Foi ontem anunciada a morte de Rubén González.
Nada que espante quem sabia que desde há três anos o músico passou a estar cada vez mais confinado a casa, vítima de uma doença que o imobilizou progressivamente e prenunciava a paragem do coração com que percutia aquele piano.
Depois de Compay Segundo, é a segunda figura eternizada por Buena Vista Social Clube a desaparecer este ano. O que também não é de admirar, dada a provecta idade da maioria dos intervenientes dessa obra onde Ry Cooder conseguiu congregar génios até ali ignorados pelo Mundo.
Cuba e a música são inseparáveis. Não existiria aquele país se não corresse nas veias do povo a mistura perfeita dos calores latinos e africanos, fermentados nas praias do Caribe, destilados nas serras guajiras. Não teria havido a inconformação que levou a constantes revoltas contra quem quisesse parar a música da vida, não importa no meio de que pobreza, fosse contra o domínio espanhol, inglês, ou cacique norte-americano. Os heróis cubanos perduram e são celebrados em cada puro que se fuma, em cada trago de rum com que o povo dança a vida, seja em que condições for.
Os músicos internacionalmente projectados por Buena Vista Social Clube eram de há muito estrelas naquele país que não sobrevive sem a cultura que o enforma. A Casa del Caribe, em Santiago de Cuba, não existe para organizar uns festivais que dêem corpo a qualquer política cultural. Todos os dias junta os músicos, actores, pintores, escultores, malabaristas, ilusionistas aos santiagueros que com eles partilham o sortilégio da arte e atrai os forasteiros para o que será o espectáculo genuíno. Santiago de Cuba onde a Casa da Vieja Trova, chamada cubana, mas santiaguera ela própria na origem, assegura em permanência um palco, instrumentos e públicos aos artistas, jovens e consagrados, que queiram expressar o que lhes vai na alma. E quem conhece essa casa da música conhece as galerias que a circundam, os ateliês nos conservados palacetes de antanho, as lojecas de artesanato campesino. E quem diz Santiago, provavelmente a mais cubana cidade de Cuba, diz necessariamente a em todos os sentidos capital Havana, a irredutível Las Tunas de património admirável, apesar das três vezes que a sua população a reduziu a cinzas para evitar o domínio, a mítica cheguevariana Santa Clara, onde nasceu Ruben Gonzalez.
Evocar o pianista é evocar a cultura e o povo cubano. E como fazê-lo sem cantar também a mulher da maior das caribenhas? Ela que é a maior fonte de inspiração em todas as artes, porque passeia beleza nas ancas de salsa, nos lábios de guaracha, nos cabelos mestiços do son. Elas, a poesia ali, como escreveu Isolina Carrillo, em Dos Gardenias, que Rubén González enfeitou com o seu piano nesse mesmo Buena Vista e agora ficam depositadas na sua campa
A tu lado viviran y se hablarán
Como cuando estás conmigo
Y hasta creerás que te dirán:
Te quiero.
Pero se un entardecer
Las gardenias de mi amor se mueren
Es porque han adivinado
Que tu amor me ha traicionado
Porque existe otro querer.
Havemos de voltar
9.12.03
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