O dingníssimo cônsul dos Estados Unidos em Hong Kong surpreendeu todos (ou quase) ao afirmar que as relações daquele país com a China eram mais antigas que a presença portuguesa em Macau. A coisa foi dita na festa de aniversário da independência, comemorada com alguns dias de atraso. Deve desculpar-se-lhe.
O presidente dele também diz coisas como «Não é a poluição que ameaça o meio ambiente, mas sim a impureza do ar e da água»; ou, a propósito da abstenção: «Um número baixo de votantes é uma indicação de que menos pessoas vão votar»; mas não exaspere, amigo leitor, porque Bush filho garante que «o futuro será melhor amanhã». Assim esperamos todos.
Certamente sem se aperceber da verdade que produzia, sendo no entanto uma das suas mais certeiras reflexões filosóficas, debitou Bush que «gente realmente muito estranha pode assumir posições-chave e provocar um terrível impacto na história». Pensaria ele em Buffalo Bill?
O brilhante raciocínio do recandidato à Casa Branca tem, no entanto, outros explendores, que nos permitem ir mais longe na compreensão da história dos nossos dias. Sobre os motins que se seguiram ao tristemente célebre espancamento de um negro em Los Angeles, esclareceu o visionário, questionado por um jornalista: «Quando me perguntaram quem provocou a revolta e as mortes em Los Angeles, a minha resposta foi directa e simples: quem devemos responsabilizar pela revolta? Os revoltosos são os culpados. Quem devemos responsabilizar pelas mortes? Os que mataram são os culpados». Conclusão: o homem tem qualidades para ser nomeado cônsul em Hong Kong, pelo menos.
O saber, nos Estados Unidos, não é coisa que se cultive. Há anos foi divulgado um inquérito revelador de que mais de metade da população da potência não conseguia indicar a Europa – sim, o Continente – num planisfério. Não há razões para crer que a situação mudou, antes pelo contrário.
As mais conhecidas declarações do presidente norte-americano sobre educação postulam que «o sistema de ensino público é um dos fundamentos da nossa [deles] democracia. Além do mais, é onde as crianças da América aprendem a ser cidadãos responsáveis e as habilitações necessárias para aproveitar as vantagens da nossa sociedade oportunista». No momento em que tentou clarificar o raciocínio, a alimária esclareceu(?): «Quero dizer que a Administração Bush está orientada para o resultado, porque acredito no resultado de focalizar a própria atenção e energia na educação das crianças na leitura, porque temos um sistema educativo atento às crianças e aos seus pais, mais que ao objectivo de um sistema que recusa a mudança e que fará da América o que queremos que seja, um país de gente que sabe ler e que sabe esperar». Não se pede que leiam enquanto esperam.
Tudo isto a propósito, também, das declarações da esposa do candidato democrata à substituição de Bush. Garante ela que o marido não só lê, como até gosta de história. Esperemos sinceramente que isso lhe valha alguma coisa.
Não se pense, no entanto, que a estulta afirmação do cônsul norte-americano sobre as relações com a China são novidade em matéria de política externa. Também aí, a cartilha é ditada por Bush. Foi ele quem afirmou, após a eleição do presidente mexicano: «Falei com Vicente Fox sobre o envio de petróleo para os Estados Unidos. Assim não dependemos de petróleo estrangeiro». Ninguém se admirou, portanto, quando esclareceu a Nação que «a grande maioria das nossas [deles] importações vêm de fora do país». Sobre o «fora», numa tirada lapidar sobre as negociatas no Iraque, explicou Bush que «o problema dos franceses é que não têm uma palavra para entrepreneur». OK. Aos europeus, garantiu: «Fazemos parte da NATO. Nós temos um compromisso firme com a Europa. Nós fazemos parte da Europa». Felizmente, enganou-se.
Directamente ao ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso perguntou o ente: «vocês também têm negros?» Já agora, e índios?
Desculpe-se ao sr. Cônsul porque há a possibilidade de que seja o Oriente a fazer-lhes mal. Se não veja-se o que disse Bush em Tóquio: «A minha viagem à Ásia começa no Japão por uma razão importante. Começa aqui porque há um século e meio que a América e o Japão formam uma das maiores e mais duradouras alianças dos tempos modernos. Desta aliança nasceu uma era de Paz no Pacífico». Por que raio não saiu também ele disparado num dos intervalos, qual Major Kong, do Dr. Strangelove?!?
Sendo que todas as citações são absolutamente comprováveis e abundantemente publicadas, pensa-se que o néscio se retrata? Nem por sombras: «Mantenho todas as declarações equivocadas que fiz», disse não há muito. Uma que lhe pode servir de epitáfio.
Disse ainda a criatura, aproveitando-se aqui para concluir, antes que isto faça mal: «O holocausto foi um período obsceno na história da nossa [deles] Nação... Quero [queria ele] dizer, na história deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi nesse século!»Pois não, também o meu reino não é deste mundo.
Havemos de voltar
29.7.04
22.7.04
Contribuição
Aproxima-se a campanha eleitoral para de Chefe do Executivo de Macau, com um candidato celebrado, o actual ocupante do cargo, Edmund Ho. No acto que marcou o anúncio da candidatura, quando foi levantar o boletim de inscrição, Edmund Ho reconheceu que há algo a mudar na governação, embora sem especificar o quê, e disse esperar que os cidadão sejam mais exigentes durante este segundo mandato.
Avance-se, então, para saber o que deve ser mudado. Importa mais dizer o que, e como, deve ser feito, do que estar a apontar erros, simplesmente. A metodologia adoptada para a identificação das necessidades e carências da sociedade é, em Macau, a auscultação das associações. Como sistema é tão legítimo como qualquer outro, dependendo, sobretudo, da capacidade de entender o que é dito – se for dito, naturalmente. É, pois, a forma como se põe o sistema a funcionar que determina a bondade da governação, sabendo-se de ciência certa que, por exemplo, o partidarismo fornece inúmeros exemplos de autismo, como também o contrário.
Se Edmund Ho é consensual como líder de Macau, acordo generalizado se obtém também quanto à necessidade de que a nossa sociedade se modernize. Pouco importam milhões de quilovatios/hora gastos em todo o tipo de luzes e reclamos, se a população, e a sua prática diária, sobretudo, não se iluminar. Em todas as áreas, sempre, é possível fazer melhor. Na administração pública como nos serviços privados, na organização judicial e na saúde. No que se queira: na competência dos funcionários ou na qualificação dos empregados. No fim, o que estará sempre em equação, é a forma como se servem os cidadãos.
A comunicação social é um meio que todas as entidades, públicas e privadas, usam para chegar ao cidadão destinatário. No geral, não há, no entanto, noção do meio. Ao pespegar com uma credencial ao peito do jornalista que vai cobrir um qualquer evento, documento onde consta regra geral a palavra «media», ou seja, «meio», quem nos credencia raramente se comporta como quem tem, ali, na pessoa do jornalista, o meio para comunicar com a população.
Na administração pública como nos órgãos de governo, não raro, o «meio» é tratado como meliante. Ser tratado por supostos assessores de imprensa que, em vez de fornecerem as informações pedidas, se assumem como guarda-costas de inusitada agressividade é comum. Isto não é civilizado, não é próprio de uma sociedade moderna e, sobretudo, não se justifica.
É comum ser-se convidado para assistir a actos, com hora marcada, em que se é obrigado a esperar horas por declarações sobre o que se passou. Em qualquer lugar do Mundo onde o senso comum impere, convoca-se os jornalistas para uma hora estabelecida, em que os responsáveis sabem que já podem prestar informações, a meio ou no fim de uma reunião. Não é o que se passa, por exemplo, nos Conselhos que discutem e propõem medidas em áreas específicas da governação. Isso é fazer perder tempo a quem trabalha.
Há a sensível questão das duas línguas oficiais em Macau, geralmente bem resolvida, mas com problemas crónicos em alguns serviços. Nos de Saúde, por exemplo, convocou-se recentemente a imprensa para assistir a um seminário onde, apesar de a sala estar equipada com os meios para tradução simultânea, ela não estava a funcionar. Os primeiros oradores optaram pelo inglês, sabendo que parte dos seminaristas não dominava o português ou o cantonense. O terceiro comunicou em inglês que ia falar em cantonese. Isso, além de falta de respeito por participantes e jornalistas, é desperdício num seminário técnico.
No Instituto Cultural a prática é mais aberrante: convoca-se a imprensa para uma conferência em determinada data, mas põe-se, dias antes, uma funcionária a antecipar o exacto conteúdo a divulgar, num jornal. Isso, além de ser o grau zero da correcção no relacionamento com a comunicação social, faz a funcionária do Instituto incorrer em evidente falta deontológica na pele de jornalista.
Macau é cada vez mais um local de eventos internacionais onde, por essa razão, se encontram jornalistas habituados a parâmetros internacionais de trabalho. Há, nos inúmeros eventos organizados recentemente, exemplos bastantes para que os diversos serviços possam aprender a funcionar correctamente no relacionamento com a imprensa.
Na sociedade de comunicação, que sucede à era contemporânea, não saber manter um relacionamento correcto com os agentes da comunicação social é sinal de incompetência.Quando se aproxima a segunda eleição do Chefe do Executivo, cargo ocupado por Edmund Ho, seria bom aproveitar a oportunidade para debater e assim orientar as diversas instituições para um correcto relacionamento com a comunicação social. Edmund Ho, ele próprio, é um exemplo a seguir de correcção na forma como trata os jornalistas, além, obviamente, de saber a importância que eles têm (não individualmente, mas a que decorre do papel de «meio» que incorporam). Por isso, pelo respeito que, através da comunicação social, demontra ter pela população, obtém o consenso que se reconhece. Esse é, no entanto, um aspecto que o próximo Executivo deverá ter preocupação em melhorar, no seu próprio funcionamento e no dos organismos dele dependentes.
Havemos de voltar
Avance-se, então, para saber o que deve ser mudado. Importa mais dizer o que, e como, deve ser feito, do que estar a apontar erros, simplesmente. A metodologia adoptada para a identificação das necessidades e carências da sociedade é, em Macau, a auscultação das associações. Como sistema é tão legítimo como qualquer outro, dependendo, sobretudo, da capacidade de entender o que é dito – se for dito, naturalmente. É, pois, a forma como se põe o sistema a funcionar que determina a bondade da governação, sabendo-se de ciência certa que, por exemplo, o partidarismo fornece inúmeros exemplos de autismo, como também o contrário.
Se Edmund Ho é consensual como líder de Macau, acordo generalizado se obtém também quanto à necessidade de que a nossa sociedade se modernize. Pouco importam milhões de quilovatios/hora gastos em todo o tipo de luzes e reclamos, se a população, e a sua prática diária, sobretudo, não se iluminar. Em todas as áreas, sempre, é possível fazer melhor. Na administração pública como nos serviços privados, na organização judicial e na saúde. No que se queira: na competência dos funcionários ou na qualificação dos empregados. No fim, o que estará sempre em equação, é a forma como se servem os cidadãos.
A comunicação social é um meio que todas as entidades, públicas e privadas, usam para chegar ao cidadão destinatário. No geral, não há, no entanto, noção do meio. Ao pespegar com uma credencial ao peito do jornalista que vai cobrir um qualquer evento, documento onde consta regra geral a palavra «media», ou seja, «meio», quem nos credencia raramente se comporta como quem tem, ali, na pessoa do jornalista, o meio para comunicar com a população.
Na administração pública como nos órgãos de governo, não raro, o «meio» é tratado como meliante. Ser tratado por supostos assessores de imprensa que, em vez de fornecerem as informações pedidas, se assumem como guarda-costas de inusitada agressividade é comum. Isto não é civilizado, não é próprio de uma sociedade moderna e, sobretudo, não se justifica.
É comum ser-se convidado para assistir a actos, com hora marcada, em que se é obrigado a esperar horas por declarações sobre o que se passou. Em qualquer lugar do Mundo onde o senso comum impere, convoca-se os jornalistas para uma hora estabelecida, em que os responsáveis sabem que já podem prestar informações, a meio ou no fim de uma reunião. Não é o que se passa, por exemplo, nos Conselhos que discutem e propõem medidas em áreas específicas da governação. Isso é fazer perder tempo a quem trabalha.
Há a sensível questão das duas línguas oficiais em Macau, geralmente bem resolvida, mas com problemas crónicos em alguns serviços. Nos de Saúde, por exemplo, convocou-se recentemente a imprensa para assistir a um seminário onde, apesar de a sala estar equipada com os meios para tradução simultânea, ela não estava a funcionar. Os primeiros oradores optaram pelo inglês, sabendo que parte dos seminaristas não dominava o português ou o cantonense. O terceiro comunicou em inglês que ia falar em cantonese. Isso, além de falta de respeito por participantes e jornalistas, é desperdício num seminário técnico.
No Instituto Cultural a prática é mais aberrante: convoca-se a imprensa para uma conferência em determinada data, mas põe-se, dias antes, uma funcionária a antecipar o exacto conteúdo a divulgar, num jornal. Isso, além de ser o grau zero da correcção no relacionamento com a comunicação social, faz a funcionária do Instituto incorrer em evidente falta deontológica na pele de jornalista.
Macau é cada vez mais um local de eventos internacionais onde, por essa razão, se encontram jornalistas habituados a parâmetros internacionais de trabalho. Há, nos inúmeros eventos organizados recentemente, exemplos bastantes para que os diversos serviços possam aprender a funcionar correctamente no relacionamento com a imprensa.
Na sociedade de comunicação, que sucede à era contemporânea, não saber manter um relacionamento correcto com os agentes da comunicação social é sinal de incompetência.Quando se aproxima a segunda eleição do Chefe do Executivo, cargo ocupado por Edmund Ho, seria bom aproveitar a oportunidade para debater e assim orientar as diversas instituições para um correcto relacionamento com a comunicação social. Edmund Ho, ele próprio, é um exemplo a seguir de correcção na forma como trata os jornalistas, além, obviamente, de saber a importância que eles têm (não individualmente, mas a que decorre do papel de «meio» que incorporam). Por isso, pelo respeito que, através da comunicação social, demontra ter pela população, obtém o consenso que se reconhece. Esse é, no entanto, um aspecto que o próximo Executivo deverá ter preocupação em melhorar, no seu próprio funcionamento e no dos organismos dele dependentes.
Havemos de voltar
14.7.04
Oquintresséoadani
Estou feliz da vida. Voltei a deliciar-me com as soculentas prosas que as mais férteis imaginações ao serviço do jornalismo português conseguem produzir. Refiro-me, naturalmente, às páginas diárias de três queridos jornais desportivos (chamesmos-lhes «qdd», que penaram e me fizeram penar durante o chamado «defeso». Aqui está: onde mais se podem usar expressões sucolentas como esta? Sobre essas particularidades da linguagem desportiva já aqui se discorreu, portanto, façamos apenas a actualização: sirvo-me, para tanto, da crónica de uma consagrada e ultimamente ressabiada benfiquista, na «bíblia».
Conta Leonor Pinhão que durante o Euro2004 pegou um novo tique de linguagem, de calibre tal que já não se ouvia desde o pintacostal «pensar de que». Escreve Leonor Pinhão: «Não sei se repararam, mas foi qualquer coisa má que deu em comentadores, artífices e até em pessoas com maiores responsabilidades dada a escolaridade que ostentam nos títulos de «doutores». Foi a praga maior deste Euro. Impossível de escapar durante três semanas a frases como estas:
— A equipa tal jogou bem «onde» o ponta-de-lança nos parecesse em baixa de forma.— Fulano promete que vai marcar três golos «onde» está muito optimista. — A organização está pelo melhor «onde» alguns problemas ainda subsistem.»
Nós não tivemos oportunidade de acompanhar os comentários produzidos na lusa tv, o que não significa que tenhamos ficado dispensados de dislates tão grandes, ou maiores. Se bem que o erro não se caracterizasse pela repetição, fomos brindados pela constância, para compensar.
Não é certamente daqui que me vem a alegria. Ainda n’«A Bola» encontrou-se exemplo, esse sim, motivo de satisfação: a capa do jornal que todos esperavam viesse dedicada ao resultado da final do campeonato da Europa estava, afinal, cheia com o tema do novo treinador do Benfica. Há clubes assim. A partir daí, do fim do campeonato e do início da actividade clubistica, há a cada dia um pedaço de prosa que nos traz o espírito, o suor, a força e o querer dos artistas que se anseia comecem a pontapeá-la em competições a sério. Para já, fica-se a actualidade por apresentações, contratações e negociações, algumas reais, outras fictícias.
Cabe aqui registar o trabalho merecedor de prémio para ficção, a atribuir aos esforçados jornalistas do Record. Não houve dia em que não jurassem estar o Benfica pronto para assinar contrato com o francês tal, o holandês seguinte, o alemão anterior e assim sucessivamente, até errarem no italiano. Como bons desportistas que são, encaixaram a derrota vaticinal como senhores, isto é, sem dizer ai nem ui, muito menos desculpem lá qualquer coisinha, bem ao estilo «Correio da Manhã». Depois queixam-se, mas não são os únicos.
E que nos trazem então, de matéria noticiosa (logo não especulativa) os qdd? Na minha opinião, só confirmações. A confirmação de que o Futebol Clube do Porto tem os cofres cheios (por mérito próprio, diga-se) e vai contruir uma equipa fortíssima. Fica a dúvida do que será capaz o treinador, sendo que Pinto da Costa geralmente não se engana, embora já tenha enfiado barretes; A confirmação de que no Benfica se vive uma nova era, de organização que vai permitindo contruir uma equipa igualmente forte, comandada por um treinador que em duas corridas acabou com as más línguas que lhe chamavam velho. Resta a dúvida se terá os tais três reforços que lhe faltam para preencher, como quer, cada posição com dois jogadores de igual quilate; A confirmação de que o presidente do Sporting foi inapelavelmente afectado pelo sistema, nervoso talvez, o que se vai reflectindo numa série de medidas que ninguém entende e o próprio não é capaz de explicar, e resultam, em apenas dois anos, numa sombra do que foi o Sporting campeão. Não restam dúvidas.
A concorrer directamente com os qdd tivemos toda a restante imprensa e ainda o que de tv conseguimos apanhar, com um folhetim por vezes não menos especulativo, de resultado igualmente incerto até ao último minutos, e que deixou metade dos adeptos chorosos enquanto a outra metade esfregou as mão de contente. Tendo como protagonista um reconhecido adepto do clube de Dias da Cunha, note-se. Jorge Sampaio, presidente da República Portuguesa, no jogo da substituição de Durão Barroso. O resultado foi já noticiado, mas eis que surgem agora as análises às, digamos, incidências da partida. Entre elas, e depois da angústia quanto à substituição a efectuar, a ansiedade agora prende-se em saber quem irá treinar a oposição. O que, não sendo dispiciendo, é certamente irrelevante face a políticas inovadoras em tempo de vacas magras.
Solidário com as políticas de contenção, não estarei presente nem me farei representar na tomada de posse do novo Executivo. Confesso que me preocupa muito mais, neste momento, saber se conseguimos ou não contratar o italiano Adani para o eixo da defesa.
Havemos de voltar
Conta Leonor Pinhão que durante o Euro2004 pegou um novo tique de linguagem, de calibre tal que já não se ouvia desde o pintacostal «pensar de que». Escreve Leonor Pinhão: «Não sei se repararam, mas foi qualquer coisa má que deu em comentadores, artífices e até em pessoas com maiores responsabilidades dada a escolaridade que ostentam nos títulos de «doutores». Foi a praga maior deste Euro. Impossível de escapar durante três semanas a frases como estas:
— A equipa tal jogou bem «onde» o ponta-de-lança nos parecesse em baixa de forma.— Fulano promete que vai marcar três golos «onde» está muito optimista. — A organização está pelo melhor «onde» alguns problemas ainda subsistem.»
Nós não tivemos oportunidade de acompanhar os comentários produzidos na lusa tv, o que não significa que tenhamos ficado dispensados de dislates tão grandes, ou maiores. Se bem que o erro não se caracterizasse pela repetição, fomos brindados pela constância, para compensar.
Não é certamente daqui que me vem a alegria. Ainda n’«A Bola» encontrou-se exemplo, esse sim, motivo de satisfação: a capa do jornal que todos esperavam viesse dedicada ao resultado da final do campeonato da Europa estava, afinal, cheia com o tema do novo treinador do Benfica. Há clubes assim. A partir daí, do fim do campeonato e do início da actividade clubistica, há a cada dia um pedaço de prosa que nos traz o espírito, o suor, a força e o querer dos artistas que se anseia comecem a pontapeá-la em competições a sério. Para já, fica-se a actualidade por apresentações, contratações e negociações, algumas reais, outras fictícias.
Cabe aqui registar o trabalho merecedor de prémio para ficção, a atribuir aos esforçados jornalistas do Record. Não houve dia em que não jurassem estar o Benfica pronto para assinar contrato com o francês tal, o holandês seguinte, o alemão anterior e assim sucessivamente, até errarem no italiano. Como bons desportistas que são, encaixaram a derrota vaticinal como senhores, isto é, sem dizer ai nem ui, muito menos desculpem lá qualquer coisinha, bem ao estilo «Correio da Manhã». Depois queixam-se, mas não são os únicos.
E que nos trazem então, de matéria noticiosa (logo não especulativa) os qdd? Na minha opinião, só confirmações. A confirmação de que o Futebol Clube do Porto tem os cofres cheios (por mérito próprio, diga-se) e vai contruir uma equipa fortíssima. Fica a dúvida do que será capaz o treinador, sendo que Pinto da Costa geralmente não se engana, embora já tenha enfiado barretes; A confirmação de que no Benfica se vive uma nova era, de organização que vai permitindo contruir uma equipa igualmente forte, comandada por um treinador que em duas corridas acabou com as más línguas que lhe chamavam velho. Resta a dúvida se terá os tais três reforços que lhe faltam para preencher, como quer, cada posição com dois jogadores de igual quilate; A confirmação de que o presidente do Sporting foi inapelavelmente afectado pelo sistema, nervoso talvez, o que se vai reflectindo numa série de medidas que ninguém entende e o próprio não é capaz de explicar, e resultam, em apenas dois anos, numa sombra do que foi o Sporting campeão. Não restam dúvidas.
A concorrer directamente com os qdd tivemos toda a restante imprensa e ainda o que de tv conseguimos apanhar, com um folhetim por vezes não menos especulativo, de resultado igualmente incerto até ao último minutos, e que deixou metade dos adeptos chorosos enquanto a outra metade esfregou as mão de contente. Tendo como protagonista um reconhecido adepto do clube de Dias da Cunha, note-se. Jorge Sampaio, presidente da República Portuguesa, no jogo da substituição de Durão Barroso. O resultado foi já noticiado, mas eis que surgem agora as análises às, digamos, incidências da partida. Entre elas, e depois da angústia quanto à substituição a efectuar, a ansiedade agora prende-se em saber quem irá treinar a oposição. O que, não sendo dispiciendo, é certamente irrelevante face a políticas inovadoras em tempo de vacas magras.
Solidário com as políticas de contenção, não estarei presente nem me farei representar na tomada de posse do novo Executivo. Confesso que me preocupa muito mais, neste momento, saber se conseguimos ou não contratar o italiano Adani para o eixo da defesa.
Havemos de voltar
7.7.04
A temperatura
1.
Está de parabéns o Cônsul de Portugal na RAEM, Pedro Moitinho de Almeida. Não por ter conseguido perceber a importância da final do campeonato da Europa de futebol para os portugueses e afins em Macau (que era óbvia), mas por ter promovido uma festa que juntou mais de meio milhar de pessoas, pouco preocupadas com as baboseiras do elitismo do local ou de quem promoveria o acontecimento. Além do mais, na Torre de Macau, não havia sequer uma «mesa de honra», onde os dignitários haveriam de alapar, à boa maneira local. O promotor da festa foi um, sem honras de primus inter pares, que dispensou para poder viver como todos os outros o que a televisão trazia de Portugal. Porque Pedro Moitinho de Almeida já vai habituando as pessoas a esse comportamento, o que se pode dizer para explicar quem e como estava lá, é afirmar que estavam todos e bem. A sala esteve ao rubro a cada passe, remate ou defesa, esfriando muito menos do que seria de esperar quando o balde de água fria se abateu sobre a Luz. Assim, no final ainda se viam bandeiras desfraldadas e escutavam palmas para quem as merecia. Que sirva de exemplo aos emproados da terra, já que esta sim, é a forma de preservar um legado português em Macau.
2.
Pena foi que a festa não pudesse ter sido estendida, depois, às ruas, mas essas são contas de outro rosário. Parabéns aos gregos.
3.
Passada a euforia da bola espera-se, em Macau como em Portugal, espera-se que o Presidente Jorge Sampaio se decida em relação à crise política aberta pela fuga de Durão Barroso. É tema de conversa em cada escritório ou café a dúvida que a todos assalta quanto ao lado para onde Sampaio vai cair. Em primeiro lugar isso leva á inevitável conclusão de que o mais alto magistrado português comporta-se de forma que deixa sempre dúvidas, ou seja, nunca se sabe quando se vai esquecer de quem o elegeu e para quê. Calafrios desses não são inéditos.
Já o putativo sucessor de Durão Barroso sabe bem o caminho para que não foi eleito mas faz questão de trilhar e age em conformidade. Esperemos um final digno ou então nunca mais se pronuncie uma única palavra contra o alheamento dos cidadãos portugueses dos actos eleitorais.
3.
Dez dias depois da farsa da transferência de poderes no Iraque, tudo como antes. À vergonha e recolhimento da cerimónia com que os fantoches a soldo dos Estados Unidos assumiram os cargos mas não o poder, não se alterou uma vírgula nas notícias que chegam de Bagdad e arredores: atentados e mais ataques contra as forças de ocupação, os que as querem servir e o petróleo com que enchem os bolsos. Ao rubro, portanto. hamem Al-Qaida já não há idade para histórias da carochinha. Que andem por lá terroristas a aproveitar-se de um fundamentalismo religioso que já existia, é o mais provável e natural. Que Saddam Hussein tinha como entretimento favorito acabar com a vida daqueles que agora se entretêm a atacar americanos, só não entende quem tiver acordado agora. Que o fundamental do que se passa no Iraque é resistência popular a ocupação estrangeira, não diz quem está comprometido. A cada dia que passa, a cada episódio que se noticia, cada vez fica mais claro que vai acabar mal, muito mal, a aventura ocidental no Iraque. É pena, porque Saddam merecia um fim pior.
Seguramente o cidadão norte americano Michael Moore estará de acordo com esta ideia, ele que é um batalhador pelas causas da verdade e da justiça no Mundo. Quando ainda subsiste a dúvida se Bush será ou não derrotado nas eleições presidenciais, para já, perdeu as salas de cinema. O documentário Fahrenheit 9 11 foi um sucesso retumbante na estreia. Não se trata de nenhum filme de heróis, antes um retrato factual, por isso documentário, do que são e o que andaram a fazer o presidente dos estados Unidos mailo Rumsfeld, Rice e companhia nos últimos tempos. Depois de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes conseguiu contornar a censura imposta pela Disney, pressionada pela administração norte-americana, e chegar às salas para bater recordes. Estão a aquecer as eleições norte-americanas, à medida que arrefece a confiança dos republicanos.
4.
Aproxima-se a passos largos aquela que, noutrs paragens, é chamada de silly season. Por cá é apenas verão, tanto quanto percebi nos passados. Este vai ser animado pela mais que certa reeleição do Chefe do Executivo, o que não aquece (e ainda bem) nem arrefece (e é pena), mas sempre dá para a gente se entreter. Em matéria noticiosa, bem entendido, que a não reeleição de Edmund Ho seria bem pior que um acentuado arrefecimento nocturno para a cidadania. Certo é que a coisa vai de tal forma que este ano não há tufão que cá chegue.
Havemos de voltar
Está de parabéns o Cônsul de Portugal na RAEM, Pedro Moitinho de Almeida. Não por ter conseguido perceber a importância da final do campeonato da Europa de futebol para os portugueses e afins em Macau (que era óbvia), mas por ter promovido uma festa que juntou mais de meio milhar de pessoas, pouco preocupadas com as baboseiras do elitismo do local ou de quem promoveria o acontecimento. Além do mais, na Torre de Macau, não havia sequer uma «mesa de honra», onde os dignitários haveriam de alapar, à boa maneira local. O promotor da festa foi um, sem honras de primus inter pares, que dispensou para poder viver como todos os outros o que a televisão trazia de Portugal. Porque Pedro Moitinho de Almeida já vai habituando as pessoas a esse comportamento, o que se pode dizer para explicar quem e como estava lá, é afirmar que estavam todos e bem. A sala esteve ao rubro a cada passe, remate ou defesa, esfriando muito menos do que seria de esperar quando o balde de água fria se abateu sobre a Luz. Assim, no final ainda se viam bandeiras desfraldadas e escutavam palmas para quem as merecia. Que sirva de exemplo aos emproados da terra, já que esta sim, é a forma de preservar um legado português em Macau.
2.
Pena foi que a festa não pudesse ter sido estendida, depois, às ruas, mas essas são contas de outro rosário. Parabéns aos gregos.
3.
Passada a euforia da bola espera-se, em Macau como em Portugal, espera-se que o Presidente Jorge Sampaio se decida em relação à crise política aberta pela fuga de Durão Barroso. É tema de conversa em cada escritório ou café a dúvida que a todos assalta quanto ao lado para onde Sampaio vai cair. Em primeiro lugar isso leva á inevitável conclusão de que o mais alto magistrado português comporta-se de forma que deixa sempre dúvidas, ou seja, nunca se sabe quando se vai esquecer de quem o elegeu e para quê. Calafrios desses não são inéditos.
Já o putativo sucessor de Durão Barroso sabe bem o caminho para que não foi eleito mas faz questão de trilhar e age em conformidade. Esperemos um final digno ou então nunca mais se pronuncie uma única palavra contra o alheamento dos cidadãos portugueses dos actos eleitorais.
3.
Dez dias depois da farsa da transferência de poderes no Iraque, tudo como antes. À vergonha e recolhimento da cerimónia com que os fantoches a soldo dos Estados Unidos assumiram os cargos mas não o poder, não se alterou uma vírgula nas notícias que chegam de Bagdad e arredores: atentados e mais ataques contra as forças de ocupação, os que as querem servir e o petróleo com que enchem os bolsos. Ao rubro, portanto. hamem Al-Qaida já não há idade para histórias da carochinha. Que andem por lá terroristas a aproveitar-se de um fundamentalismo religioso que já existia, é o mais provável e natural. Que Saddam Hussein tinha como entretimento favorito acabar com a vida daqueles que agora se entretêm a atacar americanos, só não entende quem tiver acordado agora. Que o fundamental do que se passa no Iraque é resistência popular a ocupação estrangeira, não diz quem está comprometido. A cada dia que passa, a cada episódio que se noticia, cada vez fica mais claro que vai acabar mal, muito mal, a aventura ocidental no Iraque. É pena, porque Saddam merecia um fim pior.
Seguramente o cidadão norte americano Michael Moore estará de acordo com esta ideia, ele que é um batalhador pelas causas da verdade e da justiça no Mundo. Quando ainda subsiste a dúvida se Bush será ou não derrotado nas eleições presidenciais, para já, perdeu as salas de cinema. O documentário Fahrenheit 9 11 foi um sucesso retumbante na estreia. Não se trata de nenhum filme de heróis, antes um retrato factual, por isso documentário, do que são e o que andaram a fazer o presidente dos estados Unidos mailo Rumsfeld, Rice e companhia nos últimos tempos. Depois de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes conseguiu contornar a censura imposta pela Disney, pressionada pela administração norte-americana, e chegar às salas para bater recordes. Estão a aquecer as eleições norte-americanas, à medida que arrefece a confiança dos republicanos.
4.
Aproxima-se a passos largos aquela que, noutrs paragens, é chamada de silly season. Por cá é apenas verão, tanto quanto percebi nos passados. Este vai ser animado pela mais que certa reeleição do Chefe do Executivo, o que não aquece (e ainda bem) nem arrefece (e é pena), mas sempre dá para a gente se entreter. Em matéria noticiosa, bem entendido, que a não reeleição de Edmund Ho seria bem pior que um acentuado arrefecimento nocturno para a cidadania. Certo é que a coisa vai de tal forma que este ano não há tufão que cá chegue.
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