A famigerada internacional
A questão da difusão da língua é de extrema importância quando se trata de preservar a presença duma cultura em territórios onde o idioma não é maternal. Vêem-se as preocupações e a ofensiva que todas as «mátrias» linguísticas põem no assunto.
Tome-se como exemplo o que a francofonia faz no mundo africano, onde chega ao ponto de transmitir por rádio para o lusófono e integrante da «Commonwealth» território de Moçambique durante as 24 horas do dia. Face a isto, muito bem, em tempo útil, Portugal decidiu avançar com os projectos da RDP África e RTP África. Esses são espaços que penetram nos países onde são recebidos, marcam a presença da lusofonia com critérios objectivos de divulgação da cultura portuguesa mas sempre com ligação e atenção às realidades locais.
Um dos produtos que bem retrata essa realidade é o «Músicas de África», bem produzido em Moçambique, que acaba por ter lugar na Grelha da RTP Internacional. A RDP África é um produto excelente, tendo em conta os meios que estamos habituados a ver disponibilizados por Portugal. Em ambos os projectos há uma ideia que se afirma (estejamos ou não de acordo com ela), e o facto de os mais avessos à liberdade de opinião vociferarem contra ela só atesta a sua utilidade – e recordo-me do episódio mais recente, quando as emissões da RDP África foram silenciadas na Guiné-Bissau. Mais remotamente, a saída apressada do delegado da RTP África de Maputo, após denunciar uma generalizada fraude no último acto eleitoral, em notícias que estavam a entrar em casa de todos os moçambicanos, é outro caso extremo.
Nestas páginas falamos do sucesso que os jovens estudantes que cantam no folhetim «Operação Triunfo» estão a ter em Cabo Verde. Esse é outro exemplo de como se podem produzir espectáculos em televisão que, não sendo de elevada elaboração conceptual, cumprem o papel do «entretenimento» sem tomar o espectador por estulto. Assim, a operação triunfou. Mas esse era um produto para consumo interno português, que se inseria na lógica da guerra de audiências, e que foi parar às «internacionais» porque sim, apenas.
No entanto não se irá aqui abordar mais aprofundadamente a questão da RTP Internacional por duas razões: em primeiro lugar porque é um tema que amiúde ocupa tanto as conversas da comunidade como espaço publicado; em segundo, porque estamos perante um problema de muito maior gravidade, que quase faz parecer a RTP Internacional um paraíso do audiovisual.
Na senda da atenção que os portugueses de Macau merecem dos responsáveis governamentais portugueses, deixámos de captar a Antena 1 da RDP para sermos contemplados com a inqualificável RDP Internacional.
Sem dizer água-vai, os (ir)responsáveis do serviço público português de radiodifusão decidiram substituir, apenas, o sinal que enviam para o satélite que cobre esta região. Por quê? Ignora-se, que os senhores não se deram ao luxo de explicar, fosse através do Consulado Geral fosse em nota aos órgãos de comunicação social. Mas mesmo isso não é tão mau como o que tentam enfiar-nos pelos ouvidos: indescritíveis vozes que não sabem se falam de manhã ou à tarde, a dizer durante a noite barbaridades que lhes assomam tipo acne aos neurónios (o «famigerado José Afonso»? Famigerado?!? E o que será Vexa? Misérrima múmia?), para redescobrirem temas musicais que se perderam na poeira do nacional cançonetismo com o tom de quem nos faz um favor enorme! Supõe-se que ninguém em Lisboa teve coragem de ouvir aquilo antes de decidir brindar-nos com o frete. Porque, se ouviu, é castigo. Mas, por quê? Que pecados aqui se cometeram?
Ninguém em estado próximo da vigília supõe que assim se divulga o que quer que seja, muito menos a inigualável lusofonia. Se há crise financeira, encerrem a RDP Internacional que a Antena 1 presta bem melhor o serviço.
15.07.03
Havemos de voltar
31.10.03
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