Há golpes e golpes
O golpe de Estado na Guiné-Bissau serve às mil maravilhas a quem pretender demonstrar o que é a real politic. A reacção da comunidade internacional ao golpe militar que depôs o inqualificável Kumba Ialá foi de condenação – e nem podia deixar de ser. Mandam as regras que assim se faça, e não passaria pela cabeça de ninguém ver os países desenvolvidos, os que têm que tomar posição sobre tudo, (nem os outros), dizer «Sim senhor, muito bem, apoiado». Portanto, foi com naturalidade que se viu a generalidade dos governos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa condenar o golpe comandado pelo general Correia Seabra, mas sempre contextualizando com um «não é de admirar». Por isso, não foi de espantar também que os Estados Unidos (cuja administração curiosamente voltou a atrasar-se na reacção), mais pragmáticos – e especialistas – nestas coisas de golpes, nem sequer se tenham dado ao trabalho de condenar: apenas apelaram aos militares para que devolvam o mais rapidamente possível o poder à sociedade civil, coisa que, de resto, o próprio general prometeu fazer antes mesmo que alguém o questionasse sobre a matéria. Ou seja: quem pode, dá a entender que este foi um golpe bom.
A maior diferença entre o golpe de Estado na Guiné-Bissau e o que de S. Tomé e Príncipe, ainda fresco na memória, é o lado em que estão os «bons». Claramente, a comunidade internacional deixou o sinal que golpes de Estado não são coisas que se façam, mas este, que já está feito, é melhor deixá-lo seguir caminho. De facto não se ouviu uma voz levantar-se para reclamar o regresso de Kumba Ialá ao poder. Pediu-se a reposição da legalidade constitucional, a manutenção (impossível) da data de 12 de outubro para a realização de eleições, a já citada devolução do poder aos civis – mas sobre Ialá, nada. E ainda bem.
De facto, se a política não fosse hipócrita, levaria a que se disse claramente que o golpe não só tinha toda a razão de ser como ainda bem que teve lugar. Ialá e os seus apaniguados preparavam-se para outro golpe de dimensões bem piores – a fraude eleitoral que os havia de manter no poder. Mas como nem assim a coisa estaria garantida, e já era de fartar vilanagem, houve quem pusesse cobro ao descalabro – por interesse próprio e da Nação.
O problema que aqui se levanta é o da qualidade das democracias. Não é original dizer-se que a democracia não é para ser exportada à moda ocidental para todos os países do Mundo. Não discutindo a superioridade da democracia, contesto a inevitabilidade do modelo ocidental – o que permitiu a Ialá chegar ao poder numa sociedade ainda mal refeita do consulado de Nino Vieira. E veio-me à memória o complexo problema argelino, onde os resultados eleitorais que guindaram ao poder os islamitas não foram aceites pelos derrotados, a começar pela ex-potência colonial.
Só por se pretender que tanto o princípio como o sistema que lhe vem colado deve ser aplicado em todo o Mundo onde os governos não sejam capitalistas é que se chega a situações como esta.
Esperança
O Brasil e a China, para falar apenas nos países que aqui nos são afins, celebraram vitória na cimeira de Cancun, onde a hipocrisia das nações desenvolvidas queria impor um acordo leonino aos países que lutam por se desenvolver.
No meio do muito ruído que a linguagem económica provoca percebeu-se que os poderosos queriam impor a abertura de mercados em todo o Mundo aos produtos agrícolas que produzem subsidiados, limitando ao mesmo tempo a possibilidade de esses países subsidiarem os produtos que têm necessidade de vender. Pior é saber que a abertura dos mercados, quando não convém, é letra morta – como se confere com o problema do aço para os Estados Unidos.
Lula da Silva falou alto e congratulou-se com a vitória que o G-21, dos mais pobres, teve sobre o G-8 mais uns. Deve ter-se atenção a este movimento e ao desempenho de Lula da Silva, que conseguiu congregar em torno de interesses comuns os países africanos e fazer abortar os objectivos que os ricos tinham apontado para a cimeira mexicana da OMC.
O presidente brasileiro ainda não foi a África para os contactos a que atribui importância fundamental – dificuldade políticas internas fizeram-no adiar para o próximo mês essa viajem. Mas começa a ver-se crescer um bloco alternativo neste mundo unipolar. Há sempre razões para acreditar.
18.09.03
Havemos de voltar
31.10.03
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