29.5.04

O estado da união

Sem ministro
 
Não se ouviram brados de indignação pelo cancelamento da visita que o então ministro da Educação de Portugal viria fazer a Macau. Surgiu um comentário mais incendiário alí, outro acolá, mas tem razão quem disse que, sem sentido, seria a vinda de um ministro que o seria à partida, mas já não à chegada. O que viria fazer David Justino a Macau? Nada, porque quando cá chegasse o governo que integrava não seria mais que os destroços em gestão de um executivo abandonado à sua triste sina por um primeiro-ministro em debandada.
Faça-se justiça a Justino: foi a última, mas excelente decisão. Porque não fez em tempo útil, o tempo se encarregou de o fazer inútil. Como já estamos habituados, só o cenário mudou, a banda sonora é a do costume. Afinal, alguém acreditava que ía haver novo currículo na Escola Portuguesa de Macau no próximo ano lectivo? Além do mais, tal seria inaceitável, já que a inscrição dos alunos corresponderia à passagem de um cheque em branco à decisão tomada, já que ia surgir em cima do período de matrículas. Portanto, reste a fé a quem a tenha de que o próximo será melhor.

Por Portugal

Apesar de tudo há que estar solidário com o ministro, como se deve ser complacente com todas as vítimas da desgraça: por muitos avisos que se façam a quem prossegue em caminho errado, quando o malho chega a recriminação não é o melhor remédio.
Assim foram sendo lançados alertas contra o caminho que o governo português seguia. Sendo bem verdade que um mal nunca vem só, eis que à crise económica se junta agora a crise política. O problema agora é que habitualmente não há duas sem três – só faltava Santana Lopes suceder dinasticamente, em golpe palaciano cujos contornos, reconheça-se, estão bem urdidos.
Durão Barroso deu às-de-Vila-Diogo, como era de prever, e quer agora passar o ónus da fuga para o presidente português, caso, como aconselha a sensibilidade política expressa na opinião das mais avisadas personalidades locais, opte por dissolver o parlamento e convocar eleições que legitimem um novo primeiro-ministro – como, apesar da coligação pós-eleitoral, este estava. Um primeiro-ministro não sufragado de uma coligação de bastidores seria, ao contrário do que diz o candidato a governante, coisa nunca vista em democracias adultas. De resto, e contra a verborreia populista de Santana Lopes, concorre desde logo o facto de nenhum outro primeiro-ministro em funções ter aceite abandonar o mandato para que tinha sido eleito, a começar pelo próprio irlandês que encontrou em Durão o mínimo denominador comum que lhe salvou a presidência do Conselho.
Vá então Durão à vida e prove a sorte que santos da casa não fazem milagres.

Todos à Torre

Em boa hora a Casa de Portugal em Macau decidiu avançar para uma iniciativa que pode envolver muita gente numa festa memorável. Esta é uma na ‘mouche’. O local escolhido é o mais certo: amplo, agradável, e alheio a conotações ou alergias que um qualquer outro mais tradicional pudesse causar; o momento é entusiasmante, sendo já evidente que as madrugadas futeboleiras têm envolvido muita gente que habitualmente até se alheia do futebol; parece garantida a presença de quantidade suficiente de gente para que não se centre a iniciativa nesta ou naquela personalidade; torna-se o evento (palavra tão de Macau, esta) aberto a todos, aos distraídos e circunstantes, eliminando-se empecilhos em que tropeçamos todos os dias; sobretudo, põe-se à disposição de quem quiser, sem convites nem ameias, um local para se conviver e partilhar emoções, descarregar energias, celebrar alegrias e dispender considerações, regar o esófago e desgastar a laringe, enrouquecer saudavelmente enquanto se cospem unhas roídas, enfim, tudo o que faz de um jogo de futebol decisivo um momento só repetível na final ansiada. Afinal, a tantos milhares de quilómetros do palco original, quem não quer encurtar distâncias? Bolas!

Dar bandeira

Pretendeu um leitor corrigir a última crónica aqui publicada onde se dizia que o apelo de Luiz Felipe Scolari tinha produzido o efeito de uma febre de ostentação do estandarte português por alturas do Euro 2004. Dizia a prosa que tinha sido Marcelo Rebelo de Sousa, e não o seleccionador de Portugal, o autor da ideia. Vamos então atribuir o seu a seu dono: Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, fala na televisão sobre o assunto, referindo-se a uma carta que recebera de um jovem, Bernardo Teotónio Pereira, que lançava o apelo, sendo então, e até melhor opinião, quem poderá reclamar os louros. Bernardo Senna Fernandes, o leitor, omitiu essa parte. Como não quis perceber que foi, efectivamente (e pelo que nos é dado apreender a esta distância), a partir do apelo lançado por Scolari que as bandeiras começaram a surgir penduradas.
Por cá, ouvi um cabotino considerar «idiota» o acto de ostentar a bandeira portuguesa depois da vitória da selecção de futebol sobre a Inglaterra. Ridícula, a observação, de uma criatura esdrúxula, obviamente. Esperemos que haja razões para, após o jogo com a Holanda, poder partir-se em caravana festiva com tantas bandeiras quantas se queiram. Que se possa ver em Macau o que se observou na Praia, em S. Tomé, Maputo e Bissau, Luanda ou Díli, onde o passado não condiciona o presente individual e os laços históricos proporcionam a festa comum. Que isso possa depois ser mostrado ao Mundo, como aqui vemos as outras festas.

Havemos de voltar

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