1
Houve quem contestasse o seleccionador da equipa de Portugal que participa no Campeonato da Europa de Futebol por ter uma espinha na garganta, que dá pelo nome de Vitor Baía. Ao fim e ao cabo as coisas correram bem e as vozes de contestação estão caladas à espera da oportunidade para voltarem às cobras e lagartos em relação a Luiz Felipe Scolari. Ninguém duvide de que elas voltariam a ouvir-se na eventualidade de Portugal ser eliminado pela Inglaterra no jogo que se segue. Terão, no entanto que reter o fel, porque antes das meias finais não terão espaço para o despejar. Mesmo depois é um caso a ver, já que provavelmente Portugal atinge a final (depois dos ingleses as perspectivas de adversários nas «meias» não são de molde a desanimar). Isto pela análise da evolução das prestações já neste campeonato e não pelas habituais candidaturas prenunciadas. O que se tem visto confirma, efectivamente, Portugal como um sério candidato à final.
2
Entretanto, consta que vai uma febre de nacionalismo em Portugal, traduzida num inusitado exibir do estandarte, sobretudo. Tudo motivado por um estridente apelo do brasileiro Scolari, de pronto correspondido pelo povo. O que merece referência não só pelo facto de, em todos os momentos, o brasileiro falar como se de um português se tratasse, como por fazê-lo com toda a convicção – até à extrema, mas justificada, de ter aconselhado um humorista espanhol a ir «tomar no cu» em vez de o importunar com idiotices. Luiz Felipe Scolari encarna o espírito universalista dos portugueses, de resto espelhado na selecção, onde têm lugar jogadores com origens ou nascimento em África, América e em outros países europeus. Os que sentem legitimamente a selecção portuguesa como sua são muitos mais no Mundo do que aqueles que têm raízes ou interesses em Portugal, o que é notável.
3
No fim do jogo entre Portugal e Espanha, quando se abordava precisamente a questão de como a vitória portuguesa era vivida nos quatro cantos do Mundo, espantosamente, surgiu Macau. A frase foi, aproximadamente, «esta festa a que aqui assistimos continua em todo o lado. E há mesmo gente que deixa de dormir para ficar a acompanhar os jogos, que neste momento também está a festejar, como em Macau». Disse-a Toni, na Antena 1 – um português que passou por cá recentemente sem estar distraído e que, portanto, se lembra do que é importante nos momentos em que a lembrança é sinónimo de consideração. Enorme, Toni.
4
Noutra competição europeia, a corrida pela presidência da Comissão Europeia, entrou um «outsider» que pode vir a ser o vencedor surpresa. Durão Barroso, primeiro ministro português, tem tudo para ser o eleito: é primeiro ministro de um dos pequenos dos 25; da família política conservadora, que venceu as recentes eleições para o Parlamento Europeu; tem o apoio da Inglaterra, e Tony Blair, que terá sido quem aventou o nome, terá as suas razões, apesar de ser(?) de outra corrente política; e fala francês fluentemente, o que é condição sine qua non para o presidente François Miterrand. Encontrado o sucessor de Romano Prodi? Não.
Não que o problema seja uma eventual falta de capacidade de liderança, ausência de projecto político para a Europa, ou inexistência de mérito intelectual ou académico. O óbice é que, qual Wally que requer toda a atenção para ser descoberto, há fotografias da «cimeira da guerra» nos Açores em que se esforçou por aparecer. Esse é o argumento usado pelo chefe de governo espanhol para se opor à nomeação, embora os inaceitáveis comentários feitos sobre decisões do governo espanhol e o seu envolvimento no Iraque devam ainda estar frescos na memória de José Luís Zapatero.
Eis como, a aventura iraquiana ainda vai tendo consequências políticas para quem nela se meteu, com prejuízo tanto dos responsáveis como mesmo daqueles que pouca culpa têm. No caso, para os portugueses, que se veriam livres de Durão Barroso num passe de mágica – a sair o primeiro ministro, e após a derrota eleitoral que sofreu a coligação que lidera, seriam de prever eleições antecipadas; para o próprio Durão, que assim arranjava uma saída airosa para o berbicacho em que está metido; e para a própria Comissão Europeia, que continua enredada em teias que levam ao descrédito junto dos povos da União. Esperemos que Durão vá presidir à Comissão: ganhava ele, ganhava Portugal e à Europa não havia de ir mal maior.
Havemos de voltar
24.6.04
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