constrói com ressabiados, mas com quem está seguro da força que possui – e quando em si mesmo encontra fraquezas (como todos), faz do trabalho e do estudo o caminho para o aperfeiçoamento. Assim, nunca perdendo a identidade, enriquece-a.
Diz na mesma entrevista o o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau que uma candidatura de Edmund Ho a um segundo mandato «terá o apoio da maioria da população». O que não sendo novidade vale pelo facto de o Chefe do Executivo ter, e sobretudo praticar, uma política baseada exactamente nos mesmos princípios que Wan Yongxiang enumera.
Esperemos que a entrevista de Wan Yongxiang seja difundida pela comunicação social em chinês com o destaque que merece. Podendo inferir que os conceitos nela expressos merecem aprovação tão geral entre a população de Macau, seria bom que isso assim ficasse expresso, por via das ovelhas ranhosas do costume. Ora aí etá a especificidade de Macau, versão 1.
A propósito da realização em Pequim de um seminário na área económica que resulta da realização em Macau do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa que teve lugar em outubro passado, o embaixador da República de Angola na capital chinesa, em entrevista à Rádio Macau, estava exultante pelo «fruto» que a iniciativa representa e não poupou elogios à «grande cidade». A Macau – onde volta com alegria por o cargo desempenha em Pequim lhe proporcionar o regresso a uma terra onde se sente bem. Desculpe-se-me o facto de me referir agora a um trabalho onde estive directamente envolvido, mas a forma como o embaixador João Bernardo reagiu a um telefonema em que, sem sair da China, falava na sua língua e tinha quem o ouvisse e estivesse interessado no que tinha para dizer, merece referência. É isso Macau no século XXI – uma cidade (perdida na sempre longínqua Ásia, integrada na imensidão da China), muito maior que si própria e que tudo o que sobre ela se possa dizer. É do tamanho da alegria dos homens, e essa não se mede. Em versão 2, mais que especificidade.
Não é muito conhecido o trabalho cívico do médico Fong Man Tat, pelo menos nos meios que nos são mais próximos, mas merece toda a atenção. O líder da Associação para a Construção de Macau, que se sabe ter sido candidato e não eleito para a Assembleia Legislativa, surgiu com propostas muito concretas para a construção de uma sociedade mais participativa na RAEM. O facto de ter feito propostas de participação, evolução do sistema político, instituição de métodos de observação social antes de reclamar o rótulo de democrata (ou qualquer outro), merece aplauso. De facto, a Fong Man Tat parece interessar a evolução da sociedade e do sistema (ou a construção de Macau, como indica o nome da Associação que lidera) e não o título de campeão das democracias e liberdades liberais.
Com as palavras inteiras defendeu a articulação com o poder central para que, num prazo relativamente dilatado de tempo (2013), se possa no território exercer universalmente o direito de voto em partidos legalmente instituidos. Politicamente a estratégia é acertada e provavelmente dará muito melhores frutos que outras de confrontação e reivindicações a raiar o separatismo dubiamente legitimado. O que merece ovação. Embora ter razão antes do tempo, em política, é erro que se paga com a derrota no imediato, a decência e honestidade intelectual são valores que acabam por dar frutos. Por oposição ao «grande irmão» que mora do outro lado do Rio, esta é a melhor especificidade que Macau pode reclamar para si.
Havemos de voltar
A importante entrevista que o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau, Wan Yongxiang, deu ontem à agência portuguesa de notícias dá uma visão sobre o assunto. Diz o representante da China na RAEM que o governo central «constata com satisfação» que a comunidade portuguesa «tem apoiado o trabalho do Governo da Região Administrativa Especial de Macau e se tem dedicado activamente a promover a prosperidade e o desenvolvimento local». Disse-o, certamente, em português. O facto de Wan Yongxiang dominar a língua portuguesa terá, de resto, sido determinante para a sua nomeação para o cargo que ocupa. Sendo capaz de compreender qualquer conversa, ler a opinião ou ouvir as notícias em português, o responsável pela ligação do governo de Pequim ao de Macau sabe do que fala e faz questão de o dizer em nome do executivo que serve.
Não passa pela cabeça a ninguém que estas sejam palavras de circunstância, muito menos apenas um instrumento para levar a bom porto a política económica de penetração da China nos mercados dos países lusófonos. O entendimento que o ex-diplomata chinês no Brasil tem é de vistas largas e coração aberto.
O futuro não se constrói com ressabiados, mas com quem está seguro da força que possui – e quando em si mesmo encontra fraquezas (como todos), faz do trabalho e do estudo o caminho para o aperfeiçoamento. Assim, nunca perdendo a identidade, enriquece-a.
Diz na mesma entrevista o o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau que uma candidatura de Edmund Ho a um segundo mandato «terá o apoio da maioria da população». O que não sendo novidade vale pelo facto de o Chefe do Executivo ter, e sobretudo praticar, uma política baseada exactamente nos mesmos princípios que Wan Yongxiang enumera.
Esperemos que a entrevista de Wan Yongxiang seja difundida pela comunicação social em chinês com o destaque que merece. Podendo inferir que os conceitos nela expressos merecem aprovação tão geral entre a população de Macau, seria bom que isso assim ficasse expresso, por via das ovelhas ranhosas do costume. Ora aí etá a especificidade de Macau, versão 1.
A propósito da realização em Pequim de um seminário na área económica que resulta da realização em Macau do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa que teve lugar em outubro passado, o embaixador da República de Angola na capital chinesa, em entrevista à Rádio Macau, estava exultante pelo «fruto» que a iniciativa representa e não poupou elogios à «grande cidade». A Macau – onde volta com alegria por o cargo desempenha em Pequim lhe proporcionar o regresso a uma terra onde se sente bem. Desculpe-se-me o facto de me referir agora a um trabalho onde estive directamente envolvido, mas a forma como o embaixador João Bernardo reagiu a um telefonema em que, sem sair da China, falava na sua língua e tinha quem o ouvisse e estivesse interessado no que tinha para dizer, merece referência. É isso Macau no século XXI – uma cidade (perdida na sempre longínqua Ásia, integrada na imensidão da China), muito maior que si própria e que tudo o que sobre ela se possa dizer. É do tamanho da alegria dos homens, e essa não se mede. Em versão 2, mais que especificidade.
Não é muito conhecido o trabalho cívico do médico Fong Man Tat, pelo menos nos meios que nos são mais próximos, mas merece toda a atenção. O líder da Associação para a Construção de Macau, que se sabe ter sido candidato e não eleito para a Assembleia Legislativa, surgiu com propostas muito concretas para a construção de uma sociedade mais participativa na RAEM. O facto de ter feito propostas de participação, evolução do sistema político, instituição de métodos de observação social antes de reclamar o rótulo de democrata (ou qualquer outro), merece aplauso. De facto, a Fong Man Tat parece interessar a evolução da sociedade e do sistema (ou a construção de Macau, como indica o nome da Associação que lidera) e não o título de campeão das democracias e liberdades liberais.
Com as palavras inteiras defendeu a articulação com o poder central para que, num prazo relativamente dilatado de tempo (2013), se possa no território exercer universalmente o direito de voto em partidos legalmente instituidos. Politicamente a estratégia é acertada e provavelmente dará muito melhores frutos que outras de confrontação e reivindicações a raiar o separatismo dubiamente legitimado. O que merece ovação. Embora ter razão antes do tempo, em política, é erro que se paga com a derrota no imediato, a decência e honestidade intelectual são valores que acabam por dar frutos. Por oposição ao «grande irmão» que mora do outro lado do Rio, esta é a melhor especificidade que Macau pode reclamar para si.
Havemos de voltar
1.6.04
O amigo do lixo
Cansa o lixo que nos entra todos os dias pelos sentidos adentro sem que possamos fazer grande coisa para o evitar.
Custa mais, em primeiro lugar, aquele que nos invade a casa. De entre esse o que nos chega por correio.
No eletrónico, com amigos que não destinguem o cantar do rachar lenha e nos enviam todo o tipo de conspurcações anunciadas como fabulosas, divertidíssimas ou espectaculares. Não são parcos na adjectivação, sempre superlativos, grandiloquentes e idiotas. É incrível como aqueles envelopes que recebiamos há uns anos com uma moedinha dentro, obrigando a que se dactilografasse 10 exemplares iguais, pedindo graças a nossa senhora dos biscoitos, sob pena de nos cair um raio fulminante na primeira esquina foram substituidos por igualíssimas mensagens, invocando são laparoto, agora para reenviar a outros tantos ou mais cabalístico número de destinatários, pendendo a ameaça de um qualquer vírus sobre nós em caso de falha. Incrível é como gente que fez estudos se enreda nisso, disseminando estultícia. Imagino-os em furiosos ‘forwards’ de tacha arreganhada como os pobre de espírito.
Irrita mais, muito mais, esse que o lixo electrónico de quem quer vender viagra, um diploma, renegociações de crédito ou simplesmente o céu. Esses não são nossos amigos e hão-de, seguramente, querer testar se do outro lado da rede estará um papalvo.
Irrita e não se desculpa, que o governo da RAEM não legisle sobre publicidade, no sentido de penalizar quem, sem nos conhecer de lado nenhum, se digna enfiar na nossa caixa do correio promoções a um qualquer produto. Entre esses há um que é de supina desfaçatez: endereça o correio com destino ao «Pizza Hut Fan» e não se coíbe de lhe apor a nossa morada. Ídolos, se os tivermos, escolhemo-os (ainda que depois nos desiludam). Isto é falta de educação e abuso de confiança. Dá-se mesmo o caso de muitos de nós não só não metermos o dente em produtos de tal consistência como alguns sermos mesmo militantes da «slow food». Quem raio é o senhor Hut para estas confianças?
Em sociedades avançadas há leis que protegem os cidadãos de tais avanços: pespega-se um autocolante na caixa do correio a dizer que ali só entra quem estiver convidado, e quem abusar sofre as consequências. Lá chegaremos nesta terra que dá sinais de ir seguindo bons caminhos.
Entre o lixo que nos assalta o domicílio avulta o televisivo - mas para esse estamos avisados. Menos alertas são lançados para a estrumeira musical, tipo letra minha e música do meu mano, como vem de antanho. Do mesmo tempo em que o acompanhamento à viola fazia distraír do chorrilho de banalidades oferecidas em embrulho de celofane antes e depois da execução musical. Claro que são muito giros e há sempre cliente pronto a bajular, assim se vai andando. Para ambos, felizmente, há o botão de desligar, ou a opção de mudar, que nos descansa.
Mais simples ainda é evitar prosas bafientas e conceitos desfazados que também vão polulando.
Já depois de sair à rua são menos as possibilidades de escapar ao lixo. Aos que nos aflige as narinas, entope poros, viola os olhos, agride os tímpanos. O do ambiente, que carece de protecção mais eficaz.
Há também a trampa que, sendo visual, reside no gosto que se cultiva, e portanto lesa o espírito. Muitos anos hão-de passar até que as montras – e por extensão quem delas se veste – consiga encontrar um equilíbrio pacífico entre a pataca e o cor-de-rosa debruado, o yuan e o verde-alface canelado, o dólar de Hong Kong e o sapato douradamente afilado, quando não rematado por um canelão que nem os póneis. É de crer que faltam espelhos em Macau, tal a voracidade estilista das nossas piranhas ambulantes.
No capítulo do lixo que não provoca pesadelos, mas dor de alma, é o própriamente dito. A garrafa que vai pró saco quando devia ser reciclada, a lata que vai pró balde e idem, o papel que igualmente e aspas. Sabendo a apetência local pelo funcionalismo público e a proverbial e bem divulgada preocupação do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais com as questões do ambiente, não seria altura de ser instituido o – podem usar o nome à borla – «Departamento de Separação de Resíduos Conforme a Sua Natureza Orgânica», para promover a recolha selectiva de resíduos sólidos urbanos? Até a Natureza agradecia.
Havemos de voltar
Custa mais, em primeiro lugar, aquele que nos invade a casa. De entre esse o que nos chega por correio.
No eletrónico, com amigos que não destinguem o cantar do rachar lenha e nos enviam todo o tipo de conspurcações anunciadas como fabulosas, divertidíssimas ou espectaculares. Não são parcos na adjectivação, sempre superlativos, grandiloquentes e idiotas. É incrível como aqueles envelopes que recebiamos há uns anos com uma moedinha dentro, obrigando a que se dactilografasse 10 exemplares iguais, pedindo graças a nossa senhora dos biscoitos, sob pena de nos cair um raio fulminante na primeira esquina foram substituidos por igualíssimas mensagens, invocando são laparoto, agora para reenviar a outros tantos ou mais cabalístico número de destinatários, pendendo a ameaça de um qualquer vírus sobre nós em caso de falha. Incrível é como gente que fez estudos se enreda nisso, disseminando estultícia. Imagino-os em furiosos ‘forwards’ de tacha arreganhada como os pobre de espírito.
Irrita mais, muito mais, esse que o lixo electrónico de quem quer vender viagra, um diploma, renegociações de crédito ou simplesmente o céu. Esses não são nossos amigos e hão-de, seguramente, querer testar se do outro lado da rede estará um papalvo.
Irrita e não se desculpa, que o governo da RAEM não legisle sobre publicidade, no sentido de penalizar quem, sem nos conhecer de lado nenhum, se digna enfiar na nossa caixa do correio promoções a um qualquer produto. Entre esses há um que é de supina desfaçatez: endereça o correio com destino ao «Pizza Hut Fan» e não se coíbe de lhe apor a nossa morada. Ídolos, se os tivermos, escolhemo-os (ainda que depois nos desiludam). Isto é falta de educação e abuso de confiança. Dá-se mesmo o caso de muitos de nós não só não metermos o dente em produtos de tal consistência como alguns sermos mesmo militantes da «slow food». Quem raio é o senhor Hut para estas confianças?
Em sociedades avançadas há leis que protegem os cidadãos de tais avanços: pespega-se um autocolante na caixa do correio a dizer que ali só entra quem estiver convidado, e quem abusar sofre as consequências. Lá chegaremos nesta terra que dá sinais de ir seguindo bons caminhos.
Entre o lixo que nos assalta o domicílio avulta o televisivo - mas para esse estamos avisados. Menos alertas são lançados para a estrumeira musical, tipo letra minha e música do meu mano, como vem de antanho. Do mesmo tempo em que o acompanhamento à viola fazia distraír do chorrilho de banalidades oferecidas em embrulho de celofane antes e depois da execução musical. Claro que são muito giros e há sempre cliente pronto a bajular, assim se vai andando. Para ambos, felizmente, há o botão de desligar, ou a opção de mudar, que nos descansa.
Mais simples ainda é evitar prosas bafientas e conceitos desfazados que também vão polulando.
Já depois de sair à rua são menos as possibilidades de escapar ao lixo. Aos que nos aflige as narinas, entope poros, viola os olhos, agride os tímpanos. O do ambiente, que carece de protecção mais eficaz.
Há também a trampa que, sendo visual, reside no gosto que se cultiva, e portanto lesa o espírito. Muitos anos hão-de passar até que as montras – e por extensão quem delas se veste – consiga encontrar um equilíbrio pacífico entre a pataca e o cor-de-rosa debruado, o yuan e o verde-alface canelado, o dólar de Hong Kong e o sapato douradamente afilado, quando não rematado por um canelão que nem os póneis. É de crer que faltam espelhos em Macau, tal a voracidade estilista das nossas piranhas ambulantes.
No capítulo do lixo que não provoca pesadelos, mas dor de alma, é o própriamente dito. A garrafa que vai pró saco quando devia ser reciclada, a lata que vai pró balde e idem, o papel que igualmente e aspas. Sabendo a apetência local pelo funcionalismo público e a proverbial e bem divulgada preocupação do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais com as questões do ambiente, não seria altura de ser instituido o – podem usar o nome à borla – «Departamento de Separação de Resíduos Conforme a Sua Natureza Orgânica», para promover a recolha selectiva de resíduos sólidos urbanos? Até a Natureza agradecia.
Havemos de voltar
29.5.04
O estado da união
Sem ministro
Não se ouviram brados de indignação pelo cancelamento da visita que o então ministro da Educação de Portugal viria fazer a Macau. Surgiu um comentário mais incendiário alí, outro acolá, mas tem razão quem disse que, sem sentido, seria a vinda de um ministro que o seria à partida, mas já não à chegada. O que viria fazer David Justino a Macau? Nada, porque quando cá chegasse o governo que integrava não seria mais que os destroços em gestão de um executivo abandonado à sua triste sina por um primeiro-ministro em debandada.
Faça-se justiça a Justino: foi a última, mas excelente decisão. Porque não fez em tempo útil, o tempo se encarregou de o fazer inútil. Como já estamos habituados, só o cenário mudou, a banda sonora é a do costume. Afinal, alguém acreditava que ía haver novo currículo na Escola Portuguesa de Macau no próximo ano lectivo? Além do mais, tal seria inaceitável, já que a inscrição dos alunos corresponderia à passagem de um cheque em branco à decisão tomada, já que ia surgir em cima do período de matrículas. Portanto, reste a fé a quem a tenha de que o próximo será melhor.
Por Portugal
Apesar de tudo há que estar solidário com o ministro, como se deve ser complacente com todas as vítimas da desgraça: por muitos avisos que se façam a quem prossegue em caminho errado, quando o malho chega a recriminação não é o melhor remédio.
Assim foram sendo lançados alertas contra o caminho que o governo português seguia. Sendo bem verdade que um mal nunca vem só, eis que à crise económica se junta agora a crise política. O problema agora é que habitualmente não há duas sem três – só faltava Santana Lopes suceder dinasticamente, em golpe palaciano cujos contornos, reconheça-se, estão bem urdidos.
Durão Barroso deu às-de-Vila-Diogo, como era de prever, e quer agora passar o ónus da fuga para o presidente português, caso, como aconselha a sensibilidade política expressa na opinião das mais avisadas personalidades locais, opte por dissolver o parlamento e convocar eleições que legitimem um novo primeiro-ministro – como, apesar da coligação pós-eleitoral, este estava. Um primeiro-ministro não sufragado de uma coligação de bastidores seria, ao contrário do que diz o candidato a governante, coisa nunca vista em democracias adultas. De resto, e contra a verborreia populista de Santana Lopes, concorre desde logo o facto de nenhum outro primeiro-ministro em funções ter aceite abandonar o mandato para que tinha sido eleito, a começar pelo próprio irlandês que encontrou em Durão o mínimo denominador comum que lhe salvou a presidência do Conselho.
Vá então Durão à vida e prove a sorte que santos da casa não fazem milagres.
Todos à Torre
Em boa hora a Casa de Portugal em Macau decidiu avançar para uma iniciativa que pode envolver muita gente numa festa memorável. Esta é uma na ‘mouche’. O local escolhido é o mais certo: amplo, agradável, e alheio a conotações ou alergias que um qualquer outro mais tradicional pudesse causar; o momento é entusiasmante, sendo já evidente que as madrugadas futeboleiras têm envolvido muita gente que habitualmente até se alheia do futebol; parece garantida a presença de quantidade suficiente de gente para que não se centre a iniciativa nesta ou naquela personalidade; torna-se o evento (palavra tão de Macau, esta) aberto a todos, aos distraídos e circunstantes, eliminando-se empecilhos em que tropeçamos todos os dias; sobretudo, põe-se à disposição de quem quiser, sem convites nem ameias, um local para se conviver e partilhar emoções, descarregar energias, celebrar alegrias e dispender considerações, regar o esófago e desgastar a laringe, enrouquecer saudavelmente enquanto se cospem unhas roídas, enfim, tudo o que faz de um jogo de futebol decisivo um momento só repetível na final ansiada. Afinal, a tantos milhares de quilómetros do palco original, quem não quer encurtar distâncias? Bolas!
Dar bandeira
Pretendeu um leitor corrigir a última crónica aqui publicada onde se dizia que o apelo de Luiz Felipe Scolari tinha produzido o efeito de uma febre de ostentação do estandarte português por alturas do Euro 2004. Dizia a prosa que tinha sido Marcelo Rebelo de Sousa, e não o seleccionador de Portugal, o autor da ideia. Vamos então atribuir o seu a seu dono: Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, fala na televisão sobre o assunto, referindo-se a uma carta que recebera de um jovem, Bernardo Teotónio Pereira, que lançava o apelo, sendo então, e até melhor opinião, quem poderá reclamar os louros. Bernardo Senna Fernandes, o leitor, omitiu essa parte. Como não quis perceber que foi, efectivamente (e pelo que nos é dado apreender a esta distância), a partir do apelo lançado por Scolari que as bandeiras começaram a surgir penduradas.
Por cá, ouvi um cabotino considerar «idiota» o acto de ostentar a bandeira portuguesa depois da vitória da selecção de futebol sobre a Inglaterra. Ridícula, a observação, de uma criatura esdrúxula, obviamente. Esperemos que haja razões para, após o jogo com a Holanda, poder partir-se em caravana festiva com tantas bandeiras quantas se queiram. Que se possa ver em Macau o que se observou na Praia, em S. Tomé, Maputo e Bissau, Luanda ou Díli, onde o passado não condiciona o presente individual e os laços históricos proporcionam a festa comum. Que isso possa depois ser mostrado ao Mundo, como aqui vemos as outras festas.
Havemos de voltar
Não se ouviram brados de indignação pelo cancelamento da visita que o então ministro da Educação de Portugal viria fazer a Macau. Surgiu um comentário mais incendiário alí, outro acolá, mas tem razão quem disse que, sem sentido, seria a vinda de um ministro que o seria à partida, mas já não à chegada. O que viria fazer David Justino a Macau? Nada, porque quando cá chegasse o governo que integrava não seria mais que os destroços em gestão de um executivo abandonado à sua triste sina por um primeiro-ministro em debandada.
Faça-se justiça a Justino: foi a última, mas excelente decisão. Porque não fez em tempo útil, o tempo se encarregou de o fazer inútil. Como já estamos habituados, só o cenário mudou, a banda sonora é a do costume. Afinal, alguém acreditava que ía haver novo currículo na Escola Portuguesa de Macau no próximo ano lectivo? Além do mais, tal seria inaceitável, já que a inscrição dos alunos corresponderia à passagem de um cheque em branco à decisão tomada, já que ia surgir em cima do período de matrículas. Portanto, reste a fé a quem a tenha de que o próximo será melhor.
Por Portugal
Apesar de tudo há que estar solidário com o ministro, como se deve ser complacente com todas as vítimas da desgraça: por muitos avisos que se façam a quem prossegue em caminho errado, quando o malho chega a recriminação não é o melhor remédio.
Assim foram sendo lançados alertas contra o caminho que o governo português seguia. Sendo bem verdade que um mal nunca vem só, eis que à crise económica se junta agora a crise política. O problema agora é que habitualmente não há duas sem três – só faltava Santana Lopes suceder dinasticamente, em golpe palaciano cujos contornos, reconheça-se, estão bem urdidos.
Durão Barroso deu às-de-Vila-Diogo, como era de prever, e quer agora passar o ónus da fuga para o presidente português, caso, como aconselha a sensibilidade política expressa na opinião das mais avisadas personalidades locais, opte por dissolver o parlamento e convocar eleições que legitimem um novo primeiro-ministro – como, apesar da coligação pós-eleitoral, este estava. Um primeiro-ministro não sufragado de uma coligação de bastidores seria, ao contrário do que diz o candidato a governante, coisa nunca vista em democracias adultas. De resto, e contra a verborreia populista de Santana Lopes, concorre desde logo o facto de nenhum outro primeiro-ministro em funções ter aceite abandonar o mandato para que tinha sido eleito, a começar pelo próprio irlandês que encontrou em Durão o mínimo denominador comum que lhe salvou a presidência do Conselho.
Vá então Durão à vida e prove a sorte que santos da casa não fazem milagres.
Todos à Torre
Em boa hora a Casa de Portugal em Macau decidiu avançar para uma iniciativa que pode envolver muita gente numa festa memorável. Esta é uma na ‘mouche’. O local escolhido é o mais certo: amplo, agradável, e alheio a conotações ou alergias que um qualquer outro mais tradicional pudesse causar; o momento é entusiasmante, sendo já evidente que as madrugadas futeboleiras têm envolvido muita gente que habitualmente até se alheia do futebol; parece garantida a presença de quantidade suficiente de gente para que não se centre a iniciativa nesta ou naquela personalidade; torna-se o evento (palavra tão de Macau, esta) aberto a todos, aos distraídos e circunstantes, eliminando-se empecilhos em que tropeçamos todos os dias; sobretudo, põe-se à disposição de quem quiser, sem convites nem ameias, um local para se conviver e partilhar emoções, descarregar energias, celebrar alegrias e dispender considerações, regar o esófago e desgastar a laringe, enrouquecer saudavelmente enquanto se cospem unhas roídas, enfim, tudo o que faz de um jogo de futebol decisivo um momento só repetível na final ansiada. Afinal, a tantos milhares de quilómetros do palco original, quem não quer encurtar distâncias? Bolas!
Dar bandeira
Pretendeu um leitor corrigir a última crónica aqui publicada onde se dizia que o apelo de Luiz Felipe Scolari tinha produzido o efeito de uma febre de ostentação do estandarte português por alturas do Euro 2004. Dizia a prosa que tinha sido Marcelo Rebelo de Sousa, e não o seleccionador de Portugal, o autor da ideia. Vamos então atribuir o seu a seu dono: Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, fala na televisão sobre o assunto, referindo-se a uma carta que recebera de um jovem, Bernardo Teotónio Pereira, que lançava o apelo, sendo então, e até melhor opinião, quem poderá reclamar os louros. Bernardo Senna Fernandes, o leitor, omitiu essa parte. Como não quis perceber que foi, efectivamente (e pelo que nos é dado apreender a esta distância), a partir do apelo lançado por Scolari que as bandeiras começaram a surgir penduradas.
Por cá, ouvi um cabotino considerar «idiota» o acto de ostentar a bandeira portuguesa depois da vitória da selecção de futebol sobre a Inglaterra. Ridícula, a observação, de uma criatura esdrúxula, obviamente. Esperemos que haja razões para, após o jogo com a Holanda, poder partir-se em caravana festiva com tantas bandeiras quantas se queiram. Que se possa ver em Macau o que se observou na Praia, em S. Tomé, Maputo e Bissau, Luanda ou Díli, onde o passado não condiciona o presente individual e os laços históricos proporcionam a festa comum. Que isso possa depois ser mostrado ao Mundo, como aqui vemos as outras festas.
Havemos de voltar
11.5.04
A bola
Dizer que a bola é redonda nem sempre é uma verdade lapaliciana. Mesmo no jargão futebolês essa expressão é usada recorrentemente e com razão.
Porque o fenómeno onde a bola é mais popular provoca alterações de visão que a tornam num outro sólido de forma indefinida e muito ainda não nomeável. Uma das formas que o esférico adopta ultimamente poderá ser designada, se assim o quiserem os cronistas desportivos, por «cunhado» ou «alvalângulo». Naturalmente que o objecto terá que possuir lados e ângulos – aqueles por que o principal arauto do novo sólido geométrico decidir observar a bola, que como se sabe, o presidente «leonino» já o sabia antes de muitos de nós, também tem dois lados: o de dentro e o de fora. Tinha, porque a bola que rola aos olhos do tão respeitável quão tremeliquento (por que será?) senhor tem muitos mais. Quando hezagonal provocas faltas invisíveis às restantes dezenas de milhares de olhos presentes no mesmo recinto – mas que resultam em indigesto golo. Pelo menos octogonal quando transformam os 11, ou 23, ou quantos foram, que a ela andaram ao biqueiro durante nove meses para parirem uma modesta prestação, constituindo-se, apesar de tudo, na melhor equipa do campeonato. Trata-se, obviamente, de uma questão de sistema, ou de falta dele – o táctico, obviamente. Outra hipótese é tratar-se de contaminação pelo vapores bafientos da nobreza que empestam o novo Alvalade viscondal.
Dizer que a bola é redonda, em desporto, não é o mesmo que dizer que um quadrado tem quatro lados. Pela mesma razão que dizer que um homem tem dois pés não significa o mesmo se estivermos a falar de um carpinteiro ou de um futebolista. Por isso mesmo quando Geovani fuzilou Ricardo nenhum dos polícias presentes pensou em dar-lhe ordem de prisão por homicídio qualificado e bastamente testemunhado, nem sequer sair abraçado a ele em direcção ao balneário, com o chapéu em baixo do braço, para lhe pedir a identificação.
É assim o mundo da bola, uma sociedade à parte, que pede emprestada aqui e ali a língua deste e daquele para lhe dar novos significados, que tem regras próprias e se mantém, no geral, fora das instâncias judiciais civis, a menos que se misturem os papéis e lá tenha a justiça dos homens que se meter com os homens da bola. É como quem diz: se o presidente da Câmara licenciar ilegalmente três loteamentos em troca de uma contribuição ao clube da terra, pode ter problemas por ser autarca, não sócio da agremiação. Se ao atleta for detectada cocaína no organismo, fica uns meses sem jogar em público, mas não chega a poisar as nalgas no madeiro do tribunal. Não interessa se de facto ou de jure, certo é que há duas medidas e pelo menos outros tantos pesos.
Os cidadãos mais avessos ao fenómeno desportivo tendem a ver nisto se não o fim do Mundo pelo menos sinal inequívoco de que ele está perdido. Inquietam-se alguns da cultura com a alienação, da religião com as faltas ao sacramento, do intelecto com a brutalidade, outros, avulsos, com não perceberem as regras. A bola, essa, lá vai girando, e quando pára gera suspiros.
A bola faz mais pela Paz, pela Felicidade, pelas Culturas, pela economia e pela cooperação do que os protagonistas do jogo pretendem. Obviamente, muito mais do que o que os dirigentes dos clubes alguma vez pretendem – eles que ambicionam, regra geral, metas materiais e proventos pessoais que nada têm que ver naqueles valores. Mas a bola é dos povos e sai do controlo dos Estados – por isso resulta, passa barreiras, ultrapassa dificuldades, obtem feitos impossíveis para comunidades que doutra forma se mantêm presas nas redes que os sistemas políticos criaram para envolver, e manietar, as sociedades.
Se assim não fosse, o Futebol Clube do Porto seria apenas «bimbo», não alcançaria, com nenhum Mourinho, a fama merecida e a glória conquistada que nenhuma outra instituição daquela atrasada região europeia obteve, se propõe ou sequer vislumbra.
Por isso, sem sequer fazerem ideia de quem foi Camões, nos confins da China há quem saiba uma palavra em português e a use quando precisam de dizer Bem Vindo Portugal. Que dizer quando, no desempenho de funções profissionais, a curadora da Fundação Oriente chegou a uma pequena cidade do interior da China e, tendo à sua espera alguém que não sabia como a identificar, leu num cartaz (com que o improvisado motorista se desenrascou) a palavra Benfica?
A bola, que até pode ser um ovo, um sabre, apenas uma fita, as mãos, consegue maravilhas. Seria estultícia pretender reduzir tudo à bola, tanto quanto tentar a quadratura do círculo. Mas é tempo para os que têm responsabilidades na difusão da língua e cultura perceberem que há formas menos arcaicas e gente menos vetusta para fazer florescer o que definha ricamente.
É assim o mundo da bola, universal, que dá para falar de tudo e tudo pôr em causa, provando que nem tudo o que é bola rola e, mais ainda, que nem tudo o rebola é redondo.
Havemos de voltar
Porque o fenómeno onde a bola é mais popular provoca alterações de visão que a tornam num outro sólido de forma indefinida e muito ainda não nomeável. Uma das formas que o esférico adopta ultimamente poderá ser designada, se assim o quiserem os cronistas desportivos, por «cunhado» ou «alvalângulo». Naturalmente que o objecto terá que possuir lados e ângulos – aqueles por que o principal arauto do novo sólido geométrico decidir observar a bola, que como se sabe, o presidente «leonino» já o sabia antes de muitos de nós, também tem dois lados: o de dentro e o de fora. Tinha, porque a bola que rola aos olhos do tão respeitável quão tremeliquento (por que será?) senhor tem muitos mais. Quando hezagonal provocas faltas invisíveis às restantes dezenas de milhares de olhos presentes no mesmo recinto – mas que resultam em indigesto golo. Pelo menos octogonal quando transformam os 11, ou 23, ou quantos foram, que a ela andaram ao biqueiro durante nove meses para parirem uma modesta prestação, constituindo-se, apesar de tudo, na melhor equipa do campeonato. Trata-se, obviamente, de uma questão de sistema, ou de falta dele – o táctico, obviamente. Outra hipótese é tratar-se de contaminação pelo vapores bafientos da nobreza que empestam o novo Alvalade viscondal.
Dizer que a bola é redonda, em desporto, não é o mesmo que dizer que um quadrado tem quatro lados. Pela mesma razão que dizer que um homem tem dois pés não significa o mesmo se estivermos a falar de um carpinteiro ou de um futebolista. Por isso mesmo quando Geovani fuzilou Ricardo nenhum dos polícias presentes pensou em dar-lhe ordem de prisão por homicídio qualificado e bastamente testemunhado, nem sequer sair abraçado a ele em direcção ao balneário, com o chapéu em baixo do braço, para lhe pedir a identificação.
É assim o mundo da bola, uma sociedade à parte, que pede emprestada aqui e ali a língua deste e daquele para lhe dar novos significados, que tem regras próprias e se mantém, no geral, fora das instâncias judiciais civis, a menos que se misturem os papéis e lá tenha a justiça dos homens que se meter com os homens da bola. É como quem diz: se o presidente da Câmara licenciar ilegalmente três loteamentos em troca de uma contribuição ao clube da terra, pode ter problemas por ser autarca, não sócio da agremiação. Se ao atleta for detectada cocaína no organismo, fica uns meses sem jogar em público, mas não chega a poisar as nalgas no madeiro do tribunal. Não interessa se de facto ou de jure, certo é que há duas medidas e pelo menos outros tantos pesos.
Os cidadãos mais avessos ao fenómeno desportivo tendem a ver nisto se não o fim do Mundo pelo menos sinal inequívoco de que ele está perdido. Inquietam-se alguns da cultura com a alienação, da religião com as faltas ao sacramento, do intelecto com a brutalidade, outros, avulsos, com não perceberem as regras. A bola, essa, lá vai girando, e quando pára gera suspiros.
A bola faz mais pela Paz, pela Felicidade, pelas Culturas, pela economia e pela cooperação do que os protagonistas do jogo pretendem. Obviamente, muito mais do que o que os dirigentes dos clubes alguma vez pretendem – eles que ambicionam, regra geral, metas materiais e proventos pessoais que nada têm que ver naqueles valores. Mas a bola é dos povos e sai do controlo dos Estados – por isso resulta, passa barreiras, ultrapassa dificuldades, obtem feitos impossíveis para comunidades que doutra forma se mantêm presas nas redes que os sistemas políticos criaram para envolver, e manietar, as sociedades.
Se assim não fosse, o Futebol Clube do Porto seria apenas «bimbo», não alcançaria, com nenhum Mourinho, a fama merecida e a glória conquistada que nenhuma outra instituição daquela atrasada região europeia obteve, se propõe ou sequer vislumbra.
Por isso, sem sequer fazerem ideia de quem foi Camões, nos confins da China há quem saiba uma palavra em português e a use quando precisam de dizer Bem Vindo Portugal. Que dizer quando, no desempenho de funções profissionais, a curadora da Fundação Oriente chegou a uma pequena cidade do interior da China e, tendo à sua espera alguém que não sabia como a identificar, leu num cartaz (com que o improvisado motorista se desenrascou) a palavra Benfica?
A bola, que até pode ser um ovo, um sabre, apenas uma fita, as mãos, consegue maravilhas. Seria estultícia pretender reduzir tudo à bola, tanto quanto tentar a quadratura do círculo. Mas é tempo para os que têm responsabilidades na difusão da língua e cultura perceberem que há formas menos arcaicas e gente menos vetusta para fazer florescer o que definha ricamente.
É assim o mundo da bola, universal, que dá para falar de tudo e tudo pôr em causa, provando que nem tudo o que é bola rola e, mais ainda, que nem tudo o rebola é redondo.
Havemos de voltar
5.5.04
Mensagem ao Mundo em particular
Transcrição de um discurso captado por satélite de origem desconhecida mas destinatário identificado:
Caros árabes em geral,
Como certamente já tiveram oportunidade de saber, através das televisões que difundem a verdade pelo Mundo, estou profundamente chocado. Contaram-me que uns rapazes que mandei libertar-vos, depois de vos meterem na prisão sem que ninguém os mandasse, fizeram coisas incrivelmente divertidas que, no entanto, dizem-me para dizer que são más. Em boa verdade não vejo qual é o problema de empilhar umas dúzias de prisioneiros e posar para a fotografia atrás deles. Para todos os efeitos são prisioneiros, se estão presos é porque são maus e se são maus muito provavelmente gostam do Bin Laden. Obviamente pelo menos gostam do Saddam, se não não estariam presos. Mesmo que tenha havido algum engano e não gostem assim tanto desse ditador de que vos livrámos, tenho a certeza de que pelo menos são dos que acham que a terra deles deve ser governada por eles próprios, o que é um péssimo princípio que, nas circunstâncias actuais, justificam que estejam presos.
Acho mesmo que deviam estar-nos agradecidos, uma vez que ninguém se lembrou de os mandar para Guantanamo, onde, como se sabe, é muito pior a convivência com o barbudo comunista do que as condições de detenção em que os mantemos. Nem percebo por que é que os nossos aliados, até ingleses, acham mal, quando até vendas nos olhos lhes pomos para não verem aquele inferno comunista. Enfim, a ingratidão é algo que não me surpreende.
Mas não foi para estas reflexões profundas sobre política e estratégia à escala planetária que decidi falar-vos, caros árabes em geral. Não posso esquecer-me de que estou profundamente chocado e que isso é o mais importante que tenho para dizer-vos. Acho mesmo que, inspirando-me na minha conselheira, será um achado comunicacional enviar-vos as minhas condolezas, como dizemos lá no Texas. Hábitos que nos vêm de longe, como calculais.
Como sabeis tenho andado muito ocupado ultimamente em resolver a questão israelita de forma pacífica. A paz em Israel é um objectivo de todo o Mundo civilizado, portanto temos que exterminar aqueles radicais mais atrasados que andam com colchas na cabeça e que querem impedir o progresso na região.
Claro que quando me refiro a eles não os posso confundir com vocês, restantes árabes em geral, que apesar de também terem esse hábito para mim incompreensível de andar com o enxoval à cabeça têm a vantagem de nos receberem de braços abertos quando invadimos o vosso país. Por isso não percebi onde o meu secretário de Estado foi buscar aquela ideia de que a resistência é maior do que esperávamos. Como dizia, tenho andado muito ocupado com outras questões, sobretudo agora que tenho o Kerry à perna, e não me tem restado muito tempo para ver as notícias. De qualquer forma, poderoso como sou, calculam que tenha quem me diga o que se vai noticiando.
Uma coisa que não percebi bem foi por que razão a tropa que eu mandei libertar-vos se vos pôs a urinar em cima. No meu íntimo ainda estou convencido de que aquilo é montagem, mas disseram-me para vos pedir desculpa à mesma, não fosse dar-se o caso de se descobrir que a terceira síndroma do Golfo se começa a revelar por incontinência urinária. Também a depressão e o cansaço não é coisa para soldados e viu-se como eles foram afectados. O fundamental, no entanto, é que continuamos a recusar reconhecer o tal tribunal para julgar crimes de guerra, e assim não há perigo de aqueles que vos foram libertar serem um dia condenados por isso, se é que me faço entender. E ainda há quem diga que sou burro...
Caros árabes em geral e já agora aproveito para todos em particular: como é sabido a guerra de libertação do Iraque acabou, porque eu disse, há mais de um ano. Para ser preciso, faz amanhã um ano e oito dias. Reconheço que há para lá umas escaramuças e por isso decidi não só não tirar nenhuma da tropa que tinha dito que ia voltar como ainda mandei mais uns. É uma questão de lhes garantir a democracia, que vamos assegurar quando encontrarmos uns homens de bigode mais convincente que os que pusemos agora lá no governo. No outro dia ouvi dizer que com aqueles fatos vestidos eles não convencem ninguém, mas a verdade é que nós não os conseguimos convencer a vestir de outra maneira. Afinal são democratas que sempre conviveram connosco, e numa terra cheia de petróleo como aquela, então, o que queriam. Para andarem de saias iam para a Arábia Saudita, dizem eles, mas parece que em matéria de liberdades se sentem melhor num país em guerra. De qualquer forma isto são pormenores.
O que quero deixar claro a cada um de vós em geral é que a América nunca voltará atrás nesta decisão de impôr-vos a democracia. Prometi ao meu pai e agora, nem que quisesse não podia. Não sei muito bem que negócios é que foram feitos, mas sei que foram e eu sou Presidente e quem manda diz que tem que haver guerra em países com petróleo e assim é. Como sabem, tive a brilhante ideia de mandar para lá, agora, tropas africanas mas eles disseram que já têm problemas que cheguem. Enquanto eles lutavam nós vendiamos o petróleo, uma vez que basta olhar para o Mundo para perceber que eles são bons para a traulitada mas zeros à esquerda, ou mesmo à direita, na economia. A história há-de dar-me razão e confirmar esta como uma visão de diplomacia que há-de fazer escola.
Caro Mundo em particular, árabes em geral e eventualmente algum extraterrestre que tenha já percebido a dimensão do meu poder:
É tempo de terminar esta minha comunicação que serviu, convém lembrar porque até eu já me esquecia, para dizer que estou inconsolável com as o que se passou no Iraque. Não podiam ter feito aquilo no princípio, como as bombas de Napalm de que já ninguém se lembra e que portanto não entra na campanha eleitoral? Duvidam, então, do meu arrependimento? Quero dizer, eu não tenho que estar arrependido, aquilo são maçãs podres que lá andam no meio do ramalhete de malmequeres. Quer dizer, bem-me-queres.
Quê? Calar-me? Está bem.
Viva a liberdade, saudações democráticas deste vosso George W. C
Perdeu-se o sinal
Havemos de voltar
Caros árabes em geral,
Como certamente já tiveram oportunidade de saber, através das televisões que difundem a verdade pelo Mundo, estou profundamente chocado. Contaram-me que uns rapazes que mandei libertar-vos, depois de vos meterem na prisão sem que ninguém os mandasse, fizeram coisas incrivelmente divertidas que, no entanto, dizem-me para dizer que são más. Em boa verdade não vejo qual é o problema de empilhar umas dúzias de prisioneiros e posar para a fotografia atrás deles. Para todos os efeitos são prisioneiros, se estão presos é porque são maus e se são maus muito provavelmente gostam do Bin Laden. Obviamente pelo menos gostam do Saddam, se não não estariam presos. Mesmo que tenha havido algum engano e não gostem assim tanto desse ditador de que vos livrámos, tenho a certeza de que pelo menos são dos que acham que a terra deles deve ser governada por eles próprios, o que é um péssimo princípio que, nas circunstâncias actuais, justificam que estejam presos.
Acho mesmo que deviam estar-nos agradecidos, uma vez que ninguém se lembrou de os mandar para Guantanamo, onde, como se sabe, é muito pior a convivência com o barbudo comunista do que as condições de detenção em que os mantemos. Nem percebo por que é que os nossos aliados, até ingleses, acham mal, quando até vendas nos olhos lhes pomos para não verem aquele inferno comunista. Enfim, a ingratidão é algo que não me surpreende.
Mas não foi para estas reflexões profundas sobre política e estratégia à escala planetária que decidi falar-vos, caros árabes em geral. Não posso esquecer-me de que estou profundamente chocado e que isso é o mais importante que tenho para dizer-vos. Acho mesmo que, inspirando-me na minha conselheira, será um achado comunicacional enviar-vos as minhas condolezas, como dizemos lá no Texas. Hábitos que nos vêm de longe, como calculais.
Como sabeis tenho andado muito ocupado ultimamente em resolver a questão israelita de forma pacífica. A paz em Israel é um objectivo de todo o Mundo civilizado, portanto temos que exterminar aqueles radicais mais atrasados que andam com colchas na cabeça e que querem impedir o progresso na região.
Claro que quando me refiro a eles não os posso confundir com vocês, restantes árabes em geral, que apesar de também terem esse hábito para mim incompreensível de andar com o enxoval à cabeça têm a vantagem de nos receberem de braços abertos quando invadimos o vosso país. Por isso não percebi onde o meu secretário de Estado foi buscar aquela ideia de que a resistência é maior do que esperávamos. Como dizia, tenho andado muito ocupado com outras questões, sobretudo agora que tenho o Kerry à perna, e não me tem restado muito tempo para ver as notícias. De qualquer forma, poderoso como sou, calculam que tenha quem me diga o que se vai noticiando.
Uma coisa que não percebi bem foi por que razão a tropa que eu mandei libertar-vos se vos pôs a urinar em cima. No meu íntimo ainda estou convencido de que aquilo é montagem, mas disseram-me para vos pedir desculpa à mesma, não fosse dar-se o caso de se descobrir que a terceira síndroma do Golfo se começa a revelar por incontinência urinária. Também a depressão e o cansaço não é coisa para soldados e viu-se como eles foram afectados. O fundamental, no entanto, é que continuamos a recusar reconhecer o tal tribunal para julgar crimes de guerra, e assim não há perigo de aqueles que vos foram libertar serem um dia condenados por isso, se é que me faço entender. E ainda há quem diga que sou burro...
Caros árabes em geral e já agora aproveito para todos em particular: como é sabido a guerra de libertação do Iraque acabou, porque eu disse, há mais de um ano. Para ser preciso, faz amanhã um ano e oito dias. Reconheço que há para lá umas escaramuças e por isso decidi não só não tirar nenhuma da tropa que tinha dito que ia voltar como ainda mandei mais uns. É uma questão de lhes garantir a democracia, que vamos assegurar quando encontrarmos uns homens de bigode mais convincente que os que pusemos agora lá no governo. No outro dia ouvi dizer que com aqueles fatos vestidos eles não convencem ninguém, mas a verdade é que nós não os conseguimos convencer a vestir de outra maneira. Afinal são democratas que sempre conviveram connosco, e numa terra cheia de petróleo como aquela, então, o que queriam. Para andarem de saias iam para a Arábia Saudita, dizem eles, mas parece que em matéria de liberdades se sentem melhor num país em guerra. De qualquer forma isto são pormenores.
O que quero deixar claro a cada um de vós em geral é que a América nunca voltará atrás nesta decisão de impôr-vos a democracia. Prometi ao meu pai e agora, nem que quisesse não podia. Não sei muito bem que negócios é que foram feitos, mas sei que foram e eu sou Presidente e quem manda diz que tem que haver guerra em países com petróleo e assim é. Como sabem, tive a brilhante ideia de mandar para lá, agora, tropas africanas mas eles disseram que já têm problemas que cheguem. Enquanto eles lutavam nós vendiamos o petróleo, uma vez que basta olhar para o Mundo para perceber que eles são bons para a traulitada mas zeros à esquerda, ou mesmo à direita, na economia. A história há-de dar-me razão e confirmar esta como uma visão de diplomacia que há-de fazer escola.
Caro Mundo em particular, árabes em geral e eventualmente algum extraterrestre que tenha já percebido a dimensão do meu poder:
É tempo de terminar esta minha comunicação que serviu, convém lembrar porque até eu já me esquecia, para dizer que estou inconsolável com as o que se passou no Iraque. Não podiam ter feito aquilo no princípio, como as bombas de Napalm de que já ninguém se lembra e que portanto não entra na campanha eleitoral? Duvidam, então, do meu arrependimento? Quero dizer, eu não tenho que estar arrependido, aquilo são maçãs podres que lá andam no meio do ramalhete de malmequeres. Quer dizer, bem-me-queres.
Quê? Calar-me? Está bem.
Viva a liberdade, saudações democráticas deste vosso George W. C
Perdeu-se o sinal
Havemos de voltar
27.4.04
Um azar nunca vem só
É a todos os títulos vergonhosa a actuação do governo norte-coreano face à tragédia que ocorreu numa cidade fronteiriça, onde um acidente ferroviário provocou mais de 160 mortos e para cima de 1300 feridos, além de ter deixado marcas em mais de oito mil edifícios. Vergonhosa, deplorável, reincidente e reveladora do respeito que o poder norte-coreano não tem pelo seu povo.
Tarde e a más horas, quando não havia forma de esconder o facto (porque se houvesse, certamente ele teria sido negado), lá foi anunciado que havia «estragos são consideravelmente elevados» na sequência da explosão que, não interessa por quê, ocorreu em vagões de combóio carregados de produtos químicos. O número de vítimas apresentado era tão redondo – 150 – quanto a importância que cada vida tem para aqueles governantes: zero. Sintomaticamente certo foi também o número de feridos fornecido pela agência de informação norte-coreana: 1300. Mais simples foi tratar dos desaparecidos: não se sabe quantos são, já que «está a ser investigado». Uma pena que os mortos não tenham, simplesmente, desaparecido também, dirão as autoridades, que ficariam com muito mais o que investigar e muito menos para revelar.
Para que conste, segundo a Cruz Vermelha, o número de vítimas mortais encontradas foi de 161. A mesma instituição queixou-se, na altura, de que tinha sido impedida, «sem justificação», de fazer chegar ajuda proveniente da Coreia do Sul.
O povo da Coreia do Norte tem a infelicidade de ter o governo mais obnóxio que se encontra à face da terra. E não é uma infelicidade pequena: dos mais de 22,4 milhões de habitantes daquela parte da península coreana poucos, muito poucos, acreditam nas versões oficiais para tudo o que acontece. Não acreditam os que sofrem na pele o resultado de uma política incompreensivelmente isolacionista, nem acreditam os que a fazem porque sabem que falam mentira para criar um embuste militarista. Mas não está tudo perdido: enquanto acreditar o líder parlamentar dos comunistas portugueses, Bernardino Soares de seu nome, o filho Kim Yong-il do pai Kim Il-Sung terá um momento de estúpido reconforto.
Alguém consegue justificar a sucessão dinástica, à luz do mais ferrenho estalinismo que fosse? O problema é esse: não há nada que justifique o que vivem os norte-coreanos.
Nem os que ocupam o poder conseguem justificar o miserável mundo que criaram e que nem todos os bloqueios do Mundo explicam. Tome-se como exemplo a mortalidade infantil. Tomando-se como boas as únicas estatísticas que há, em cada mil crianças que nascem na Coreia do Norte, morrem 25,6. Uma taxa superior à da China, país com o qual é impossível haver comparações, dada a abissal diferença de população. Cuba, que também se pode queixar de um bloqueio, conseguiu reduzir esse valor para apenas 7,15‰, valor semelhante ao português, por exemplo. O que é muito mau e torna ainda mais abusiva a utilização da palavra «socialista» para designar o regime.
Quem exerce o poder da forma que Kim Jong-il o faz (chame-se-lhe autoritário militarista ou ditatorial estalinista) teme, acima de tudo, o seu povo. Por isso a história relata massacres, prisões e deportações sempre que trata de regimes como o que está instalado em Pyongyang.
De como se revela o medo que o pequeno líder tem do povo que diz servir observou-se em Busan, na Coreia do Sul, um exemplo esclarecedor. Durante os Jogos Asiáticos, onde depois de muitas negociações os governantes do Norte decidiram fazer-se representar, a Aldeia Olímpica tinha duas forças de segurança. Uma, nem melhor nem pior que as outras, encarregava-se de velar pela salvaguarda de pessoas e bens e observação das regras que uma aglomeração de largos milhares de atletas, técnicos dirigentes e todos mais que eram precisos aconselha. Havia depois outra, norte-coreana, que se encarregava apenas de um edifício – onde estava toda a delegação (incluindo uma patética claque). A entrada do prédio confrontava com as instalações ocupadas pela comitiva de Macau. Das nossas janelas podia ver-se, dia e noite, os polícias do Norte sentados à porta de acesso, principal e única. De costas para a rua, virados para a entrada.
Havemos de voltar
Tarde e a más horas, quando não havia forma de esconder o facto (porque se houvesse, certamente ele teria sido negado), lá foi anunciado que havia «estragos são consideravelmente elevados» na sequência da explosão que, não interessa por quê, ocorreu em vagões de combóio carregados de produtos químicos. O número de vítimas apresentado era tão redondo – 150 – quanto a importância que cada vida tem para aqueles governantes: zero. Sintomaticamente certo foi também o número de feridos fornecido pela agência de informação norte-coreana: 1300. Mais simples foi tratar dos desaparecidos: não se sabe quantos são, já que «está a ser investigado». Uma pena que os mortos não tenham, simplesmente, desaparecido também, dirão as autoridades, que ficariam com muito mais o que investigar e muito menos para revelar.
Para que conste, segundo a Cruz Vermelha, o número de vítimas mortais encontradas foi de 161. A mesma instituição queixou-se, na altura, de que tinha sido impedida, «sem justificação», de fazer chegar ajuda proveniente da Coreia do Sul.
O povo da Coreia do Norte tem a infelicidade de ter o governo mais obnóxio que se encontra à face da terra. E não é uma infelicidade pequena: dos mais de 22,4 milhões de habitantes daquela parte da península coreana poucos, muito poucos, acreditam nas versões oficiais para tudo o que acontece. Não acreditam os que sofrem na pele o resultado de uma política incompreensivelmente isolacionista, nem acreditam os que a fazem porque sabem que falam mentira para criar um embuste militarista. Mas não está tudo perdido: enquanto acreditar o líder parlamentar dos comunistas portugueses, Bernardino Soares de seu nome, o filho Kim Yong-il do pai Kim Il-Sung terá um momento de estúpido reconforto.
Alguém consegue justificar a sucessão dinástica, à luz do mais ferrenho estalinismo que fosse? O problema é esse: não há nada que justifique o que vivem os norte-coreanos.
Nem os que ocupam o poder conseguem justificar o miserável mundo que criaram e que nem todos os bloqueios do Mundo explicam. Tome-se como exemplo a mortalidade infantil. Tomando-se como boas as únicas estatísticas que há, em cada mil crianças que nascem na Coreia do Norte, morrem 25,6. Uma taxa superior à da China, país com o qual é impossível haver comparações, dada a abissal diferença de população. Cuba, que também se pode queixar de um bloqueio, conseguiu reduzir esse valor para apenas 7,15‰, valor semelhante ao português, por exemplo. O que é muito mau e torna ainda mais abusiva a utilização da palavra «socialista» para designar o regime.
Quem exerce o poder da forma que Kim Jong-il o faz (chame-se-lhe autoritário militarista ou ditatorial estalinista) teme, acima de tudo, o seu povo. Por isso a história relata massacres, prisões e deportações sempre que trata de regimes como o que está instalado em Pyongyang.
De como se revela o medo que o pequeno líder tem do povo que diz servir observou-se em Busan, na Coreia do Sul, um exemplo esclarecedor. Durante os Jogos Asiáticos, onde depois de muitas negociações os governantes do Norte decidiram fazer-se representar, a Aldeia Olímpica tinha duas forças de segurança. Uma, nem melhor nem pior que as outras, encarregava-se de velar pela salvaguarda de pessoas e bens e observação das regras que uma aglomeração de largos milhares de atletas, técnicos dirigentes e todos mais que eram precisos aconselha. Havia depois outra, norte-coreana, que se encarregava apenas de um edifício – onde estava toda a delegação (incluindo uma patética claque). A entrada do prédio confrontava com as instalações ocupadas pela comitiva de Macau. Das nossas janelas podia ver-se, dia e noite, os polícias do Norte sentados à porta de acesso, principal e única. De costas para a rua, virados para a entrada.
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21.4.04
Memória
1.
«Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair.»
«Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais».
«Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas».
«Ficou clara a falácia que constitui constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo».
Afirmações que decorrem da convicção de que «só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos. Internamente, o governo instituído, (...) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente (...)?» Para concluir: «Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras».
Tudo o que vem acima foi escrito, nesta secção, em Novembro do ano passado, há mais de seis meses, portanto. [http://www.cabecadepeixe.blogspot.com/2003_11_02_cabecadepeixe_archive.html, para quem se quiser dar ao trabalho].
Ainda não tinha espoletado a agora reconhecida crise que, sublinhe-se antes que os desonestos tentem aproveitar, começou mesmo antes do anúncio da retirada das tropas espanholas.
Meio ano depois os Estados Unidos dão mostras de reconhecer (contrariados, embora) a inevitabilidade da solução ONU no Iraque. Mas ainda há quem não queira ver.
2.
Entre os que não querem reconhecer o lodaçal em que se envolveram está o primeiro-ministro português. Durão Barroso disse da decisão do novo governo espanhol o que o presidente norte-americano, apesar da sua irresponsável verborreia, não soltou. Das palavras de Durão Barroso, além de muitas outras, pode tirar-se uma conclusão: a promessa eleitoral de Zapatero (de retirar as tropas espanholas do Iraque) que foi sufragada, deveria ser letra morta após a chegada ao poder. Um democrata exemplar.
3.
Por falar em democracia: lídimos democratas manifestavam a sua preocupação – e devem agora rezar aos deuses – pela possibilidade de o ANC, na África do Sul, obter 70 por cento dos votos num acto eleitoral à prova do teste do algodão. Um dos que primeiro se disponibilizou para manifestar, via TV, essa supremacia da conveniência democrática face ao desígnio popular foi um padre português que por lá prega. Resumindo, e pasmando simultaneamente, o senhor padre sabe melhor (por via divina, supõe-se), o que convém ao povo que mais de dois terços dos eleitores. Um crente na democracia.
4.
No afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução de (cruzes, canhoto) Abril o governo português passou a chamar-lhe «Evolução». Para não evocar os feitos dos (cruzes, canhoto) revolucionários decidiu fazer publicar livros de estatística sobre os 30 anos que inevitavelmente passaram sobre (cruzes, canhoto) 1974. Mau grado a (cruzes, canhoto) Revolução Portugal é agora um país onde (cruzes, canhoto) Durão Barroso diz que os homens já não andam de bigode e vestidos de preto. O problema é que quem fez a (cruzes, canhoto) Revolução, (cruzes, canhoto) diz que Abril ainda está por cumprir.
Apesar de tudo, o afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução, traduzindo-a em números, equações e comparações estatísticas, em vez de tornarem inacessível e incompreensível a dita (cruzes, canhoto) Revolução, trá-la para um nível de comunicação que os (cruzes, canhoto) revolucionários não conseguem fazer passar quando marcham em manifestação pela Avenida da Liberdade (cruzes, canhoto?)
Havemos de voltar
«Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair.»
«Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais».
«Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas».
«Ficou clara a falácia que constitui constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo».
Afirmações que decorrem da convicção de que «só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos. Internamente, o governo instituído, (...) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente (...)?» Para concluir: «Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras».
Tudo o que vem acima foi escrito, nesta secção, em Novembro do ano passado, há mais de seis meses, portanto. [http://www.cabecadepeixe.blogspot.com/2003_11_02_cabecadepeixe_archive.html, para quem se quiser dar ao trabalho].
Ainda não tinha espoletado a agora reconhecida crise que, sublinhe-se antes que os desonestos tentem aproveitar, começou mesmo antes do anúncio da retirada das tropas espanholas.
Meio ano depois os Estados Unidos dão mostras de reconhecer (contrariados, embora) a inevitabilidade da solução ONU no Iraque. Mas ainda há quem não queira ver.
2.
Entre os que não querem reconhecer o lodaçal em que se envolveram está o primeiro-ministro português. Durão Barroso disse da decisão do novo governo espanhol o que o presidente norte-americano, apesar da sua irresponsável verborreia, não soltou. Das palavras de Durão Barroso, além de muitas outras, pode tirar-se uma conclusão: a promessa eleitoral de Zapatero (de retirar as tropas espanholas do Iraque) que foi sufragada, deveria ser letra morta após a chegada ao poder. Um democrata exemplar.
3.
Por falar em democracia: lídimos democratas manifestavam a sua preocupação – e devem agora rezar aos deuses – pela possibilidade de o ANC, na África do Sul, obter 70 por cento dos votos num acto eleitoral à prova do teste do algodão. Um dos que primeiro se disponibilizou para manifestar, via TV, essa supremacia da conveniência democrática face ao desígnio popular foi um padre português que por lá prega. Resumindo, e pasmando simultaneamente, o senhor padre sabe melhor (por via divina, supõe-se), o que convém ao povo que mais de dois terços dos eleitores. Um crente na democracia.
4.
No afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução de (cruzes, canhoto) Abril o governo português passou a chamar-lhe «Evolução». Para não evocar os feitos dos (cruzes, canhoto) revolucionários decidiu fazer publicar livros de estatística sobre os 30 anos que inevitavelmente passaram sobre (cruzes, canhoto) 1974. Mau grado a (cruzes, canhoto) Revolução Portugal é agora um país onde (cruzes, canhoto) Durão Barroso diz que os homens já não andam de bigode e vestidos de preto. O problema é que quem fez a (cruzes, canhoto) Revolução, (cruzes, canhoto) diz que Abril ainda está por cumprir.
Apesar de tudo, o afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução, traduzindo-a em números, equações e comparações estatísticas, em vez de tornarem inacessível e incompreensível a dita (cruzes, canhoto) Revolução, trá-la para um nível de comunicação que os (cruzes, canhoto) revolucionários não conseguem fazer passar quando marcham em manifestação pela Avenida da Liberdade (cruzes, canhoto?)
Havemos de voltar
16.4.04
A cor do voto
Em dois mundos que nos tocam está lançado o debate sobre democracia. Por razões diferentes, em Portugal e em Hong Kong se discute democracia. Curiosamente, onde ela se encontra implantada na sua fórmula mais comum nestes tempos, clama-se contra a qualidade que não tem; onde formalmente não existe, exercem-se democraticamente práticas reivindicativas e expressão livre de opinião favorável à aproximação àquele modelo.
Num e noutro lado se extremam posições e se usa a manipulação da realidade para obter o objectivo que os junta: uma melhor democracia. Claramente, o objectivo de José Saramago ao lançar a polémica sobre a qualidade da democracia vai no sentido de a aproximar daquilo que os regimes socialistas propõem e o escritor professa: a possibilidade de outros argumentos, além dos económicos, vingarem no acesso e exercício do poder.
As democracias ocidentais estão reféns do poder económico e nem o voto popular o consegue refrear. As aberrações legislativas que Silvio Berlosconi tem vindo a produzir para evitar condenações judiciais são disso exemplo. O poder de comunicação que ele mantém através do seu império de comunicação social é sem dúvida um factor de disfunção democrática. Se se critica o controlo absoluto e a manipulação que as ditaduras exercem sobre os órgãos de comunicação social, o que dizer da impossibilidade de qualquer intervenção numa televisão que é privada? A atestar que esse não é caso isolado recorde-se, apenas, a afirmação de Emídio Rangel, nos primórdios da portuguesa SIC, que o todo poderoso director considerou ser capaz de eleger um presidente da República.
Dêem-se os moderados, apesar de graves, exemplos europeus, para não voltar ao inadjectivável Bush, eleito apesar de ter obtido menos votos que o adversário eleitoral, para tripudiar sobre direitos humanos e liberdades individuais, interna e externamente, ao mesmo tempo que alardeia desavergonhadamente princípios que de todo lhe escapam. A «democrática» luta para impôr à força uma «democracia» num país soberano, que acaba por resultar no aumento exponencial do terrorismo que supostamente queria combater, é bastante para que se conclua ser necessário e urgente o tratamento das democracias ocidentais. Como disse o social-democrata Miguel Veiga, a propósito do livro de Saramago, a democracia está sujeita a «perturbantes derivas, que é preciso corrigir», antes que esta rota a fira de morte.
Em Hong Kong, as legítimas aspirações dos democratas conhecem livremente expressão numa comunicação social que se supõe controlada por um poder adjectivado pejorativamente de «pró-Pequim», onde se noticia, com manifesto exagero e óbvia intenção, a morte do princípio «um País, dois sistemas».
De resto essa mesma comunicação social, como as liberdades individuais e colectivas de manifestação, são utilizadas para fazer passar a ideia de que o poder central está a usurpar direitos que não tem. A interpretação que o comité permanente da Assembleia Nacional Popular fez da Lei Básica de Hong Kong foi equilibrada. Não é preciso ser-se doutor de leis para perceber que em lado nenhum da «mini-constituição» da RAEHK aparece escrito que tem que haver eleições directas e universais já em 2007, como também nunca surge que tal não é possível. Foi isso que os legisladores clarificaram.
Na mais desconfortável questão da necessidade de aval prévio de Pequim a qualquer alteração na eleição do Chefe do Executivo, essa é, de facto, uma leitura plausível do que ingleses e chineses deixaram escrito. Já na eleição do Conselho Legislativo o caso é diferente e aparece diferentemente tratado na Lei Básica – como foi diferentemente interpretado pelos mais de 170 legisladores de Pequim.
Assim, a questão da interpretação da Lei Básica de Hong Kong volta ao terreno em que, de facto, se joga: o político. Está tudo em aberto, tudo é possível. O governo central deu provas de abertura política ao admitir, expressamente, que 2007 pode ser o ano em que alterações podem ter efeito. Assim os democratas têm terreno, à luz da interpretação de Pequim, para forçar em Hong Kong passos no sistema eleitoral que conduzam a eleições directas e universais para o Conselho Legislativo. É no terreno político que isso se vai jogar. Falta conhecer a capacidade de mobilização e poder de intervenção que os democratas têm agora que não já se pode atribuir o descontentamento popular às dificuldades económicas.
Havemos de voltar
Num e noutro lado se extremam posições e se usa a manipulação da realidade para obter o objectivo que os junta: uma melhor democracia. Claramente, o objectivo de José Saramago ao lançar a polémica sobre a qualidade da democracia vai no sentido de a aproximar daquilo que os regimes socialistas propõem e o escritor professa: a possibilidade de outros argumentos, além dos económicos, vingarem no acesso e exercício do poder.
As democracias ocidentais estão reféns do poder económico e nem o voto popular o consegue refrear. As aberrações legislativas que Silvio Berlosconi tem vindo a produzir para evitar condenações judiciais são disso exemplo. O poder de comunicação que ele mantém através do seu império de comunicação social é sem dúvida um factor de disfunção democrática. Se se critica o controlo absoluto e a manipulação que as ditaduras exercem sobre os órgãos de comunicação social, o que dizer da impossibilidade de qualquer intervenção numa televisão que é privada? A atestar que esse não é caso isolado recorde-se, apenas, a afirmação de Emídio Rangel, nos primórdios da portuguesa SIC, que o todo poderoso director considerou ser capaz de eleger um presidente da República.
Dêem-se os moderados, apesar de graves, exemplos europeus, para não voltar ao inadjectivável Bush, eleito apesar de ter obtido menos votos que o adversário eleitoral, para tripudiar sobre direitos humanos e liberdades individuais, interna e externamente, ao mesmo tempo que alardeia desavergonhadamente princípios que de todo lhe escapam. A «democrática» luta para impôr à força uma «democracia» num país soberano, que acaba por resultar no aumento exponencial do terrorismo que supostamente queria combater, é bastante para que se conclua ser necessário e urgente o tratamento das democracias ocidentais. Como disse o social-democrata Miguel Veiga, a propósito do livro de Saramago, a democracia está sujeita a «perturbantes derivas, que é preciso corrigir», antes que esta rota a fira de morte.
Em Hong Kong, as legítimas aspirações dos democratas conhecem livremente expressão numa comunicação social que se supõe controlada por um poder adjectivado pejorativamente de «pró-Pequim», onde se noticia, com manifesto exagero e óbvia intenção, a morte do princípio «um País, dois sistemas».
De resto essa mesma comunicação social, como as liberdades individuais e colectivas de manifestação, são utilizadas para fazer passar a ideia de que o poder central está a usurpar direitos que não tem. A interpretação que o comité permanente da Assembleia Nacional Popular fez da Lei Básica de Hong Kong foi equilibrada. Não é preciso ser-se doutor de leis para perceber que em lado nenhum da «mini-constituição» da RAEHK aparece escrito que tem que haver eleições directas e universais já em 2007, como também nunca surge que tal não é possível. Foi isso que os legisladores clarificaram.
Na mais desconfortável questão da necessidade de aval prévio de Pequim a qualquer alteração na eleição do Chefe do Executivo, essa é, de facto, uma leitura plausível do que ingleses e chineses deixaram escrito. Já na eleição do Conselho Legislativo o caso é diferente e aparece diferentemente tratado na Lei Básica – como foi diferentemente interpretado pelos mais de 170 legisladores de Pequim.
Assim, a questão da interpretação da Lei Básica de Hong Kong volta ao terreno em que, de facto, se joga: o político. Está tudo em aberto, tudo é possível. O governo central deu provas de abertura política ao admitir, expressamente, que 2007 pode ser o ano em que alterações podem ter efeito. Assim os democratas têm terreno, à luz da interpretação de Pequim, para forçar em Hong Kong passos no sistema eleitoral que conduzam a eleições directas e universais para o Conselho Legislativo. É no terreno político que isso se vai jogar. Falta conhecer a capacidade de mobilização e poder de intervenção que os democratas têm agora que não já se pode atribuir o descontentamento popular às dificuldades económicas.
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7.4.04
Crónica do regresso
Sendo certo que ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, certo é que, para quem escreve regularmente num jornal, a ausência provoca, no regresso à crónica, um problema de actualidade que a escrita regular resolve. Pelo menos é esse o caso presente, pelo que se fará aqui uma revisão sem preocupações de imediatismo que geralmente estão presentes.
Neste contexto, surge a interrogação sobre a importância relativa de factos – algo que ao jornalista (geralmente) se põe sistematicamente, embora haja exemplos que a cada passo bradam à terra: a inqualificável importância e tempo de antena que se deu à inauguração de novas instalações da RTP é disso exemplo.
Questão: a esta distância temporal terá sido mais importante o atentado de 11 de março em Madrid ou as consequências eleitorais, espoletadas pelo comportamento do governo espanhol, que ele teve? Com todo o respeito pelas vítimas e suas famílias, pelas consequências civilizacionais e ilações decorrentes o resultado eleitoral teve maior importância.
Pouco importa saber se aos facínoras que cometeram os atentados de Madrid agradou o resultado. As acções terroristas deste novo tipo – as que radicam num suposto diferendo insanável entre ocidente e islão – não têm em conta o que apenas ao desenvolvimento das democracias ocidentais diz respeito, porque essas democracias, para o bem e para o mal, continuarão a ser construidas pelos povos desses países, quantas vezes ao arrepio dos seus governos, enquanto os desejos dos fundamentalistas se baseiam em desejos de poder, contrários aos desejos populares, obviamente.
Inquestionável é que o povo espanhol, bem diferente do americano, tirou ilações muito precisas do sigificado dos atentados de Madrid. Envolto ainda em dor, soube perceber a dupla ignomínia de Aznar e seus sucessores, que num só acto pretenderam alijar responsabilidades políticas pela participação no conflito iraquiano e simultaneamente as consequências da relação entre a essa decisão e os atentados. Uma bela resposta foi dada pelos eleitores espanhóis, que só fortalece a decisão do primeiro ministro eleito e demonstra a superioridade do sistema, nunca podendo, pois, a decisão de retirar as tropas do Iraque ser entendida como capitulação ou cedência aos terroristas. São questões diferentes, que não se devem misturar, ao contrário da sarrabulhada que Bush, Blair e Aznar propositadamente cozinharam para dar avançar no aventureirismo.
Seja o povo norte americano capaz de perceber a experiência espanhola.
Ainda com os atentados de Madrid como pano de fundo, ficou a saber-se através de sondagens o que já se esperava: os portugueses temem que a qualquer momento sejam vítmas de um atentado, apesar de tudo indicar que os esforços de Durão Barroso para pôr Portugal como alvo potencial saíram gorados. De qualquer forma o foguetório de páscoa, potenciado pelo nobre cagaço lusitano, promete.
A China marca pontos. Sem necessidade de exercícios de retórica, simplesmente, contrapõe a inqualificável e concreta situação dos detidos de Guantanamo às acusações difusas sobre violações de direitos humanos de que é alvo. Simultaneamente obtém a preciosa ajuda do deplorável exercício de democracia que foram as eleições em Taiwan, cujo desfecho é ainda imprevisível, apesar do recurso a investigadores criminais norte americanos para esclarecer o sucedido. Dos «liberais» de Hong Kong (e de Macau, já agora) espera-se uma tomada de posição sobre os acontecimentos: fazer política não pode ser alarido em tempos favoráveis e recolher à toca quando os ventos correm adversos. Depois de tantos silêncios comprometedores este é um momento em que uma tomada de posição seria esclarecedora.
Ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, muito menos onde ele esteve, ou como de lá voltou. Certo é que este foi à terra dos cabeças de peixe e a encontrou mais bela na sua simplicidade, recuperada embora ainda muito carente, feliz entre a pobreza, cheia de sons e cores e risos e olhares luminosos, sobretudo grande, muito grande, porque única e sempre olhando horizontes que não têm fim, porque o mar como o deserto nunca acabam na vista humana. Mesmo se algum homem lhes achasse o fim, a sua imaginação e engenho o fariam ganhar novo horizonte.
Havemos de voltar
Neste contexto, surge a interrogação sobre a importância relativa de factos – algo que ao jornalista (geralmente) se põe sistematicamente, embora haja exemplos que a cada passo bradam à terra: a inqualificável importância e tempo de antena que se deu à inauguração de novas instalações da RTP é disso exemplo.
Questão: a esta distância temporal terá sido mais importante o atentado de 11 de março em Madrid ou as consequências eleitorais, espoletadas pelo comportamento do governo espanhol, que ele teve? Com todo o respeito pelas vítimas e suas famílias, pelas consequências civilizacionais e ilações decorrentes o resultado eleitoral teve maior importância.
Pouco importa saber se aos facínoras que cometeram os atentados de Madrid agradou o resultado. As acções terroristas deste novo tipo – as que radicam num suposto diferendo insanável entre ocidente e islão – não têm em conta o que apenas ao desenvolvimento das democracias ocidentais diz respeito, porque essas democracias, para o bem e para o mal, continuarão a ser construidas pelos povos desses países, quantas vezes ao arrepio dos seus governos, enquanto os desejos dos fundamentalistas se baseiam em desejos de poder, contrários aos desejos populares, obviamente.
Inquestionável é que o povo espanhol, bem diferente do americano, tirou ilações muito precisas do sigificado dos atentados de Madrid. Envolto ainda em dor, soube perceber a dupla ignomínia de Aznar e seus sucessores, que num só acto pretenderam alijar responsabilidades políticas pela participação no conflito iraquiano e simultaneamente as consequências da relação entre a essa decisão e os atentados. Uma bela resposta foi dada pelos eleitores espanhóis, que só fortalece a decisão do primeiro ministro eleito e demonstra a superioridade do sistema, nunca podendo, pois, a decisão de retirar as tropas do Iraque ser entendida como capitulação ou cedência aos terroristas. São questões diferentes, que não se devem misturar, ao contrário da sarrabulhada que Bush, Blair e Aznar propositadamente cozinharam para dar avançar no aventureirismo.
Seja o povo norte americano capaz de perceber a experiência espanhola.
Ainda com os atentados de Madrid como pano de fundo, ficou a saber-se através de sondagens o que já se esperava: os portugueses temem que a qualquer momento sejam vítmas de um atentado, apesar de tudo indicar que os esforços de Durão Barroso para pôr Portugal como alvo potencial saíram gorados. De qualquer forma o foguetório de páscoa, potenciado pelo nobre cagaço lusitano, promete.
A China marca pontos. Sem necessidade de exercícios de retórica, simplesmente, contrapõe a inqualificável e concreta situação dos detidos de Guantanamo às acusações difusas sobre violações de direitos humanos de que é alvo. Simultaneamente obtém a preciosa ajuda do deplorável exercício de democracia que foram as eleições em Taiwan, cujo desfecho é ainda imprevisível, apesar do recurso a investigadores criminais norte americanos para esclarecer o sucedido. Dos «liberais» de Hong Kong (e de Macau, já agora) espera-se uma tomada de posição sobre os acontecimentos: fazer política não pode ser alarido em tempos favoráveis e recolher à toca quando os ventos correm adversos. Depois de tantos silêncios comprometedores este é um momento em que uma tomada de posição seria esclarecedora.
Ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, muito menos onde ele esteve, ou como de lá voltou. Certo é que este foi à terra dos cabeças de peixe e a encontrou mais bela na sua simplicidade, recuperada embora ainda muito carente, feliz entre a pobreza, cheia de sons e cores e risos e olhares luminosos, sobretudo grande, muito grande, porque única e sempre olhando horizontes que não têm fim, porque o mar como o deserto nunca acabam na vista humana. Mesmo se algum homem lhes achasse o fim, a sua imaginação e engenho o fariam ganhar novo horizonte.
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17.2.04
Notícias de quarentena
São incompreensíveis, por vezes, os critérios que fazem com que algumas notícias ganhem honras de publicação e outras fiquem para sempre longe do público.
Nas redacções, naturalmente, discute-se o que deve merecer honras de divulgação e o que não interessa nem ao menino Jesus, muito menos aos leitores, ouvintes ou tele espectadores. Parte-se sempre do princípio de que é conhecido o perfil dos destinatários.
Há, no entanto, notícias que apenas por moda passam a constituir o nosso dia-a-dia informativo sem que seja analisada a importância que elas encerram. É o caso do folhetim bem vendido das chamadas eleições «primárias» norte americanas, em que os diligentes editores se ocupam a relatar a vitória (ou derrota) de um proto-candidato em eleições que não envolvem sequer uma centena de eleitores. O mais caricato é que esse mesmo número de eleitores é referido como se conferisse importância à notícia quando, efectivamente, só lhe retira.
Outras notícas, vá-se lá saber por quê, ficam eternamente no limbo, apesar de envolverem muito mais gente, problemas bem mais importantes, determinarem modificações fundamentais na vida e futuro de milhões de pessoas e, ainda por cima, dizerem-nos muito mais respeito – ou seja, os critérios que conferem importância a uma notícia.
A agência LUSA, (fonte credível e nunca suspeita de estar comprada pelo terrível polvo que é a tenebrosa corrupção angolana, onde, pelo que se publica, cada ministro não consegue virar uma esquina sem que lhe caia do bolso dinheiro sujo e não há negócio que não implique baús de dólares despachados de avião para a Suíça) noticiou há duas semanas que 29 mil, sim, vinte e nove milhares, de professores foram contratados em Angola para suprir faltas que, mesmo assim, vão continuar a fazer-se sentir. Apenas para o ensino primário.
Seria tomar o leitor por estulto discorrer aqui sobre a importância da educação, ainda mais quando falamos de um país destroçado. A contratação de 29 mil professores, em tal cenário, é uma medida de inequívoca importância.
Sendo o Governo angolano a jolda que, tão eméritas quanto desconhecidas organizações denunciam, a medida só pode ter sido tomada no âmbito de uma negociata cujos contornos, obviamente, escapam ao cidadão comum e mesmo ao jornalista diligente. Diga-se a propósito que essas denúncias partem habitualmente de ONG, ou seja, organizações não governamentais.
Nos tempos que correm ser ONG corresponde a uma espécie de atestado de idoneidade que ninguém outroga e que serve, obviamente, para aproveitar o prestígio das primeiras associações que assim se deram a conhecer e que têm trabalho reconhecido e de inquestionável valor – a Médicos Sem Fronteiras é, apenas, uma delas. Descoberto o filão, muitas ONG aparecem em todos os terrenos com todos os fins.
Uma há – dados fornecidos por uma responsável da própria ONG, por sinal esposa do outro responsável, segundo e último membro da associação – que enquanto põe em prática o belo princípio de explicar aos necessitados como hão-de construir uma casa em Moçambique, aproveita para, a expensas dos Estados envolvidos (no caso Portugal e Moçambique), negociar na Europa ouro que compra na África do Sul. Tudo gente séria, no entanto, capaz de denunciar o primeiro acto corrupto do polícia de trânsito de Nampula.
Outras há, mais descaradas, que não passando de associações políticas – e sendo associações são, obviamente, não governamentais! – enganam o distraído enquanto prosseguem o seu único objectivo: a propaganda.
Facto é que, passados quinze dias sobre a notícia da LUSA, não houve ainda uma ONG que viesse explicar os malefícios da contratação de 29 mil professores. Cumprido, pois, o período de quarentena, podemos tomar a notícia, pelo menos, como verdadeira. O que certamente, o milhão de crianças que vai beneficiar com a medida em Angola não agradecerá tanto hoje como no futuro, mas é assim a infância.
Habituados que estamos a epidemias como a síndroma respiratória aguda e epizootias como a gripe das aves, sabemos bem que os períodos de quarentena variam, quando se aplicam. O período de incubação do vírus da síndroma respiratória aguda, salvo erro, é de 14 dias. Findo esse prazo, o indivíduo suspeito de ter contraído a doença podia respirar de alívio e fazer o seu caminho. Já qualquer franganote que tenha tido o azar de conviver com galináceo infectado não tem direito sequer direito a quarentena onde possa rezar as últimas preces – é extermínio certo e imediato.
Foi o que aconteceu à notícia da LUSA sobre os professores, naqueles periódicos que tudo sabem e publicam sobre Angola.
Havemos de voltar
Nas redacções, naturalmente, discute-se o que deve merecer honras de divulgação e o que não interessa nem ao menino Jesus, muito menos aos leitores, ouvintes ou tele espectadores. Parte-se sempre do princípio de que é conhecido o perfil dos destinatários.
Há, no entanto, notícias que apenas por moda passam a constituir o nosso dia-a-dia informativo sem que seja analisada a importância que elas encerram. É o caso do folhetim bem vendido das chamadas eleições «primárias» norte americanas, em que os diligentes editores se ocupam a relatar a vitória (ou derrota) de um proto-candidato em eleições que não envolvem sequer uma centena de eleitores. O mais caricato é que esse mesmo número de eleitores é referido como se conferisse importância à notícia quando, efectivamente, só lhe retira.
Outras notícas, vá-se lá saber por quê, ficam eternamente no limbo, apesar de envolverem muito mais gente, problemas bem mais importantes, determinarem modificações fundamentais na vida e futuro de milhões de pessoas e, ainda por cima, dizerem-nos muito mais respeito – ou seja, os critérios que conferem importância a uma notícia.
A agência LUSA, (fonte credível e nunca suspeita de estar comprada pelo terrível polvo que é a tenebrosa corrupção angolana, onde, pelo que se publica, cada ministro não consegue virar uma esquina sem que lhe caia do bolso dinheiro sujo e não há negócio que não implique baús de dólares despachados de avião para a Suíça) noticiou há duas semanas que 29 mil, sim, vinte e nove milhares, de professores foram contratados em Angola para suprir faltas que, mesmo assim, vão continuar a fazer-se sentir. Apenas para o ensino primário.
Seria tomar o leitor por estulto discorrer aqui sobre a importância da educação, ainda mais quando falamos de um país destroçado. A contratação de 29 mil professores, em tal cenário, é uma medida de inequívoca importância.
Sendo o Governo angolano a jolda que, tão eméritas quanto desconhecidas organizações denunciam, a medida só pode ter sido tomada no âmbito de uma negociata cujos contornos, obviamente, escapam ao cidadão comum e mesmo ao jornalista diligente. Diga-se a propósito que essas denúncias partem habitualmente de ONG, ou seja, organizações não governamentais.
Nos tempos que correm ser ONG corresponde a uma espécie de atestado de idoneidade que ninguém outroga e que serve, obviamente, para aproveitar o prestígio das primeiras associações que assim se deram a conhecer e que têm trabalho reconhecido e de inquestionável valor – a Médicos Sem Fronteiras é, apenas, uma delas. Descoberto o filão, muitas ONG aparecem em todos os terrenos com todos os fins.
Uma há – dados fornecidos por uma responsável da própria ONG, por sinal esposa do outro responsável, segundo e último membro da associação – que enquanto põe em prática o belo princípio de explicar aos necessitados como hão-de construir uma casa em Moçambique, aproveita para, a expensas dos Estados envolvidos (no caso Portugal e Moçambique), negociar na Europa ouro que compra na África do Sul. Tudo gente séria, no entanto, capaz de denunciar o primeiro acto corrupto do polícia de trânsito de Nampula.
Outras há, mais descaradas, que não passando de associações políticas – e sendo associações são, obviamente, não governamentais! – enganam o distraído enquanto prosseguem o seu único objectivo: a propaganda.
Facto é que, passados quinze dias sobre a notícia da LUSA, não houve ainda uma ONG que viesse explicar os malefícios da contratação de 29 mil professores. Cumprido, pois, o período de quarentena, podemos tomar a notícia, pelo menos, como verdadeira. O que certamente, o milhão de crianças que vai beneficiar com a medida em Angola não agradecerá tanto hoje como no futuro, mas é assim a infância.
Habituados que estamos a epidemias como a síndroma respiratória aguda e epizootias como a gripe das aves, sabemos bem que os períodos de quarentena variam, quando se aplicam. O período de incubação do vírus da síndroma respiratória aguda, salvo erro, é de 14 dias. Findo esse prazo, o indivíduo suspeito de ter contraído a doença podia respirar de alívio e fazer o seu caminho. Já qualquer franganote que tenha tido o azar de conviver com galináceo infectado não tem direito sequer direito a quarentena onde possa rezar as últimas preces – é extermínio certo e imediato.
Foi o que aconteceu à notícia da LUSA sobre os professores, naqueles periódicos que tudo sabem e publicam sobre Angola.
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4.2.04
Contribuição atípica para a discusão curricular
Não é ruído comunicacional, mas muito barulho o que se ouve em torno da reforma curricular da Escola Portuguesa de Macau. Parece que ninguém sabe bem o que se está a discutir, com razão. De quem compete expôr as regras só se obtêm adiamentos. Quem cá está, sem poder decisório nem capacidade de intervenção, vai fazendo o que não envergonha, ou se calhar apenas respondendo àquilo que lhe perguntam.
Há, no entanto, algumas conclusões iniludíveis: a primeira é que o Ministério da Educação português faz tarde, e mal, o que se comprometeu a fazer. A segunda, que em Macau quem se relaciona com a Ecola Portuguesa não consegue consensualizar sobre o fuuro que deseja. Em terceiro, e mais grave, que nem uns nem outros pensam a presença do ensino («de matriz», como gostam de dizer) em português com perspectivas de futuro.
Tudo parte de Portugal, sem dúvida. É ao Ministério da Educação do governo português que cabem as decisões – mas de lá só chegam indecisões e adiamentos. Nada de espantar, nem inédito, de resto. Os que acham que lá não percebem nada do que aqui se passa ganham, dia a dia, novos argumentos para sustentar a tese. À boa maneira portuguesa, um presidente com ar vagamente chinês basta para gerir a presença lusa na que sería a pérola do Oriente.
Na dúvida, por cá, vai-se discutindo o menor. Quando o que se quer saber é qual a língua a ensinar (sendo que língua, por estas paragens, há só uma), põe-se a hipótese do ensino do dialecto cantonense. Ao que consta a discussão chega a Lisboa.
É neste ponto que é de justiça elogiar as recentes declarações do deputado Leonel Alves: evitando entrar em polémicas, explicou aos incautos que o importante é os ensinandos conseguirem decifrar «os riscos». Isso mesmo: ler chinês.
Parce indiscutível que, a quem chegue à Ásia e se instale em Macau, interesse, se for caso disso, dar uma educação que proporcione futuro a um filho em idade escolar. Concretizando: chegados agora dos Estados Unidos, para trabalhar num dos casinos que os magnatas aí vão abrir, com a perspectiva de permanência de cinco anos (o ensino primário, ou secundário, grosso modo), os pais de uma criança queiram assegurar-lhe uma educação que garanta algo no futuro. A aprendizagem do Mandarim é, sem dúvida, uma mais valia, aqui em Macau, em Guangdong ou em Nova Iorque. O cantonense servirá para quê?
Serve o exemplo para se porem questões: não deverá a Escola Portuguesa assumir-se definitivamente como um estabelecimento de ensino elitista, de qualidade, prestigiado, que atraia e garanta a formação dos melhores filhos da cidade de Macau? E assim assegurar propinas que lhe garantam a existência? Ou deverá, em alternativa, ser o espelho da curta visão dos emigrantes que aqui vêm passar uns anos e amealhar uns cobres, sem cuidarem (como não o fizeram durante séculos) de projectar o português com perspectivas de futuro? Por que raio hão-de ser canadianos, americanos ou ingleses a abrir a escola «referência» aqui em Macau?
É isso mesmo que se anda a pedir!
É certo que há um parti pris de algumas gerações mais recentes de chineses de Macau em relação ao que tem origem portuguesa. Embora compreensível, a atitude não é sustentável. Além do mais está a degenerar num inacreditável clima de distanciamento que só resulta numa crescente diminuição das aptidões de gestão nos organismos públicos. Em Macau está a surgir um «terceiro sistema» - social, este. Não é o primeiro por razões óbvias. Não é o segundo, porque não foi esse que o primeiro assinou em tratado internacioalmente registado. É aquele que faz com que o é avançado na gestão seja mau porque tem origem preconceituada, mas opta por regredir em todos os conceitos, porque não sabem mais.
Não seria a Escola Portuguesa o sítio onde se deveriam formar os governantes e administradores do Macau do futuro. Parece óbvio que sim, face à propaganda que vende Macau como uma terra do não-sei-quê entre o Ocidente com o Oriente.
Não se vê é nada. As nuvens vão baixas e não admira, portanto, que quem vem do continente estranhe o comportamento das gentes daqui, e os de cá não se identifiquem com a forma de funcionar mesmo dos que mandam na terra – como parece provar a recente sondagem divulgada, que revela o que todos já sabiamos: o Chefe é grande, à sua volta é o deserto.
O caso é mais grave do que a paz reinante permite viver. Macau vive, na comunidade portuguesa, que não sabe olhar o futuro nem perspectivar uma presença actualizada no Oriente, do dia-a-dia. A comunidade chinesa, a que tem todas as responsabilidades agora, não diz nada e não quer mais que ser mandada.
Razão tem, pois, quem diz que democracia à moda Ocidental não é para aqui. Pelo que nos é dado ver, não faz falta a ninguém.
Havemos de voltar
Há, no entanto, algumas conclusões iniludíveis: a primeira é que o Ministério da Educação português faz tarde, e mal, o que se comprometeu a fazer. A segunda, que em Macau quem se relaciona com a Ecola Portuguesa não consegue consensualizar sobre o fuuro que deseja. Em terceiro, e mais grave, que nem uns nem outros pensam a presença do ensino («de matriz», como gostam de dizer) em português com perspectivas de futuro.
Tudo parte de Portugal, sem dúvida. É ao Ministério da Educação do governo português que cabem as decisões – mas de lá só chegam indecisões e adiamentos. Nada de espantar, nem inédito, de resto. Os que acham que lá não percebem nada do que aqui se passa ganham, dia a dia, novos argumentos para sustentar a tese. À boa maneira portuguesa, um presidente com ar vagamente chinês basta para gerir a presença lusa na que sería a pérola do Oriente.
Na dúvida, por cá, vai-se discutindo o menor. Quando o que se quer saber é qual a língua a ensinar (sendo que língua, por estas paragens, há só uma), põe-se a hipótese do ensino do dialecto cantonense. Ao que consta a discussão chega a Lisboa.
É neste ponto que é de justiça elogiar as recentes declarações do deputado Leonel Alves: evitando entrar em polémicas, explicou aos incautos que o importante é os ensinandos conseguirem decifrar «os riscos». Isso mesmo: ler chinês.
Parce indiscutível que, a quem chegue à Ásia e se instale em Macau, interesse, se for caso disso, dar uma educação que proporcione futuro a um filho em idade escolar. Concretizando: chegados agora dos Estados Unidos, para trabalhar num dos casinos que os magnatas aí vão abrir, com a perspectiva de permanência de cinco anos (o ensino primário, ou secundário, grosso modo), os pais de uma criança queiram assegurar-lhe uma educação que garanta algo no futuro. A aprendizagem do Mandarim é, sem dúvida, uma mais valia, aqui em Macau, em Guangdong ou em Nova Iorque. O cantonense servirá para quê?
Serve o exemplo para se porem questões: não deverá a Escola Portuguesa assumir-se definitivamente como um estabelecimento de ensino elitista, de qualidade, prestigiado, que atraia e garanta a formação dos melhores filhos da cidade de Macau? E assim assegurar propinas que lhe garantam a existência? Ou deverá, em alternativa, ser o espelho da curta visão dos emigrantes que aqui vêm passar uns anos e amealhar uns cobres, sem cuidarem (como não o fizeram durante séculos) de projectar o português com perspectivas de futuro? Por que raio hão-de ser canadianos, americanos ou ingleses a abrir a escola «referência» aqui em Macau?
É isso mesmo que se anda a pedir!
É certo que há um parti pris de algumas gerações mais recentes de chineses de Macau em relação ao que tem origem portuguesa. Embora compreensível, a atitude não é sustentável. Além do mais está a degenerar num inacreditável clima de distanciamento que só resulta numa crescente diminuição das aptidões de gestão nos organismos públicos. Em Macau está a surgir um «terceiro sistema» - social, este. Não é o primeiro por razões óbvias. Não é o segundo, porque não foi esse que o primeiro assinou em tratado internacioalmente registado. É aquele que faz com que o é avançado na gestão seja mau porque tem origem preconceituada, mas opta por regredir em todos os conceitos, porque não sabem mais.
Não seria a Escola Portuguesa o sítio onde se deveriam formar os governantes e administradores do Macau do futuro. Parece óbvio que sim, face à propaganda que vende Macau como uma terra do não-sei-quê entre o Ocidente com o Oriente.
Não se vê é nada. As nuvens vão baixas e não admira, portanto, que quem vem do continente estranhe o comportamento das gentes daqui, e os de cá não se identifiquem com a forma de funcionar mesmo dos que mandam na terra – como parece provar a recente sondagem divulgada, que revela o que todos já sabiamos: o Chefe é grande, à sua volta é o deserto.
O caso é mais grave do que a paz reinante permite viver. Macau vive, na comunidade portuguesa, que não sabe olhar o futuro nem perspectivar uma presença actualizada no Oriente, do dia-a-dia. A comunidade chinesa, a que tem todas as responsabilidades agora, não diz nada e não quer mais que ser mandada.
Razão tem, pois, quem diz que democracia à moda Ocidental não é para aqui. Pelo que nos é dado ver, não faz falta a ninguém.
Havemos de voltar
1.2.04
Contra a morte
Estou tolhido pelo frio.
Estou mirrado por uma gripe que não me larga.
Estou deprimido por não ver o sol nem sentir a fotosíntese a que temos direito há já muitos dias.
Estava já triste com tudo isto e por ter passado horas demais a dormir decidi acordar a horas de ouvir o relato do Guimarães – Benfica. Gozava esses momentos quentes entre lençóis, com a rádio em fundo, e entre tossidelas, senti algum conforto.
Apeteceu-me pensar que ia ser a nossa vez, que nos últimos minutos íamos marcar, e cumprir a nossa obrigação.
E marcámos. Marquei eu ao acertar na previsão, marcou o Aguiar, na molhada, quando a bola lhe foi parar aos pés.
Era ainda noite, e noite ía continuar a ser, prometendo aquele sono sem igual que cai sobre nós quando o dia raia.
Há sempre um melhor aconchego que se consegue na almofada quando se chama pelo sono pensando em algo agradável. Deixei a bola e pensei em ti, fora, distante e bela, com promessas de viagens que se hão-de fazer. São os momentos em que do sono passamos ao sonho, ainda acordados, e por uma vez os comandamos. Assim adormeço todos os dias, em instantes tranquilos.
Mas o jogo não acabou. Os camaradas da Antena 1 falavam de «lesão grave», seguramente, do Miguel com as mãos na cabeça e o Tiago lavado em lágrimas.
Não percebi. Amo a Rádio, como os livros. Deixar que um dos sentidos comande todos os outros, levar a nossa imaginação a produzir a imagem completa que, imperfeita, nos é transmitida, é exercício que não dispenso. Mas não imaginei que tudo vinha de uma queda desamparada que tudo mudou.
Estou ainda tolhido pelo frio, melhor da gripe, mas mais triste. Muito mais triste.
De há uns (poucos) anos a esta parte tenho uma cada vez pior relação com a morte. Não a minha morte, que essa trato-a por tu e não temo que chegue. Falo da morte injusta, como sempre que ela atinge alguém que não tenha, pelo menos, idade bastante. Da morte traiçoeira, que chega sem avisar. Da morte bastarda, que faz sofrer e diminui antes de lavrar a derradeira ceifa. Não consigo aceitar, nem explicar.
Foi o Miki, um dos nossos rapazes. Sim, aqueles rapazes são nossos e nós deles. Eles sabem que as alegrias são de todos, as tristezas igualmente. Nós tratamo-los pelo nome, eles sabem que nós existimos e eles são grandes porque somos todos do emblema. Cresci no tempo em que se combatia esses sentimentos clubistas e até se lhes chamava alienação. Quem o dizia pouco percebia do que é a grandeza da alma humana quando comunga.
Seria redundante, agora, enaltecer a forma como todos, sem filosofar, perceberam e expressaram o valor que atribuem à vida quando confrontados com a fragilidade deste valor maior que temos e que em tantas outras situações se dilui.
Algum de nós se refere com o mesmo sentimento quando se trata de dezenas de vítimas de calamidades, centenas de perdas em acidentes, milhares de perdidos em combate, com a noção do valor da vida que um, apenas um jovem provocou em todo o Mundo? É o Mundo que tem feito com que a vida perca valor, e não me conformo.
Pouco sobra: resta a família e o futebol.
Estava triste com falta de sol, de calor, de carinho que o frio afasta. Mais triste fiquei quando a morte me atacou, assim, a meio da madrugada. Pior fiquei por pensar no que acabo de partilhar com vocês. E não me conformo, e não aceito a morte, e não quero viver assim.
Não consigo pensar noutra coisa. Por isso, por uma vez, ocupo estas linhas falando na primeira pessoa, uma vez que será, espero, única.
Que seja entendido como homenagem ao Miki, e, nos jovens, à vida – valor inalienável e tão desconsiderado.
Havemos de voltar
Estou mirrado por uma gripe que não me larga.
Estou deprimido por não ver o sol nem sentir a fotosíntese a que temos direito há já muitos dias.
Estava já triste com tudo isto e por ter passado horas demais a dormir decidi acordar a horas de ouvir o relato do Guimarães – Benfica. Gozava esses momentos quentes entre lençóis, com a rádio em fundo, e entre tossidelas, senti algum conforto.
Apeteceu-me pensar que ia ser a nossa vez, que nos últimos minutos íamos marcar, e cumprir a nossa obrigação.
E marcámos. Marquei eu ao acertar na previsão, marcou o Aguiar, na molhada, quando a bola lhe foi parar aos pés.
Era ainda noite, e noite ía continuar a ser, prometendo aquele sono sem igual que cai sobre nós quando o dia raia.
Há sempre um melhor aconchego que se consegue na almofada quando se chama pelo sono pensando em algo agradável. Deixei a bola e pensei em ti, fora, distante e bela, com promessas de viagens que se hão-de fazer. São os momentos em que do sono passamos ao sonho, ainda acordados, e por uma vez os comandamos. Assim adormeço todos os dias, em instantes tranquilos.
Mas o jogo não acabou. Os camaradas da Antena 1 falavam de «lesão grave», seguramente, do Miguel com as mãos na cabeça e o Tiago lavado em lágrimas.
Não percebi. Amo a Rádio, como os livros. Deixar que um dos sentidos comande todos os outros, levar a nossa imaginação a produzir a imagem completa que, imperfeita, nos é transmitida, é exercício que não dispenso. Mas não imaginei que tudo vinha de uma queda desamparada que tudo mudou.
Estou ainda tolhido pelo frio, melhor da gripe, mas mais triste. Muito mais triste.
De há uns (poucos) anos a esta parte tenho uma cada vez pior relação com a morte. Não a minha morte, que essa trato-a por tu e não temo que chegue. Falo da morte injusta, como sempre que ela atinge alguém que não tenha, pelo menos, idade bastante. Da morte traiçoeira, que chega sem avisar. Da morte bastarda, que faz sofrer e diminui antes de lavrar a derradeira ceifa. Não consigo aceitar, nem explicar.
Foi o Miki, um dos nossos rapazes. Sim, aqueles rapazes são nossos e nós deles. Eles sabem que as alegrias são de todos, as tristezas igualmente. Nós tratamo-los pelo nome, eles sabem que nós existimos e eles são grandes porque somos todos do emblema. Cresci no tempo em que se combatia esses sentimentos clubistas e até se lhes chamava alienação. Quem o dizia pouco percebia do que é a grandeza da alma humana quando comunga.
Seria redundante, agora, enaltecer a forma como todos, sem filosofar, perceberam e expressaram o valor que atribuem à vida quando confrontados com a fragilidade deste valor maior que temos e que em tantas outras situações se dilui.
Algum de nós se refere com o mesmo sentimento quando se trata de dezenas de vítimas de calamidades, centenas de perdas em acidentes, milhares de perdidos em combate, com a noção do valor da vida que um, apenas um jovem provocou em todo o Mundo? É o Mundo que tem feito com que a vida perca valor, e não me conformo.
Pouco sobra: resta a família e o futebol.
Estava triste com falta de sol, de calor, de carinho que o frio afasta. Mais triste fiquei quando a morte me atacou, assim, a meio da madrugada. Pior fiquei por pensar no que acabo de partilhar com vocês. E não me conformo, e não aceito a morte, e não quero viver assim.
Não consigo pensar noutra coisa. Por isso, por uma vez, ocupo estas linhas falando na primeira pessoa, uma vez que será, espero, única.
Que seja entendido como homenagem ao Miki, e, nos jovens, à vida – valor inalienável e tão desconsiderado.
Havemos de voltar
12.1.04
O bom exemplo francês
É à França que a cultura e a política ocidental deve os fundamentos da moderna civilização em que vive. A Revolução Francesa implantou e alastraram, porque bons, os princípios da Liberdade, Igualdade e Fraterninade que a enformaram.
As políticas dominantes nas últimas décadas, mais marcadas pelas concepções anglo-saxonicas e liberais, iniciadas pela temível dupla Margaret Thatcher / Ronald Reagan, a par da impossibilidade prática de contrariar a expansão da cultura mercantilista, fizeram com que Igualdade e Fraterninade sejam valores hoje secundarizados.
Hoje, presidida por um político insuspeito de tendências revolucionárias ou teses esquerdistas, mas sempre fiel aos princípios de Humanismo que fundaram a República, a França volta a dar ao Mundo exemplos de progresso civilizacional.
Em tempos marcados pelo suposto «choque de civilizações» a França não recua nos princípios, mas recusa o simplismo e a agressividade, apostando para encontrar soluções naquilo que efectivamente faz do Homem a mais maravilhosa criatura da Natureza: pensar.
Políticos, investigadores, académicos, diplomatas e jornalistas foram convidados a debater, desde o passado fim de semana, em Paris essa teoria do «choque de civilizações» entre o Ocidente e o Oriente. Os participantes convidados pela associação Euro-Mediterrâneo, coligiram, durante três dias, argumentos contrariando a tentar a ideia de que o confronto entre a civilização ocidental e o islamismo é inevitável. Partem do princípio da absoluta necessidade de promoção do diálogo entre as civilizações, em contraponto à tese de Samuel Huntington, assentes na inevitabilidade do choque entre os países com culturas judaico-cristã e os muçulmanos e confucionistas. Sintomaticamente, os mentores das políticas que se baseiam nessa teoria (embora não a defendam abertamente) recusaram os convites para participar no fórum.
Neste cenário, como se comporta o presidente francês, Jacques Chirac? Simultaneamente reafirmando os princípios da sociedade francesa, em diversos e não pacíficos assuntos. Aos dilemáticos voltou a afirmar o empenhamento francês na constituição de uma força de defesa europeia, absolutamente compatível com a NATO, e fundamental para travar os desmandos norte-americanos; e não recuou na indmnização exigida à Líbia por um atentado contra um avião francês, menos mediático que o de Lockerbie, é certo, mas que provocou 170 mortos, em 1989, no deserto de Ténéré, na Nigéria.
Internamente, reafirmou os princípios de laicidade do Estado, que aos poucos vão sendo postos em causa, um pouco por todo o lado. Obviamente, no Islão radical, com os péssimos resultados que se vêm em matéria de acesso ao ensino ou liberdades individuais. Mas também no Ocidente, onde ainda há países de amplas liberdades a obrigar ao ensino de que a origem do Homem é Deus, e ponto final. Face a esses fundamentalismos, Chirac lembra que os «sinais ostensivos de pertença religiosa» são para ficar afastados das escolas e do funcionalismo público francês. Assim, a necessária «neutralidade do serviço público» numa sociedade multicultural como a francesa leva a que o véu islâmico, a kippa dos judeus e os crucifixos católicos, ficam fora das salas de aula e das repartições públicas. Enfrentando embora protestos, a lei que tal determina avança, e deve ser aplaudida. Porque, de facto há que separar águas.
Não significa isso, no entanto, o esquecimento dessa fundamental componente da humanidade que é a religião. Recentemente o presidente francês recebeu cumprimentos de ano novo dos representantes das diferentes comunidades religiosas existentes em França, e aproveitou a ocasião para explicar os contornos da medida. Lá estava, pela primeira vez, o presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano e simultaneamente reitor da mesquita de Paris, a par do cardeal-arcebispo de Paris e do grande rabino de França.
Assim, sim.
Havemos de voltar
As políticas dominantes nas últimas décadas, mais marcadas pelas concepções anglo-saxonicas e liberais, iniciadas pela temível dupla Margaret Thatcher / Ronald Reagan, a par da impossibilidade prática de contrariar a expansão da cultura mercantilista, fizeram com que Igualdade e Fraterninade sejam valores hoje secundarizados.
Hoje, presidida por um político insuspeito de tendências revolucionárias ou teses esquerdistas, mas sempre fiel aos princípios de Humanismo que fundaram a República, a França volta a dar ao Mundo exemplos de progresso civilizacional.
Em tempos marcados pelo suposto «choque de civilizações» a França não recua nos princípios, mas recusa o simplismo e a agressividade, apostando para encontrar soluções naquilo que efectivamente faz do Homem a mais maravilhosa criatura da Natureza: pensar.
Políticos, investigadores, académicos, diplomatas e jornalistas foram convidados a debater, desde o passado fim de semana, em Paris essa teoria do «choque de civilizações» entre o Ocidente e o Oriente. Os participantes convidados pela associação Euro-Mediterrâneo, coligiram, durante três dias, argumentos contrariando a tentar a ideia de que o confronto entre a civilização ocidental e o islamismo é inevitável. Partem do princípio da absoluta necessidade de promoção do diálogo entre as civilizações, em contraponto à tese de Samuel Huntington, assentes na inevitabilidade do choque entre os países com culturas judaico-cristã e os muçulmanos e confucionistas. Sintomaticamente, os mentores das políticas que se baseiam nessa teoria (embora não a defendam abertamente) recusaram os convites para participar no fórum.
Neste cenário, como se comporta o presidente francês, Jacques Chirac? Simultaneamente reafirmando os princípios da sociedade francesa, em diversos e não pacíficos assuntos. Aos dilemáticos voltou a afirmar o empenhamento francês na constituição de uma força de defesa europeia, absolutamente compatível com a NATO, e fundamental para travar os desmandos norte-americanos; e não recuou na indmnização exigida à Líbia por um atentado contra um avião francês, menos mediático que o de Lockerbie, é certo, mas que provocou 170 mortos, em 1989, no deserto de Ténéré, na Nigéria.
Internamente, reafirmou os princípios de laicidade do Estado, que aos poucos vão sendo postos em causa, um pouco por todo o lado. Obviamente, no Islão radical, com os péssimos resultados que se vêm em matéria de acesso ao ensino ou liberdades individuais. Mas também no Ocidente, onde ainda há países de amplas liberdades a obrigar ao ensino de que a origem do Homem é Deus, e ponto final. Face a esses fundamentalismos, Chirac lembra que os «sinais ostensivos de pertença religiosa» são para ficar afastados das escolas e do funcionalismo público francês. Assim, a necessária «neutralidade do serviço público» numa sociedade multicultural como a francesa leva a que o véu islâmico, a kippa dos judeus e os crucifixos católicos, ficam fora das salas de aula e das repartições públicas. Enfrentando embora protestos, a lei que tal determina avança, e deve ser aplaudida. Porque, de facto há que separar águas.
Não significa isso, no entanto, o esquecimento dessa fundamental componente da humanidade que é a religião. Recentemente o presidente francês recebeu cumprimentos de ano novo dos representantes das diferentes comunidades religiosas existentes em França, e aproveitou a ocasião para explicar os contornos da medida. Lá estava, pela primeira vez, o presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano e simultaneamente reitor da mesquita de Paris, a par do cardeal-arcebispo de Paris e do grande rabino de França.
Assim, sim.
Havemos de voltar
6.1.04
Paranóia? Não, obrigado!
Têm-se recusado no Mundo as entidades que foram directamente questionadas, a aceder à paranóia securitária norte americana de impor a presença de polícias armados a bordo de vôos comerciais. Num assomo de bom senso que contrariou, regra geral, o alinhamento dos governos com a política guerreira da administração norte americana, a British Airways não só deu o mote, recusando a pretenção do governo americano, como acrescentou que apesar da estrutura policial inglesa se dizer capacitada para desempenhar tal tarefa, continuava a considerar melhor opção manter as armas fora dos aviões do que tornar as aeronaves palco de coboiadas. E acrescentou, bem, a companhia de bandeira britânica, que estava convicta de que a generalidade das companhias aéreas lhe iriam seguir o caminho. Assim se vem a confirmar.
Voltou-me à memória o premiado documentário «Bowling for Columbine», que tão bem explica a má relação que os estadunidenses têm com as armas. Para quem não viu, diga-se que é um trabalho feito por Michael Moore, um americano capaz de questionar o meio em que vive. Com poucas respostas, sobram-lhe perguntas. Como aquela fundamental que é saber por que razão, havendo muitas mais armas per capita no Canadá, nem de perto os vizinhos do Norte se matam uns aos outros na mesma proporção.
Sabe-se que a maioria dos norte americanos não percebe por que é que (no mínimo) meio mundo não pode com eles nem (literalmente) à lei da bala. Escusado será dizer que, incapazes de perceberem isso, menos hábeis são ainda para compreender a responsabilidade que têm na criação dos facínoras Bin Laden que por aí polulam, ostentando certificados de treino militar americano. Portanto, a última coisa que lhes poderá ocorrer é quanto do seu próprio veneno ainda lhes está destinado no refluxo das aventuras arábicas com que alimentam a sua indústria de armamento. Não resta senão lamentar a miopia que jaz ocultada pelos ray ban dos marines consagrados por Hollywood.
Não tem limites a paranóia securitária norte americana. Esta história de pôr polícias armados nos aviões equivale a pôr veneno para ratos numa fábrica de lacticínios. Pior é que a lógica faria corar Maquiavel: as companhias de aviação que não aceitarm as regras estão sujeitas a tantas buscas e rebuscas que não haverá voo que debande os aeroportos norte americanos com menos de 72 horas de atraso (como se queixa a mesma british Airwyas), até que não haja quem lá queira viajar. De uma cajadada mata-se pois também a coelha, a concorrência. São ignorantes mas não estúpidos, então, o que faz deles poderosos, obviamente.
Escandalizou-se, entretanto, uma diplomata norte americana porque os brasileiros decidiram (e bem, e danço o samba!) aplicar o velho conceito de reciprocidade aos estadunidenses que demandem ao Brasil. É simples: se um brasileiro que desembarca em Nova Iorque é fotografado como qualquer meliante, e deixa as impressões digitais decalcadas para cadastro, trate-se do empresário melhor sucedido ou do (mais que improvável) pé-descalço que vá visitar a emigrada irmã do meio, por que razão não há-de um norte americano que chegue no Rio de Janeiro só porque sim deixar a chipala mais as gadugas para arquivo? Em matéria de reciprocidade, e a avaliar pelo que regularmente se lê na imprensa de Hong Kong sobre o tratamento discriminatório que sofrem os asiáticos (dificilmente confundíveis com perigosos terroristas árabes, certamente) nos aeroportos norte americanos, muito está ainda por fazer. Também aqui os bons velhos princípios internacionalmente estabelecidos foram postos em causa despeitadamente.
Certamente o Mundo vai ultrapassar, sacudindo como caspa da gola, esta incomodidade que Bush causa à ordem mundial.
Quando a paranóia que discorre dos noticiários norte-americanos sobre o terrorismo pode, substancialmente, ser posta em causa porque decorre de acções, conceitos e exercícios de política externa unilaterais; quando se sucedem as cínicas declarações políticas de alinhamento com o combate àquele terrorismo quando do que se trata (na China, Rússia, Espanha ou Índia) é de questões de independências de Nações que querem ser Estados; quando os métodos que têm sido adoptados dão os piores resultados e alimentam reacções extremadas que sempre irrompem do desespero – é tempo, já, de seguir outro caminho.
Entretanto, é de esperar, pelo menos, que a seguir-se este método, haja aviso de «Polícia Armado a Bordo» – para que se possa evitar.
Havemos de voltar
Voltou-me à memória o premiado documentário «Bowling for Columbine», que tão bem explica a má relação que os estadunidenses têm com as armas. Para quem não viu, diga-se que é um trabalho feito por Michael Moore, um americano capaz de questionar o meio em que vive. Com poucas respostas, sobram-lhe perguntas. Como aquela fundamental que é saber por que razão, havendo muitas mais armas per capita no Canadá, nem de perto os vizinhos do Norte se matam uns aos outros na mesma proporção.
Sabe-se que a maioria dos norte americanos não percebe por que é que (no mínimo) meio mundo não pode com eles nem (literalmente) à lei da bala. Escusado será dizer que, incapazes de perceberem isso, menos hábeis são ainda para compreender a responsabilidade que têm na criação dos facínoras Bin Laden que por aí polulam, ostentando certificados de treino militar americano. Portanto, a última coisa que lhes poderá ocorrer é quanto do seu próprio veneno ainda lhes está destinado no refluxo das aventuras arábicas com que alimentam a sua indústria de armamento. Não resta senão lamentar a miopia que jaz ocultada pelos ray ban dos marines consagrados por Hollywood.
Não tem limites a paranóia securitária norte americana. Esta história de pôr polícias armados nos aviões equivale a pôr veneno para ratos numa fábrica de lacticínios. Pior é que a lógica faria corar Maquiavel: as companhias de aviação que não aceitarm as regras estão sujeitas a tantas buscas e rebuscas que não haverá voo que debande os aeroportos norte americanos com menos de 72 horas de atraso (como se queixa a mesma british Airwyas), até que não haja quem lá queira viajar. De uma cajadada mata-se pois também a coelha, a concorrência. São ignorantes mas não estúpidos, então, o que faz deles poderosos, obviamente.
Escandalizou-se, entretanto, uma diplomata norte americana porque os brasileiros decidiram (e bem, e danço o samba!) aplicar o velho conceito de reciprocidade aos estadunidenses que demandem ao Brasil. É simples: se um brasileiro que desembarca em Nova Iorque é fotografado como qualquer meliante, e deixa as impressões digitais decalcadas para cadastro, trate-se do empresário melhor sucedido ou do (mais que improvável) pé-descalço que vá visitar a emigrada irmã do meio, por que razão não há-de um norte americano que chegue no Rio de Janeiro só porque sim deixar a chipala mais as gadugas para arquivo? Em matéria de reciprocidade, e a avaliar pelo que regularmente se lê na imprensa de Hong Kong sobre o tratamento discriminatório que sofrem os asiáticos (dificilmente confundíveis com perigosos terroristas árabes, certamente) nos aeroportos norte americanos, muito está ainda por fazer. Também aqui os bons velhos princípios internacionalmente estabelecidos foram postos em causa despeitadamente.
Certamente o Mundo vai ultrapassar, sacudindo como caspa da gola, esta incomodidade que Bush causa à ordem mundial.
Quando a paranóia que discorre dos noticiários norte-americanos sobre o terrorismo pode, substancialmente, ser posta em causa porque decorre de acções, conceitos e exercícios de política externa unilaterais; quando se sucedem as cínicas declarações políticas de alinhamento com o combate àquele terrorismo quando do que se trata (na China, Rússia, Espanha ou Índia) é de questões de independências de Nações que querem ser Estados; quando os métodos que têm sido adoptados dão os piores resultados e alimentam reacções extremadas que sempre irrompem do desespero – é tempo, já, de seguir outro caminho.
Entretanto, é de esperar, pelo menos, que a seguir-se este método, haja aviso de «Polícia Armado a Bordo» – para que se possa evitar.
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