Eu sou o resto
O resto do Mundo
Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu sou...
Eu num sou ninguém
Gabriel O Pensador
Neste mundo que vive dias, se não globalmente conturbados, pelo menos confusos, há uma linha mestra, que escapa à mediatização dos que consomem a informação ocidental, que vem fazendo caminho: o Grito do Ipiranga que ecoa por todos os países não conformados com a miséria a que estão submetidos.
A eleição de Luís Inácio ‘Lula’ da Silva para a presidência do Brasil foi uma pedrada no charco da política subserviente da América Latina aos interesses dos Estados Unidos. Há ainda o caso, que nos tem sido mal contado, da Venezuela – e todo o resto do panorama latino-americano é passível do estereotipo 90 por cento da riqueza concentrada nas mãos de 10 por cento da população, e pelo menos uma quota semelhante a viver em condições que do ponto de vista humano nos é impossível imaginar, tal como o valor real do número de zeros que aparecem nos milhares de milhões da riqueza daqueles poucos.
‘Lula’ da Silva elegeu os países em desenvolvimento como os seus principais aliados. Obviamente a China, como país que, no outro lado do Mundo, está numa situação de desenvolvimento semelhante à brasileira, constituía um aliado fundamental para a concretização da ideia do Presidente do Brasil – que se arrisca a entrar para a história, neste início de século, como o único estadista com uma ideia que vá além das fronteiras do seu país e, em simultâneo, para uma ordem mundial. Obviamente, o actual presidente norte americano está fora da contenda quer porque entende tanto das suas próprias fronteiras como se preocupa com qualquer ordem mundial, embora seja sério candidato a ter um lugar ímpar na história.
São inúmeros os exemplos que têm surgido do estreitamento de laços entre a China e o Brasil, em extraordinário benefício mútuo, com reflexos positivos ainda para países terceiros. O nível de importações recorde de aço brasileiro pela China, o sucesso do projecto de aeronáutica conjunto ontem dado a conhecer, ou o sucesso no bloqueio às condições leoninas que os países ricos queria impor, sobretudo, às Nações africanas em questões agrícolas, no âmbito da Organização Mundial do Comércio são disso exemplo.
A África, sugada até ao tutano pelo Ocidente, e depois acusada de malbaratar recursos quando não raro a cooperação lhe era proposta (ou imposta) a troco de negócios que obrigatoriamente envolviam a indústria do armamento tem agora para onde se virar. Não vale, aqui, justificar com a contraposição ao malévolo papel soviético, já que essa política continuou bem para além do colapso do bloco socialista, até aos nossos dias. Nem falar dos corruptos que governam esses países, porque não há um, um só caso, em que o corruptor não leve o soldo da multinacional do Ocidente.
‘Lula’ da Silva fez questão de bem no início do seu mandato deslocar-se a África, num périplo em que tornou claras as suas prioridades, onde África do Sul e Angola, pelas suas potencialidades, não podem ser menosprezadas. Agora anunciou para o próximo ano a vinda à China e à Índia. Um titubeante México – peça fundamental neste xadrez – governado por um ex-senhor da Coca-Cola que deu aos Estados Unidos um acordo económico que o Brasil soube rejeitar, foi agora visitado pelo primeiro-ministro chinês, que voou de lá direitinho para a simbólica Etiópia, onde participou numa cimeira com mais de três dezenas chefes de Estado e governo. Aí foram traçadas as linhas de cooperação entre a China e os países africanos – promessas, apenas, por enquanto. Mas como nós bem sabemos o valor político das promessas é radicalmente diferente nestas paragens e no Ocidente.
Começam pois a desenhar-se, com clareza, os eixos por que passa essa aliança contra a prepotência que sucedeu às superpotências.
Há, em todo este processo, um exemplo que ilustra na perfeição a diferença de interesses que separa o ultra-liberalismo reinante do pensamento com preocupações sociais: uma das batalhas ganhas contra os interesses das multinacionais foi a dos medicamentos para combater a SIDA. Índia, China, África do Sul e Brasil levaram avante (e, por exemplo, Moçambique já beneficia disso) a produção de substâncias anti-retrovirais que são colocadas no mercado com o intuito de salvar milhões de vidas em vez de arrecadar milhões de dólares.
Caberia aqui falar ainda da recente reunião que a Organização das Nações Unidas promoveu com vista a fazer alastrar a Sociedade da Informação. Tudo o que foi solicitado por quem necessita de meios para desenvolver os meios que permitam tirar partido dos benefícios que a internet traz ficou remetido para as calendas, que pelos vistos se acharam em 2005. Nasceu, entretanto, pela voz do secretário geral Kofi Annan o conceito de «fractura numérica». Quer-se com isto significar o problema que leva a que milhões de crianças em todo o Mundo não possam utilizar a internet pelo simples facto de não saberem ler.
Havemos de voltar
16.12.03
9.12.03
Dos gardenias para ti
Foi ontem anunciada a morte de Rubén González.
Nada que espante quem sabia que desde há três anos o músico passou a estar cada vez mais confinado a casa, vítima de uma doença que o imobilizou progressivamente e prenunciava a paragem do coração com que percutia aquele piano.
Depois de Compay Segundo, é a segunda figura eternizada por Buena Vista Social Clube a desaparecer este ano. O que também não é de admirar, dada a provecta idade da maioria dos intervenientes dessa obra onde Ry Cooder conseguiu congregar génios até ali ignorados pelo Mundo.
Cuba e a música são inseparáveis. Não existiria aquele país se não corresse nas veias do povo a mistura perfeita dos calores latinos e africanos, fermentados nas praias do Caribe, destilados nas serras guajiras. Não teria havido a inconformação que levou a constantes revoltas contra quem quisesse parar a música da vida, não importa no meio de que pobreza, fosse contra o domínio espanhol, inglês, ou cacique norte-americano. Os heróis cubanos perduram e são celebrados em cada puro que se fuma, em cada trago de rum com que o povo dança a vida, seja em que condições for.
Os músicos internacionalmente projectados por Buena Vista Social Clube eram de há muito estrelas naquele país que não sobrevive sem a cultura que o enforma. A Casa del Caribe, em Santiago de Cuba, não existe para organizar uns festivais que dêem corpo a qualquer política cultural. Todos os dias junta os músicos, actores, pintores, escultores, malabaristas, ilusionistas aos santiagueros que com eles partilham o sortilégio da arte e atrai os forasteiros para o que será o espectáculo genuíno. Santiago de Cuba onde a Casa da Vieja Trova, chamada cubana, mas santiaguera ela própria na origem, assegura em permanência um palco, instrumentos e públicos aos artistas, jovens e consagrados, que queiram expressar o que lhes vai na alma. E quem conhece essa casa da música conhece as galerias que a circundam, os ateliês nos conservados palacetes de antanho, as lojecas de artesanato campesino. E quem diz Santiago, provavelmente a mais cubana cidade de Cuba, diz necessariamente a em todos os sentidos capital Havana, a irredutível Las Tunas de património admirável, apesar das três vezes que a sua população a reduziu a cinzas para evitar o domínio, a mítica cheguevariana Santa Clara, onde nasceu Ruben Gonzalez.
Evocar o pianista é evocar a cultura e o povo cubano. E como fazê-lo sem cantar também a mulher da maior das caribenhas? Ela que é a maior fonte de inspiração em todas as artes, porque passeia beleza nas ancas de salsa, nos lábios de guaracha, nos cabelos mestiços do son. Elas, a poesia ali, como escreveu Isolina Carrillo, em Dos Gardenias, que Rubén González enfeitou com o seu piano nesse mesmo Buena Vista e agora ficam depositadas na sua campa
A tu lado viviran y se hablarán
Como cuando estás conmigo
Y hasta creerás que te dirán:
Te quiero.
Pero se un entardecer
Las gardenias de mi amor se mueren
Es porque han adivinado
Que tu amor me ha traicionado
Porque existe otro querer.
Havemos de voltar
Nada que espante quem sabia que desde há três anos o músico passou a estar cada vez mais confinado a casa, vítima de uma doença que o imobilizou progressivamente e prenunciava a paragem do coração com que percutia aquele piano.
Depois de Compay Segundo, é a segunda figura eternizada por Buena Vista Social Clube a desaparecer este ano. O que também não é de admirar, dada a provecta idade da maioria dos intervenientes dessa obra onde Ry Cooder conseguiu congregar génios até ali ignorados pelo Mundo.
Cuba e a música são inseparáveis. Não existiria aquele país se não corresse nas veias do povo a mistura perfeita dos calores latinos e africanos, fermentados nas praias do Caribe, destilados nas serras guajiras. Não teria havido a inconformação que levou a constantes revoltas contra quem quisesse parar a música da vida, não importa no meio de que pobreza, fosse contra o domínio espanhol, inglês, ou cacique norte-americano. Os heróis cubanos perduram e são celebrados em cada puro que se fuma, em cada trago de rum com que o povo dança a vida, seja em que condições for.
Os músicos internacionalmente projectados por Buena Vista Social Clube eram de há muito estrelas naquele país que não sobrevive sem a cultura que o enforma. A Casa del Caribe, em Santiago de Cuba, não existe para organizar uns festivais que dêem corpo a qualquer política cultural. Todos os dias junta os músicos, actores, pintores, escultores, malabaristas, ilusionistas aos santiagueros que com eles partilham o sortilégio da arte e atrai os forasteiros para o que será o espectáculo genuíno. Santiago de Cuba onde a Casa da Vieja Trova, chamada cubana, mas santiaguera ela própria na origem, assegura em permanência um palco, instrumentos e públicos aos artistas, jovens e consagrados, que queiram expressar o que lhes vai na alma. E quem conhece essa casa da música conhece as galerias que a circundam, os ateliês nos conservados palacetes de antanho, as lojecas de artesanato campesino. E quem diz Santiago, provavelmente a mais cubana cidade de Cuba, diz necessariamente a em todos os sentidos capital Havana, a irredutível Las Tunas de património admirável, apesar das três vezes que a sua população a reduziu a cinzas para evitar o domínio, a mítica cheguevariana Santa Clara, onde nasceu Ruben Gonzalez.
Evocar o pianista é evocar a cultura e o povo cubano. E como fazê-lo sem cantar também a mulher da maior das caribenhas? Ela que é a maior fonte de inspiração em todas as artes, porque passeia beleza nas ancas de salsa, nos lábios de guaracha, nos cabelos mestiços do son. Elas, a poesia ali, como escreveu Isolina Carrillo, em Dos Gardenias, que Rubén González enfeitou com o seu piano nesse mesmo Buena Vista e agora ficam depositadas na sua campa
A tu lado viviran y se hablarán
Como cuando estás conmigo
Y hasta creerás que te dirán:
Te quiero.
Pero se un entardecer
Las gardenias de mi amor se mueren
Es porque han adivinado
Que tu amor me ha traicionado
Porque existe otro querer.
Havemos de voltar
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