31.10.03

Respirar

O mais provável é que ao reaparecer agora, este espaço assinado, versasse a Guiné – afinal há mais que razões: um golpe de Estado que apeia o passado Ialá permitiria discorrer bem sobre as diferenças de grau de indignação revelada pelas potências ocidentais conforme se trate de um democrático democrata ou de um democrata «democrático», esquecidos que estão, por exemplo, os «democráticos» democraticamente eleitos na Argélia, apeados esses pelos verdadeiros guardiões da democracia, e do poder.
Ou versasse o Forum com os países lusófonos – há também boas e bastantes razões: desde logo as vicissitudes do nome, que indo já em terceira e atrapalhada versão, retrata bem o cuidado que nele está a ser posto pelos que supostamente seriam os elos à lusofonia, já ultrapassados por quem, ao aprender a língua em Pequim, aprendeu também a competência política.
Poderia ainda, limitado ao eixo dos terrenos aterrados, perder tempo com sofredores que atacados por andropausa fulminante se entretêm em descobrir na luz os fantasmas, na infância a redenção, ou nas sombras o terreno para evoluir (rebuscando Camilo, que nem malandrins, de estrumeira para jornalismo) – mas para isso teria que desenvolver essa capacidade que não tenho: a de discorrer mais que trezentos caracteres destilando frustrações sem nunca nomear o alvo.
Mas não, leitores, caros e caras, prezados e nem por isso – que o ofício de escriba a isso obriga: tanto se escreve para este que aprecia como se é lido por aquele que apenas está à coca, e não raro, quando a epístola sai acertada porque nela investimos algum fel reservoso, é vê-los reagir ruborosos e espumantes.
Não, que a matéria é amativa – só os que apenas descobrem este assunto na algibeira, sem cuidar de ir ao dicionário, ou à alma, ou atentar ao prazer físico que se pode ter (e tem) não entendem: porque se confunde por vezes com sofrimento, mas é a profissão, a língua que se pratica, a vida que se escolheu.
Fica então dito, pela afirmativa, que me permito agora falar disto, também do que me apetece, de que me sinto assim, hoje apaixonado e rancoroso, amanhã enérgico e cansado, ora atento e concentrado, já abrangente e esforçado – assim, como um peixe com a cabeça fora de água.

17.09.03

Havemos de voltar

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