O que significa a tantas vezes utilizada expressão da especificidade de Macau? A palavra é horrível e os conceitos que se lhe associam, geralmente, são como um capote para abrigar todos os rotos. Nos últimos dias, na comunicação social, surgiram opiniões que demonstram como Macau é, sobretudo, única.
A importante entrevista que o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau, Wan Yongxiang, deu ontem à agência portuguesa de notícias dá uma visão sobre o assunto. Diz o representante da China na RAEM que o governo central «constata com satisfação» que a comunidade portuguesa «tem apoiado o trabalho do Governo da Região Administrativa Especial de Macau e se tem dedicado activamente a promover a prosperidade e o desenvolvimento local». Disse-o, certamente, em português. O facto de Wan Yongxiang dominar a língua portuguesa terá, de resto, sido determinante para a sua nomeação para o cargo que ocupa. Sendo capaz de compreender qualquer conversa, ler a opinião ou ouvir as notícias em português, o responsável pela ligação do governo de Pequim ao de Macau sabe do que fala e faz questão de o dizer em nome do executivo que serve.
Não passa pela cabeça a ninguém que estas sejam palavras de circunstância, muito menos apenas um instrumento para levar a bom porto a política económica de penetração da China nos mercados dos países lusófonos. O entendimento que o ex-diplomata chinês no Brasil tem é de vistas largas e coração aberto.
O futuro não se constrói com ressabiados, mas com quem está seguro da força que possui – e quando em si mesmo encontra fraquezas (como todos), faz do trabalho e do estudo o caminho para o aperfeiçoamento. Assim, nunca perdendo a identidade, enriquece-a.
Diz na mesma entrevista o o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China em Macau que uma candidatura de Edmund Ho a um segundo mandato «terá o apoio da maioria da população». O que não sendo novidade vale pelo facto de o Chefe do Executivo ter, e sobretudo praticar, uma política baseada exactamente nos mesmos princípios que Wan Yongxiang enumera.
Esperemos que a entrevista de Wan Yongxiang seja difundida pela comunicação social em chinês com o destaque que merece. Podendo inferir que os conceitos nela expressos merecem aprovação tão geral entre a população de Macau, seria bom que isso assim ficasse expresso, por via das ovelhas ranhosas do costume. Ora aí etá a especificidade de Macau, versão 1.
A propósito da realização em Pequim de um seminário na área económica que resulta da realização em Macau do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa que teve lugar em outubro passado, o embaixador da República de Angola na capital chinesa, em entrevista à Rádio Macau, estava exultante pelo «fruto» que a iniciativa representa e não poupou elogios à «grande cidade». A Macau – onde volta com alegria por o cargo desempenha em Pequim lhe proporcionar o regresso a uma terra onde se sente bem. Desculpe-se-me o facto de me referir agora a um trabalho onde estive directamente envolvido, mas a forma como o embaixador João Bernardo reagiu a um telefonema em que, sem sair da China, falava na sua língua e tinha quem o ouvisse e estivesse interessado no que tinha para dizer, merece referência. É isso Macau no século XXI – uma cidade (perdida na sempre longínqua Ásia, integrada na imensidão da China), muito maior que si própria e que tudo o que sobre ela se possa dizer. É do tamanho da alegria dos homens, e essa não se mede. Em versão 2, mais que especificidade.
Não é muito conhecido o trabalho cívico do médico Fong Man Tat, pelo menos nos meios que nos são mais próximos, mas merece toda a atenção. O líder da Associação para a Construção de Macau, que se sabe ter sido candidato e não eleito para a Assembleia Legislativa, surgiu com propostas muito concretas para a construção de uma sociedade mais participativa na RAEM. O facto de ter feito propostas de participação, evolução do sistema político, instituição de métodos de observação social antes de reclamar o rótulo de democrata (ou qualquer outro), merece aplauso. De facto, a Fong Man Tat parece interessar a evolução da sociedade e do sistema (ou a construção de Macau, como indica o nome da Associação que lidera) e não o título de campeão das democracias e liberdades liberais.
Com as palavras inteiras defendeu a articulação com o poder central para que, num prazo relativamente dilatado de tempo (2013), se possa no território exercer universalmente o direito de voto em partidos legalmente instituidos. Politicamente a estratégia é acertada e provavelmente dará muito melhores frutos que outras de confrontação e reivindicações a raiar o separatismo dubiamente legitimado. O que merece ovação. Embora ter razão antes do tempo, em política, é erro que se paga com a derrota no imediato, a decência e honestidade intelectual são valores que acabam por dar frutos. Por oposição ao «grande irmão» que mora do outro lado do Rio, esta é a melhor especificidade que Macau pode reclamar para si.
Havemos de voltar
9.6.04
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