31.10.03

Comunidades de interesses

Assinalou-se no passado domingo o Dia de África. Por todo o Continente iniciativas mais ou menos importantes assinalaram a efeméride – o 25 de Maio celebra o nascimento, há precisamente 40 anos, em Adis Abeba, da Organização de Unidade Africana (OUA). O objectivo longínquo, e nunca alcançado, era de unidade entre os povos, num momento em que se revelava já irreversível o movimento de independência dos países africanos.
Não só essa unidade não se verificou como se seguiu um período em que dois factores fundamentais (um interno, outro externo) lançaram o continente num turbilhão de conflitos que o mantêm maioritariamente em condições miseráveis.
A uma apetência voraz das potências pelas inesgotáveis riquezas do Continente Negro correspondeu um período em que a divisão do Mundo em dois blocos se foi reflectir um pouco por toda a África. Mas seria errado não atribuir a características próprias dos povos africanos outra tão grande responsabilidade no que se passou.
Na celebração do Dia de África em 2003 não se celebrou já o aniversário da OUA. A organização foi substituída por uma outra, num processo que implicou o reconhecimento por parte dos políticos africanos da falência da velha OUA. Não foi na forma de organização que esteve a origem do insucesso da organização, como não está na cópia mais ou menos adaptada da União Europeia que a actual União Africana (UA) constitui, o segredo do sucesso desta nova aposta.
Relativamente à UA é maior a reserva que a confiança. Curiosamente, a discussão que se trava no seio da organização – e que estará no centro das discussões que serão tidas no próximo mês de julho em Maputo –, é a criação de uma força de Paz africana. Como a congénere europeia, a UA sabe que é por aí que pode começar a estabilidade regional.
Thabo M’beki, presidente sul-africano e simultaneamente da UA, na cerimónia festiva em que se evocou o Dia de África, falou no «demónio do tribalismo» como o principal inimigo a combater. Sabe do que fala, o presidente sul-africano, com problemas desse nível no imenso território que governa. Um pouco por toda a África austral se encontram fenómenos semelhantes, quase sempre criminosamente instilados por líderes sequiosos de riqueza e alimentados por interesses económicos fortíssimos. Um fenómeno que na Europa tem o nome mais pomposo de «conflito étnico».
Tal como a União Europeia, demasiado pesada e dividida em interesses e culturas que se espalham pela sua vastidão, a África dificilmente conseguirá encontrar na UA a resposta para os problemas que a afectam. A questão terá que ser resolvida ao nível regional. Nesse aspecto, Angola deu um excelente exemplo quando, apesar (e também por causa) da situação de guerra interna que vivia, soube intervir na Namíbia, mas sobretudo no Congo, para pacificar a região. Os problemas não estão completamente solucionados, mas não constituem o foco de instabilidade que já foram.
Assim, a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) pôde avançar numa série de medidas que constituem o embrião de uma organização regional que poderá fazer toda a diferença naquela zona de África. É, portanto, em torno de interesses mais restritos e por isso de comunhão mais fácil que se poderão encontrar fórmulas para solucionar problemas bicudos. Aí, mais que a errante Comunidade de Países de Língua Portuguesa, os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, são mais uma solução, já não regional mas de interesse comum, para muitas questões deste início de século.

27.05.03

Havemos de voltar

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