Eu sou o resto
O resto do Mundo
Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu sou...
Eu num sou ninguém
Gabriel O Pensador
Neste mundo que vive dias, se não globalmente conturbados, pelo menos confusos, há uma linha mestra, que escapa à mediatização dos que consomem a informação ocidental, que vem fazendo caminho: o Grito do Ipiranga que ecoa por todos os países não conformados com a miséria a que estão submetidos.
A eleição de Luís Inácio ‘Lula’ da Silva para a presidência do Brasil foi uma pedrada no charco da política subserviente da América Latina aos interesses dos Estados Unidos. Há ainda o caso, que nos tem sido mal contado, da Venezuela – e todo o resto do panorama latino-americano é passível do estereotipo 90 por cento da riqueza concentrada nas mãos de 10 por cento da população, e pelo menos uma quota semelhante a viver em condições que do ponto de vista humano nos é impossível imaginar, tal como o valor real do número de zeros que aparecem nos milhares de milhões da riqueza daqueles poucos.
‘Lula’ da Silva elegeu os países em desenvolvimento como os seus principais aliados. Obviamente a China, como país que, no outro lado do Mundo, está numa situação de desenvolvimento semelhante à brasileira, constituía um aliado fundamental para a concretização da ideia do Presidente do Brasil – que se arrisca a entrar para a história, neste início de século, como o único estadista com uma ideia que vá além das fronteiras do seu país e, em simultâneo, para uma ordem mundial. Obviamente, o actual presidente norte americano está fora da contenda quer porque entende tanto das suas próprias fronteiras como se preocupa com qualquer ordem mundial, embora seja sério candidato a ter um lugar ímpar na história.
São inúmeros os exemplos que têm surgido do estreitamento de laços entre a China e o Brasil, em extraordinário benefício mútuo, com reflexos positivos ainda para países terceiros. O nível de importações recorde de aço brasileiro pela China, o sucesso do projecto de aeronáutica conjunto ontem dado a conhecer, ou o sucesso no bloqueio às condições leoninas que os países ricos queria impor, sobretudo, às Nações africanas em questões agrícolas, no âmbito da Organização Mundial do Comércio são disso exemplo.
A África, sugada até ao tutano pelo Ocidente, e depois acusada de malbaratar recursos quando não raro a cooperação lhe era proposta (ou imposta) a troco de negócios que obrigatoriamente envolviam a indústria do armamento tem agora para onde se virar. Não vale, aqui, justificar com a contraposição ao malévolo papel soviético, já que essa política continuou bem para além do colapso do bloco socialista, até aos nossos dias. Nem falar dos corruptos que governam esses países, porque não há um, um só caso, em que o corruptor não leve o soldo da multinacional do Ocidente.
‘Lula’ da Silva fez questão de bem no início do seu mandato deslocar-se a África, num périplo em que tornou claras as suas prioridades, onde África do Sul e Angola, pelas suas potencialidades, não podem ser menosprezadas. Agora anunciou para o próximo ano a vinda à China e à Índia. Um titubeante México – peça fundamental neste xadrez – governado por um ex-senhor da Coca-Cola que deu aos Estados Unidos um acordo económico que o Brasil soube rejeitar, foi agora visitado pelo primeiro-ministro chinês, que voou de lá direitinho para a simbólica Etiópia, onde participou numa cimeira com mais de três dezenas chefes de Estado e governo. Aí foram traçadas as linhas de cooperação entre a China e os países africanos – promessas, apenas, por enquanto. Mas como nós bem sabemos o valor político das promessas é radicalmente diferente nestas paragens e no Ocidente.
Começam pois a desenhar-se, com clareza, os eixos por que passa essa aliança contra a prepotência que sucedeu às superpotências.
Há, em todo este processo, um exemplo que ilustra na perfeição a diferença de interesses que separa o ultra-liberalismo reinante do pensamento com preocupações sociais: uma das batalhas ganhas contra os interesses das multinacionais foi a dos medicamentos para combater a SIDA. Índia, China, África do Sul e Brasil levaram avante (e, por exemplo, Moçambique já beneficia disso) a produção de substâncias anti-retrovirais que são colocadas no mercado com o intuito de salvar milhões de vidas em vez de arrecadar milhões de dólares.
Caberia aqui falar ainda da recente reunião que a Organização das Nações Unidas promoveu com vista a fazer alastrar a Sociedade da Informação. Tudo o que foi solicitado por quem necessita de meios para desenvolver os meios que permitam tirar partido dos benefícios que a internet traz ficou remetido para as calendas, que pelos vistos se acharam em 2005. Nasceu, entretanto, pela voz do secretário geral Kofi Annan o conceito de «fractura numérica». Quer-se com isto significar o problema que leva a que milhões de crianças em todo o Mundo não possam utilizar a internet pelo simples facto de não saberem ler.
Havemos de voltar
16.12.03
9.12.03
Dos gardenias para ti
Foi ontem anunciada a morte de Rubén González.
Nada que espante quem sabia que desde há três anos o músico passou a estar cada vez mais confinado a casa, vítima de uma doença que o imobilizou progressivamente e prenunciava a paragem do coração com que percutia aquele piano.
Depois de Compay Segundo, é a segunda figura eternizada por Buena Vista Social Clube a desaparecer este ano. O que também não é de admirar, dada a provecta idade da maioria dos intervenientes dessa obra onde Ry Cooder conseguiu congregar génios até ali ignorados pelo Mundo.
Cuba e a música são inseparáveis. Não existiria aquele país se não corresse nas veias do povo a mistura perfeita dos calores latinos e africanos, fermentados nas praias do Caribe, destilados nas serras guajiras. Não teria havido a inconformação que levou a constantes revoltas contra quem quisesse parar a música da vida, não importa no meio de que pobreza, fosse contra o domínio espanhol, inglês, ou cacique norte-americano. Os heróis cubanos perduram e são celebrados em cada puro que se fuma, em cada trago de rum com que o povo dança a vida, seja em que condições for.
Os músicos internacionalmente projectados por Buena Vista Social Clube eram de há muito estrelas naquele país que não sobrevive sem a cultura que o enforma. A Casa del Caribe, em Santiago de Cuba, não existe para organizar uns festivais que dêem corpo a qualquer política cultural. Todos os dias junta os músicos, actores, pintores, escultores, malabaristas, ilusionistas aos santiagueros que com eles partilham o sortilégio da arte e atrai os forasteiros para o que será o espectáculo genuíno. Santiago de Cuba onde a Casa da Vieja Trova, chamada cubana, mas santiaguera ela própria na origem, assegura em permanência um palco, instrumentos e públicos aos artistas, jovens e consagrados, que queiram expressar o que lhes vai na alma. E quem conhece essa casa da música conhece as galerias que a circundam, os ateliês nos conservados palacetes de antanho, as lojecas de artesanato campesino. E quem diz Santiago, provavelmente a mais cubana cidade de Cuba, diz necessariamente a em todos os sentidos capital Havana, a irredutível Las Tunas de património admirável, apesar das três vezes que a sua população a reduziu a cinzas para evitar o domínio, a mítica cheguevariana Santa Clara, onde nasceu Ruben Gonzalez.
Evocar o pianista é evocar a cultura e o povo cubano. E como fazê-lo sem cantar também a mulher da maior das caribenhas? Ela que é a maior fonte de inspiração em todas as artes, porque passeia beleza nas ancas de salsa, nos lábios de guaracha, nos cabelos mestiços do son. Elas, a poesia ali, como escreveu Isolina Carrillo, em Dos Gardenias, que Rubén González enfeitou com o seu piano nesse mesmo Buena Vista e agora ficam depositadas na sua campa
A tu lado viviran y se hablarán
Como cuando estás conmigo
Y hasta creerás que te dirán:
Te quiero.
Pero se un entardecer
Las gardenias de mi amor se mueren
Es porque han adivinado
Que tu amor me ha traicionado
Porque existe otro querer.
Havemos de voltar
Nada que espante quem sabia que desde há três anos o músico passou a estar cada vez mais confinado a casa, vítima de uma doença que o imobilizou progressivamente e prenunciava a paragem do coração com que percutia aquele piano.
Depois de Compay Segundo, é a segunda figura eternizada por Buena Vista Social Clube a desaparecer este ano. O que também não é de admirar, dada a provecta idade da maioria dos intervenientes dessa obra onde Ry Cooder conseguiu congregar génios até ali ignorados pelo Mundo.
Cuba e a música são inseparáveis. Não existiria aquele país se não corresse nas veias do povo a mistura perfeita dos calores latinos e africanos, fermentados nas praias do Caribe, destilados nas serras guajiras. Não teria havido a inconformação que levou a constantes revoltas contra quem quisesse parar a música da vida, não importa no meio de que pobreza, fosse contra o domínio espanhol, inglês, ou cacique norte-americano. Os heróis cubanos perduram e são celebrados em cada puro que se fuma, em cada trago de rum com que o povo dança a vida, seja em que condições for.
Os músicos internacionalmente projectados por Buena Vista Social Clube eram de há muito estrelas naquele país que não sobrevive sem a cultura que o enforma. A Casa del Caribe, em Santiago de Cuba, não existe para organizar uns festivais que dêem corpo a qualquer política cultural. Todos os dias junta os músicos, actores, pintores, escultores, malabaristas, ilusionistas aos santiagueros que com eles partilham o sortilégio da arte e atrai os forasteiros para o que será o espectáculo genuíno. Santiago de Cuba onde a Casa da Vieja Trova, chamada cubana, mas santiaguera ela própria na origem, assegura em permanência um palco, instrumentos e públicos aos artistas, jovens e consagrados, que queiram expressar o que lhes vai na alma. E quem conhece essa casa da música conhece as galerias que a circundam, os ateliês nos conservados palacetes de antanho, as lojecas de artesanato campesino. E quem diz Santiago, provavelmente a mais cubana cidade de Cuba, diz necessariamente a em todos os sentidos capital Havana, a irredutível Las Tunas de património admirável, apesar das três vezes que a sua população a reduziu a cinzas para evitar o domínio, a mítica cheguevariana Santa Clara, onde nasceu Ruben Gonzalez.
Evocar o pianista é evocar a cultura e o povo cubano. E como fazê-lo sem cantar também a mulher da maior das caribenhas? Ela que é a maior fonte de inspiração em todas as artes, porque passeia beleza nas ancas de salsa, nos lábios de guaracha, nos cabelos mestiços do son. Elas, a poesia ali, como escreveu Isolina Carrillo, em Dos Gardenias, que Rubén González enfeitou com o seu piano nesse mesmo Buena Vista e agora ficam depositadas na sua campa
A tu lado viviran y se hablarán
Como cuando estás conmigo
Y hasta creerás que te dirán:
Te quiero.
Pero se un entardecer
Las gardenias de mi amor se mueren
Es porque han adivinado
Que tu amor me ha traicionado
Porque existe otro querer.
Havemos de voltar
21.11.03
O caminho das mentalidades
O maior problema de Macau é o das mentalidades. Não é um problema irresolúvel numa cidade como esta, que dispõe dos meios materiais para construir tudo, para comprar o que faz falta. É, no entanto, o mais difícil de resolver, porque o «produto» não está à venda no mercado internacional.
Na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) Edmund Ho elegeu a educação como alvo do principal investimento no próximo ano. Ao traçar em tom particularmente duro os contornos da situação actual (como, de resto, ontem notava o Director deste jornal) o Chefe do Executivo terá querido fazer sobressair este tema dos restantes. Julgo entender a razão que levou Edmund Ho a adoptar tal tom: já no ano passado, quando anunciou que 2003 seria o ano de aposta nas potencialidades que o português traz a Macau, o Chefe sabia que isso iria provocar incómodos. A aposta na educação não é, também, tema que adoce a boca do status. Quando se fala de educação fala-se de civismo, de progresso, de cultura, de criatividade, de responsabilidade individual, de capacidade de decisão, enfim, dos valores que formam o indivíduo das sociedades modernas. O projecto que existe para Macau é o de uma cidade moderna, que não se compadece com mentalidades retrógradas.
No próximo ano, como no que está a acabar, não há dúvida nenhuma de que o tema eleito por Edmund Ho como bandeira das LAG foi alvo de acerto com o Governo central. Outra coisa não seria de esperar e assim é que está bem. Curiosamente, agora como há um ano, isso parece contradizer os que põem a tónica da sua acção política no mais tradicional da cultura chinesa e no amor à Pátria. A visão de longo alcance que os dirigentes de Pequim vêm manifestando demonstra que não há contradição nenhuma entre os valores em causa e os interesses da China enquanto Nação. A Pequim interessa ter em Macau um povo culto, instruído, de elevado civismo porque esse requisito é necessário para que o projecto «Macau» vingue.
A educação de um povo sempre assustou o Poder, quando este assenta na obediência cega. O exemplo de Hong Kong, com uma população incomparavelmente mais esclarecida e interveniente que a de Macau, assusta muitos, mas pelos vistos não o Chefe do Executivo. É sabido que a existência de opinião pública é um problema para os governos, mas ela decorre da concentração de massa crítica.
Em última análise as próprias LAG demonstram aquilo quer alterar: de ano para ano se repetem os parágrafos, as ideias, os conceitos. Por isso houve um coro de considerações menos abonatórias do conteúdo do documento. Por isso, no ano passado como neste, a conferência de Imprensa foi o momento escolhido por Edmund Ho para explicar o que realmente pretende fazer. O que demonstra existir um fosso entre as ideias do Chefe do Executivo e a capacidade que a administração tem para as executar. Se outra razão não houvesse, era bastante para que Edmund Ho anunciasse a educação como prioridade.
Para Macau, a evolução das mentalidades, não é necessária – é vital. É certo que isso não se faz da noite para o dia, e é virtualmente impossível em sectores mais idosos e desfavorecidos. Esse é um problema com que a própria China se debate e que Macau importa, e vai continuar a importar, com o crescimento populacional constante. Macau tem, no entanto, meios materiais que o Continente, no seu todo, não possui. Tem também a necessidade absoluta de atingir esse objectivo nos próximos tempos. Pequim – e isso viu-se no Fórum para a Cooperação Económica – possui quadros altamente qualificados, capazes de executar os planos que encontram no papel e com isso arrastar os quadros locais para a evolução desejada. Devemos pois esperar – e acolher com agrado – quem vier ajudar a fazer avançar a mentalidade reinante.
Havemos de voltar
Na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) Edmund Ho elegeu a educação como alvo do principal investimento no próximo ano. Ao traçar em tom particularmente duro os contornos da situação actual (como, de resto, ontem notava o Director deste jornal) o Chefe do Executivo terá querido fazer sobressair este tema dos restantes. Julgo entender a razão que levou Edmund Ho a adoptar tal tom: já no ano passado, quando anunciou que 2003 seria o ano de aposta nas potencialidades que o português traz a Macau, o Chefe sabia que isso iria provocar incómodos. A aposta na educação não é, também, tema que adoce a boca do status. Quando se fala de educação fala-se de civismo, de progresso, de cultura, de criatividade, de responsabilidade individual, de capacidade de decisão, enfim, dos valores que formam o indivíduo das sociedades modernas. O projecto que existe para Macau é o de uma cidade moderna, que não se compadece com mentalidades retrógradas.
No próximo ano, como no que está a acabar, não há dúvida nenhuma de que o tema eleito por Edmund Ho como bandeira das LAG foi alvo de acerto com o Governo central. Outra coisa não seria de esperar e assim é que está bem. Curiosamente, agora como há um ano, isso parece contradizer os que põem a tónica da sua acção política no mais tradicional da cultura chinesa e no amor à Pátria. A visão de longo alcance que os dirigentes de Pequim vêm manifestando demonstra que não há contradição nenhuma entre os valores em causa e os interesses da China enquanto Nação. A Pequim interessa ter em Macau um povo culto, instruído, de elevado civismo porque esse requisito é necessário para que o projecto «Macau» vingue.
A educação de um povo sempre assustou o Poder, quando este assenta na obediência cega. O exemplo de Hong Kong, com uma população incomparavelmente mais esclarecida e interveniente que a de Macau, assusta muitos, mas pelos vistos não o Chefe do Executivo. É sabido que a existência de opinião pública é um problema para os governos, mas ela decorre da concentração de massa crítica.
Em última análise as próprias LAG demonstram aquilo quer alterar: de ano para ano se repetem os parágrafos, as ideias, os conceitos. Por isso houve um coro de considerações menos abonatórias do conteúdo do documento. Por isso, no ano passado como neste, a conferência de Imprensa foi o momento escolhido por Edmund Ho para explicar o que realmente pretende fazer. O que demonstra existir um fosso entre as ideias do Chefe do Executivo e a capacidade que a administração tem para as executar. Se outra razão não houvesse, era bastante para que Edmund Ho anunciasse a educação como prioridade.
Para Macau, a evolução das mentalidades, não é necessária – é vital. É certo que isso não se faz da noite para o dia, e é virtualmente impossível em sectores mais idosos e desfavorecidos. Esse é um problema com que a própria China se debate e que Macau importa, e vai continuar a importar, com o crescimento populacional constante. Macau tem, no entanto, meios materiais que o Continente, no seu todo, não possui. Tem também a necessidade absoluta de atingir esse objectivo nos próximos tempos. Pequim – e isso viu-se no Fórum para a Cooperação Económica – possui quadros altamente qualificados, capazes de executar os planos que encontram no papel e com isso arrastar os quadros locais para a evolução desejada. Devemos pois esperar – e acolher com agrado – quem vier ajudar a fazer avançar a mentalidade reinante.
Havemos de voltar
12.11.03
A sondagem
Partindo do conteúdo de um despacho da agência LUSA, que traduzia a publicação de um inquérito publicado «na imprensa chinesa» de Hong Kong (e não havendo razões para desconfiar da fidelidade da transcrição) ficámos a saber, entre outras coisas, que «a população de Hong Kong está "mais descontente" com o Governo do que os habitantes de Macau». Nada de novo.
A notícia dá conta de «um estudo efectuado pela Universidade Baptista de Hong Kong». O que, por si, não faria sobressaltar ninguém. Já os dados que permitem aferir da credibilidade do estudo de opinião não são tão pacíficos. Continuando a transcrever o texto da agência, o estudo é «baseado em entrevistas feitas a 761 residentes de Hong Kong e a 590 de Macau». Aqui, alguma coisa bate mal. Qualquer ignaro em matérias destas, indisponível para ser papado por papalvo, há-de questionar-se por que razão os estudiosos se deram ao trabalho de entrevistar 590 cidadãos de um universo de aproximadamente 440 mil cidadãos de Macau, quando para representar a opinião dos quase sete milhões de hongkongers se considerou bastante entrevistar uma centena e meia mais.
Não que seja incomodativo saber que «58,5 por cento da população da antiga colónia britânica não acredita que o Governo consiga resolver os seus problemas, uma percentagem que, no caso de Macau, se cifra em 43,8». É até elogioso para o executivo de Tung Chee-wa, se tivermos em conta que «o índice de satisfação pelo trabalho do Chefe do Executivo Edmund Ho situa-se nos 80 por cento». Embora fique por resolver o problema do terço de população de Macau que, estando embora satisfeita com o nosso chefe do Executivo, ao mesmo tempo não está.
«Herbert Lee, professor do departamento de Política Governamental e Internacional da Universidade, indicou que o estudo revela também que apenas 40 por cento da população de Hong Kong está satisfeita com o trabalho do Chefe do Executivo local, Tung Che-hwa», o que faz todo o sentido e revela a indisponibilidade chinesa para a indecisão.
O que se torna incompreensível é a conclusão de que «esta diferença de opiniões está directamente ligada ao crescimento das economias de ambos os lados do delta do Rio das Pérolas, com Macau a apresentar crescimentos positivos, ao contrário do que ocorre em Hong Kong». É sabido que apesar de ter sido a região proporcionalmente mais afectada pelo surto de pneumonia atípica, e muito por legítima ajuda do governo de Pequim, Hong Kong vai atingir, se não ultrapassar, as perspectivas de crescimento económico em 2003. Há qualquer coisa que começa a não bater certo, no estudo.
O caso piora quanddo Herbert Lee continua a concluir: «a população de Macau demonstra um conservantismo [sic] maior do que a população de Hong Kong, espelhado [...] no facto de menos de 50 por cento da população considerar legítimo que os membros da Falungong possam disseminar a sua informação». Apesar de nunca ter visto qualquer obstrução à actividade ou propaganda da seita em Macau, é passível de aceitação a conclusão que por aqui se revelem em sondagens o que não transparece da realidade. Assim queira concluir o autor de tão baptista estudo, contra plebeias análises.
Tudo isso faz sentido quando percebemos que «em Hong Kong, 70 por cento da população entende que os membros da Falungong devem ser livres de publicitar os seus pensamentos». E não são?
A sondagem dá-nos ainda um excelente exercício de maioria relativa, segundo o professor: «em Hong Kong 21,4 por cento da população pensa que um governo democrático tem de ser eleito pelo povo», o que, apesar de democraticamente absurdo, é excelente se comparado com o facto de em Macau tal requisito ser «apenas reclamado por 7,1 por cento dos residentes». Mas e os 78,8 de residentes de Hong Kong que não decidiram ainda por quem deve a democracia ser exercida? Sem falar nos 96,9 por cento dos residentes de Macau que apoiariam uma (necessariamente) democrática ditadura.
Não adimra, portanto, que «o estudo indica ainda que 74,9 por cento dos inquiridos em Hong Kong não acreditam que as suas opiniões possam fazer alterar a política do Governo, enquanto em Macau 57,4 por cento pensam da mesma maneira».
Desde que elas sejam expressas desta maneira – uma opinião que obteve unanimidade cá em casa.
Havemos de voltar
A notícia dá conta de «um estudo efectuado pela Universidade Baptista de Hong Kong». O que, por si, não faria sobressaltar ninguém. Já os dados que permitem aferir da credibilidade do estudo de opinião não são tão pacíficos. Continuando a transcrever o texto da agência, o estudo é «baseado em entrevistas feitas a 761 residentes de Hong Kong e a 590 de Macau». Aqui, alguma coisa bate mal. Qualquer ignaro em matérias destas, indisponível para ser papado por papalvo, há-de questionar-se por que razão os estudiosos se deram ao trabalho de entrevistar 590 cidadãos de um universo de aproximadamente 440 mil cidadãos de Macau, quando para representar a opinião dos quase sete milhões de hongkongers se considerou bastante entrevistar uma centena e meia mais.
Não que seja incomodativo saber que «58,5 por cento da população da antiga colónia britânica não acredita que o Governo consiga resolver os seus problemas, uma percentagem que, no caso de Macau, se cifra em 43,8». É até elogioso para o executivo de Tung Chee-wa, se tivermos em conta que «o índice de satisfação pelo trabalho do Chefe do Executivo Edmund Ho situa-se nos 80 por cento». Embora fique por resolver o problema do terço de população de Macau que, estando embora satisfeita com o nosso chefe do Executivo, ao mesmo tempo não está.
«Herbert Lee, professor do departamento de Política Governamental e Internacional da Universidade, indicou que o estudo revela também que apenas 40 por cento da população de Hong Kong está satisfeita com o trabalho do Chefe do Executivo local, Tung Che-hwa», o que faz todo o sentido e revela a indisponibilidade chinesa para a indecisão.
O que se torna incompreensível é a conclusão de que «esta diferença de opiniões está directamente ligada ao crescimento das economias de ambos os lados do delta do Rio das Pérolas, com Macau a apresentar crescimentos positivos, ao contrário do que ocorre em Hong Kong». É sabido que apesar de ter sido a região proporcionalmente mais afectada pelo surto de pneumonia atípica, e muito por legítima ajuda do governo de Pequim, Hong Kong vai atingir, se não ultrapassar, as perspectivas de crescimento económico em 2003. Há qualquer coisa que começa a não bater certo, no estudo.
O caso piora quanddo Herbert Lee continua a concluir: «a população de Macau demonstra um conservantismo [sic] maior do que a população de Hong Kong, espelhado [...] no facto de menos de 50 por cento da população considerar legítimo que os membros da Falungong possam disseminar a sua informação». Apesar de nunca ter visto qualquer obstrução à actividade ou propaganda da seita em Macau, é passível de aceitação a conclusão que por aqui se revelem em sondagens o que não transparece da realidade. Assim queira concluir o autor de tão baptista estudo, contra plebeias análises.
Tudo isso faz sentido quando percebemos que «em Hong Kong, 70 por cento da população entende que os membros da Falungong devem ser livres de publicitar os seus pensamentos». E não são?
A sondagem dá-nos ainda um excelente exercício de maioria relativa, segundo o professor: «em Hong Kong 21,4 por cento da população pensa que um governo democrático tem de ser eleito pelo povo», o que, apesar de democraticamente absurdo, é excelente se comparado com o facto de em Macau tal requisito ser «apenas reclamado por 7,1 por cento dos residentes». Mas e os 78,8 de residentes de Hong Kong que não decidiram ainda por quem deve a democracia ser exercida? Sem falar nos 96,9 por cento dos residentes de Macau que apoiariam uma (necessariamente) democrática ditadura.
Não adimra, portanto, que «o estudo indica ainda que 74,9 por cento dos inquiridos em Hong Kong não acreditam que as suas opiniões possam fazer alterar a política do Governo, enquanto em Macau 57,4 por cento pensam da mesma maneira».
Desde que elas sejam expressas desta maneira – uma opinião que obteve unanimidade cá em casa.
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4.11.03
Só a ONU é solução no Iraque
Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair. Não apenas os prejuízos causados ao próprio povo iraquiano, mas, agora, também ao povo americano e desconhecemos em que verdadeira medida aos ingleses e, por exemplo, aos polacos ou espanhóis.
Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais. Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas. Ficou clara a falácia que constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo.
No Iraque, a administração dos Estados Unidos está mergulhada num pântano de que não sabe como sair, onde procura desesperadamente envolver outras Nações, apenas com o objectivo de partilharem no presente e descartarem no futuro o ónus de um negócio mal calculado. Não é necessário recorrer a outras que não insuspeitas, conservadoras e circunspectas fontes que não norte-americanas e britânicas para verificar que se começa a preparar o terreno para um recuo norte-americano – depois do mal feito. De uma organização não governamental dos Estados Unidos chegam relatórios de como, vergonhosamente, os negócios da «reconstrução» do Iraque foram entregues, sem concurso, aos amigos de Bush. A sempre bem informada The Economist teve a primazia de falar em fracasso sobre os intentos de Rumsfeld e Bush, se é que este os pensa, quanto ao Iraque.
O cúmulo da desvergonha surgiu por parte da conselheira Rice: no mesmo dia em que eram conhecidos os números dos negócios das as empresas que financiaram a campanha de Bush no Iraque, a senhora voltava a pedir à França e à Alemanha que abrissem os cordões à bolsa. O eufemismo adoptado para «empresas norte americanas» foi então «refém povo iraquiano». Fica por explicar como é que um povo que foi «libertado» meses antes pela coligação anglófona se tornou refém de Maio para Outubro – mas são contingências da política. Obviamente, a gargalhada solta por Chirac e Schroder foi também eufemisticamente traduzida por ONU. E têm razão os dois lúcidos dirigentes europeus – avisaram antes, puseram condições, não se lhes deve pedir agora que vão pagar os desmandos alheios. Contudo, o Iraque necessita de ajuda, ninguém o nega. Pede-se apenas que se faça agora o que foi reclamado no início: que as Nações Unidas assumam os destinos da transição iraquiana, que se volte à legalidade internacional, que então se reclame apoio a um povo massacrado sucessivamente por um ditador local, uma guerra regional, outra, internacional, provocada para a sobrevivência do próprio regime, depois sanções internacionais e finalmente por uma guerra de vingança familiar com petrodólares à mistura. Só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos.
O que a administração norte americana menos quer é abrir mão do poder que busca desesperadamente em Bagdad. Internamente, o governo instituído, (fantoche, como se lhes chamava há uns anos atrás nos exemplos latino-americanos dos noriegas deste mundo) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente, meio ano passado sobre o fim declarado das hostilidades «de grande envergadura»? Por que não foram então previstas as acções de mais pequena envergadura? Clamar pelo «terrorismo internacional», um CD já só comparável à «cassete» vermelha de antanho, não chega. Admitindo que a Al-Qaida opere efectivamente no Iraque rapinando descontentamentos (e para essa inevitabilidade se alertou sucessivamente antes da intervenção armada), será estultícia chamar terrorismo a um ataque de tropas que nunca deixaram de ser leais ao regime que serviam, quando abatem um helicóptero carregado de militares inimigos. Por muito que se pretenda confundir os planos, também aqui o petróleo virá à tona.
Neste cenário não resta senão aos Estados Unidos retirarem-se do Iraque sem cumprirem a missão a que se propuseram. Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras. Se os governantes estadunidenses respeitassem a vida humana – nem que fosse apenas a dos seus próprios cidadãos – mudavam a agulha rapidamente. No entanto, porque as razões que levaram à intervenção militar no Iraque não tiveram nada que ver no plano da liberdade ou da democracia, isso não será feito tão cedo. Provavelmente isso só acontecerá depois de Bush ser apeado do poder, o que, para todos os efeitos, ainda demorará mais tempo do que o desejável e acarretará mais mortes que as admissíveis.
Havemos de voltar
Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais. Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas. Ficou clara a falácia que constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo.
No Iraque, a administração dos Estados Unidos está mergulhada num pântano de que não sabe como sair, onde procura desesperadamente envolver outras Nações, apenas com o objectivo de partilharem no presente e descartarem no futuro o ónus de um negócio mal calculado. Não é necessário recorrer a outras que não insuspeitas, conservadoras e circunspectas fontes que não norte-americanas e britânicas para verificar que se começa a preparar o terreno para um recuo norte-americano – depois do mal feito. De uma organização não governamental dos Estados Unidos chegam relatórios de como, vergonhosamente, os negócios da «reconstrução» do Iraque foram entregues, sem concurso, aos amigos de Bush. A sempre bem informada The Economist teve a primazia de falar em fracasso sobre os intentos de Rumsfeld e Bush, se é que este os pensa, quanto ao Iraque.
O cúmulo da desvergonha surgiu por parte da conselheira Rice: no mesmo dia em que eram conhecidos os números dos negócios das as empresas que financiaram a campanha de Bush no Iraque, a senhora voltava a pedir à França e à Alemanha que abrissem os cordões à bolsa. O eufemismo adoptado para «empresas norte americanas» foi então «refém povo iraquiano». Fica por explicar como é que um povo que foi «libertado» meses antes pela coligação anglófona se tornou refém de Maio para Outubro – mas são contingências da política. Obviamente, a gargalhada solta por Chirac e Schroder foi também eufemisticamente traduzida por ONU. E têm razão os dois lúcidos dirigentes europeus – avisaram antes, puseram condições, não se lhes deve pedir agora que vão pagar os desmandos alheios. Contudo, o Iraque necessita de ajuda, ninguém o nega. Pede-se apenas que se faça agora o que foi reclamado no início: que as Nações Unidas assumam os destinos da transição iraquiana, que se volte à legalidade internacional, que então se reclame apoio a um povo massacrado sucessivamente por um ditador local, uma guerra regional, outra, internacional, provocada para a sobrevivência do próprio regime, depois sanções internacionais e finalmente por uma guerra de vingança familiar com petrodólares à mistura. Só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos.
O que a administração norte americana menos quer é abrir mão do poder que busca desesperadamente em Bagdad. Internamente, o governo instituído, (fantoche, como se lhes chamava há uns anos atrás nos exemplos latino-americanos dos noriegas deste mundo) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente, meio ano passado sobre o fim declarado das hostilidades «de grande envergadura»? Por que não foram então previstas as acções de mais pequena envergadura? Clamar pelo «terrorismo internacional», um CD já só comparável à «cassete» vermelha de antanho, não chega. Admitindo que a Al-Qaida opere efectivamente no Iraque rapinando descontentamentos (e para essa inevitabilidade se alertou sucessivamente antes da intervenção armada), será estultícia chamar terrorismo a um ataque de tropas que nunca deixaram de ser leais ao regime que serviam, quando abatem um helicóptero carregado de militares inimigos. Por muito que se pretenda confundir os planos, também aqui o petróleo virá à tona.
Neste cenário não resta senão aos Estados Unidos retirarem-se do Iraque sem cumprirem a missão a que se propuseram. Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras. Se os governantes estadunidenses respeitassem a vida humana – nem que fosse apenas a dos seus próprios cidadãos – mudavam a agulha rapidamente. No entanto, porque as razões que levaram à intervenção militar no Iraque não tiveram nada que ver no plano da liberdade ou da democracia, isso não será feito tão cedo. Provavelmente isso só acontecerá depois de Bush ser apeado do poder, o que, para todos os efeitos, ainda demorará mais tempo do que o desejável e acarretará mais mortes que as admissíveis.
Havemos de voltar
31.10.03
Dos americanos que aí vêm
Um episódio recente, numa cerimónia pública, em que o animador de serviço (um norte-americano) leva à letra a função que lhe foi atribuída e põe em prática o que aprendeu na terra donde vem, e a as inúmeras reflexões e informações que nos chegaram de Las Vegas, onde foi um grupo de jornalistas da terra para ver como o jogo também pode ser gerido e o turismo se explora até à medula, põem em evidência algumas questões que a entrada dos estadunidenses em Macau vai colocar.
Não é a escolha das empresas norte-americanas para explorar o jogo em Macau que está em causa – não só o assunto deve ser deixado aos especialistas, como a generalidade destes se tem pronunciado elogiosamente quanto à decisão do chefe do executivo. Aliás, nem está nada em causa – o mínimo que se pode dizer da entrada dos americanos em Macau é que também um dia os portugueses entraram, e esses não foi propriamente por concurso público. Mas as crónicas fazem-se do tempo, e este é aquele em que os episódios da forma de ser e estar dos americanos começam a marcar o dia-a-dia desta terra.
A presença norte-americana no Mundo e a presença de norte-americanos não é a mesma coisa. Uma curta permanência em Macau permite, pelo menos, perceber a grande apetência das novas gerações por todo o fast-food que caracteriza a globalização – a que não há muito tempo se chamava a presença imperialista ou sinais de colonialismo – cultural, de consumo, na moda e, tantas vezes, mesmo ideológico. A primeira é uma realidade enraízada, a que as pessoas se adaptam. Depois, consomem ou não. Têm sempre a possibilidade de deixar na borda do prato o que não quiserem comer. Com os americanos já não é bem assim.
Quando se generaliza, comete-se inevitavelmente a injustiça de englobar no todo partes que dele se destinguem. Mas não será por isso que é errado dizer que os americanos vivem em permanente espectáculo, fazem doutrina do show-off, expõem-se constantemente de forma que nos surge ridícula, por vezes. Isso decorre de uma característica que o bom representante do Tio Sam tem: não faz da cultura um bem a desenvolver, o conhecimento não é o seu forte, a não ser que venha embrulhado numa excelente embalagem comercial. É assim, por exemplo, com o cinema de Hollywood, onde poucos conseguem dizer algo interessante obedecendo às regras que a indústria dita. Depois chamam-lhes «independentes».
No caso do animador que se refere, o homem entendeu que se os presentes não estavam reunidos para velar um defunto, então, necessariamente, teriam que se manifestar com gritos e aplausos a cada boçalidade que soltasse, de preferência repetindo-as. O que revela ausência de noção de meio-termo, por um lado, mas sobretudo a ignorância relativamente ao meio em que se está – e a formalidade, na cultura local, tem um peso proverbial.
Será interessante verificar como é que esse estilo espalhafatoso se vai desenvolver em Macau e, sobretudo, como irá a sociedade reagir a ele. Os cronistas desse tempo certamente se encarregarão de o fazer.
Atenção dos sociólogos deverá merecer também a forma como os norte-americanos se vão organizar socialmente por cá (a propósito, não estará a sociologia demasiado esquecida em Macau?). Infelizmente, não será certamente de nova-iorquinos cosmopolitas ou de cultos quadros que se comporá essa comunidade. Ainda que de quadros se trate, é consabida a característica etnocêntrica da educação norte-americana, que resulta nesse espantoso resultado de muito mais de metade dos mais de 290 milhões de norte-americanos não conseguir apontar à primeira no planisfério o continente europeu.
A viagem que foi promovida pelo governo para que se conhecesse a realidade de Las Vegas poderia ter uma correspondente, por exemplo, a Seul, para se ver a forma como essa presença se manifesta. Aos bares, restaurantes e clubes apenas para americanos, na zona «ianque» da cidade, contrapõem-se reacções discriminatórias de coreanos nas zonas francas, onde não é difícil ser barrada a entrada numa qualquer discoteca a um estrangeiro confundível.
Haverá ainda outro fenómeno que merecerá observação cuidada: a reacção da comunidade portuguesa em Macau a essa presença, sempre um abraço de urso.
Cingindo agora a perspectiva a uma parte, que claramente se diferencia da maioria mas que nem por isso deixa de ser considerável, será curioso assistir também à reacção daqueles que, ciosos de um estatuto que não têm, e que supostamente lhes advém dos anos que aqui já passaram, se põem a puxar idiotamente de galões que ninguém descortina, no que não passa de estrebucho de quem vê fantasmas a passear na sua quintinha. Desses, que mal sabem reagir à chegada de compatriotas, sempre tementes de que o parceiro do lado lhes vá ao prato, se podem esperar reacções conflituosas quando chegarem os outros, para fazerem o que tiverem que fazer. Quanto ao resto, à maioria que interessa – e que já ocupa funções fundamentais nas estruturas que se preparam para iniciar actividade em Macau – vai manter-se o papel fundamental e insubstituível de fazer a ponte entre as culturas em confronto. Sendo que a maior qualidade dos portugueses reside nas relações humanas e na capacidade passar pelo Mundo, sabendo como se encaixar na realidade em que caem (saber genético empiricamente provado), e não sendo crível que nos próximos tempos daqui desapareçam, estão reunidas as condições para que Macau tenha pela frente muitos e bons anos como caso único em todo o Oriente. Haja quem se ocupe de cuidar das coisas cultivadas do espírito, já que está garantido que o material continuará a florescer.
29.10.03
Havemos de voltar
Um episódio recente, numa cerimónia pública, em que o animador de serviço (um norte-americano) leva à letra a função que lhe foi atribuída e põe em prática o que aprendeu na terra donde vem, e a as inúmeras reflexões e informações que nos chegaram de Las Vegas, onde foi um grupo de jornalistas da terra para ver como o jogo também pode ser gerido e o turismo se explora até à medula, põem em evidência algumas questões que a entrada dos estadunidenses em Macau vai colocar.
Não é a escolha das empresas norte-americanas para explorar o jogo em Macau que está em causa – não só o assunto deve ser deixado aos especialistas, como a generalidade destes se tem pronunciado elogiosamente quanto à decisão do chefe do executivo. Aliás, nem está nada em causa – o mínimo que se pode dizer da entrada dos americanos em Macau é que também um dia os portugueses entraram, e esses não foi propriamente por concurso público. Mas as crónicas fazem-se do tempo, e este é aquele em que os episódios da forma de ser e estar dos americanos começam a marcar o dia-a-dia desta terra.
A presença norte-americana no Mundo e a presença de norte-americanos não é a mesma coisa. Uma curta permanência em Macau permite, pelo menos, perceber a grande apetência das novas gerações por todo o fast-food que caracteriza a globalização – a que não há muito tempo se chamava a presença imperialista ou sinais de colonialismo – cultural, de consumo, na moda e, tantas vezes, mesmo ideológico. A primeira é uma realidade enraízada, a que as pessoas se adaptam. Depois, consomem ou não. Têm sempre a possibilidade de deixar na borda do prato o que não quiserem comer. Com os americanos já não é bem assim.
Quando se generaliza, comete-se inevitavelmente a injustiça de englobar no todo partes que dele se destinguem. Mas não será por isso que é errado dizer que os americanos vivem em permanente espectáculo, fazem doutrina do show-off, expõem-se constantemente de forma que nos surge ridícula, por vezes. Isso decorre de uma característica que o bom representante do Tio Sam tem: não faz da cultura um bem a desenvolver, o conhecimento não é o seu forte, a não ser que venha embrulhado numa excelente embalagem comercial. É assim, por exemplo, com o cinema de Hollywood, onde poucos conseguem dizer algo interessante obedecendo às regras que a indústria dita. Depois chamam-lhes «independentes».
No caso do animador que se refere, o homem entendeu que se os presentes não estavam reunidos para velar um defunto, então, necessariamente, teriam que se manifestar com gritos e aplausos a cada boçalidade que soltasse, de preferência repetindo-as. O que revela ausência de noção de meio-termo, por um lado, mas sobretudo a ignorância relativamente ao meio em que se está – e a formalidade, na cultura local, tem um peso proverbial.
Será interessante verificar como é que esse estilo espalhafatoso se vai desenvolver em Macau e, sobretudo, como irá a sociedade reagir a ele. Os cronistas desse tempo certamente se encarregarão de o fazer.
Atenção dos sociólogos deverá merecer também a forma como os norte-americanos se vão organizar socialmente por cá (a propósito, não estará a sociologia demasiado esquecida em Macau?). Infelizmente, não será certamente de nova-iorquinos cosmopolitas ou de cultos quadros que se comporá essa comunidade. Ainda que de quadros se trate, é consabida a característica etnocêntrica da educação norte-americana, que resulta nesse espantoso resultado de muito mais de metade dos mais de 290 milhões de norte-americanos não conseguir apontar à primeira no planisfério o continente europeu.
A viagem que foi promovida pelo governo para que se conhecesse a realidade de Las Vegas poderia ter uma correspondente, por exemplo, a Seul, para se ver a forma como essa presença se manifesta. Aos bares, restaurantes e clubes apenas para americanos, na zona «ianque» da cidade, contrapõem-se reacções discriminatórias de coreanos nas zonas francas, onde não é difícil ser barrada a entrada numa qualquer discoteca a um estrangeiro confundível.
Haverá ainda outro fenómeno que merecerá observação cuidada: a reacção da comunidade portuguesa em Macau a essa presença, sempre um abraço de urso.
Cingindo agora a perspectiva a uma parte, que claramente se diferencia da maioria mas que nem por isso deixa de ser considerável, será curioso assistir também à reacção daqueles que, ciosos de um estatuto que não têm, e que supostamente lhes advém dos anos que aqui já passaram, se põem a puxar idiotamente de galões que ninguém descortina, no que não passa de estrebucho de quem vê fantasmas a passear na sua quintinha. Desses, que mal sabem reagir à chegada de compatriotas, sempre tementes de que o parceiro do lado lhes vá ao prato, se podem esperar reacções conflituosas quando chegarem os outros, para fazerem o que tiverem que fazer. Quanto ao resto, à maioria que interessa – e que já ocupa funções fundamentais nas estruturas que se preparam para iniciar actividade em Macau – vai manter-se o papel fundamental e insubstituível de fazer a ponte entre as culturas em confronto. Sendo que a maior qualidade dos portugueses reside nas relações humanas e na capacidade passar pelo Mundo, sabendo como se encaixar na realidade em que caem (saber genético empiricamente provado), e não sendo crível que nos próximos tempos daqui desapareçam, estão reunidas as condições para que Macau tenha pela frente muitos e bons anos como caso único em todo o Oriente. Haja quem se ocupe de cuidar das coisas cultivadas do espírito, já que está garantido que o material continuará a florescer.
29.10.03
Havemos de voltar
Deselegantes e anacrónicos
Além de apostar numa estratégia de desvalorização do Fórum China/Países Lusófonos, com que não poderia obter nenhuns resultados vantajosos, o comportamento de Portugal nesse encontro ainda foi de desconsideração relativamente aos países africanos. O discurso adoptado revelou-se anacrónico.
Ao enviar um ministro de funções políticas à mais importante reunião dos últimos tempos que congregou todas as Nações onde se fala português, em vez do desejado e aconselhado ministro com capacidade e conhecimentos técnicos para negociar um acordo económico, o governo de Lisboa pretendeu retirar importância à iniciativa. A presença do secretário de Estado adjunto do ministro da Economia português disfarçou mal o défice de capacidade negocial e, como o ‘Ponto Final’ noticiou já esta semana, provocou sério mal estar no seio das restantes delegações (por maioria de razão, em primeiro lugar na chinesa), além de uma péssima imagem durante as negociações.
Portugal cedo percebeu que esta iniciativa chinesa não seria muito benéfica para as suas pretensões de parceiro privilegiado no relacionamento com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). No processo que antecedeu o Fórum, foi dando mostras desse desconforto, visíveis nomeadamente nas alterações que forçou à designação do evento. A questão é que a China e os PALOP se assumem como países em desenvolvimento que têm tudo a ganhar cooperando à margem e defendendo-se dos grandes mecanismos internacionais de comércio, dominados por políticas que, na prática, sufocam quem mais necessita de apoio. Portugal acha que está suficientemente desenvolvido e que o seu lugar é sempre no concerto dos poderosos – não só na economia, mas também na política externa. Partindo desse princípio não poderia alinhar com políticas alternativas às liberais que a China e o Brasil, neste momento, concertam. Lá saberá o governo português o que é mais benéfico para o país, os resultados atestam e hão-de continuar a atestar a correcção das opções.
O discurso dos governantes portugueses presentes foi de aposta no bilateralismo das relações económicas. Percebe-se: de uma assentada põe-se em pé de igualdade com a China e reserva-se o direito de, ainda à margem do grupo agora criado, manter um relacionamento caso-a-caso com os PALOP. Ou seja, Portugal quis afastar-se daquilo que o ministro guineense dos Negócios Estrangeiros caracterizou como o lançamento das «bases para o nascimento de uma promissora e abrangente comunidade económica do Mundo» - a ideia dominante no Fórum.
Ao adoptar a valorização da «bilateralidade» do relacionamento económico, iniciada logo com o deselegante anúncio de uma cimeira, no próximo ano, com a China, visando os mesmo fins que os negociados em Macau, Portugal provocou críticas e mau estar, também junto dos PALOP. O secretário de Estado português, que sobrou para a sessão de encerramento onde pontificou o vice-ministro do Comércio chinês, seria mesmo confrontado com o facto pela jornalista angolana que acompanhou os trabalhos. Refugiou-se no tradicional «ainda bem que me faz a pergunta» para deixar transparecer que é mesmo no encontro particular Portugal/China que o seu governo está interessado. Foi a cereja da desconsideração no bolo da desvalorização cozinhado no decorrer dos trabalhos.
Os políticos portugueses vieram com um discurso preparado que passava por valorizar o relacionamento histórico com os PALOP, ainda na senda da demonstração da pouca utilidade para os lusitanos deste Fórum. Desde o início ouvimos as histórias dos cinco séculos de encontros entre ventos e marés e como isso é um elemento importante para o relacionamento presente e futuro. Dando a imagem de um país em andropausa mal resolvida, em que ridículas maquilhagens dão um ar de modernidade a quem se vai limitando a ver nas estátuas o valor da sua própria vida, Portugal, autista, não ouviu, por exemplo, os moçambicanos a tratar por «camarada» a vice-primeira ministra Wu Yi, os angolanos chamarem «povo amigo» aos chineses ou os guineenses a lembrarem os tempos em que a China apoiou o movimento de libertação, como razão lógica para que apoie agora a manutenção do Estado que conquistaram com a luta armada. Acresce que muitos dos homens que, das mais variadas formas, combateram com o apoio chinês o colonialismo são agora governantes nos seus países. A China, no entanto, não sentiu necessidade de chamar a atenção para o já longo relacionamento histórico que também tem com estes países para justificar as suas pretensões actuais. E evitou o incómodo e deselegância que seria lembrar o apoio que deu numa luta armada contra, precisamente, um dos seus convidados. Infelizmente os políticos portugueses não perceberam em que águas se moviam e retomaram o assunto mesmo na sessão de encerramento, dando de si uma imagem de desfasamento em relação aos tempos em que vivemos. Portugal não precisava de ter dito naquele palco que vive «no âmbito específico da política de apoio ao desenvolvimento da União Europeia, seja ao nível da cooperação seja ao nível do quadro da política comercial».
Portugal apostou, pois, se não no insucesso, pelo menos na irrelevância do Fórum China/Países Lusófonos. Desconhecem-se, por enquanto, as reacções portuguesas ao inegável sucesso em que resultou o encontro, para efeitos de cooperação futura. A China chegou sabendo bem o que queria e, laboriosamente, construiu o acordo que vai beneficiar, seguramente, sete dos oito signatários do Acordo final.
Como se disse numa das intervenções finais, o Fórum produziu mais do que se esperava. Infelizmente, por inépcia do secretariado em Macau, os trabalhos e os resultados obtidos não tiveram o impacto desejado na comunicação social dos países envolvidos, muito menos na imprensa mundial. Assim se perdeu mais uma oportunidade de elevar o estatuto internacional da RAEM e dar do território uma imagem que vá além do jogo e do prazer. Obviamente, não bastava fazer publicar notas dizendo que os «Media adere (sic) em força ao Fórum», para que as atenções dos jornalistas se focassem no evento. É provável que essa forma de funcionar não se repita.
22.10.03
Havemos de voltar
Além de apostar numa estratégia de desvalorização do Fórum China/Países Lusófonos, com que não poderia obter nenhuns resultados vantajosos, o comportamento de Portugal nesse encontro ainda foi de desconsideração relativamente aos países africanos. O discurso adoptado revelou-se anacrónico.
Ao enviar um ministro de funções políticas à mais importante reunião dos últimos tempos que congregou todas as Nações onde se fala português, em vez do desejado e aconselhado ministro com capacidade e conhecimentos técnicos para negociar um acordo económico, o governo de Lisboa pretendeu retirar importância à iniciativa. A presença do secretário de Estado adjunto do ministro da Economia português disfarçou mal o défice de capacidade negocial e, como o ‘Ponto Final’ noticiou já esta semana, provocou sério mal estar no seio das restantes delegações (por maioria de razão, em primeiro lugar na chinesa), além de uma péssima imagem durante as negociações.
Portugal cedo percebeu que esta iniciativa chinesa não seria muito benéfica para as suas pretensões de parceiro privilegiado no relacionamento com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). No processo que antecedeu o Fórum, foi dando mostras desse desconforto, visíveis nomeadamente nas alterações que forçou à designação do evento. A questão é que a China e os PALOP se assumem como países em desenvolvimento que têm tudo a ganhar cooperando à margem e defendendo-se dos grandes mecanismos internacionais de comércio, dominados por políticas que, na prática, sufocam quem mais necessita de apoio. Portugal acha que está suficientemente desenvolvido e que o seu lugar é sempre no concerto dos poderosos – não só na economia, mas também na política externa. Partindo desse princípio não poderia alinhar com políticas alternativas às liberais que a China e o Brasil, neste momento, concertam. Lá saberá o governo português o que é mais benéfico para o país, os resultados atestam e hão-de continuar a atestar a correcção das opções.
O discurso dos governantes portugueses presentes foi de aposta no bilateralismo das relações económicas. Percebe-se: de uma assentada põe-se em pé de igualdade com a China e reserva-se o direito de, ainda à margem do grupo agora criado, manter um relacionamento caso-a-caso com os PALOP. Ou seja, Portugal quis afastar-se daquilo que o ministro guineense dos Negócios Estrangeiros caracterizou como o lançamento das «bases para o nascimento de uma promissora e abrangente comunidade económica do Mundo» - a ideia dominante no Fórum.
Ao adoptar a valorização da «bilateralidade» do relacionamento económico, iniciada logo com o deselegante anúncio de uma cimeira, no próximo ano, com a China, visando os mesmo fins que os negociados em Macau, Portugal provocou críticas e mau estar, também junto dos PALOP. O secretário de Estado português, que sobrou para a sessão de encerramento onde pontificou o vice-ministro do Comércio chinês, seria mesmo confrontado com o facto pela jornalista angolana que acompanhou os trabalhos. Refugiou-se no tradicional «ainda bem que me faz a pergunta» para deixar transparecer que é mesmo no encontro particular Portugal/China que o seu governo está interessado. Foi a cereja da desconsideração no bolo da desvalorização cozinhado no decorrer dos trabalhos.
Os políticos portugueses vieram com um discurso preparado que passava por valorizar o relacionamento histórico com os PALOP, ainda na senda da demonstração da pouca utilidade para os lusitanos deste Fórum. Desde o início ouvimos as histórias dos cinco séculos de encontros entre ventos e marés e como isso é um elemento importante para o relacionamento presente e futuro. Dando a imagem de um país em andropausa mal resolvida, em que ridículas maquilhagens dão um ar de modernidade a quem se vai limitando a ver nas estátuas o valor da sua própria vida, Portugal, autista, não ouviu, por exemplo, os moçambicanos a tratar por «camarada» a vice-primeira ministra Wu Yi, os angolanos chamarem «povo amigo» aos chineses ou os guineenses a lembrarem os tempos em que a China apoiou o movimento de libertação, como razão lógica para que apoie agora a manutenção do Estado que conquistaram com a luta armada. Acresce que muitos dos homens que, das mais variadas formas, combateram com o apoio chinês o colonialismo são agora governantes nos seus países. A China, no entanto, não sentiu necessidade de chamar a atenção para o já longo relacionamento histórico que também tem com estes países para justificar as suas pretensões actuais. E evitou o incómodo e deselegância que seria lembrar o apoio que deu numa luta armada contra, precisamente, um dos seus convidados. Infelizmente os políticos portugueses não perceberam em que águas se moviam e retomaram o assunto mesmo na sessão de encerramento, dando de si uma imagem de desfasamento em relação aos tempos em que vivemos. Portugal não precisava de ter dito naquele palco que vive «no âmbito específico da política de apoio ao desenvolvimento da União Europeia, seja ao nível da cooperação seja ao nível do quadro da política comercial».
Portugal apostou, pois, se não no insucesso, pelo menos na irrelevância do Fórum China/Países Lusófonos. Desconhecem-se, por enquanto, as reacções portuguesas ao inegável sucesso em que resultou o encontro, para efeitos de cooperação futura. A China chegou sabendo bem o que queria e, laboriosamente, construiu o acordo que vai beneficiar, seguramente, sete dos oito signatários do Acordo final.
Como se disse numa das intervenções finais, o Fórum produziu mais do que se esperava. Infelizmente, por inépcia do secretariado em Macau, os trabalhos e os resultados obtidos não tiveram o impacto desejado na comunicação social dos países envolvidos, muito menos na imprensa mundial. Assim se perdeu mais uma oportunidade de elevar o estatuto internacional da RAEM e dar do território uma imagem que vá além do jogo e do prazer. Obviamente, não bastava fazer publicar notas dizendo que os «Media adere (sic) em força ao Fórum», para que as atenções dos jornalistas se focassem no evento. É provável que essa forma de funcionar não se repita.
22.10.03
Havemos de voltar
Há golpes e golpes
O golpe de Estado na Guiné-Bissau serve às mil maravilhas a quem pretender demonstrar o que é a real politic. A reacção da comunidade internacional ao golpe militar que depôs o inqualificável Kumba Ialá foi de condenação – e nem podia deixar de ser. Mandam as regras que assim se faça, e não passaria pela cabeça de ninguém ver os países desenvolvidos, os que têm que tomar posição sobre tudo, (nem os outros), dizer «Sim senhor, muito bem, apoiado». Portanto, foi com naturalidade que se viu a generalidade dos governos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa condenar o golpe comandado pelo general Correia Seabra, mas sempre contextualizando com um «não é de admirar». Por isso, não foi de espantar também que os Estados Unidos (cuja administração curiosamente voltou a atrasar-se na reacção), mais pragmáticos – e especialistas – nestas coisas de golpes, nem sequer se tenham dado ao trabalho de condenar: apenas apelaram aos militares para que devolvam o mais rapidamente possível o poder à sociedade civil, coisa que, de resto, o próprio general prometeu fazer antes mesmo que alguém o questionasse sobre a matéria. Ou seja: quem pode, dá a entender que este foi um golpe bom.
A maior diferença entre o golpe de Estado na Guiné-Bissau e o que de S. Tomé e Príncipe, ainda fresco na memória, é o lado em que estão os «bons». Claramente, a comunidade internacional deixou o sinal que golpes de Estado não são coisas que se façam, mas este, que já está feito, é melhor deixá-lo seguir caminho. De facto não se ouviu uma voz levantar-se para reclamar o regresso de Kumba Ialá ao poder. Pediu-se a reposição da legalidade constitucional, a manutenção (impossível) da data de 12 de outubro para a realização de eleições, a já citada devolução do poder aos civis – mas sobre Ialá, nada. E ainda bem.
De facto, se a política não fosse hipócrita, levaria a que se disse claramente que o golpe não só tinha toda a razão de ser como ainda bem que teve lugar. Ialá e os seus apaniguados preparavam-se para outro golpe de dimensões bem piores – a fraude eleitoral que os havia de manter no poder. Mas como nem assim a coisa estaria garantida, e já era de fartar vilanagem, houve quem pusesse cobro ao descalabro – por interesse próprio e da Nação.
O problema que aqui se levanta é o da qualidade das democracias. Não é original dizer-se que a democracia não é para ser exportada à moda ocidental para todos os países do Mundo. Não discutindo a superioridade da democracia, contesto a inevitabilidade do modelo ocidental – o que permitiu a Ialá chegar ao poder numa sociedade ainda mal refeita do consulado de Nino Vieira. E veio-me à memória o complexo problema argelino, onde os resultados eleitorais que guindaram ao poder os islamitas não foram aceites pelos derrotados, a começar pela ex-potência colonial.
Só por se pretender que tanto o princípio como o sistema que lhe vem colado deve ser aplicado em todo o Mundo onde os governos não sejam capitalistas é que se chega a situações como esta.
Esperança
O Brasil e a China, para falar apenas nos países que aqui nos são afins, celebraram vitória na cimeira de Cancun, onde a hipocrisia das nações desenvolvidas queria impor um acordo leonino aos países que lutam por se desenvolver.
No meio do muito ruído que a linguagem económica provoca percebeu-se que os poderosos queriam impor a abertura de mercados em todo o Mundo aos produtos agrícolas que produzem subsidiados, limitando ao mesmo tempo a possibilidade de esses países subsidiarem os produtos que têm necessidade de vender. Pior é saber que a abertura dos mercados, quando não convém, é letra morta – como se confere com o problema do aço para os Estados Unidos.
Lula da Silva falou alto e congratulou-se com a vitória que o G-21, dos mais pobres, teve sobre o G-8 mais uns. Deve ter-se atenção a este movimento e ao desempenho de Lula da Silva, que conseguiu congregar em torno de interesses comuns os países africanos e fazer abortar os objectivos que os ricos tinham apontado para a cimeira mexicana da OMC.
O presidente brasileiro ainda não foi a África para os contactos a que atribui importância fundamental – dificuldade políticas internas fizeram-no adiar para o próximo mês essa viajem. Mas começa a ver-se crescer um bloco alternativo neste mundo unipolar. Há sempre razões para acreditar.
18.09.03
Havemos de voltar
O golpe de Estado na Guiné-Bissau serve às mil maravilhas a quem pretender demonstrar o que é a real politic. A reacção da comunidade internacional ao golpe militar que depôs o inqualificável Kumba Ialá foi de condenação – e nem podia deixar de ser. Mandam as regras que assim se faça, e não passaria pela cabeça de ninguém ver os países desenvolvidos, os que têm que tomar posição sobre tudo, (nem os outros), dizer «Sim senhor, muito bem, apoiado». Portanto, foi com naturalidade que se viu a generalidade dos governos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa condenar o golpe comandado pelo general Correia Seabra, mas sempre contextualizando com um «não é de admirar». Por isso, não foi de espantar também que os Estados Unidos (cuja administração curiosamente voltou a atrasar-se na reacção), mais pragmáticos – e especialistas – nestas coisas de golpes, nem sequer se tenham dado ao trabalho de condenar: apenas apelaram aos militares para que devolvam o mais rapidamente possível o poder à sociedade civil, coisa que, de resto, o próprio general prometeu fazer antes mesmo que alguém o questionasse sobre a matéria. Ou seja: quem pode, dá a entender que este foi um golpe bom.
A maior diferença entre o golpe de Estado na Guiné-Bissau e o que de S. Tomé e Príncipe, ainda fresco na memória, é o lado em que estão os «bons». Claramente, a comunidade internacional deixou o sinal que golpes de Estado não são coisas que se façam, mas este, que já está feito, é melhor deixá-lo seguir caminho. De facto não se ouviu uma voz levantar-se para reclamar o regresso de Kumba Ialá ao poder. Pediu-se a reposição da legalidade constitucional, a manutenção (impossível) da data de 12 de outubro para a realização de eleições, a já citada devolução do poder aos civis – mas sobre Ialá, nada. E ainda bem.
De facto, se a política não fosse hipócrita, levaria a que se disse claramente que o golpe não só tinha toda a razão de ser como ainda bem que teve lugar. Ialá e os seus apaniguados preparavam-se para outro golpe de dimensões bem piores – a fraude eleitoral que os havia de manter no poder. Mas como nem assim a coisa estaria garantida, e já era de fartar vilanagem, houve quem pusesse cobro ao descalabro – por interesse próprio e da Nação.
O problema que aqui se levanta é o da qualidade das democracias. Não é original dizer-se que a democracia não é para ser exportada à moda ocidental para todos os países do Mundo. Não discutindo a superioridade da democracia, contesto a inevitabilidade do modelo ocidental – o que permitiu a Ialá chegar ao poder numa sociedade ainda mal refeita do consulado de Nino Vieira. E veio-me à memória o complexo problema argelino, onde os resultados eleitorais que guindaram ao poder os islamitas não foram aceites pelos derrotados, a começar pela ex-potência colonial.
Só por se pretender que tanto o princípio como o sistema que lhe vem colado deve ser aplicado em todo o Mundo onde os governos não sejam capitalistas é que se chega a situações como esta.
Esperança
O Brasil e a China, para falar apenas nos países que aqui nos são afins, celebraram vitória na cimeira de Cancun, onde a hipocrisia das nações desenvolvidas queria impor um acordo leonino aos países que lutam por se desenvolver.
No meio do muito ruído que a linguagem económica provoca percebeu-se que os poderosos queriam impor a abertura de mercados em todo o Mundo aos produtos agrícolas que produzem subsidiados, limitando ao mesmo tempo a possibilidade de esses países subsidiarem os produtos que têm necessidade de vender. Pior é saber que a abertura dos mercados, quando não convém, é letra morta – como se confere com o problema do aço para os Estados Unidos.
Lula da Silva falou alto e congratulou-se com a vitória que o G-21, dos mais pobres, teve sobre o G-8 mais uns. Deve ter-se atenção a este movimento e ao desempenho de Lula da Silva, que conseguiu congregar em torno de interesses comuns os países africanos e fazer abortar os objectivos que os ricos tinham apontado para a cimeira mexicana da OMC.
O presidente brasileiro ainda não foi a África para os contactos a que atribui importância fundamental – dificuldade políticas internas fizeram-no adiar para o próximo mês essa viajem. Mas começa a ver-se crescer um bloco alternativo neste mundo unipolar. Há sempre razões para acreditar.
18.09.03
Havemos de voltar
Respirar
O mais provável é que ao reaparecer agora, este espaço assinado, versasse a Guiné – afinal há mais que razões: um golpe de Estado que apeia o passado Ialá permitiria discorrer bem sobre as diferenças de grau de indignação revelada pelas potências ocidentais conforme se trate de um democrático democrata ou de um democrata «democrático», esquecidos que estão, por exemplo, os «democráticos» democraticamente eleitos na Argélia, apeados esses pelos verdadeiros guardiões da democracia, e do poder.
Ou versasse o Forum com os países lusófonos – há também boas e bastantes razões: desde logo as vicissitudes do nome, que indo já em terceira e atrapalhada versão, retrata bem o cuidado que nele está a ser posto pelos que supostamente seriam os elos à lusofonia, já ultrapassados por quem, ao aprender a língua em Pequim, aprendeu também a competência política.
Poderia ainda, limitado ao eixo dos terrenos aterrados, perder tempo com sofredores que atacados por andropausa fulminante se entretêm em descobrir na luz os fantasmas, na infância a redenção, ou nas sombras o terreno para evoluir (rebuscando Camilo, que nem malandrins, de estrumeira para jornalismo) – mas para isso teria que desenvolver essa capacidade que não tenho: a de discorrer mais que trezentos caracteres destilando frustrações sem nunca nomear o alvo.
Mas não, leitores, caros e caras, prezados e nem por isso – que o ofício de escriba a isso obriga: tanto se escreve para este que aprecia como se é lido por aquele que apenas está à coca, e não raro, quando a epístola sai acertada porque nela investimos algum fel reservoso, é vê-los reagir ruborosos e espumantes.
Não, que a matéria é amativa – só os que apenas descobrem este assunto na algibeira, sem cuidar de ir ao dicionário, ou à alma, ou atentar ao prazer físico que se pode ter (e tem) não entendem: porque se confunde por vezes com sofrimento, mas é a profissão, a língua que se pratica, a vida que se escolheu.
Fica então dito, pela afirmativa, que me permito agora falar disto, também do que me apetece, de que me sinto assim, hoje apaixonado e rancoroso, amanhã enérgico e cansado, ora atento e concentrado, já abrangente e esforçado – assim, como um peixe com a cabeça fora de água.
17.09.03
Havemos de voltar
O mais provável é que ao reaparecer agora, este espaço assinado, versasse a Guiné – afinal há mais que razões: um golpe de Estado que apeia o passado Ialá permitiria discorrer bem sobre as diferenças de grau de indignação revelada pelas potências ocidentais conforme se trate de um democrático democrata ou de um democrata «democrático», esquecidos que estão, por exemplo, os «democráticos» democraticamente eleitos na Argélia, apeados esses pelos verdadeiros guardiões da democracia, e do poder.
Ou versasse o Forum com os países lusófonos – há também boas e bastantes razões: desde logo as vicissitudes do nome, que indo já em terceira e atrapalhada versão, retrata bem o cuidado que nele está a ser posto pelos que supostamente seriam os elos à lusofonia, já ultrapassados por quem, ao aprender a língua em Pequim, aprendeu também a competência política.
Poderia ainda, limitado ao eixo dos terrenos aterrados, perder tempo com sofredores que atacados por andropausa fulminante se entretêm em descobrir na luz os fantasmas, na infância a redenção, ou nas sombras o terreno para evoluir (rebuscando Camilo, que nem malandrins, de estrumeira para jornalismo) – mas para isso teria que desenvolver essa capacidade que não tenho: a de discorrer mais que trezentos caracteres destilando frustrações sem nunca nomear o alvo.
Mas não, leitores, caros e caras, prezados e nem por isso – que o ofício de escriba a isso obriga: tanto se escreve para este que aprecia como se é lido por aquele que apenas está à coca, e não raro, quando a epístola sai acertada porque nela investimos algum fel reservoso, é vê-los reagir ruborosos e espumantes.
Não, que a matéria é amativa – só os que apenas descobrem este assunto na algibeira, sem cuidar de ir ao dicionário, ou à alma, ou atentar ao prazer físico que se pode ter (e tem) não entendem: porque se confunde por vezes com sofrimento, mas é a profissão, a língua que se pratica, a vida que se escolheu.
Fica então dito, pela afirmativa, que me permito agora falar disto, também do que me apetece, de que me sinto assim, hoje apaixonado e rancoroso, amanhã enérgico e cansado, ora atento e concentrado, já abrangente e esforçado – assim, como um peixe com a cabeça fora de água.
17.09.03
Havemos de voltar
Diálogo
O primeiro-ministro moçambicano, Pascoal Mocumbi, dizia em Maputo que a solução diplomática da crise política em São Tomé e Príncipe reforça o entendimento de que «o diálogo deve ser uma constante na solução dos problemas africanos». Pascoal Mocumbi não fazia mais que afinar o discurso político pelas decisões da cimeira da União Africana que pouco antes terminara, precisamente, em Moçambique. E tem toda a razão – é tempo para os problemas de ordem política serem resolvidos por via política e não, como acontece, pelo recurso a meios militares.
A resolução da crise em São Tomé e Príncipe, percebeu-se desde o primeiro instante, estava condenada pela fraca capacidade militar dos golpistas – não daquele conjunto, em particular, mas do país. Nem que o exército são-tomense, em peso, tivesse aderido ao golpe (e não foi o caso, já que, veio a verificar-se, pelo menos a guarda presidencial manteve-se fiel a Fradique de Menezes) não tinham capacidade de resistir mais que umas horas a qualquer força internacional, proviesse ela da Nigéria, como tudo indica que estava preparada para avançar, ou de Angola, com evidentes vantagens político-diplomáticas.
Sabendo que a a Espada da Damocles pendia sobre as suas cabeças, e sem qualquer apoio internacional, os golpitsas São tomenses tomaram o único caminho que se lhes deparava: negociar uma saída que lhes garantisse imunidade. Foi isso que aconteceu, mais por vontade dos negociadores do que para evitar outros riscos.
Aí reside o problema que, embora não contrarie as palavras do primeiro ministro moçambicano, revela nitidamente a fraqueza da grande maioria dos regimes africanos: a falta de sustentação do Estado no Direito. Obviamente, os golpistas são-tomenses deveriam ser julgados, por um tribunal militar os efectivos, por tribunais civis os que se fardaram e pegaram em armas. A amnistia em nada fortalece um regime que, até ao momento, até tem dado mostras de respeito pelas regras da democracia. Isto é: se o diálogo deve «ser uma constante na solução dos problemas africanos», ou seja, um princípio, ele não pode ser o fim a atingir, no caso o objectivo das sociedades africanas. Esse terá que ser o Estado de Direito.
P.S. – Como acontece com muito do nosso quotidiano, também este espaço se eclipsa com Agosto.
29.07.03
Havemos de voltar
O primeiro-ministro moçambicano, Pascoal Mocumbi, dizia em Maputo que a solução diplomática da crise política em São Tomé e Príncipe reforça o entendimento de que «o diálogo deve ser uma constante na solução dos problemas africanos». Pascoal Mocumbi não fazia mais que afinar o discurso político pelas decisões da cimeira da União Africana que pouco antes terminara, precisamente, em Moçambique. E tem toda a razão – é tempo para os problemas de ordem política serem resolvidos por via política e não, como acontece, pelo recurso a meios militares.
A resolução da crise em São Tomé e Príncipe, percebeu-se desde o primeiro instante, estava condenada pela fraca capacidade militar dos golpistas – não daquele conjunto, em particular, mas do país. Nem que o exército são-tomense, em peso, tivesse aderido ao golpe (e não foi o caso, já que, veio a verificar-se, pelo menos a guarda presidencial manteve-se fiel a Fradique de Menezes) não tinham capacidade de resistir mais que umas horas a qualquer força internacional, proviesse ela da Nigéria, como tudo indica que estava preparada para avançar, ou de Angola, com evidentes vantagens político-diplomáticas.
Sabendo que a a Espada da Damocles pendia sobre as suas cabeças, e sem qualquer apoio internacional, os golpitsas São tomenses tomaram o único caminho que se lhes deparava: negociar uma saída que lhes garantisse imunidade. Foi isso que aconteceu, mais por vontade dos negociadores do que para evitar outros riscos.
Aí reside o problema que, embora não contrarie as palavras do primeiro ministro moçambicano, revela nitidamente a fraqueza da grande maioria dos regimes africanos: a falta de sustentação do Estado no Direito. Obviamente, os golpistas são-tomenses deveriam ser julgados, por um tribunal militar os efectivos, por tribunais civis os que se fardaram e pegaram em armas. A amnistia em nada fortalece um regime que, até ao momento, até tem dado mostras de respeito pelas regras da democracia. Isto é: se o diálogo deve «ser uma constante na solução dos problemas africanos», ou seja, um princípio, ele não pode ser o fim a atingir, no caso o objectivo das sociedades africanas. Esse terá que ser o Estado de Direito.
P.S. – Como acontece com muito do nosso quotidiano, também este espaço se eclipsa com Agosto.
29.07.03
Havemos de voltar
O bom caminho
Passo a passo faz-se o caminho de regresso de São Tomé e Príncipe à normalidade, após o golpe de Estado de quarta-feira passada. Só mais tarde se saberá em que medida a ausência de boa parte dos mais altos responsáveis do governo são-tomense do país, na altura do golpe, contribuiu para um desfecho calmo e rápido da crise. Não é difícil admitir que o facto de o presidente Fradique de Menezes estar na Nigéria, onde, por foça de uma cimeira aprazada para aqueles dias, se encontrava boa parte da diplomacia africana, e de o ministro dos Negócios Estrangeiros são-tomense, Meira Rita, se encontrar em Portugal com os homólogos da CPLP em peso, permitiu uma gestão sem dificuldades da situação.
Mais tarde, também, se perceberá o que querem os golpistas. Prestes a completar-se uma semana sobre o golpe que às primeiras horas da madrugada de quarta-feira, pretendeu derrubar o governo democraticamente eleito, ainda nem sequer os negociadores presentes na capital e que têm estado em contacto directo com os golpistas conseguem dizer o que pretendiam eles. Obviamente, resta a primeira impressão – de que aqui demos conta imediatamente: o petróleo que vai começar a dar receitas nunca tidas pelo governo de São Tomé é um móbil mais que plausível. Ou seja: tudo se poderá resumir numa aventura mal calculada de radicais que nas urnas não conseguiram obter, sequer, representação parlamentar. Além disso, parece não terem percebido sequer que os homens que governam a África do Sul não são os mesmos que lhes pagavam para fazer uma guerra que não era deles.
A resposta da África do Sul ao pedido de participação nas negociações, foi esclarecedora. O representante do Gabão, já presente, encarregou-se de transmitir a posição do governo sul-africano. Esclarecedora foi também a posição da CPLP quando se pôs a hipótese de uma intervenção militar para resolver a situação: nem legitimada pela solicitação de São Tomé esse devia ser o recurso, dias após a cimeira da União Africana ter declarado o recurso sistemático às armas como um dos maiores problemas do Continente.
Se aqui foi dito que a golpe não tinha pernas para andar, deve agora sublinhar-se que os passos dados o foram pelo bom caminho.
22.07.03
Havemos de voltar
Passo a passo faz-se o caminho de regresso de São Tomé e Príncipe à normalidade, após o golpe de Estado de quarta-feira passada. Só mais tarde se saberá em que medida a ausência de boa parte dos mais altos responsáveis do governo são-tomense do país, na altura do golpe, contribuiu para um desfecho calmo e rápido da crise. Não é difícil admitir que o facto de o presidente Fradique de Menezes estar na Nigéria, onde, por foça de uma cimeira aprazada para aqueles dias, se encontrava boa parte da diplomacia africana, e de o ministro dos Negócios Estrangeiros são-tomense, Meira Rita, se encontrar em Portugal com os homólogos da CPLP em peso, permitiu uma gestão sem dificuldades da situação.
Mais tarde, também, se perceberá o que querem os golpistas. Prestes a completar-se uma semana sobre o golpe que às primeiras horas da madrugada de quarta-feira, pretendeu derrubar o governo democraticamente eleito, ainda nem sequer os negociadores presentes na capital e que têm estado em contacto directo com os golpistas conseguem dizer o que pretendiam eles. Obviamente, resta a primeira impressão – de que aqui demos conta imediatamente: o petróleo que vai começar a dar receitas nunca tidas pelo governo de São Tomé é um móbil mais que plausível. Ou seja: tudo se poderá resumir numa aventura mal calculada de radicais que nas urnas não conseguiram obter, sequer, representação parlamentar. Além disso, parece não terem percebido sequer que os homens que governam a África do Sul não são os mesmos que lhes pagavam para fazer uma guerra que não era deles.
A resposta da África do Sul ao pedido de participação nas negociações, foi esclarecedora. O representante do Gabão, já presente, encarregou-se de transmitir a posição do governo sul-africano. Esclarecedora foi também a posição da CPLP quando se pôs a hipótese de uma intervenção militar para resolver a situação: nem legitimada pela solicitação de São Tomé esse devia ser o recurso, dias após a cimeira da União Africana ter declarado o recurso sistemático às armas como um dos maiores problemas do Continente.
Se aqui foi dito que a golpe não tinha pernas para andar, deve agora sublinhar-se que os passos dados o foram pelo bom caminho.
22.07.03
Havemos de voltar
A famigerada internacional
A questão da difusão da língua é de extrema importância quando se trata de preservar a presença duma cultura em territórios onde o idioma não é maternal. Vêem-se as preocupações e a ofensiva que todas as «mátrias» linguísticas põem no assunto.
Tome-se como exemplo o que a francofonia faz no mundo africano, onde chega ao ponto de transmitir por rádio para o lusófono e integrante da «Commonwealth» território de Moçambique durante as 24 horas do dia. Face a isto, muito bem, em tempo útil, Portugal decidiu avançar com os projectos da RDP África e RTP África. Esses são espaços que penetram nos países onde são recebidos, marcam a presença da lusofonia com critérios objectivos de divulgação da cultura portuguesa mas sempre com ligação e atenção às realidades locais.
Um dos produtos que bem retrata essa realidade é o «Músicas de África», bem produzido em Moçambique, que acaba por ter lugar na Grelha da RTP Internacional. A RDP África é um produto excelente, tendo em conta os meios que estamos habituados a ver disponibilizados por Portugal. Em ambos os projectos há uma ideia que se afirma (estejamos ou não de acordo com ela), e o facto de os mais avessos à liberdade de opinião vociferarem contra ela só atesta a sua utilidade – e recordo-me do episódio mais recente, quando as emissões da RDP África foram silenciadas na Guiné-Bissau. Mais remotamente, a saída apressada do delegado da RTP África de Maputo, após denunciar uma generalizada fraude no último acto eleitoral, em notícias que estavam a entrar em casa de todos os moçambicanos, é outro caso extremo.
Nestas páginas falamos do sucesso que os jovens estudantes que cantam no folhetim «Operação Triunfo» estão a ter em Cabo Verde. Esse é outro exemplo de como se podem produzir espectáculos em televisão que, não sendo de elevada elaboração conceptual, cumprem o papel do «entretenimento» sem tomar o espectador por estulto. Assim, a operação triunfou. Mas esse era um produto para consumo interno português, que se inseria na lógica da guerra de audiências, e que foi parar às «internacionais» porque sim, apenas.
No entanto não se irá aqui abordar mais aprofundadamente a questão da RTP Internacional por duas razões: em primeiro lugar porque é um tema que amiúde ocupa tanto as conversas da comunidade como espaço publicado; em segundo, porque estamos perante um problema de muito maior gravidade, que quase faz parecer a RTP Internacional um paraíso do audiovisual.
Na senda da atenção que os portugueses de Macau merecem dos responsáveis governamentais portugueses, deixámos de captar a Antena 1 da RDP para sermos contemplados com a inqualificável RDP Internacional.
Sem dizer água-vai, os (ir)responsáveis do serviço público português de radiodifusão decidiram substituir, apenas, o sinal que enviam para o satélite que cobre esta região. Por quê? Ignora-se, que os senhores não se deram ao luxo de explicar, fosse através do Consulado Geral fosse em nota aos órgãos de comunicação social. Mas mesmo isso não é tão mau como o que tentam enfiar-nos pelos ouvidos: indescritíveis vozes que não sabem se falam de manhã ou à tarde, a dizer durante a noite barbaridades que lhes assomam tipo acne aos neurónios (o «famigerado José Afonso»? Famigerado?!? E o que será Vexa? Misérrima múmia?), para redescobrirem temas musicais que se perderam na poeira do nacional cançonetismo com o tom de quem nos faz um favor enorme! Supõe-se que ninguém em Lisboa teve coragem de ouvir aquilo antes de decidir brindar-nos com o frete. Porque, se ouviu, é castigo. Mas, por quê? Que pecados aqui se cometeram?
Ninguém em estado próximo da vigília supõe que assim se divulga o que quer que seja, muito menos a inigualável lusofonia. Se há crise financeira, encerrem a RDP Internacional que a Antena 1 presta bem melhor o serviço.
15.07.03
Havemos de voltar
A questão da difusão da língua é de extrema importância quando se trata de preservar a presença duma cultura em territórios onde o idioma não é maternal. Vêem-se as preocupações e a ofensiva que todas as «mátrias» linguísticas põem no assunto.
Tome-se como exemplo o que a francofonia faz no mundo africano, onde chega ao ponto de transmitir por rádio para o lusófono e integrante da «Commonwealth» território de Moçambique durante as 24 horas do dia. Face a isto, muito bem, em tempo útil, Portugal decidiu avançar com os projectos da RDP África e RTP África. Esses são espaços que penetram nos países onde são recebidos, marcam a presença da lusofonia com critérios objectivos de divulgação da cultura portuguesa mas sempre com ligação e atenção às realidades locais.
Um dos produtos que bem retrata essa realidade é o «Músicas de África», bem produzido em Moçambique, que acaba por ter lugar na Grelha da RTP Internacional. A RDP África é um produto excelente, tendo em conta os meios que estamos habituados a ver disponibilizados por Portugal. Em ambos os projectos há uma ideia que se afirma (estejamos ou não de acordo com ela), e o facto de os mais avessos à liberdade de opinião vociferarem contra ela só atesta a sua utilidade – e recordo-me do episódio mais recente, quando as emissões da RDP África foram silenciadas na Guiné-Bissau. Mais remotamente, a saída apressada do delegado da RTP África de Maputo, após denunciar uma generalizada fraude no último acto eleitoral, em notícias que estavam a entrar em casa de todos os moçambicanos, é outro caso extremo.
Nestas páginas falamos do sucesso que os jovens estudantes que cantam no folhetim «Operação Triunfo» estão a ter em Cabo Verde. Esse é outro exemplo de como se podem produzir espectáculos em televisão que, não sendo de elevada elaboração conceptual, cumprem o papel do «entretenimento» sem tomar o espectador por estulto. Assim, a operação triunfou. Mas esse era um produto para consumo interno português, que se inseria na lógica da guerra de audiências, e que foi parar às «internacionais» porque sim, apenas.
No entanto não se irá aqui abordar mais aprofundadamente a questão da RTP Internacional por duas razões: em primeiro lugar porque é um tema que amiúde ocupa tanto as conversas da comunidade como espaço publicado; em segundo, porque estamos perante um problema de muito maior gravidade, que quase faz parecer a RTP Internacional um paraíso do audiovisual.
Na senda da atenção que os portugueses de Macau merecem dos responsáveis governamentais portugueses, deixámos de captar a Antena 1 da RDP para sermos contemplados com a inqualificável RDP Internacional.
Sem dizer água-vai, os (ir)responsáveis do serviço público português de radiodifusão decidiram substituir, apenas, o sinal que enviam para o satélite que cobre esta região. Por quê? Ignora-se, que os senhores não se deram ao luxo de explicar, fosse através do Consulado Geral fosse em nota aos órgãos de comunicação social. Mas mesmo isso não é tão mau como o que tentam enfiar-nos pelos ouvidos: indescritíveis vozes que não sabem se falam de manhã ou à tarde, a dizer durante a noite barbaridades que lhes assomam tipo acne aos neurónios (o «famigerado José Afonso»? Famigerado?!? E o que será Vexa? Misérrima múmia?), para redescobrirem temas musicais que se perderam na poeira do nacional cançonetismo com o tom de quem nos faz um favor enorme! Supõe-se que ninguém em Lisboa teve coragem de ouvir aquilo antes de decidir brindar-nos com o frete. Porque, se ouviu, é castigo. Mas, por quê? Que pecados aqui se cometeram?
Ninguém em estado próximo da vigília supõe que assim se divulga o que quer que seja, muito menos a inigualável lusofonia. Se há crise financeira, encerrem a RDP Internacional que a Antena 1 presta bem melhor o serviço.
15.07.03
Havemos de voltar
Oportunidade
Neste momento, o continente africano está centrado em Moçambique, onde decorre a cimeira dos chefes de Estado que vão eleger os organismos da União Africana (UA) que constituem uma esperança rara para o desenvolvimento do continente.
Sabe-se que S. Tomé e Príncipe tem aspirações a ocupar a cadeira mais importante da futura estrutura da UA – nomeadamente a presidência do Conselho, o mais importante cargo, numa organização construída à imagem da congénere europeia, onde o Presidente da Comissão, embora com poderes limitados, desempenha um papel fundamental. A eleição do presidente está a relegar para segundo plano a escolha dos também importantes vice-presidente e oito comissários, dos quais, necessariamente, oito mulheres.
Ao próximo presidente da UA pedem os países membros que atenda, em primeiro lugar, aos conflitos que grassam em África. É realista: só em Paz se poderá construir um projecto político que tire o continente da pobreza endémica em que está enclausurado.
No caso concreto de S. Tomé e Príncipe, a aspiração não parece fácil de concretizar. O actual presidente, Amara Essy, da Costa do Marfim, tem a seu favor a condução, com êxito, do processo que levou à transformação da Organização dos Estados Africanos na actual UA. O ex-presidente do Mali Alpha Oumar Konare conta com o importante apoio da África do Sul para ascender ao cargo.
Apesar de não se ter lançado claramente à corrida, por algumas declarações feitas noutros países lusófonos, ficou conhecida a pretensão são-tomense. Independentemente do desfecho, a atitude de disponibilidade manifestada por responsáveis governamentais dos outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) reflecte o compromisso que a própria estrutura aconselha. O que significa que, também aqui, os PALOP reconhecem a força da união e praticam em consonância.
Sobre os desafios que a UA representa e a esperança de que este seja o momento de viragem já se escreveu nestas páginas. Apenas o fim do conclave permitirá conclusões aprofundadas.
Mais fácil será concluir do sentido de oportunidade do presidente norte-americano, que fez coincidir a sua primeira deslocação a África com a Cimeira da UA, fazendo, pelo menos, com que ela passasse ao lado da sua agenda – ou, como se interrogam alguns analistas africanos, permitindo questionar se o objectivo é ofuscar o encontro de mais de quatro dezenas de outros chefes de Estado.
08.07.03
Havemos de voltar
Neste momento, o continente africano está centrado em Moçambique, onde decorre a cimeira dos chefes de Estado que vão eleger os organismos da União Africana (UA) que constituem uma esperança rara para o desenvolvimento do continente.
Sabe-se que S. Tomé e Príncipe tem aspirações a ocupar a cadeira mais importante da futura estrutura da UA – nomeadamente a presidência do Conselho, o mais importante cargo, numa organização construída à imagem da congénere europeia, onde o Presidente da Comissão, embora com poderes limitados, desempenha um papel fundamental. A eleição do presidente está a relegar para segundo plano a escolha dos também importantes vice-presidente e oito comissários, dos quais, necessariamente, oito mulheres.
Ao próximo presidente da UA pedem os países membros que atenda, em primeiro lugar, aos conflitos que grassam em África. É realista: só em Paz se poderá construir um projecto político que tire o continente da pobreza endémica em que está enclausurado.
No caso concreto de S. Tomé e Príncipe, a aspiração não parece fácil de concretizar. O actual presidente, Amara Essy, da Costa do Marfim, tem a seu favor a condução, com êxito, do processo que levou à transformação da Organização dos Estados Africanos na actual UA. O ex-presidente do Mali Alpha Oumar Konare conta com o importante apoio da África do Sul para ascender ao cargo.
Apesar de não se ter lançado claramente à corrida, por algumas declarações feitas noutros países lusófonos, ficou conhecida a pretensão são-tomense. Independentemente do desfecho, a atitude de disponibilidade manifestada por responsáveis governamentais dos outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) reflecte o compromisso que a própria estrutura aconselha. O que significa que, também aqui, os PALOP reconhecem a força da união e praticam em consonância.
Sobre os desafios que a UA representa e a esperança de que este seja o momento de viragem já se escreveu nestas páginas. Apenas o fim do conclave permitirá conclusões aprofundadas.
Mais fácil será concluir do sentido de oportunidade do presidente norte-americano, que fez coincidir a sua primeira deslocação a África com a Cimeira da UA, fazendo, pelo menos, com que ela passasse ao lado da sua agenda – ou, como se interrogam alguns analistas africanos, permitindo questionar se o objectivo é ofuscar o encontro de mais de quatro dezenas de outros chefes de Estado.
08.07.03
Havemos de voltar
Angolê!
O Presidente de Angola convocou para hoje o Conselho da República – o órgão que o aconselha em matéria governativa. José Eduardo dos Santos não esperou um dia, sequer, para chamar os mais importantes consultores quando se trata, por exemplo, de dissolver a Assembleia Nacional, quando o maior partido da oposição se apresentou em condições de avançar para um acto eleitoral.
Apesar de defensor de um prazo mais diferido no tempo que o sustentado pela maior parte das forças na oposição, UNITA incluída, o chefe de Estado angolano fez a única coisa que dele se esperava – e que vem dando mostras de querer prosseguir: a normalização da vida política em Angola.
Agora, sentados à mesma mesa, pela primeira vez com um representante da UNITA – o recém eleito Isaías Samakuva – os «mais velhos» angolanos vão dizer o que acham sobre a altura ideal para o país ir a votos.
A convocação do Conselho da República era absolutamente necessária, neste momento. Não há consenso, por exemplo, sobre se as eleições legislativas e presidenciais devem realizar-se ao mesmo tempo. Ou se elas deverão ocorrer já em 2004, ou depois. Decisões claras sobre esses assuntos têm que sair desta reunião.
Está melhor percebido em Angola que no exterior – sobretudo em Portugal – que o processo que levará Angola à normalidade institucional não contempla ressabiamentos nem ajustes de contas com o passado. Quem não entender esse detalhe fica, agora, definitivamente fora do auspicioso futuro que Angola tem. Os detractores militantes, arautos de práticas que nem nas mais celebradas sociedades livres conseguem verificar, devem cair agora na realidade: a sociedade angolana é madura, e dispensa lições de teóricos que bebem mal o sumo das notícias.
«As instituições e dirigentes que saírem eleitos das futuras eleições terão, necessariamente, de ser respeitadas e cumprirem as suas obrigações sob penas de serem penalizadas», escrevia ontem o editorialista do Jornal de Angola, a propósito deste Conselho da República, sem referir que o mesmo já se deveria ter passado com as que resultaram das eleições de 1992. É este o retrato da sociedade angolana, hoje.
Angola é uma potência regional e pode dar muito mais à mole lusófona do que o que se espera dela. Um país calejado de 40 anos de guerra dá mostras de querer ganhar o respeito de todos, pela prática. É uma boa altura para cada um começar a cuidar do seu galinheiro.
Amanhã se saberá com que novas datas se vão escrever como marcantes no futuro reservado, enorme, de Cabinda ao Cunene.
01.07.03
Havemos de voltar
O Presidente de Angola convocou para hoje o Conselho da República – o órgão que o aconselha em matéria governativa. José Eduardo dos Santos não esperou um dia, sequer, para chamar os mais importantes consultores quando se trata, por exemplo, de dissolver a Assembleia Nacional, quando o maior partido da oposição se apresentou em condições de avançar para um acto eleitoral.
Apesar de defensor de um prazo mais diferido no tempo que o sustentado pela maior parte das forças na oposição, UNITA incluída, o chefe de Estado angolano fez a única coisa que dele se esperava – e que vem dando mostras de querer prosseguir: a normalização da vida política em Angola.
Agora, sentados à mesma mesa, pela primeira vez com um representante da UNITA – o recém eleito Isaías Samakuva – os «mais velhos» angolanos vão dizer o que acham sobre a altura ideal para o país ir a votos.
A convocação do Conselho da República era absolutamente necessária, neste momento. Não há consenso, por exemplo, sobre se as eleições legislativas e presidenciais devem realizar-se ao mesmo tempo. Ou se elas deverão ocorrer já em 2004, ou depois. Decisões claras sobre esses assuntos têm que sair desta reunião.
Está melhor percebido em Angola que no exterior – sobretudo em Portugal – que o processo que levará Angola à normalidade institucional não contempla ressabiamentos nem ajustes de contas com o passado. Quem não entender esse detalhe fica, agora, definitivamente fora do auspicioso futuro que Angola tem. Os detractores militantes, arautos de práticas que nem nas mais celebradas sociedades livres conseguem verificar, devem cair agora na realidade: a sociedade angolana é madura, e dispensa lições de teóricos que bebem mal o sumo das notícias.
«As instituições e dirigentes que saírem eleitos das futuras eleições terão, necessariamente, de ser respeitadas e cumprirem as suas obrigações sob penas de serem penalizadas», escrevia ontem o editorialista do Jornal de Angola, a propósito deste Conselho da República, sem referir que o mesmo já se deveria ter passado com as que resultaram das eleições de 1992. É este o retrato da sociedade angolana, hoje.
Angola é uma potência regional e pode dar muito mais à mole lusófona do que o que se espera dela. Um país calejado de 40 anos de guerra dá mostras de querer ganhar o respeito de todos, pela prática. É uma boa altura para cada um começar a cuidar do seu galinheiro.
Amanhã se saberá com que novas datas se vão escrever como marcantes no futuro reservado, enorme, de Cabinda ao Cunene.
01.07.03
Havemos de voltar
Esclarecedor
Para quem segue o processo político angolano, o debate que hoje é transcrito nestas páginas é de interesse insuperável. Nele, à maneira política africana, são expostos com clareza surpreendente, os conceitos que os três candidatos à sucessão de Jonas Savimbi na presidência da UNITA têm para o exercício do poder. Três aspectos fundamentais ressaltam: o primeiro, que partilham um programa e diferem apenas na estratégia da sua aplicação – extraordinária forma de identificação com um ideal que se pode resumir na afirmação de um projecto que existe para oposição a um outro que é reconhecido como muito mais que a cleptocracia que se apregoa; na sequência dessa ideia, o reconhecimento e a promessa de se aprender com uma prática política que, efectivamente, se afirma no plano internacional como um exemplo de atenção e adequação aos tempos que correm e à sua adequação à evolução do Mundo; o terceiro, a assunção total do passado, dos seus erros (ou «passivo»), como forma de partir para um futuro que exige a presença de novos actores.
A UNITA não se posiciona noutra área política que aquela onde sempre esteve. Prova disso é a presença, como «partidos irmãos», dos portugueses CDS-PP e Nova Democracia (de Manuel Monteiro) no Congresso. Assim, deixados os mitos que o troar dos canhões abafaram durante muito tempo, a sociedade angolana ganha espaço de afirmação e intervenção.
O debate que aqui se transcreve é um documento da máxima importância para quem pretende compreender o processo político angolano.
24.06.03
Havemos de voltar
Para quem segue o processo político angolano, o debate que hoje é transcrito nestas páginas é de interesse insuperável. Nele, à maneira política africana, são expostos com clareza surpreendente, os conceitos que os três candidatos à sucessão de Jonas Savimbi na presidência da UNITA têm para o exercício do poder. Três aspectos fundamentais ressaltam: o primeiro, que partilham um programa e diferem apenas na estratégia da sua aplicação – extraordinária forma de identificação com um ideal que se pode resumir na afirmação de um projecto que existe para oposição a um outro que é reconhecido como muito mais que a cleptocracia que se apregoa; na sequência dessa ideia, o reconhecimento e a promessa de se aprender com uma prática política que, efectivamente, se afirma no plano internacional como um exemplo de atenção e adequação aos tempos que correm e à sua adequação à evolução do Mundo; o terceiro, a assunção total do passado, dos seus erros (ou «passivo»), como forma de partir para um futuro que exige a presença de novos actores.
A UNITA não se posiciona noutra área política que aquela onde sempre esteve. Prova disso é a presença, como «partidos irmãos», dos portugueses CDS-PP e Nova Democracia (de Manuel Monteiro) no Congresso. Assim, deixados os mitos que o troar dos canhões abafaram durante muito tempo, a sociedade angolana ganha espaço de afirmação e intervenção.
O debate que aqui se transcreve é um documento da máxima importância para quem pretende compreender o processo político angolano.
24.06.03
Havemos de voltar
O regresso do Caluanda
«A vida é grande e não são só as palavras que chegam para lhe mudar», diz logo a abrir o narrador de ‘Zeca Burnéu e outros’, o primeiro conto de ‘Nosso Musseque’ - simultaneamente o último livro de José Luandino Vieira e última notável obra da escrita lusófona. Última, mas não nova, porque vê a luz - e sente já o cheiro, e está quente na humidade de Macau, nas prateleiras da Livraria Portuguesa - 41 anos (!) depois de ter sido escrita numa cela da cadeia da PIDE, em Luanda. Correram lentos os meses do início de 1962.
Não cabe aqui a crítica literária.
Faz-se apenas a chamada de atenção da chegada desse livro, fundamental como toda a restante obra desse grande angolano nascido em Portugal, para perceber como eram os subúrbios da capital naqueles anos – como sempre na obra de Luandino, com uma riqueza e humanidade na composição das personagens que elas se tornam nossa amigas, nos fazem amar e viver nelas.
Luandino Vieira é um autor cuja obra está imerecidamente esquecida e inacreditavelmente mal divulgada. Habitualmente, de Luandino refere-se ‘Luuanda’, o romance que se lhe cola à vida como segunda pele, e esquece-se o conjunto de uma obra que conta já com uma dúzia de títulos, além da poesia dispersa. Neles a unidade, a beleza, a profundidade, mas sobretudo a riqueza do estilo constituem uma contribuição importantíssima para o português. Esse terá sido o início de um percurso que depois outro grande escritor lusófono, o moçambicano Mia Couto, consagrou como a «desconstrução» da língua.
Fala-se de ‘Nosso Musseque’ e de Luandino Vieira para registar uma notícia que, na altura passou despercebida, mas que, pelo que foi dito, se perceberá ser da maior importância. O inédito ‘Nosso Musseque’ é a primeira obra que sai por iniciativa da angolana Editorial Nzila, no conjunto da reedição da bibliografia completa de Luandino Vieira, depois de o escritor lhe ter cedido os direitos de publicação integral.
Surpreendentemente, a acção é concertada com a portuguesa Editorial Caminho e a Moçambicana Ndjira. Angola conheceu a obra logo em Abril. Só em Maio ela chegou à outra costa e a Portugal.
Registe-se ainda que ‘Nosso Musseque’ interrompe um jejum de 20 anos – tantos quantos Luandino Vieira esteve sem publicar.
Um conjunto de factos que se saúdam com veemência e parecem prenunciar novos e bons ventos na cultura lusófona. A vida é grande e as palavras lhe ajudam a mudar.
17.06.03
Havemos de voltar
«A vida é grande e não são só as palavras que chegam para lhe mudar», diz logo a abrir o narrador de ‘Zeca Burnéu e outros’, o primeiro conto de ‘Nosso Musseque’ - simultaneamente o último livro de José Luandino Vieira e última notável obra da escrita lusófona. Última, mas não nova, porque vê a luz - e sente já o cheiro, e está quente na humidade de Macau, nas prateleiras da Livraria Portuguesa - 41 anos (!) depois de ter sido escrita numa cela da cadeia da PIDE, em Luanda. Correram lentos os meses do início de 1962.
Não cabe aqui a crítica literária.
Faz-se apenas a chamada de atenção da chegada desse livro, fundamental como toda a restante obra desse grande angolano nascido em Portugal, para perceber como eram os subúrbios da capital naqueles anos – como sempre na obra de Luandino, com uma riqueza e humanidade na composição das personagens que elas se tornam nossa amigas, nos fazem amar e viver nelas.
Luandino Vieira é um autor cuja obra está imerecidamente esquecida e inacreditavelmente mal divulgada. Habitualmente, de Luandino refere-se ‘Luuanda’, o romance que se lhe cola à vida como segunda pele, e esquece-se o conjunto de uma obra que conta já com uma dúzia de títulos, além da poesia dispersa. Neles a unidade, a beleza, a profundidade, mas sobretudo a riqueza do estilo constituem uma contribuição importantíssima para o português. Esse terá sido o início de um percurso que depois outro grande escritor lusófono, o moçambicano Mia Couto, consagrou como a «desconstrução» da língua.
Fala-se de ‘Nosso Musseque’ e de Luandino Vieira para registar uma notícia que, na altura passou despercebida, mas que, pelo que foi dito, se perceberá ser da maior importância. O inédito ‘Nosso Musseque’ é a primeira obra que sai por iniciativa da angolana Editorial Nzila, no conjunto da reedição da bibliografia completa de Luandino Vieira, depois de o escritor lhe ter cedido os direitos de publicação integral.
Surpreendentemente, a acção é concertada com a portuguesa Editorial Caminho e a Moçambicana Ndjira. Angola conheceu a obra logo em Abril. Só em Maio ela chegou à outra costa e a Portugal.
Registe-se ainda que ‘Nosso Musseque’ interrompe um jejum de 20 anos – tantos quantos Luandino Vieira esteve sem publicar.
Um conjunto de factos que se saúdam com veemência e parecem prenunciar novos e bons ventos na cultura lusófona. A vida é grande e as palavras lhe ajudam a mudar.
17.06.03
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Abandono
Embora por estas paragens habituados a falar sozinhos (melhor, uns com os poucos outros que entendem, o que na prática é semelhante), e a deixar correr nas águas do delta, que passam no ocaso, os mais profundos desejos carregados desde a chegada (fala-se, pois, dos que alguma vez chegaram), aprendem também a perceber que há algo que dói muito, enquanto por cá se mantêm, a todos os que gostam de Portugal. Abandono, esquecimento, distanciamento desproporcional à distância, são sentimentos que aqui solidificam a cada notícia que chega, e principalmente com as que não chegam, de Portugal. Precisamente o oposto do sentimento que aqui incha nos que sem ele não sabem existir.
Sendo certo que não adianta usar os canais próprios para a função, pode ser, senhor Secretário de Estado, que por obra do destino, que parece ser o que verdadeiramente governa a lusa pátria, chegue agora a Lisboa alguma nova que dê ecos do Oriente. Como certamente foi obra do destino a honra (sincera) que a sua presença, e não outra, dá aos que aqui comemoram o Dia de Portugal.
O da Dia da Comunidade é que não parece que seja celebrado, a não ser que relembrando Portugal a comunidade se celebre. Poderá ser, se virmos o que a pátria dá e em contrapartida espera dos seus. Mas amanhã já nada se verá no fundo do rio - estas águas compactas ou afogam as promessas ou pelo peso da lama as não deixam flutuar.
Camões, esse, seguramente que sim, evocado, ruma-se à gruta, está garantido. Tendo em conta a pneumonia, pode mesmo dizer-se que em perigos esforçados. A guerra, essa, ficou para os da Nova Jérsia, já que foi por eles que Portugal se empenhou. Felizmente que o presidente local, reconheceu a contribuição extraordinária da comunidade piscatória local nas «conquistas em tecnologia, ciência e arte» do país. Ai dos outros, de cá e lá.
Assim, que cheguem a Portugal ecos de que a lusa fala por cá teima em não esmorecer, embora por ela pouco faça quem devia, muito se esforce quem lá calhou ter que nela trabalhar(oh! Destino!), e muito se deva aos investem para que ela persista.
Sendo uma data o que é, nada de substantivo dela se espera. Nada de substantivo chegará, pois.
Habituados a falar sem que ninguém entenda, ou entendendo faça que não alcança, ou alcançando faça que não ouviu, e mesmo ouvindo faça que não entenda, habituados a levar a sério apenas o que é para ser vivido, entregues a si e à memória, os portugueses em Macau não mereciam o que a pátria lhes dá em troca do que aqui representam.
10.06.03
Havemos de voltar
Embora por estas paragens habituados a falar sozinhos (melhor, uns com os poucos outros que entendem, o que na prática é semelhante), e a deixar correr nas águas do delta, que passam no ocaso, os mais profundos desejos carregados desde a chegada (fala-se, pois, dos que alguma vez chegaram), aprendem também a perceber que há algo que dói muito, enquanto por cá se mantêm, a todos os que gostam de Portugal. Abandono, esquecimento, distanciamento desproporcional à distância, são sentimentos que aqui solidificam a cada notícia que chega, e principalmente com as que não chegam, de Portugal. Precisamente o oposto do sentimento que aqui incha nos que sem ele não sabem existir.
Sendo certo que não adianta usar os canais próprios para a função, pode ser, senhor Secretário de Estado, que por obra do destino, que parece ser o que verdadeiramente governa a lusa pátria, chegue agora a Lisboa alguma nova que dê ecos do Oriente. Como certamente foi obra do destino a honra (sincera) que a sua presença, e não outra, dá aos que aqui comemoram o Dia de Portugal.
O da Dia da Comunidade é que não parece que seja celebrado, a não ser que relembrando Portugal a comunidade se celebre. Poderá ser, se virmos o que a pátria dá e em contrapartida espera dos seus. Mas amanhã já nada se verá no fundo do rio - estas águas compactas ou afogam as promessas ou pelo peso da lama as não deixam flutuar.
Camões, esse, seguramente que sim, evocado, ruma-se à gruta, está garantido. Tendo em conta a pneumonia, pode mesmo dizer-se que em perigos esforçados. A guerra, essa, ficou para os da Nova Jérsia, já que foi por eles que Portugal se empenhou. Felizmente que o presidente local, reconheceu a contribuição extraordinária da comunidade piscatória local nas «conquistas em tecnologia, ciência e arte» do país. Ai dos outros, de cá e lá.
Assim, que cheguem a Portugal ecos de que a lusa fala por cá teima em não esmorecer, embora por ela pouco faça quem devia, muito se esforce quem lá calhou ter que nela trabalhar(oh! Destino!), e muito se deva aos investem para que ela persista.
Sendo uma data o que é, nada de substantivo dela se espera. Nada de substantivo chegará, pois.
Habituados a falar sem que ninguém entenda, ou entendendo faça que não alcança, ou alcançando faça que não ouviu, e mesmo ouvindo faça que não entenda, habituados a levar a sério apenas o que é para ser vivido, entregues a si e à memória, os portugueses em Macau não mereciam o que a pátria lhes dá em troca do que aqui representam.
10.06.03
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Papas e bolos
Há um equívoco na Festa da Lusofonia que se anunciou para daqui a duas semanas em Macau.
Pelas características divulgadas, que afirmam taxativamente ser a gastronomia a «componente fundamental» da festa, há razões de inquietação. Tendo em conta uma elementar regra de boa educação, que aconselha a não falar de boca cheia, então teremos uma festa, provavelmente, da lusitanidade, ou da diáspora lusófona, mas não da lusofonia. A não ser que se considere o acto de encomendar as iguarias, que representarão excelentemente todo o espaço lusófono, como o momento de expressão da lusofonia.
Não está em causa a bondade da organização, nem sequer a justeza da opção: não é exclusivo de Macau a opção institucional pelas mais populares formas de expressão cultural. Em Portugal houve mesmo um (agora) presidente de importante Câmara que se fez eleger defendendo que cultura eram as bandas no coreto e pouco mais.
Muito provavelmente o programa anunciado é mesmo aquele que arrasta mais «lusófonos» ao espaço destinado ao arraial, o que certamente pesou consideravelmente na opção dos responsáveis. Mas, simultaneamente, aponta para uma distracção que, se não provoca a morte, pelo menos faz desaparecer o artista.
É este o equívoco: celebrar a lusofonia não é implantar uma feira de matraquilhos e barracas de comes e bebes, para encher o papo no intervalo do bailarico. Isso, além de um insulto à vasta cultura do espaço lusófono, é uma demonstração de que nem ao conceito de lusofonia se prestou atenção. Mesmo o mais erudito dos eventos anunciados, a exposição de arte religiosa, além de se revelar beatificamente mudo, traz-nos peças chinesas e japonesas!
Não cabe aqui o lamento lamecha e lusitano pelo quanto maltratam a língua. A defesa da lusofonia faz-se activamente, praticando-a, divulgando-a no que tem de mais belo e único – essa possibilidade de em todos os continentes lermos, ouvirmos, escrevermos e sermos entendidos. E querermos criar cumplicidades entre nós. E falarmos com os outros do que é de uns e assim transformá-lo em de todos. Mas falarmos do que fica, do que pode ser herdado, do que faz a história e, portanto, a identidade de todos os que falam em português.
Também não cabe aqui discutir se os lusos, em Macau, fizeram, ou fazem, o que lhes competia pela lusofonia – embora numa festa da lusofonia essa discussão tivesse todo o cabimento.
É no equívoco do que é a celebração da lusofonia que reside, pois, o problema. Um equívoco que poderia ter sido evitado se tivesse sido posto cuidado na elaboração do conceito. Porque é mesmo de cuidado, muito cuidado, em todo o lado, que a tão frágil, maltratada e abandonada lusofonia necessita.
03.06.03
Havemos de voltar
Há um equívoco na Festa da Lusofonia que se anunciou para daqui a duas semanas em Macau.
Pelas características divulgadas, que afirmam taxativamente ser a gastronomia a «componente fundamental» da festa, há razões de inquietação. Tendo em conta uma elementar regra de boa educação, que aconselha a não falar de boca cheia, então teremos uma festa, provavelmente, da lusitanidade, ou da diáspora lusófona, mas não da lusofonia. A não ser que se considere o acto de encomendar as iguarias, que representarão excelentemente todo o espaço lusófono, como o momento de expressão da lusofonia.
Não está em causa a bondade da organização, nem sequer a justeza da opção: não é exclusivo de Macau a opção institucional pelas mais populares formas de expressão cultural. Em Portugal houve mesmo um (agora) presidente de importante Câmara que se fez eleger defendendo que cultura eram as bandas no coreto e pouco mais.
Muito provavelmente o programa anunciado é mesmo aquele que arrasta mais «lusófonos» ao espaço destinado ao arraial, o que certamente pesou consideravelmente na opção dos responsáveis. Mas, simultaneamente, aponta para uma distracção que, se não provoca a morte, pelo menos faz desaparecer o artista.
É este o equívoco: celebrar a lusofonia não é implantar uma feira de matraquilhos e barracas de comes e bebes, para encher o papo no intervalo do bailarico. Isso, além de um insulto à vasta cultura do espaço lusófono, é uma demonstração de que nem ao conceito de lusofonia se prestou atenção. Mesmo o mais erudito dos eventos anunciados, a exposição de arte religiosa, além de se revelar beatificamente mudo, traz-nos peças chinesas e japonesas!
Não cabe aqui o lamento lamecha e lusitano pelo quanto maltratam a língua. A defesa da lusofonia faz-se activamente, praticando-a, divulgando-a no que tem de mais belo e único – essa possibilidade de em todos os continentes lermos, ouvirmos, escrevermos e sermos entendidos. E querermos criar cumplicidades entre nós. E falarmos com os outros do que é de uns e assim transformá-lo em de todos. Mas falarmos do que fica, do que pode ser herdado, do que faz a história e, portanto, a identidade de todos os que falam em português.
Também não cabe aqui discutir se os lusos, em Macau, fizeram, ou fazem, o que lhes competia pela lusofonia – embora numa festa da lusofonia essa discussão tivesse todo o cabimento.
É no equívoco do que é a celebração da lusofonia que reside, pois, o problema. Um equívoco que poderia ter sido evitado se tivesse sido posto cuidado na elaboração do conceito. Porque é mesmo de cuidado, muito cuidado, em todo o lado, que a tão frágil, maltratada e abandonada lusofonia necessita.
03.06.03
Havemos de voltar
Comunidades de interesses
Assinalou-se no passado domingo o Dia de África. Por todo o Continente iniciativas mais ou menos importantes assinalaram a efeméride – o 25 de Maio celebra o nascimento, há precisamente 40 anos, em Adis Abeba, da Organização de Unidade Africana (OUA). O objectivo longínquo, e nunca alcançado, era de unidade entre os povos, num momento em que se revelava já irreversível o movimento de independência dos países africanos.
Não só essa unidade não se verificou como se seguiu um período em que dois factores fundamentais (um interno, outro externo) lançaram o continente num turbilhão de conflitos que o mantêm maioritariamente em condições miseráveis.
A uma apetência voraz das potências pelas inesgotáveis riquezas do Continente Negro correspondeu um período em que a divisão do Mundo em dois blocos se foi reflectir um pouco por toda a África. Mas seria errado não atribuir a características próprias dos povos africanos outra tão grande responsabilidade no que se passou.
Na celebração do Dia de África em 2003 não se celebrou já o aniversário da OUA. A organização foi substituída por uma outra, num processo que implicou o reconhecimento por parte dos políticos africanos da falência da velha OUA. Não foi na forma de organização que esteve a origem do insucesso da organização, como não está na cópia mais ou menos adaptada da União Europeia que a actual União Africana (UA) constitui, o segredo do sucesso desta nova aposta.
Relativamente à UA é maior a reserva que a confiança. Curiosamente, a discussão que se trava no seio da organização – e que estará no centro das discussões que serão tidas no próximo mês de julho em Maputo –, é a criação de uma força de Paz africana. Como a congénere europeia, a UA sabe que é por aí que pode começar a estabilidade regional.
Thabo M’beki, presidente sul-africano e simultaneamente da UA, na cerimónia festiva em que se evocou o Dia de África, falou no «demónio do tribalismo» como o principal inimigo a combater. Sabe do que fala, o presidente sul-africano, com problemas desse nível no imenso território que governa. Um pouco por toda a África austral se encontram fenómenos semelhantes, quase sempre criminosamente instilados por líderes sequiosos de riqueza e alimentados por interesses económicos fortíssimos. Um fenómeno que na Europa tem o nome mais pomposo de «conflito étnico».
Tal como a União Europeia, demasiado pesada e dividida em interesses e culturas que se espalham pela sua vastidão, a África dificilmente conseguirá encontrar na UA a resposta para os problemas que a afectam. A questão terá que ser resolvida ao nível regional. Nesse aspecto, Angola deu um excelente exemplo quando, apesar (e também por causa) da situação de guerra interna que vivia, soube intervir na Namíbia, mas sobretudo no Congo, para pacificar a região. Os problemas não estão completamente solucionados, mas não constituem o foco de instabilidade que já foram.
Assim, a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) pôde avançar numa série de medidas que constituem o embrião de uma organização regional que poderá fazer toda a diferença naquela zona de África. É, portanto, em torno de interesses mais restritos e por isso de comunhão mais fácil que se poderão encontrar fórmulas para solucionar problemas bicudos. Aí, mais que a errante Comunidade de Países de Língua Portuguesa, os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, são mais uma solução, já não regional mas de interesse comum, para muitas questões deste início de século.
27.05.03
Havemos de voltar
Assinalou-se no passado domingo o Dia de África. Por todo o Continente iniciativas mais ou menos importantes assinalaram a efeméride – o 25 de Maio celebra o nascimento, há precisamente 40 anos, em Adis Abeba, da Organização de Unidade Africana (OUA). O objectivo longínquo, e nunca alcançado, era de unidade entre os povos, num momento em que se revelava já irreversível o movimento de independência dos países africanos.
Não só essa unidade não se verificou como se seguiu um período em que dois factores fundamentais (um interno, outro externo) lançaram o continente num turbilhão de conflitos que o mantêm maioritariamente em condições miseráveis.
A uma apetência voraz das potências pelas inesgotáveis riquezas do Continente Negro correspondeu um período em que a divisão do Mundo em dois blocos se foi reflectir um pouco por toda a África. Mas seria errado não atribuir a características próprias dos povos africanos outra tão grande responsabilidade no que se passou.
Na celebração do Dia de África em 2003 não se celebrou já o aniversário da OUA. A organização foi substituída por uma outra, num processo que implicou o reconhecimento por parte dos políticos africanos da falência da velha OUA. Não foi na forma de organização que esteve a origem do insucesso da organização, como não está na cópia mais ou menos adaptada da União Europeia que a actual União Africana (UA) constitui, o segredo do sucesso desta nova aposta.
Relativamente à UA é maior a reserva que a confiança. Curiosamente, a discussão que se trava no seio da organização – e que estará no centro das discussões que serão tidas no próximo mês de julho em Maputo –, é a criação de uma força de Paz africana. Como a congénere europeia, a UA sabe que é por aí que pode começar a estabilidade regional.
Thabo M’beki, presidente sul-africano e simultaneamente da UA, na cerimónia festiva em que se evocou o Dia de África, falou no «demónio do tribalismo» como o principal inimigo a combater. Sabe do que fala, o presidente sul-africano, com problemas desse nível no imenso território que governa. Um pouco por toda a África austral se encontram fenómenos semelhantes, quase sempre criminosamente instilados por líderes sequiosos de riqueza e alimentados por interesses económicos fortíssimos. Um fenómeno que na Europa tem o nome mais pomposo de «conflito étnico».
Tal como a União Europeia, demasiado pesada e dividida em interesses e culturas que se espalham pela sua vastidão, a África dificilmente conseguirá encontrar na UA a resposta para os problemas que a afectam. A questão terá que ser resolvida ao nível regional. Nesse aspecto, Angola deu um excelente exemplo quando, apesar (e também por causa) da situação de guerra interna que vivia, soube intervir na Namíbia, mas sobretudo no Congo, para pacificar a região. Os problemas não estão completamente solucionados, mas não constituem o foco de instabilidade que já foram.
Assim, a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) pôde avançar numa série de medidas que constituem o embrião de uma organização regional que poderá fazer toda a diferença naquela zona de África. É, portanto, em torno de interesses mais restritos e por isso de comunhão mais fácil que se poderão encontrar fórmulas para solucionar problemas bicudos. Aí, mais que a errante Comunidade de Países de Língua Portuguesa, os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, são mais uma solução, já não regional mas de interesse comum, para muitas questões deste início de século.
27.05.03
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Plataforma
Rita Santos, Coordenadora do Gabinete para o Forum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa, escolheu Portugal para esclarecer a filosofia organizativa do evento: «a República Popular da China entendeu que Macau pode ser a plataforma de entendimento para a internacionalização empresarial chinesa e o pólo prestador de serviços de intercâmbio que tem como principal vantagem o domínio da língua portuguesa». Ainda Rita Santos realçou, em Lisboa, que «os países de língua oficial portuguesa estão espalhados pelos quatro cantos do mundo, possuem grandes reservas de recursos naturais e constituem um mercado com mais de 200 milhões de pessoas que (...) apresentam uma maior complementaridade com o desenvolvimento económico da República Popular da China». Ao mesmo tempo, também na capital portuguesa, uma «fonte oficial», deu à agência LUSA a filosofia económica: «a China quer investir em infra-estruturas em Angola e Moçambique em troca da exploração de recursos naturais dos dois países».
Estes três factos, constantes de um único despacho da agência oficial portuguesa, têm (entre outros) o mérito de aclarar algumas questões: embora se realize em Macau, é através de Portugal que a comunidade lusófona fica a saber dos objectivos chineses para o Forum; como se suspeitava, Angola e Moçambique são os alvos desta investida, ficando os restantes Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) a compor um ramalhete onde Portugal só pode fazer de jarra (o Brasil é de outro campeonato); a China, sabendo do que necessita, sabe também do que precisam agora Angola e Moçambique, vislumbrando-se, portanto, uma troca justa, em vez dos contratos tão leoninos quanto envoltos em negócios obscuros que envolvem, por exemplo, a exploração petrolífera. Repita-se: trata-se de aclarar, sublinhar apenas o são conceitos conhecidos, embora nem sempre assumidos.
Convém, assim, lembrar, que a China já tem interesses económicos, precisamente em áreas vitais dos PALOP, servindo de exemplo o abastecimento de água no arquipélago de Cabo Verde. Para Angola, a China representa já acima de 22 por cento das exportações, mais que a União Europeia no seu conjunto.
Os pressupostos, papéis e áreas de intervenção económica na relação entre a China e os PALOP estão, portanto, claras.
Mas, oficialmente, a ida de Rita Santos a Lisboa foi para «incentivar os empresários portugueses» a estabelecer parcerias com os investidores chineses, supõe-se que nos ditos PALOP. Sabendo-se das relações, melhor ou pior sucedidas, dos empresários e do Estado português com a África lusófona, esta ideia surge, pois, peregrina. Faria mais sentido essas parcerias serem dos empresários de Macau. E, para dar sentido ao extenso nome do Forum, teria sido lógico ouvir anunciar iniciativas de cooperação da China com Portugal.
20.05.03
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Rita Santos, Coordenadora do Gabinete para o Forum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa, escolheu Portugal para esclarecer a filosofia organizativa do evento: «a República Popular da China entendeu que Macau pode ser a plataforma de entendimento para a internacionalização empresarial chinesa e o pólo prestador de serviços de intercâmbio que tem como principal vantagem o domínio da língua portuguesa». Ainda Rita Santos realçou, em Lisboa, que «os países de língua oficial portuguesa estão espalhados pelos quatro cantos do mundo, possuem grandes reservas de recursos naturais e constituem um mercado com mais de 200 milhões de pessoas que (...) apresentam uma maior complementaridade com o desenvolvimento económico da República Popular da China». Ao mesmo tempo, também na capital portuguesa, uma «fonte oficial», deu à agência LUSA a filosofia económica: «a China quer investir em infra-estruturas em Angola e Moçambique em troca da exploração de recursos naturais dos dois países».
Estes três factos, constantes de um único despacho da agência oficial portuguesa, têm (entre outros) o mérito de aclarar algumas questões: embora se realize em Macau, é através de Portugal que a comunidade lusófona fica a saber dos objectivos chineses para o Forum; como se suspeitava, Angola e Moçambique são os alvos desta investida, ficando os restantes Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) a compor um ramalhete onde Portugal só pode fazer de jarra (o Brasil é de outro campeonato); a China, sabendo do que necessita, sabe também do que precisam agora Angola e Moçambique, vislumbrando-se, portanto, uma troca justa, em vez dos contratos tão leoninos quanto envoltos em negócios obscuros que envolvem, por exemplo, a exploração petrolífera. Repita-se: trata-se de aclarar, sublinhar apenas o são conceitos conhecidos, embora nem sempre assumidos.
Convém, assim, lembrar, que a China já tem interesses económicos, precisamente em áreas vitais dos PALOP, servindo de exemplo o abastecimento de água no arquipélago de Cabo Verde. Para Angola, a China representa já acima de 22 por cento das exportações, mais que a União Europeia no seu conjunto.
Os pressupostos, papéis e áreas de intervenção económica na relação entre a China e os PALOP estão, portanto, claras.
Mas, oficialmente, a ida de Rita Santos a Lisboa foi para «incentivar os empresários portugueses» a estabelecer parcerias com os investidores chineses, supõe-se que nos ditos PALOP. Sabendo-se das relações, melhor ou pior sucedidas, dos empresários e do Estado português com a África lusófona, esta ideia surge, pois, peregrina. Faria mais sentido essas parcerias serem dos empresários de Macau. E, para dar sentido ao extenso nome do Forum, teria sido lógico ouvir anunciar iniciativas de cooperação da China com Portugal.
20.05.03
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Atestado
Dois anúncios marcam a actualidade política angolana: o de que o MPLA renovará quase em metade o número dos seus dirigentes durante o próximo Congresso e o de Isaías Samakuva como candidato à presidência da UNITA.
O Secretário Geral do MPLA fez saber que o Comité Central que vai sair do próximo Congresso será novo quase em metade. Aos anunciados 45 por cento corresponderá, pois, que mais de 100 dos actuais 251 dirigentes do partido no poder em Angola deixarão os cargos que ocupam na estrutura partidária.
Este é mais um sinal claro de que as coisas estão a mudar em Angola. A nível governamental foram anunciadas na semana passada medidas para tornar transparentes as contas do Estado. O Governo que entrou em funções com o novo ano, também ele profundamente renovado, tem dado mostras de querer alterar a imagem internacional que se lhe agarrava à pele como visgo.
O MPLA tem dado mostras, ao longo da história, de ser capaz de perceber os tempos. A decisão, apesar da guerra, de abrir o sistema ao multipartidarismo em tempo útil foi crucial para a vitória nas eleições que se realizaram. As medidas de conciliação que o Governo adoptou imediatamente após a vitória militar deram frutos que ultrapassaram, provavelmente, as próprias expectativas. É importante perceber que os dirigentes do MPLA não se quiseram ficar por uma operação cosmética.
A UNITA, beneficiando da Paz tanto como o país, redescobriu a democracia e os seus inequívocos valores intelectuais que trilharam caminhos difíceis. Os homens que recuperaram a estrutura e dirigiram o partido no último ano, souberam respeitar um período de nojo – inevitável. Mas sabem muito bem que Angola precisa deles, por tantas razões quantas as vozes que se escutarem.
Isaías Samakuva avançou para a presidência da UNITA e já deu mostras de temer Lukamba Paulo Gato como adversário nessa corrida. O jogo político está na mesa e não serão de estranhar cartadas como a que sugere que, com Samakuva, estará Abel Chivukuvuku a preparar-se, ele próprio, para a corrida à presidência de Angola. Este trio assim colocado na disputa destes cargos só prova que a democracia dos homens da UNITA sobreviveu, não ficou refém de supostas traições ou desobediências a lógicas passadas. Indicia mesmo que também estes responsáveis souberam, antes do tempo, perceber o que lhes era exigido e agir em conformidade.
Restam já poucas dúvidas de que será contra José Eduardo dos Santos que, quem a UNITA escolher, disputará as eleições presidenciais. Eduardo dos Santos que lidera um processo de afirmação do país na cena internacional que a poderá confirmar como potência regional que é.
Se dúvidas houvesse de que Angola está no caminho certo, elas agora deixaram de existir. Mais uma vez não precisou de que lhe apontassem o rumo. Os responsáveis angolanos aprenderam com a história e sabem que o preço pago foi muito elevado. Soubesse perceber isso os que apostam em prolongar o conflito em Cabinda.
13.05.03
Havemos de voltar
Dois anúncios marcam a actualidade política angolana: o de que o MPLA renovará quase em metade o número dos seus dirigentes durante o próximo Congresso e o de Isaías Samakuva como candidato à presidência da UNITA.
O Secretário Geral do MPLA fez saber que o Comité Central que vai sair do próximo Congresso será novo quase em metade. Aos anunciados 45 por cento corresponderá, pois, que mais de 100 dos actuais 251 dirigentes do partido no poder em Angola deixarão os cargos que ocupam na estrutura partidária.
Este é mais um sinal claro de que as coisas estão a mudar em Angola. A nível governamental foram anunciadas na semana passada medidas para tornar transparentes as contas do Estado. O Governo que entrou em funções com o novo ano, também ele profundamente renovado, tem dado mostras de querer alterar a imagem internacional que se lhe agarrava à pele como visgo.
O MPLA tem dado mostras, ao longo da história, de ser capaz de perceber os tempos. A decisão, apesar da guerra, de abrir o sistema ao multipartidarismo em tempo útil foi crucial para a vitória nas eleições que se realizaram. As medidas de conciliação que o Governo adoptou imediatamente após a vitória militar deram frutos que ultrapassaram, provavelmente, as próprias expectativas. É importante perceber que os dirigentes do MPLA não se quiseram ficar por uma operação cosmética.
A UNITA, beneficiando da Paz tanto como o país, redescobriu a democracia e os seus inequívocos valores intelectuais que trilharam caminhos difíceis. Os homens que recuperaram a estrutura e dirigiram o partido no último ano, souberam respeitar um período de nojo – inevitável. Mas sabem muito bem que Angola precisa deles, por tantas razões quantas as vozes que se escutarem.
Isaías Samakuva avançou para a presidência da UNITA e já deu mostras de temer Lukamba Paulo Gato como adversário nessa corrida. O jogo político está na mesa e não serão de estranhar cartadas como a que sugere que, com Samakuva, estará Abel Chivukuvuku a preparar-se, ele próprio, para a corrida à presidência de Angola. Este trio assim colocado na disputa destes cargos só prova que a democracia dos homens da UNITA sobreviveu, não ficou refém de supostas traições ou desobediências a lógicas passadas. Indicia mesmo que também estes responsáveis souberam, antes do tempo, perceber o que lhes era exigido e agir em conformidade.
Restam já poucas dúvidas de que será contra José Eduardo dos Santos que, quem a UNITA escolher, disputará as eleições presidenciais. Eduardo dos Santos que lidera um processo de afirmação do país na cena internacional que a poderá confirmar como potência regional que é.
Se dúvidas houvesse de que Angola está no caminho certo, elas agora deixaram de existir. Mais uma vez não precisou de que lhe apontassem o rumo. Os responsáveis angolanos aprenderam com a história e sabem que o preço pago foi muito elevado. Soubesse perceber isso os que apostam em prolongar o conflito em Cabinda.
13.05.03
Havemos de voltar
Lusofonias
O Hoje Macau abriu as suas páginas a este novo projecto de divulgação da actualidade dos países que falam português. Não se trata de uma novidade, já que sempre nestas páginas a lusofonia teve espaço. É sim dar um outro formato a essas notícias, conferindo-lhes também outra importância.
Este projecto existe desde ainda antes de ter sido conhecida a decisão de Beijing de realizar em Macau o Forum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa.
Por uma vez na primeira pessoa, que não servirá de exemplo, digo que se trata de uma aposta pessoal. Atento ao que se passa em Macau desde que cá cheguei, pareceu-me faltar o tratamento sistematizado da informação, no contexto lusófono, à lusofonia de Macau.
As portas que se abriram a esse projecto souberam reconhecer as mais valias que esse trabalho traz ao órgão de comunicação que o quer abraçar – logo à presença da língua portuguesa em Macau. Assim, sem que haja qualquer relação entre eles que não seja o resultarem de um projecto jornalístico pessoal, aqui surge pela primeira vez este espaço que já tem um meio-irmão, da parte do pai, na Rádio.
Já nas páginas deste jornal defendi a ideia de que é importante que se afirme, preto no branco da página impressa, de que falamos quando se fala da comunicação social que usamos em Macau – se de «imprensa portuguesa» ou «imprensa em português de Macau». Sabendo que para cá chegar foi posto pé na Baía dos Tigres, passado o Cabo das Tormentas, e arribada a Ilha de Moçambique, continuar um salto em direcção ao futuro é o mínimo que o respeito pela história requer. Neste espaço essa ideia ganha outra dimensão. Uma projecção a que a realização próxima do Forum dá outra importância. E tudo o que em Macau é especial condimenta a sensação.
Feito o esclarecimento pessoal partamos para a explicação da ideia.
Existindo manancial suficiente para alimentar sem «palha» estas páginas semanalmente, sabendo-se que Macau vai ser em breve o centro da lusofonia, pela vertente económica, faz todo o sentido dar uma atenção especial à informação que chega desses mercados. Como a economia não vive apenas do capital, como o homem não vive só do ar, procurar limitar à informação estritamente económica o âmbito da informação a veícular não faria sentido. Vamos então procurar o equilíbrio entre o que interessa saber, sobretudo aos empresários que têm essa missão de servir de ponte entre a Grande China e o Mundo Lusófono, e o que importa valorizar, senão preservar, para que faça sentido a presença do português (e portugueses) por cá.
Assim, este não terá que ser um espaço «para dar voz» a comunidade nenhuma. Não se assume como espelho de outra coisa que não a actualidade de cada um dos países onde estas linhas são lidas, porque esta língua é ensinada na escola.
Porque também não temos da informação o conceito acéptico de um falso objectivism - preguiça mental ou de conivência com os poderes, quaisquer -, sempre que se justificar aqui se emitirá opinião sobre a notícia que a todos nos incomoda. Como, no momento actual, as inquietantes novas que chegam da Guiné-Bissau, agora governada ao sabor dos caprichos de um inqualificável mas não inédito Kumba Ialá.
05.06.03
Havemos de voltar
O Hoje Macau abriu as suas páginas a este novo projecto de divulgação da actualidade dos países que falam português. Não se trata de uma novidade, já que sempre nestas páginas a lusofonia teve espaço. É sim dar um outro formato a essas notícias, conferindo-lhes também outra importância.
Este projecto existe desde ainda antes de ter sido conhecida a decisão de Beijing de realizar em Macau o Forum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa.
Por uma vez na primeira pessoa, que não servirá de exemplo, digo que se trata de uma aposta pessoal. Atento ao que se passa em Macau desde que cá cheguei, pareceu-me faltar o tratamento sistematizado da informação, no contexto lusófono, à lusofonia de Macau.
As portas que se abriram a esse projecto souberam reconhecer as mais valias que esse trabalho traz ao órgão de comunicação que o quer abraçar – logo à presença da língua portuguesa em Macau. Assim, sem que haja qualquer relação entre eles que não seja o resultarem de um projecto jornalístico pessoal, aqui surge pela primeira vez este espaço que já tem um meio-irmão, da parte do pai, na Rádio.
Já nas páginas deste jornal defendi a ideia de que é importante que se afirme, preto no branco da página impressa, de que falamos quando se fala da comunicação social que usamos em Macau – se de «imprensa portuguesa» ou «imprensa em português de Macau». Sabendo que para cá chegar foi posto pé na Baía dos Tigres, passado o Cabo das Tormentas, e arribada a Ilha de Moçambique, continuar um salto em direcção ao futuro é o mínimo que o respeito pela história requer. Neste espaço essa ideia ganha outra dimensão. Uma projecção a que a realização próxima do Forum dá outra importância. E tudo o que em Macau é especial condimenta a sensação.
Feito o esclarecimento pessoal partamos para a explicação da ideia.
Existindo manancial suficiente para alimentar sem «palha» estas páginas semanalmente, sabendo-se que Macau vai ser em breve o centro da lusofonia, pela vertente económica, faz todo o sentido dar uma atenção especial à informação que chega desses mercados. Como a economia não vive apenas do capital, como o homem não vive só do ar, procurar limitar à informação estritamente económica o âmbito da informação a veícular não faria sentido. Vamos então procurar o equilíbrio entre o que interessa saber, sobretudo aos empresários que têm essa missão de servir de ponte entre a Grande China e o Mundo Lusófono, e o que importa valorizar, senão preservar, para que faça sentido a presença do português (e portugueses) por cá.
Assim, este não terá que ser um espaço «para dar voz» a comunidade nenhuma. Não se assume como espelho de outra coisa que não a actualidade de cada um dos países onde estas linhas são lidas, porque esta língua é ensinada na escola.
Porque também não temos da informação o conceito acéptico de um falso objectivism - preguiça mental ou de conivência com os poderes, quaisquer -, sempre que se justificar aqui se emitirá opinião sobre a notícia que a todos nos incomoda. Como, no momento actual, as inquietantes novas que chegam da Guiné-Bissau, agora governada ao sabor dos caprichos de um inqualificável mas não inédito Kumba Ialá.
05.06.03
Havemos de voltar
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