22.7.04

Contribuição

Aproxima-se a campanha eleitoral para de Chefe do Executivo de Macau, com um candidato celebrado, o actual ocupante do cargo, Edmund Ho. No acto que marcou o anúncio da candidatura, quando foi levantar o boletim de inscrição, Edmund Ho reconheceu que há algo a mudar na governação, embora sem especificar o quê, e disse esperar que os cidadão sejam mais exigentes durante este segundo mandato.
Avance-se, então, para saber o que deve ser mudado. Importa mais dizer o que, e como, deve ser feito, do que estar a apontar erros, simplesmente. A metodologia adoptada para a identificação das necessidades e carências da sociedade é, em Macau, a auscultação das associações. Como sistema é tão legítimo como qualquer outro, dependendo, sobretudo, da capacidade de entender o que é dito – se for dito, naturalmente. É, pois, a forma como se põe o sistema a funcionar que determina a bondade da governação, sabendo-se de ciência certa que, por exemplo, o partidarismo fornece inúmeros exemplos de autismo, como também o contrário.
Se Edmund Ho é consensual como líder de Macau, acordo generalizado se obtém também quanto à necessidade de que a nossa sociedade se modernize. Pouco importam milhões de quilovatios/hora gastos em todo o tipo de luzes e reclamos, se a população, e a sua prática diária, sobretudo, não se iluminar. Em todas as áreas, sempre, é possível fazer melhor. Na administração pública como nos serviços privados, na organização judicial e na saúde. No que se queira: na competência dos funcionários ou na qualificação dos empregados. No fim, o que estará sempre em equação, é a forma como se servem os cidadãos.
A comunicação social é um meio que todas as entidades, públicas e privadas, usam para chegar ao cidadão destinatário. No geral, não há, no entanto, noção do meio. Ao pespegar com uma credencial ao peito do jornalista que vai cobrir um qualquer evento, documento onde consta regra geral a palavra «media», ou seja, «meio», quem nos credencia raramente se comporta como quem tem, ali, na pessoa do jornalista, o meio para comunicar com a população.
Na administração pública como nos órgãos de governo, não raro, o «meio» é tratado como meliante. Ser tratado por supostos assessores de imprensa que, em vez de fornecerem as informações pedidas, se assumem como guarda-costas de inusitada agressividade é comum. Isto não é civilizado, não é próprio de uma sociedade moderna e, sobretudo, não se justifica.
É comum ser-se convidado para assistir a actos, com hora marcada, em que se é obrigado a esperar horas por declarações sobre o que se passou. Em qualquer lugar do Mundo onde o senso comum impere, convoca-se os jornalistas para uma hora estabelecida, em que os responsáveis sabem que já podem prestar informações, a meio ou no fim de uma reunião. Não é o que se passa, por exemplo, nos Conselhos que discutem e propõem medidas em áreas específicas da governação. Isso é fazer perder tempo a quem trabalha.
Há a sensível questão das duas línguas oficiais em Macau, geralmente bem resolvida, mas com problemas crónicos em alguns serviços. Nos de Saúde, por exemplo, convocou-se recentemente a imprensa para assistir a um seminário onde, apesar de a sala estar equipada com os meios para tradução simultânea, ela não estava a funcionar. Os primeiros oradores optaram pelo inglês, sabendo que parte dos seminaristas não dominava o português ou o cantonense. O terceiro comunicou em inglês que ia falar em cantonese. Isso, além de falta de respeito por participantes e jornalistas, é desperdício num seminário técnico.
No Instituto Cultural a prática é mais aberrante: convoca-se a imprensa para uma conferência em determinada data, mas põe-se, dias antes, uma funcionária a antecipar o exacto conteúdo a divulgar, num jornal. Isso, além de ser o grau zero da correcção no relacionamento com a comunicação social, faz a funcionária do Instituto incorrer em evidente falta deontológica na pele de jornalista.
Macau é cada vez mais um local de eventos internacionais onde, por essa razão, se encontram jornalistas habituados a parâmetros internacionais de trabalho. Há, nos inúmeros eventos organizados recentemente, exemplos bastantes para que os diversos serviços possam aprender a funcionar correctamente no relacionamento com a imprensa.
Na sociedade de comunicação, que sucede à era contemporânea, não saber manter um relacionamento correcto com os agentes da comunicação social é sinal de incompetência.Quando se aproxima a segunda eleição do Chefe do Executivo, cargo ocupado por Edmund Ho, seria bom aproveitar a oportunidade para debater e assim orientar as diversas instituições para um correcto relacionamento com a comunicação social. Edmund Ho, ele próprio, é um exemplo a seguir de correcção na forma como trata os jornalistas, além, obviamente, de saber a importância que eles têm (não individualmente, mas a que decorre do papel de «meio» que incorporam). Por isso, pelo respeito que, através da comunicação social, demontra ter pela população, obtém o consenso que se reconhece. Esse é, no entanto, um aspecto que o próximo Executivo deverá ter preocupação em melhorar, no seu próprio funcionamento e no dos organismos dele dependentes.

Havemos de voltar

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