Papas e bolos
Há um equívoco na Festa da Lusofonia que se anunciou para daqui a duas semanas em Macau.
Pelas características divulgadas, que afirmam taxativamente ser a gastronomia a «componente fundamental» da festa, há razões de inquietação. Tendo em conta uma elementar regra de boa educação, que aconselha a não falar de boca cheia, então teremos uma festa, provavelmente, da lusitanidade, ou da diáspora lusófona, mas não da lusofonia. A não ser que se considere o acto de encomendar as iguarias, que representarão excelentemente todo o espaço lusófono, como o momento de expressão da lusofonia.
Não está em causa a bondade da organização, nem sequer a justeza da opção: não é exclusivo de Macau a opção institucional pelas mais populares formas de expressão cultural. Em Portugal houve mesmo um (agora) presidente de importante Câmara que se fez eleger defendendo que cultura eram as bandas no coreto e pouco mais.
Muito provavelmente o programa anunciado é mesmo aquele que arrasta mais «lusófonos» ao espaço destinado ao arraial, o que certamente pesou consideravelmente na opção dos responsáveis. Mas, simultaneamente, aponta para uma distracção que, se não provoca a morte, pelo menos faz desaparecer o artista.
É este o equívoco: celebrar a lusofonia não é implantar uma feira de matraquilhos e barracas de comes e bebes, para encher o papo no intervalo do bailarico. Isso, além de um insulto à vasta cultura do espaço lusófono, é uma demonstração de que nem ao conceito de lusofonia se prestou atenção. Mesmo o mais erudito dos eventos anunciados, a exposição de arte religiosa, além de se revelar beatificamente mudo, traz-nos peças chinesas e japonesas!
Não cabe aqui o lamento lamecha e lusitano pelo quanto maltratam a língua. A defesa da lusofonia faz-se activamente, praticando-a, divulgando-a no que tem de mais belo e único – essa possibilidade de em todos os continentes lermos, ouvirmos, escrevermos e sermos entendidos. E querermos criar cumplicidades entre nós. E falarmos com os outros do que é de uns e assim transformá-lo em de todos. Mas falarmos do que fica, do que pode ser herdado, do que faz a história e, portanto, a identidade de todos os que falam em português.
Também não cabe aqui discutir se os lusos, em Macau, fizeram, ou fazem, o que lhes competia pela lusofonia – embora numa festa da lusofonia essa discussão tivesse todo o cabimento.
É no equívoco do que é a celebração da lusofonia que reside, pois, o problema. Um equívoco que poderia ter sido evitado se tivesse sido posto cuidado na elaboração do conceito. Porque é mesmo de cuidado, muito cuidado, em todo o lado, que a tão frágil, maltratada e abandonada lusofonia necessita.
03.06.03
Havemos de voltar
31.10.03
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