7.7.04

A temperatura

1.
Está de parabéns o Cônsul de Portugal na RAEM, Pedro Moitinho de Almeida. Não por ter conseguido perceber a importância da final do campeonato da Europa de futebol para os portugueses e afins em Macau (que era óbvia), mas por ter promovido uma festa que juntou mais de meio milhar de pessoas, pouco preocupadas com as baboseiras do elitismo do local ou de quem promoveria o acontecimento. Além do mais, na Torre de Macau, não havia sequer uma «mesa de honra», onde os dignitários haveriam de alapar, à boa maneira local. O promotor da festa foi um, sem honras de primus inter pares, que dispensou para poder viver como todos os outros o que a televisão trazia de Portugal. Porque Pedro Moitinho de Almeida já vai habituando as pessoas a esse comportamento, o que se pode dizer para explicar quem e como estava lá, é afirmar que estavam todos e bem. A sala esteve ao rubro a cada passe, remate ou defesa, esfriando muito menos do que seria de esperar quando o balde de água fria se abateu sobre a Luz. Assim, no final ainda se viam bandeiras desfraldadas e escutavam palmas para quem as merecia. Que sirva de exemplo aos emproados da terra, já que esta sim, é a forma de preservar um legado português em Macau.

2.
Pena foi que a festa não pudesse ter sido estendida, depois, às ruas, mas essas são contas de outro rosário. Parabéns aos gregos.

3.
Passada a euforia da bola espera-se, em Macau como em Portugal, espera-se que o Presidente Jorge Sampaio se decida em relação à crise política aberta pela fuga de Durão Barroso. É tema de conversa em cada escritório ou café a dúvida que a todos assalta quanto ao lado para onde Sampaio vai cair. Em primeiro lugar isso leva á inevitável conclusão de que o mais alto magistrado português comporta-se de forma que deixa sempre dúvidas, ou seja, nunca se sabe quando se vai esquecer de quem o elegeu e para quê. Calafrios desses não são inéditos.
Já o putativo sucessor de Durão Barroso sabe bem o caminho para que não foi eleito mas faz questão de trilhar e age em conformidade. Esperemos um final digno ou então nunca mais se pronuncie uma única palavra contra o alheamento dos cidadãos portugueses dos actos eleitorais.

3.
Dez dias depois da farsa da transferência de poderes no Iraque, tudo como antes. À vergonha e recolhimento da cerimónia com que os fantoches a soldo dos Estados Unidos assumiram os cargos mas não o poder, não se alterou uma vírgula nas notícias que chegam de Bagdad e arredores: atentados e mais ataques contra as forças de ocupação, os que as querem servir e o petróleo com que enchem os bolsos. Ao rubro, portanto. hamem Al-Qaida já não há idade para histórias da carochinha. Que andem por lá terroristas a aproveitar-se de um fundamentalismo religioso que já existia, é o mais provável e natural. Que Saddam Hussein tinha como entretimento favorito acabar com a vida daqueles que agora se entretêm a atacar americanos, só não entende quem tiver acordado agora. Que o fundamental do que se passa no Iraque é resistência popular a ocupação estrangeira, não diz quem está comprometido. A cada dia que passa, a cada episódio que se noticia, cada vez fica mais claro que vai acabar mal, muito mal, a aventura ocidental no Iraque. É pena, porque Saddam merecia um fim pior.
Seguramente o cidadão norte americano Michael Moore estará de acordo com esta ideia, ele que é um batalhador pelas causas da verdade e da justiça no Mundo. Quando ainda subsiste a dúvida se Bush será ou não derrotado nas eleições presidenciais, para já, perdeu as salas de cinema. O documentário Fahrenheit 9 11 foi um sucesso retumbante na estreia. Não se trata de nenhum filme de heróis, antes um retrato factual, por isso documentário, do que são e o que andaram a fazer o presidente dos estados Unidos mailo Rumsfeld, Rice e companhia nos últimos tempos. Depois de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes conseguiu contornar a censura imposta pela Disney, pressionada pela administração norte-americana, e chegar às salas para bater recordes. Estão a aquecer as eleições norte-americanas, à medida que arrefece a confiança dos republicanos.

4.
Aproxima-se a passos largos aquela que, noutrs paragens, é chamada de silly season. Por cá é apenas verão, tanto quanto percebi nos passados. Este vai ser animado pela mais que certa reeleição do Chefe do Executivo, o que não aquece (e ainda bem) nem arrefece (e é pena), mas sempre dá para a gente se entreter. Em matéria noticiosa, bem entendido, que a não reeleição de Edmund Ho seria bem pior que um acentuado arrefecimento nocturno para a cidadania. Certo é que a coisa vai de tal forma que este ano não há tufão que cá chegue.

Havemos de voltar

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