11.5.04

A bola

Dizer que a bola é redonda nem sempre é uma verdade lapaliciana. Mesmo no jargão futebolês essa expressão é usada recorrentemente e com razão.
Porque o fenómeno onde a bola é mais popular provoca alterações de visão que a tornam num outro sólido de forma indefinida e muito ainda não nomeável. Uma das formas que o esférico adopta ultimamente poderá ser designada, se assim o quiserem os cronistas desportivos, por «cunhado» ou «alvalângulo». Naturalmente que o objecto terá que possuir lados e ângulos – aqueles por que o principal arauto do novo sólido geométrico decidir observar a bola, que como se sabe, o presidente «leonino» já o sabia antes de muitos de nós, também tem dois lados: o de dentro e o de fora. Tinha, porque a bola que rola aos olhos do tão respeitável quão tremeliquento (por que será?) senhor tem muitos mais. Quando hezagonal provocas faltas invisíveis às restantes dezenas de milhares de olhos presentes no mesmo recinto – mas que resultam em indigesto golo. Pelo menos octogonal quando transformam os 11, ou 23, ou quantos foram, que a ela andaram ao biqueiro durante nove meses para parirem uma modesta prestação, constituindo-se, apesar de tudo, na melhor equipa do campeonato. Trata-se, obviamente, de uma questão de sistema, ou de falta dele – o táctico, obviamente. Outra hipótese é tratar-se de contaminação pelo vapores bafientos da nobreza que empestam o novo Alvalade viscondal.
Dizer que a bola é redonda, em desporto, não é o mesmo que dizer que um quadrado tem quatro lados. Pela mesma razão que dizer que um homem tem dois pés não significa o mesmo se estivermos a falar de um carpinteiro ou de um futebolista. Por isso mesmo quando Geovani fuzilou Ricardo nenhum dos polícias presentes pensou em dar-lhe ordem de prisão por homicídio qualificado e bastamente testemunhado, nem sequer sair abraçado a ele em direcção ao balneário, com o chapéu em baixo do braço, para lhe pedir a identificação.
É assim o mundo da bola, uma sociedade à parte, que pede emprestada aqui e ali a língua deste e daquele para lhe dar novos significados, que tem regras próprias e se mantém, no geral, fora das instâncias judiciais civis, a menos que se misturem os papéis e lá tenha a justiça dos homens que se meter com os homens da bola. É como quem diz: se o presidente da Câmara licenciar ilegalmente três loteamentos em troca de uma contribuição ao clube da terra, pode ter problemas por ser autarca, não sócio da agremiação. Se ao atleta for detectada cocaína no organismo, fica uns meses sem jogar em público, mas não chega a poisar as nalgas no madeiro do tribunal. Não interessa se de facto ou de jure, certo é que há duas medidas e pelo menos outros tantos pesos.
Os cidadãos mais avessos ao fenómeno desportivo tendem a ver nisto se não o fim do Mundo pelo menos sinal inequívoco de que ele está perdido. Inquietam-se alguns da cultura com a alienação, da religião com as faltas ao sacramento, do intelecto com a brutalidade, outros, avulsos, com não perceberem as regras. A bola, essa, lá vai girando, e quando pára gera suspiros.
A bola faz mais pela Paz, pela Felicidade, pelas Culturas, pela economia e pela cooperação do que os protagonistas do jogo pretendem. Obviamente, muito mais do que o que os dirigentes dos clubes alguma vez pretendem – eles que ambicionam, regra geral, metas materiais e proventos pessoais que nada têm que ver naqueles valores. Mas a bola é dos povos e sai do controlo dos Estados – por isso resulta, passa barreiras, ultrapassa dificuldades, obtem feitos impossíveis para comunidades que doutra forma se mantêm presas nas redes que os sistemas políticos criaram para envolver, e manietar, as sociedades.
Se assim não fosse, o Futebol Clube do Porto seria apenas «bimbo», não alcançaria, com nenhum Mourinho, a fama merecida e a glória conquistada que nenhuma outra instituição daquela atrasada região europeia obteve, se propõe ou sequer vislumbra.
Por isso, sem sequer fazerem ideia de quem foi Camões, nos confins da China há quem saiba uma palavra em português e a use quando precisam de dizer Bem Vindo Portugal. Que dizer quando, no desempenho de funções profissionais, a curadora da Fundação Oriente chegou a uma pequena cidade do interior da China e, tendo à sua espera alguém que não sabia como a identificar, leu num cartaz (com que o improvisado motorista se desenrascou) a palavra Benfica?
A bola, que até pode ser um ovo, um sabre, apenas uma fita, as mãos, consegue maravilhas. Seria estultícia pretender reduzir tudo à bola, tanto quanto tentar a quadratura do círculo. Mas é tempo para os que têm responsabilidades na difusão da língua e cultura perceberem que há formas menos arcaicas e gente menos vetusta para fazer florescer o que definha ricamente.
É assim o mundo da bola, universal, que dá para falar de tudo e tudo pôr em causa, provando que nem tudo o que é bola rola e, mais ainda, que nem tudo o rebola é redondo.

Havemos de voltar

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