Estou feliz da vida. Voltei a deliciar-me com as soculentas prosas que as mais férteis imaginações ao serviço do jornalismo português conseguem produzir. Refiro-me, naturalmente, às páginas diárias de três queridos jornais desportivos (chamesmos-lhes «qdd», que penaram e me fizeram penar durante o chamado «defeso». Aqui está: onde mais se podem usar expressões sucolentas como esta? Sobre essas particularidades da linguagem desportiva já aqui se discorreu, portanto, façamos apenas a actualização: sirvo-me, para tanto, da crónica de uma consagrada e ultimamente ressabiada benfiquista, na «bíblia».
Conta Leonor Pinhão que durante o Euro2004 pegou um novo tique de linguagem, de calibre tal que já não se ouvia desde o pintacostal «pensar de que». Escreve Leonor Pinhão: «Não sei se repararam, mas foi qualquer coisa má que deu em comentadores, artífices e até em pessoas com maiores responsabilidades dada a escolaridade que ostentam nos títulos de «doutores». Foi a praga maior deste Euro. Impossível de escapar durante três semanas a frases como estas:
— A equipa tal jogou bem «onde» o ponta-de-lança nos parecesse em baixa de forma.— Fulano promete que vai marcar três golos «onde» está muito optimista. — A organização está pelo melhor «onde» alguns problemas ainda subsistem.»
Nós não tivemos oportunidade de acompanhar os comentários produzidos na lusa tv, o que não significa que tenhamos ficado dispensados de dislates tão grandes, ou maiores. Se bem que o erro não se caracterizasse pela repetição, fomos brindados pela constância, para compensar.
Não é certamente daqui que me vem a alegria. Ainda n’«A Bola» encontrou-se exemplo, esse sim, motivo de satisfação: a capa do jornal que todos esperavam viesse dedicada ao resultado da final do campeonato da Europa estava, afinal, cheia com o tema do novo treinador do Benfica. Há clubes assim. A partir daí, do fim do campeonato e do início da actividade clubistica, há a cada dia um pedaço de prosa que nos traz o espírito, o suor, a força e o querer dos artistas que se anseia comecem a pontapeá-la em competições a sério. Para já, fica-se a actualidade por apresentações, contratações e negociações, algumas reais, outras fictícias.
Cabe aqui registar o trabalho merecedor de prémio para ficção, a atribuir aos esforçados jornalistas do Record. Não houve dia em que não jurassem estar o Benfica pronto para assinar contrato com o francês tal, o holandês seguinte, o alemão anterior e assim sucessivamente, até errarem no italiano. Como bons desportistas que são, encaixaram a derrota vaticinal como senhores, isto é, sem dizer ai nem ui, muito menos desculpem lá qualquer coisinha, bem ao estilo «Correio da Manhã». Depois queixam-se, mas não são os únicos.
E que nos trazem então, de matéria noticiosa (logo não especulativa) os qdd? Na minha opinião, só confirmações. A confirmação de que o Futebol Clube do Porto tem os cofres cheios (por mérito próprio, diga-se) e vai contruir uma equipa fortíssima. Fica a dúvida do que será capaz o treinador, sendo que Pinto da Costa geralmente não se engana, embora já tenha enfiado barretes; A confirmação de que no Benfica se vive uma nova era, de organização que vai permitindo contruir uma equipa igualmente forte, comandada por um treinador que em duas corridas acabou com as más línguas que lhe chamavam velho. Resta a dúvida se terá os tais três reforços que lhe faltam para preencher, como quer, cada posição com dois jogadores de igual quilate; A confirmação de que o presidente do Sporting foi inapelavelmente afectado pelo sistema, nervoso talvez, o que se vai reflectindo numa série de medidas que ninguém entende e o próprio não é capaz de explicar, e resultam, em apenas dois anos, numa sombra do que foi o Sporting campeão. Não restam dúvidas.
A concorrer directamente com os qdd tivemos toda a restante imprensa e ainda o que de tv conseguimos apanhar, com um folhetim por vezes não menos especulativo, de resultado igualmente incerto até ao último minutos, e que deixou metade dos adeptos chorosos enquanto a outra metade esfregou as mão de contente. Tendo como protagonista um reconhecido adepto do clube de Dias da Cunha, note-se. Jorge Sampaio, presidente da República Portuguesa, no jogo da substituição de Durão Barroso. O resultado foi já noticiado, mas eis que surgem agora as análises às, digamos, incidências da partida. Entre elas, e depois da angústia quanto à substituição a efectuar, a ansiedade agora prende-se em saber quem irá treinar a oposição. O que, não sendo dispiciendo, é certamente irrelevante face a políticas inovadoras em tempo de vacas magras.
Solidário com as políticas de contenção, não estarei presente nem me farei representar na tomada de posse do novo Executivo. Confesso que me preocupa muito mais, neste momento, saber se conseguimos ou não contratar o italiano Adani para o eixo da defesa.
Havemos de voltar
14.7.04
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