31.10.03

Plataforma

Rita Santos, Coordenadora do Gabinete para o Forum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa, escolheu Portugal para esclarecer a filosofia organizativa do evento: «a República Popular da China entendeu que Macau pode ser a plataforma de entendimento para a internacionalização empresarial chinesa e o pólo prestador de serviços de intercâmbio que tem como principal vantagem o domínio da língua portuguesa». Ainda Rita Santos realçou, em Lisboa, que «os países de língua oficial portuguesa estão espalhados pelos quatro cantos do mundo, possuem grandes reservas de recursos naturais e constituem um mercado com mais de 200 milhões de pessoas que (...) apresentam uma maior complementaridade com o desenvolvimento económico da República Popular da China». Ao mesmo tempo, também na capital portuguesa, uma «fonte oficial», deu à agência LUSA a filosofia económica: «a China quer investir em infra-estruturas em Angola e Moçambique em troca da exploração de recursos naturais dos dois países».
Estes três factos, constantes de um único despacho da agência oficial portuguesa, têm (entre outros) o mérito de aclarar algumas questões: embora se realize em Macau, é através de Portugal que a comunidade lusófona fica a saber dos objectivos chineses para o Forum; como se suspeitava, Angola e Moçambique são os alvos desta investida, ficando os restantes Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) a compor um ramalhete onde Portugal só pode fazer de jarra (o Brasil é de outro campeonato); a China, sabendo do que necessita, sabe também do que precisam agora Angola e Moçambique, vislumbrando-se, portanto, uma troca justa, em vez dos contratos tão leoninos quanto envoltos em negócios obscuros que envolvem, por exemplo, a exploração petrolífera. Repita-se: trata-se de aclarar, sublinhar apenas o são conceitos conhecidos, embora nem sempre assumidos.
Convém, assim, lembrar, que a China já tem interesses económicos, precisamente em áreas vitais dos PALOP, servindo de exemplo o abastecimento de água no arquipélago de Cabo Verde. Para Angola, a China representa já acima de 22 por cento das exportações, mais que a União Europeia no seu conjunto.
Os pressupostos, papéis e áreas de intervenção económica na relação entre a China e os PALOP estão, portanto, claras.
Mas, oficialmente, a ida de Rita Santos a Lisboa foi para «incentivar os empresários portugueses» a estabelecer parcerias com os investidores chineses, supõe-se que nos ditos PALOP. Sabendo-se das relações, melhor ou pior sucedidas, dos empresários e do Estado português com a África lusófona, esta ideia surge, pois, peregrina. Faria mais sentido essas parcerias serem dos empresários de Macau. E, para dar sentido ao extenso nome do Forum, teria sido lógico ouvir anunciar iniciativas de cooperação da China com Portugal.

20.05.03

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