O regresso do Caluanda
«A vida é grande e não são só as palavras que chegam para lhe mudar», diz logo a abrir o narrador de ‘Zeca Burnéu e outros’, o primeiro conto de ‘Nosso Musseque’ - simultaneamente o último livro de José Luandino Vieira e última notável obra da escrita lusófona. Última, mas não nova, porque vê a luz - e sente já o cheiro, e está quente na humidade de Macau, nas prateleiras da Livraria Portuguesa - 41 anos (!) depois de ter sido escrita numa cela da cadeia da PIDE, em Luanda. Correram lentos os meses do início de 1962.
Não cabe aqui a crítica literária.
Faz-se apenas a chamada de atenção da chegada desse livro, fundamental como toda a restante obra desse grande angolano nascido em Portugal, para perceber como eram os subúrbios da capital naqueles anos – como sempre na obra de Luandino, com uma riqueza e humanidade na composição das personagens que elas se tornam nossa amigas, nos fazem amar e viver nelas.
Luandino Vieira é um autor cuja obra está imerecidamente esquecida e inacreditavelmente mal divulgada. Habitualmente, de Luandino refere-se ‘Luuanda’, o romance que se lhe cola à vida como segunda pele, e esquece-se o conjunto de uma obra que conta já com uma dúzia de títulos, além da poesia dispersa. Neles a unidade, a beleza, a profundidade, mas sobretudo a riqueza do estilo constituem uma contribuição importantíssima para o português. Esse terá sido o início de um percurso que depois outro grande escritor lusófono, o moçambicano Mia Couto, consagrou como a «desconstrução» da língua.
Fala-se de ‘Nosso Musseque’ e de Luandino Vieira para registar uma notícia que, na altura passou despercebida, mas que, pelo que foi dito, se perceberá ser da maior importância. O inédito ‘Nosso Musseque’ é a primeira obra que sai por iniciativa da angolana Editorial Nzila, no conjunto da reedição da bibliografia completa de Luandino Vieira, depois de o escritor lhe ter cedido os direitos de publicação integral.
Surpreendentemente, a acção é concertada com a portuguesa Editorial Caminho e a Moçambicana Ndjira. Angola conheceu a obra logo em Abril. Só em Maio ela chegou à outra costa e a Portugal.
Registe-se ainda que ‘Nosso Musseque’ interrompe um jejum de 20 anos – tantos quantos Luandino Vieira esteve sem publicar.
Um conjunto de factos que se saúdam com veemência e parecem prenunciar novos e bons ventos na cultura lusófona. A vida é grande e as palavras lhe ajudam a mudar.
17.06.03
Havemos de voltar
31.10.03
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