31.10.03

Deselegantes e anacrónicos

Além de apostar numa estratégia de desvalorização do Fórum China/Países Lusófonos, com que não poderia obter nenhuns resultados vantajosos, o comportamento de Portugal nesse encontro ainda foi de desconsideração relativamente aos países africanos. O discurso adoptado revelou-se anacrónico.
Ao enviar um ministro de funções políticas à mais importante reunião dos últimos tempos que congregou todas as Nações onde se fala português, em vez do desejado e aconselhado ministro com capacidade e conhecimentos técnicos para negociar um acordo económico, o governo de Lisboa pretendeu retirar importância à iniciativa. A presença do secretário de Estado adjunto do ministro da Economia português disfarçou mal o défice de capacidade negocial e, como o ‘Ponto Final’ noticiou já esta semana, provocou sério mal estar no seio das restantes delegações (por maioria de razão, em primeiro lugar na chinesa), além de uma péssima imagem durante as negociações.
Portugal cedo percebeu que esta iniciativa chinesa não seria muito benéfica para as suas pretensões de parceiro privilegiado no relacionamento com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). No processo que antecedeu o Fórum, foi dando mostras desse desconforto, visíveis nomeadamente nas alterações que forçou à designação do evento. A questão é que a China e os PALOP se assumem como países em desenvolvimento que têm tudo a ganhar cooperando à margem e defendendo-se dos grandes mecanismos internacionais de comércio, dominados por políticas que, na prática, sufocam quem mais necessita de apoio. Portugal acha que está suficientemente desenvolvido e que o seu lugar é sempre no concerto dos poderosos – não só na economia, mas também na política externa. Partindo desse princípio não poderia alinhar com políticas alternativas às liberais que a China e o Brasil, neste momento, concertam. Lá saberá o governo português o que é mais benéfico para o país, os resultados atestam e hão-de continuar a atestar a correcção das opções.
O discurso dos governantes portugueses presentes foi de aposta no bilateralismo das relações económicas. Percebe-se: de uma assentada põe-se em pé de igualdade com a China e reserva-se o direito de, ainda à margem do grupo agora criado, manter um relacionamento caso-a-caso com os PALOP. Ou seja, Portugal quis afastar-se daquilo que o ministro guineense dos Negócios Estrangeiros caracterizou como o lançamento das «bases para o nascimento de uma promissora e abrangente comunidade económica do Mundo» - a ideia dominante no Fórum.
Ao adoptar a valorização da «bilateralidade» do relacionamento económico, iniciada logo com o deselegante anúncio de uma cimeira, no próximo ano, com a China, visando os mesmo fins que os negociados em Macau, Portugal provocou críticas e mau estar, também junto dos PALOP. O secretário de Estado português, que sobrou para a sessão de encerramento onde pontificou o vice-ministro do Comércio chinês, seria mesmo confrontado com o facto pela jornalista angolana que acompanhou os trabalhos. Refugiou-se no tradicional «ainda bem que me faz a pergunta» para deixar transparecer que é mesmo no encontro particular Portugal/China que o seu governo está interessado. Foi a cereja da desconsideração no bolo da desvalorização cozinhado no decorrer dos trabalhos.
Os políticos portugueses vieram com um discurso preparado que passava por valorizar o relacionamento histórico com os PALOP, ainda na senda da demonstração da pouca utilidade para os lusitanos deste Fórum. Desde o início ouvimos as histórias dos cinco séculos de encontros entre ventos e marés e como isso é um elemento importante para o relacionamento presente e futuro. Dando a imagem de um país em andropausa mal resolvida, em que ridículas maquilhagens dão um ar de modernidade a quem se vai limitando a ver nas estátuas o valor da sua própria vida, Portugal, autista, não ouviu, por exemplo, os moçambicanos a tratar por «camarada» a vice-primeira ministra Wu Yi, os angolanos chamarem «povo amigo» aos chineses ou os guineenses a lembrarem os tempos em que a China apoiou o movimento de libertação, como razão lógica para que apoie agora a manutenção do Estado que conquistaram com a luta armada. Acresce que muitos dos homens que, das mais variadas formas, combateram com o apoio chinês o colonialismo são agora governantes nos seus países. A China, no entanto, não sentiu necessidade de chamar a atenção para o já longo relacionamento histórico que também tem com estes países para justificar as suas pretensões actuais. E evitou o incómodo e deselegância que seria lembrar o apoio que deu numa luta armada contra, precisamente, um dos seus convidados. Infelizmente os políticos portugueses não perceberam em que águas se moviam e retomaram o assunto mesmo na sessão de encerramento, dando de si uma imagem de desfasamento em relação aos tempos em que vivemos. Portugal não precisava de ter dito naquele palco que vive «no âmbito específico da política de apoio ao desenvolvimento da União Europeia, seja ao nível da cooperação seja ao nível do quadro da política comercial».
Portugal apostou, pois, se não no insucesso, pelo menos na irrelevância do Fórum China/Países Lusófonos. Desconhecem-se, por enquanto, as reacções portuguesas ao inegável sucesso em que resultou o encontro, para efeitos de cooperação futura. A China chegou sabendo bem o que queria e, laboriosamente, construiu o acordo que vai beneficiar, seguramente, sete dos oito signatários do Acordo final.
Como se disse numa das intervenções finais, o Fórum produziu mais do que se esperava. Infelizmente, por inépcia do secretariado em Macau, os trabalhos e os resultados obtidos não tiveram o impacto desejado na comunicação social dos países envolvidos, muito menos na imprensa mundial. Assim se perdeu mais uma oportunidade de elevar o estatuto internacional da RAEM e dar do território uma imagem que vá além do jogo e do prazer. Obviamente, não bastava fazer publicar notas dizendo que os «Media adere (sic) em força ao Fórum», para que as atenções dos jornalistas se focassem no evento. É provável que essa forma de funcionar não se repita.

22.10.03

Havemos de voltar

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