Em dois mundos que nos tocam está lançado o debate sobre democracia. Por razões diferentes, em Portugal e em Hong Kong se discute democracia. Curiosamente, onde ela se encontra implantada na sua fórmula mais comum nestes tempos, clama-se contra a qualidade que não tem; onde formalmente não existe, exercem-se democraticamente práticas reivindicativas e expressão livre de opinião favorável à aproximação àquele modelo.
Num e noutro lado se extremam posições e se usa a manipulação da realidade para obter o objectivo que os junta: uma melhor democracia. Claramente, o objectivo de José Saramago ao lançar a polémica sobre a qualidade da democracia vai no sentido de a aproximar daquilo que os regimes socialistas propõem e o escritor professa: a possibilidade de outros argumentos, além dos económicos, vingarem no acesso e exercício do poder.
As democracias ocidentais estão reféns do poder económico e nem o voto popular o consegue refrear. As aberrações legislativas que Silvio Berlosconi tem vindo a produzir para evitar condenações judiciais são disso exemplo. O poder de comunicação que ele mantém através do seu império de comunicação social é sem dúvida um factor de disfunção democrática. Se se critica o controlo absoluto e a manipulação que as ditaduras exercem sobre os órgãos de comunicação social, o que dizer da impossibilidade de qualquer intervenção numa televisão que é privada? A atestar que esse não é caso isolado recorde-se, apenas, a afirmação de Emídio Rangel, nos primórdios da portuguesa SIC, que o todo poderoso director considerou ser capaz de eleger um presidente da República.
Dêem-se os moderados, apesar de graves, exemplos europeus, para não voltar ao inadjectivável Bush, eleito apesar de ter obtido menos votos que o adversário eleitoral, para tripudiar sobre direitos humanos e liberdades individuais, interna e externamente, ao mesmo tempo que alardeia desavergonhadamente princípios que de todo lhe escapam. A «democrática» luta para impôr à força uma «democracia» num país soberano, que acaba por resultar no aumento exponencial do terrorismo que supostamente queria combater, é bastante para que se conclua ser necessário e urgente o tratamento das democracias ocidentais. Como disse o social-democrata Miguel Veiga, a propósito do livro de Saramago, a democracia está sujeita a «perturbantes derivas, que é preciso corrigir», antes que esta rota a fira de morte.
Em Hong Kong, as legítimas aspirações dos democratas conhecem livremente expressão numa comunicação social que se supõe controlada por um poder adjectivado pejorativamente de «pró-Pequim», onde se noticia, com manifesto exagero e óbvia intenção, a morte do princípio «um País, dois sistemas».
De resto essa mesma comunicação social, como as liberdades individuais e colectivas de manifestação, são utilizadas para fazer passar a ideia de que o poder central está a usurpar direitos que não tem. A interpretação que o comité permanente da Assembleia Nacional Popular fez da Lei Básica de Hong Kong foi equilibrada. Não é preciso ser-se doutor de leis para perceber que em lado nenhum da «mini-constituição» da RAEHK aparece escrito que tem que haver eleições directas e universais já em 2007, como também nunca surge que tal não é possível. Foi isso que os legisladores clarificaram.
Na mais desconfortável questão da necessidade de aval prévio de Pequim a qualquer alteração na eleição do Chefe do Executivo, essa é, de facto, uma leitura plausível do que ingleses e chineses deixaram escrito. Já na eleição do Conselho Legislativo o caso é diferente e aparece diferentemente tratado na Lei Básica – como foi diferentemente interpretado pelos mais de 170 legisladores de Pequim.Assim, a questão da interpretação da Lei Básica de Hong Kong volta ao terreno em que, de facto, se joga: o político. Está tudo em aberto, tudo é possível. O governo central deu provas de abertura política ao admitir, expressamente, que 2007 pode ser o ano em que alterações podem ter efeito. Assim os democratas têm terreno, à luz da interpretação de Pequim, para forçar em Hong Kong passos no sistema eleitoral que conduzam a eleições directas e universais para o Conselho Legislativo. É no terreno político que isso se vai jogar. Falta conhecer a capacidade de mobilização e poder de intervenção que os democratas têm agora que não já se pode atribuir o descontentamento popular às dificuldades económicas.
Havemos de voltar
26.6.04
24.6.04
Portugal a ganhar
1
Houve quem contestasse o seleccionador da equipa de Portugal que participa no Campeonato da Europa de Futebol por ter uma espinha na garganta, que dá pelo nome de Vitor Baía. Ao fim e ao cabo as coisas correram bem e as vozes de contestação estão caladas à espera da oportunidade para voltarem às cobras e lagartos em relação a Luiz Felipe Scolari. Ninguém duvide de que elas voltariam a ouvir-se na eventualidade de Portugal ser eliminado pela Inglaterra no jogo que se segue. Terão, no entanto que reter o fel, porque antes das meias finais não terão espaço para o despejar. Mesmo depois é um caso a ver, já que provavelmente Portugal atinge a final (depois dos ingleses as perspectivas de adversários nas «meias» não são de molde a desanimar). Isto pela análise da evolução das prestações já neste campeonato e não pelas habituais candidaturas prenunciadas. O que se tem visto confirma, efectivamente, Portugal como um sério candidato à final.
2
Entretanto, consta que vai uma febre de nacionalismo em Portugal, traduzida num inusitado exibir do estandarte, sobretudo. Tudo motivado por um estridente apelo do brasileiro Scolari, de pronto correspondido pelo povo. O que merece referência não só pelo facto de, em todos os momentos, o brasileiro falar como se de um português se tratasse, como por fazê-lo com toda a convicção – até à extrema, mas justificada, de ter aconselhado um humorista espanhol a ir «tomar no cu» em vez de o importunar com idiotices. Luiz Felipe Scolari encarna o espírito universalista dos portugueses, de resto espelhado na selecção, onde têm lugar jogadores com origens ou nascimento em África, América e em outros países europeus. Os que sentem legitimamente a selecção portuguesa como sua são muitos mais no Mundo do que aqueles que têm raízes ou interesses em Portugal, o que é notável.
3
No fim do jogo entre Portugal e Espanha, quando se abordava precisamente a questão de como a vitória portuguesa era vivida nos quatro cantos do Mundo, espantosamente, surgiu Macau. A frase foi, aproximadamente, «esta festa a que aqui assistimos continua em todo o lado. E há mesmo gente que deixa de dormir para ficar a acompanhar os jogos, que neste momento também está a festejar, como em Macau». Disse-a Toni, na Antena 1 – um português que passou por cá recentemente sem estar distraído e que, portanto, se lembra do que é importante nos momentos em que a lembrança é sinónimo de consideração. Enorme, Toni.
4
Noutra competição europeia, a corrida pela presidência da Comissão Europeia, entrou um «outsider» que pode vir a ser o vencedor surpresa. Durão Barroso, primeiro ministro português, tem tudo para ser o eleito: é primeiro ministro de um dos pequenos dos 25; da família política conservadora, que venceu as recentes eleições para o Parlamento Europeu; tem o apoio da Inglaterra, e Tony Blair, que terá sido quem aventou o nome, terá as suas razões, apesar de ser(?) de outra corrente política; e fala francês fluentemente, o que é condição sine qua non para o presidente François Miterrand. Encontrado o sucessor de Romano Prodi? Não.
Não que o problema seja uma eventual falta de capacidade de liderança, ausência de projecto político para a Europa, ou inexistência de mérito intelectual ou académico. O óbice é que, qual Wally que requer toda a atenção para ser descoberto, há fotografias da «cimeira da guerra» nos Açores em que se esforçou por aparecer. Esse é o argumento usado pelo chefe de governo espanhol para se opor à nomeação, embora os inaceitáveis comentários feitos sobre decisões do governo espanhol e o seu envolvimento no Iraque devam ainda estar frescos na memória de José Luís Zapatero.
Eis como, a aventura iraquiana ainda vai tendo consequências políticas para quem nela se meteu, com prejuízo tanto dos responsáveis como mesmo daqueles que pouca culpa têm. No caso, para os portugueses, que se veriam livres de Durão Barroso num passe de mágica – a sair o primeiro ministro, e após a derrota eleitoral que sofreu a coligação que lidera, seriam de prever eleições antecipadas; para o próprio Durão, que assim arranjava uma saída airosa para o berbicacho em que está metido; e para a própria Comissão Europeia, que continua enredada em teias que levam ao descrédito junto dos povos da União. Esperemos que Durão vá presidir à Comissão: ganhava ele, ganhava Portugal e à Europa não havia de ir mal maior.
Havemos de voltar
Houve quem contestasse o seleccionador da equipa de Portugal que participa no Campeonato da Europa de Futebol por ter uma espinha na garganta, que dá pelo nome de Vitor Baía. Ao fim e ao cabo as coisas correram bem e as vozes de contestação estão caladas à espera da oportunidade para voltarem às cobras e lagartos em relação a Luiz Felipe Scolari. Ninguém duvide de que elas voltariam a ouvir-se na eventualidade de Portugal ser eliminado pela Inglaterra no jogo que se segue. Terão, no entanto que reter o fel, porque antes das meias finais não terão espaço para o despejar. Mesmo depois é um caso a ver, já que provavelmente Portugal atinge a final (depois dos ingleses as perspectivas de adversários nas «meias» não são de molde a desanimar). Isto pela análise da evolução das prestações já neste campeonato e não pelas habituais candidaturas prenunciadas. O que se tem visto confirma, efectivamente, Portugal como um sério candidato à final.
2
Entretanto, consta que vai uma febre de nacionalismo em Portugal, traduzida num inusitado exibir do estandarte, sobretudo. Tudo motivado por um estridente apelo do brasileiro Scolari, de pronto correspondido pelo povo. O que merece referência não só pelo facto de, em todos os momentos, o brasileiro falar como se de um português se tratasse, como por fazê-lo com toda a convicção – até à extrema, mas justificada, de ter aconselhado um humorista espanhol a ir «tomar no cu» em vez de o importunar com idiotices. Luiz Felipe Scolari encarna o espírito universalista dos portugueses, de resto espelhado na selecção, onde têm lugar jogadores com origens ou nascimento em África, América e em outros países europeus. Os que sentem legitimamente a selecção portuguesa como sua são muitos mais no Mundo do que aqueles que têm raízes ou interesses em Portugal, o que é notável.
3
No fim do jogo entre Portugal e Espanha, quando se abordava precisamente a questão de como a vitória portuguesa era vivida nos quatro cantos do Mundo, espantosamente, surgiu Macau. A frase foi, aproximadamente, «esta festa a que aqui assistimos continua em todo o lado. E há mesmo gente que deixa de dormir para ficar a acompanhar os jogos, que neste momento também está a festejar, como em Macau». Disse-a Toni, na Antena 1 – um português que passou por cá recentemente sem estar distraído e que, portanto, se lembra do que é importante nos momentos em que a lembrança é sinónimo de consideração. Enorme, Toni.
4
Noutra competição europeia, a corrida pela presidência da Comissão Europeia, entrou um «outsider» que pode vir a ser o vencedor surpresa. Durão Barroso, primeiro ministro português, tem tudo para ser o eleito: é primeiro ministro de um dos pequenos dos 25; da família política conservadora, que venceu as recentes eleições para o Parlamento Europeu; tem o apoio da Inglaterra, e Tony Blair, que terá sido quem aventou o nome, terá as suas razões, apesar de ser(?) de outra corrente política; e fala francês fluentemente, o que é condição sine qua non para o presidente François Miterrand. Encontrado o sucessor de Romano Prodi? Não.
Não que o problema seja uma eventual falta de capacidade de liderança, ausência de projecto político para a Europa, ou inexistência de mérito intelectual ou académico. O óbice é que, qual Wally que requer toda a atenção para ser descoberto, há fotografias da «cimeira da guerra» nos Açores em que se esforçou por aparecer. Esse é o argumento usado pelo chefe de governo espanhol para se opor à nomeação, embora os inaceitáveis comentários feitos sobre decisões do governo espanhol e o seu envolvimento no Iraque devam ainda estar frescos na memória de José Luís Zapatero.
Eis como, a aventura iraquiana ainda vai tendo consequências políticas para quem nela se meteu, com prejuízo tanto dos responsáveis como mesmo daqueles que pouca culpa têm. No caso, para os portugueses, que se veriam livres de Durão Barroso num passe de mágica – a sair o primeiro ministro, e após a derrota eleitoral que sofreu a coligação que lidera, seriam de prever eleições antecipadas; para o próprio Durão, que assim arranjava uma saída airosa para o berbicacho em que está metido; e para a própria Comissão Europeia, que continua enredada em teias que levam ao descrédito junto dos povos da União. Esperemos que Durão vá presidir à Comissão: ganhava ele, ganhava Portugal e à Europa não havia de ir mal maior.
Havemos de voltar
9.6.04
Especificidade
O que significa a tantas vezes utilizada expressão da especificidade de Macau? A palavra é horrível e os conceitos que se lhe associam, geralmente, são como um capote para abrigar todos os rotos. Nos últimos dias, na comunicação social, surgiram opiniões que demonstram como Macau é, sobretudo, única.
A importante entrevista que o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau, Wan Yongxiang, deu ontem à agência portuguesa de notícias dá uma visão sobre o assunto. Diz o representante da China na RAEM que o governo central «constata com satisfação» que a comunidade portuguesa «tem apoiado o trabalho do Governo da Região Administrativa Especial de Macau e se tem dedicado activamente a promover a prosperidade e o desenvolvimento local». Disse-o, certamente, em português. O facto de Wan Yongxiang dominar a língua portuguesa terá, de resto, sido determinante para a sua nomeação para o cargo que ocupa. Sendo capaz de compreender qualquer conversa, ler a opinião ou ouvir as notícias em português, o responsável pela ligação do governo de Pequim ao de Macau sabe do que fala e faz questão de o dizer em nome do executivo que serve.
Não passa pela cabeça a ninguém que estas sejam palavras de circunstância, muito menos apenas um instrumento para levar a bom porto a política económica de penetração da China nos mercados dos países lusófonos. O entendimento que o ex-diplomata chinês no Brasil tem é de vistas largas e coração aberto.
O futuro não se constrói com ressabiados, mas com quem está seguro da força que possui – e quando em si mesmo encontra fraquezas (como todos), faz do trabalho e do estudo o caminho para o aperfeiçoamento. Assim, nunca perdendo a identidade, enriquece-a.
Diz na mesma entrevista o o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau que uma candidatura de Edmund Ho a um segundo mandato «terá o apoio da maioria da população». O que não sendo novidade vale pelo facto de o Chefe do Executivo ter, e sobretudo praticar, uma política baseada exactamente nos mesmos princípios que Wan Yongxiang enumera.
Esperemos que a entrevista de Wan Yongxiang seja difundida pela comunicação social em chinês com o destaque que merece. Podendo inferir que os conceitos nela expressos merecem aprovação tão geral entre a população de Macau, seria bom que isso assim ficasse expresso, por via das ovelhas ranhosas do costume. Ora aí etá a especificidade de Macau, versão 1.
A propósito da realização em Pequim de um seminário na área económica que resulta da realização em Macau do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa que teve lugar em outubro passado, o embaixador da República de Angola na capital chinesa, em entrevista à Rádio Macau, estava exultante pelo «fruto» que a iniciativa representa e não poupou elogios à «grande cidade». A Macau – onde volta com alegria por o cargo desempenha em Pequim lhe proporcionar o regresso a uma terra onde se sente bem. Desculpe-se-me o facto de me referir agora a um trabalho onde estive directamente envolvido, mas a forma como o embaixador João Bernardo reagiu a um telefonema em que, sem sair da China, falava na sua língua e tinha quem o ouvisse e estivesse interessado no que tinha para dizer, merece referência. É isso Macau no século XXI – uma cidade (perdida na sempre longínqua Ásia, integrada na imensidão da China), muito maior que si própria e que tudo o que sobre ela se possa dizer. É do tamanho da alegria dos homens, e essa não se mede. Em versão 2, mais que especificidade.
Não é muito conhecido o trabalho cívico do médico Fong Man Tat, pelo menos nos meios que nos são mais próximos, mas merece toda a atenção. O líder da Associação para a Construção de Macau, que se sabe ter sido candidato e não eleito para a Assembleia Legislativa, surgiu com propostas muito concretas para a construção de uma sociedade mais participativa na RAEM. O facto de ter feito propostas de participação, evolução do sistema político, instituição de métodos de observação social antes de reclamar o rótulo de democrata (ou qualquer outro), merece aplauso. De facto, a Fong Man Tat parece interessar a evolução da sociedade e do sistema (ou a construção de Macau, como indica o nome da Associação que lidera) e não o título de campeão das democracias e liberdades liberais.
Com as palavras inteiras defendeu a articulação com o poder central para que, num prazo relativamente dilatado de tempo (2013), se possa no território exercer universalmente o direito de voto em partidos legalmente instituidos. Politicamente a estratégia é acertada e provavelmente dará muito melhores frutos que outras de confrontação e reivindicações a raiar o separatismo dubiamente legitimado. O que merece ovação. Embora ter razão antes do tempo, em política, é erro que se paga com a derrota no imediato, a decência e honestidade intelectual são valores que acabam por dar frutos. Por oposição ao «grande irmão» que mora do outro lado do Rio, esta é a melhor especificidade que Macau pode reclamar para si.
Havemos de voltar
A importante entrevista que o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau, Wan Yongxiang, deu ontem à agência portuguesa de notícias dá uma visão sobre o assunto. Diz o representante da China na RAEM que o governo central «constata com satisfação» que a comunidade portuguesa «tem apoiado o trabalho do Governo da Região Administrativa Especial de Macau e se tem dedicado activamente a promover a prosperidade e o desenvolvimento local». Disse-o, certamente, em português. O facto de Wan Yongxiang dominar a língua portuguesa terá, de resto, sido determinante para a sua nomeação para o cargo que ocupa. Sendo capaz de compreender qualquer conversa, ler a opinião ou ouvir as notícias em português, o responsável pela ligação do governo de Pequim ao de Macau sabe do que fala e faz questão de o dizer em nome do executivo que serve.
Não passa pela cabeça a ninguém que estas sejam palavras de circunstância, muito menos apenas um instrumento para levar a bom porto a política económica de penetração da China nos mercados dos países lusófonos. O entendimento que o ex-diplomata chinês no Brasil tem é de vistas largas e coração aberto.
O futuro não se constrói com ressabiados, mas com quem está seguro da força que possui – e quando em si mesmo encontra fraquezas (como todos), faz do trabalho e do estudo o caminho para o aperfeiçoamento. Assim, nunca perdendo a identidade, enriquece-a.
Diz na mesma entrevista o o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau que uma candidatura de Edmund Ho a um segundo mandato «terá o apoio da maioria da população». O que não sendo novidade vale pelo facto de o Chefe do Executivo ter, e sobretudo praticar, uma política baseada exactamente nos mesmos princípios que Wan Yongxiang enumera.
Esperemos que a entrevista de Wan Yongxiang seja difundida pela comunicação social em chinês com o destaque que merece. Podendo inferir que os conceitos nela expressos merecem aprovação tão geral entre a população de Macau, seria bom que isso assim ficasse expresso, por via das ovelhas ranhosas do costume. Ora aí etá a especificidade de Macau, versão 1.
A propósito da realização em Pequim de um seminário na área económica que resulta da realização em Macau do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa que teve lugar em outubro passado, o embaixador da República de Angola na capital chinesa, em entrevista à Rádio Macau, estava exultante pelo «fruto» que a iniciativa representa e não poupou elogios à «grande cidade». A Macau – onde volta com alegria por o cargo desempenha em Pequim lhe proporcionar o regresso a uma terra onde se sente bem. Desculpe-se-me o facto de me referir agora a um trabalho onde estive directamente envolvido, mas a forma como o embaixador João Bernardo reagiu a um telefonema em que, sem sair da China, falava na sua língua e tinha quem o ouvisse e estivesse interessado no que tinha para dizer, merece referência. É isso Macau no século XXI – uma cidade (perdida na sempre longínqua Ásia, integrada na imensidão da China), muito maior que si própria e que tudo o que sobre ela se possa dizer. É do tamanho da alegria dos homens, e essa não se mede. Em versão 2, mais que especificidade.
Não é muito conhecido o trabalho cívico do médico Fong Man Tat, pelo menos nos meios que nos são mais próximos, mas merece toda a atenção. O líder da Associação para a Construção de Macau, que se sabe ter sido candidato e não eleito para a Assembleia Legislativa, surgiu com propostas muito concretas para a construção de uma sociedade mais participativa na RAEM. O facto de ter feito propostas de participação, evolução do sistema político, instituição de métodos de observação social antes de reclamar o rótulo de democrata (ou qualquer outro), merece aplauso. De facto, a Fong Man Tat parece interessar a evolução da sociedade e do sistema (ou a construção de Macau, como indica o nome da Associação que lidera) e não o título de campeão das democracias e liberdades liberais.
Com as palavras inteiras defendeu a articulação com o poder central para que, num prazo relativamente dilatado de tempo (2013), se possa no território exercer universalmente o direito de voto em partidos legalmente instituidos. Politicamente a estratégia é acertada e provavelmente dará muito melhores frutos que outras de confrontação e reivindicações a raiar o separatismo dubiamente legitimado. O que merece ovação. Embora ter razão antes do tempo, em política, é erro que se paga com a derrota no imediato, a decência e honestidade intelectual são valores que acabam por dar frutos. Por oposição ao «grande irmão» que mora do outro lado do Rio, esta é a melhor especificidade que Macau pode reclamar para si.
Havemos de voltar
1.6.04
O amigo do lixo
Cansa o lixo que nos entra todos os dias pelos sentidos adentro sem que possamos fazer grande coisa para o evitar.
Custa mais, em primeiro lugar, aquele que nos invade a casa. De entre esse o que nos chega por correio.
No eletrónico, com amigos que não destinguem o cantar do rachar lenha e nos enviam todo o tipo de conspurcações anunciadas como fabulosas, divertidíssimas ou espectaculares. Não são parcos na adjectivação, sempre superlativos, grandiloquentes e idiotas. É incrível como aqueles envelopes que recebiamos há uns anos com uma moedinha dentro, obrigando a que se dactilografasse 10 exemplares iguais, pedindo graças a nossa senhora dos biscoitos, sob pena de nos cair um raio fulminante na primeira esquina foram substituidos por igualíssimas mensagens, invocando são laparoto, agora para reenviar a outros tantos ou mais cabalístico número de destinatários, pendendo a ameaça de um qualquer vírus sobre nós em caso de falha. Incrível é como gente que fez estudos se enreda nisso, disseminando estultícia. Imagino-os em furiosos ‘forwards’ de tacha arreganhada como os pobre de espírito.
Irrita mais, muito mais, esse que o lixo electrónico de quem quer vender viagra, um diploma, renegociações de crédito ou simplesmente o céu. Esses não são nossos amigos e hão-de, seguramente, querer testar se do outro lado da rede estará um papalvo.
Irrita e não se desculpa, que o governo da RAEM não legisle sobre publicidade, no sentido de penalizar quem, sem nos conhecer de lado nenhum, se digna enfiar na nossa caixa do correio promoções a um qualquer produto. Entre esses há um que é de supina desfaçatez: endereça o correio com destino ao «Pizza Hut Fan» e não se coíbe de lhe apor a nossa morada. Ídolos, se os tivermos, escolhemo-os (ainda que depois nos desiludam). Isto é falta de educação e abuso de confiança. Dá-se mesmo o caso de muitos de nós não só não metermos o dente em produtos de tal consistência como alguns sermos mesmo militantes da «slow food». Quem raio é o senhor Hut para estas confianças?
Em sociedades avançadas há leis que protegem os cidadãos de tais avanços: pespega-se um autocolante na caixa do correio a dizer que ali só entra quem estiver convidado, e quem abusar sofre as consequências. Lá chegaremos nesta terra que dá sinais de ir seguindo bons caminhos.
Entre o lixo que nos assalta o domicílio avulta o televisivo - mas para esse estamos avisados. Menos alertas são lançados para a estrumeira musical, tipo letra minha e música do meu mano, como vem de antanho. Do mesmo tempo em que o acompanhamento à viola fazia distraír do chorrilho de banalidades oferecidas em embrulho de celofane antes e depois da execução musical. Claro que são muito giros e há sempre cliente pronto a bajular, assim se vai andando. Para ambos, felizmente, há o botão de desligar, ou a opção de mudar, que nos descansa.
Mais simples ainda é evitar prosas bafientas e conceitos desfazados que também vão polulando.
Já depois de sair à rua são menos as possibilidades de escapar ao lixo. Aos que nos aflige as narinas, entope poros, viola os olhos, agride os tímpanos. O do ambiente, que carece de protecção mais eficaz.
Há também a trampa que, sendo visual, reside no gosto que se cultiva, e portanto lesa o espírito. Muitos anos hão-de passar até que as montras – e por extensão quem delas se veste – consiga encontrar um equilíbrio pacífico entre a pataca e o cor-de-rosa debruado, o yuan e o verde-alface canelado, o dólar de Hong Kong e o sapato douradamente afilado, quando não rematado por um canelão que nem os póneis. É de crer que faltam espelhos em Macau, tal a voracidade estilista das nossas piranhas ambulantes.
No capítulo do lixo que não provoca pesadelos, mas dor de alma, é o própriamente dito. A garrafa que vai pró saco quando devia ser reciclada, a lata que vai pró balde e idem, o papel que igualmente e aspas. Sabendo a apetência local pelo funcionalismo público e a proverbial e bem divulgada preocupação do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais com as questões do ambiente, não seria altura de ser instituido o – podem usar o nome à borla – «Departamento de Separação de Resíduos Conforme a Sua Natureza Orgânica», para promover a recolha selectiva de resíduos sólidos urbanos? Até a Natureza agradecia.
Havemos de voltar
Custa mais, em primeiro lugar, aquele que nos invade a casa. De entre esse o que nos chega por correio.
No eletrónico, com amigos que não destinguem o cantar do rachar lenha e nos enviam todo o tipo de conspurcações anunciadas como fabulosas, divertidíssimas ou espectaculares. Não são parcos na adjectivação, sempre superlativos, grandiloquentes e idiotas. É incrível como aqueles envelopes que recebiamos há uns anos com uma moedinha dentro, obrigando a que se dactilografasse 10 exemplares iguais, pedindo graças a nossa senhora dos biscoitos, sob pena de nos cair um raio fulminante na primeira esquina foram substituidos por igualíssimas mensagens, invocando são laparoto, agora para reenviar a outros tantos ou mais cabalístico número de destinatários, pendendo a ameaça de um qualquer vírus sobre nós em caso de falha. Incrível é como gente que fez estudos se enreda nisso, disseminando estultícia. Imagino-os em furiosos ‘forwards’ de tacha arreganhada como os pobre de espírito.
Irrita mais, muito mais, esse que o lixo electrónico de quem quer vender viagra, um diploma, renegociações de crédito ou simplesmente o céu. Esses não são nossos amigos e hão-de, seguramente, querer testar se do outro lado da rede estará um papalvo.
Irrita e não se desculpa, que o governo da RAEM não legisle sobre publicidade, no sentido de penalizar quem, sem nos conhecer de lado nenhum, se digna enfiar na nossa caixa do correio promoções a um qualquer produto. Entre esses há um que é de supina desfaçatez: endereça o correio com destino ao «Pizza Hut Fan» e não se coíbe de lhe apor a nossa morada. Ídolos, se os tivermos, escolhemo-os (ainda que depois nos desiludam). Isto é falta de educação e abuso de confiança. Dá-se mesmo o caso de muitos de nós não só não metermos o dente em produtos de tal consistência como alguns sermos mesmo militantes da «slow food». Quem raio é o senhor Hut para estas confianças?
Em sociedades avançadas há leis que protegem os cidadãos de tais avanços: pespega-se um autocolante na caixa do correio a dizer que ali só entra quem estiver convidado, e quem abusar sofre as consequências. Lá chegaremos nesta terra que dá sinais de ir seguindo bons caminhos.
Entre o lixo que nos assalta o domicílio avulta o televisivo - mas para esse estamos avisados. Menos alertas são lançados para a estrumeira musical, tipo letra minha e música do meu mano, como vem de antanho. Do mesmo tempo em que o acompanhamento à viola fazia distraír do chorrilho de banalidades oferecidas em embrulho de celofane antes e depois da execução musical. Claro que são muito giros e há sempre cliente pronto a bajular, assim se vai andando. Para ambos, felizmente, há o botão de desligar, ou a opção de mudar, que nos descansa.
Mais simples ainda é evitar prosas bafientas e conceitos desfazados que também vão polulando.
Já depois de sair à rua são menos as possibilidades de escapar ao lixo. Aos que nos aflige as narinas, entope poros, viola os olhos, agride os tímpanos. O do ambiente, que carece de protecção mais eficaz.
Há também a trampa que, sendo visual, reside no gosto que se cultiva, e portanto lesa o espírito. Muitos anos hão-de passar até que as montras – e por extensão quem delas se veste – consiga encontrar um equilíbrio pacífico entre a pataca e o cor-de-rosa debruado, o yuan e o verde-alface canelado, o dólar de Hong Kong e o sapato douradamente afilado, quando não rematado por um canelão que nem os póneis. É de crer que faltam espelhos em Macau, tal a voracidade estilista das nossas piranhas ambulantes.
No capítulo do lixo que não provoca pesadelos, mas dor de alma, é o própriamente dito. A garrafa que vai pró saco quando devia ser reciclada, a lata que vai pró balde e idem, o papel que igualmente e aspas. Sabendo a apetência local pelo funcionalismo público e a proverbial e bem divulgada preocupação do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais com as questões do ambiente, não seria altura de ser instituido o – podem usar o nome à borla – «Departamento de Separação de Resíduos Conforme a Sua Natureza Orgânica», para promover a recolha selectiva de resíduos sólidos urbanos? Até a Natureza agradecia.
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