1.6.04

O amigo do lixo

Cansa o lixo que nos entra todos os dias pelos sentidos adentro sem que possamos fazer grande coisa para o evitar.

Custa mais, em primeiro lugar, aquele que nos invade a casa. De entre esse o que nos chega por correio.

No eletrónico, com amigos que não destinguem o cantar do rachar lenha e nos enviam todo o tipo de conspurcações anunciadas como fabulosas, divertidíssimas ou espectaculares. Não são parcos na adjectivação, sempre superlativos, grandiloquentes e idiotas. É incrível como aqueles envelopes que recebiamos há uns anos com uma moedinha dentro, obrigando a que se dactilografasse 10 exemplares iguais, pedindo graças a nossa senhora dos biscoitos, sob pena de nos cair um raio fulminante na primeira esquina foram substituidos por igualíssimas mensagens, invocando são laparoto, agora para reenviar a outros tantos ou mais cabalístico número de destinatários, pendendo a ameaça de um qualquer vírus sobre nós em caso de falha. Incrível é como gente que fez estudos se enreda nisso, disseminando estultícia. Imagino-os em furiosos ‘forwards’ de tacha arreganhada como os pobre de espírito.

Irrita mais, muito mais, esse que o lixo electrónico de quem quer vender viagra, um diploma, renegociações de crédito ou simplesmente o céu. Esses não são nossos amigos e hão-de, seguramente, querer testar se do outro lado da rede estará um papalvo.
Irrita e não se desculpa, que o governo da RAEM não legisle sobre publicidade, no sentido de penalizar quem, sem nos conhecer de lado nenhum, se digna enfiar na nossa caixa do correio promoções a um qualquer produto. Entre esses há um que é de supina desfaçatez: endereça o correio com destino ao «Pizza Hut Fan» e não se coíbe de lhe apor a nossa morada. Ídolos, se os tivermos, escolhemo-os (ainda que depois nos desiludam). Isto é falta de educação e abuso de confiança. Dá-se mesmo o caso de muitos de nós não só não metermos o dente em produtos de tal consistência como alguns sermos mesmo militantes da «slow food». Quem raio é o senhor Hut para estas confianças?
Em sociedades avançadas há leis que protegem os cidadãos de tais avanços: pespega-se um autocolante na caixa do correio a dizer que ali só entra quem estiver convidado, e quem abusar sofre as consequências. Lá chegaremos nesta terra que dá sinais de ir seguindo bons caminhos.

Entre o lixo que nos assalta o domicílio avulta o televisivo - mas para esse estamos avisados. Menos alertas são lançados para a estrumeira musical, tipo letra minha e música do meu mano, como vem de antanho. Do mesmo tempo em que o acompanhamento à viola fazia distraír do chorrilho de banalidades oferecidas em embrulho de celofane antes e depois da execução musical. Claro que são muito giros e há sempre cliente pronto a bajular, assim se vai andando. Para ambos, felizmente, há o botão de desligar, ou a opção de mudar, que nos descansa.

Mais simples ainda é evitar prosas bafientas e conceitos desfazados que também vão polulando.

Já depois de sair à rua são menos as possibilidades de escapar ao lixo. Aos que nos aflige as narinas, entope poros, viola os olhos, agride os tímpanos. O do ambiente, que carece de protecção mais eficaz.

Há também a trampa que, sendo visual, reside no gosto que se cultiva, e portanto lesa o espírito. Muitos anos hão-de passar até que as montras – e por extensão quem delas se veste – consiga encontrar um equilíbrio pacífico entre a pataca e o cor-de-rosa debruado, o yuan e o verde-alface canelado, o dólar de Hong Kong e o sapato douradamente afilado, quando não rematado por um canelão que nem os póneis. É de crer que faltam espelhos em Macau, tal a voracidade estilista das nossas piranhas ambulantes.

No capítulo do lixo que não provoca pesadelos, mas dor de alma, é o própriamente dito. A garrafa que vai pró saco quando devia ser reciclada, a lata que vai pró balde e idem, o papel que igualmente e aspas. Sabendo a apetência local pelo funcionalismo público e a proverbial e bem divulgada preocupação do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais com as questões do ambiente, não seria altura de ser instituido o – podem usar o nome à borla – «Departamento de Separação de Resíduos Conforme a Sua Natureza Orgânica», para promover a recolha selectiva de resíduos sólidos urbanos? Até a Natureza agradecia.

Havemos de voltar

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