Abandono
Embora por estas paragens habituados a falar sozinhos (melhor, uns com os poucos outros que entendem, o que na prática é semelhante), e a deixar correr nas águas do delta, que passam no ocaso, os mais profundos desejos carregados desde a chegada (fala-se, pois, dos que alguma vez chegaram), aprendem também a perceber que há algo que dói muito, enquanto por cá se mantêm, a todos os que gostam de Portugal. Abandono, esquecimento, distanciamento desproporcional à distância, são sentimentos que aqui solidificam a cada notícia que chega, e principalmente com as que não chegam, de Portugal. Precisamente o oposto do sentimento que aqui incha nos que sem ele não sabem existir.
Sendo certo que não adianta usar os canais próprios para a função, pode ser, senhor Secretário de Estado, que por obra do destino, que parece ser o que verdadeiramente governa a lusa pátria, chegue agora a Lisboa alguma nova que dê ecos do Oriente. Como certamente foi obra do destino a honra (sincera) que a sua presença, e não outra, dá aos que aqui comemoram o Dia de Portugal.
O da Dia da Comunidade é que não parece que seja celebrado, a não ser que relembrando Portugal a comunidade se celebre. Poderá ser, se virmos o que a pátria dá e em contrapartida espera dos seus. Mas amanhã já nada se verá no fundo do rio - estas águas compactas ou afogam as promessas ou pelo peso da lama as não deixam flutuar.
Camões, esse, seguramente que sim, evocado, ruma-se à gruta, está garantido. Tendo em conta a pneumonia, pode mesmo dizer-se que em perigos esforçados. A guerra, essa, ficou para os da Nova Jérsia, já que foi por eles que Portugal se empenhou. Felizmente que o presidente local, reconheceu a contribuição extraordinária da comunidade piscatória local nas «conquistas em tecnologia, ciência e arte» do país. Ai dos outros, de cá e lá.
Assim, que cheguem a Portugal ecos de que a lusa fala por cá teima em não esmorecer, embora por ela pouco faça quem devia, muito se esforce quem lá calhou ter que nela trabalhar(oh! Destino!), e muito se deva aos investem para que ela persista.
Sendo uma data o que é, nada de substantivo dela se espera. Nada de substantivo chegará, pois.
Habituados a falar sem que ninguém entenda, ou entendendo faça que não alcança, ou alcançando faça que não ouviu, e mesmo ouvindo faça que não entenda, habituados a levar a sério apenas o que é para ser vivido, entregues a si e à memória, os portugueses em Macau não mereciam o que a pátria lhes dá em troca do que aqui representam.
10.06.03
Havemos de voltar
31.10.03
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