O dingníssimo cônsul dos Estados Unidos em Hong Kong surpreendeu todos (ou quase) ao afirmar que as relações daquele país com a China eram mais antigas que a presença portuguesa em Macau. A coisa foi dita na festa de aniversário da independência, comemorada com alguns dias de atraso. Deve desculpar-se-lhe.
O presidente dele também diz coisas como «Não é a poluição que ameaça o meio ambiente, mas sim a impureza do ar e da água»; ou, a propósito da abstenção: «Um número baixo de votantes é uma indicação de que menos pessoas vão votar»; mas não exaspere, amigo leitor, porque Bush filho garante que «o futuro será melhor amanhã». Assim esperamos todos.
Certamente sem se aperceber da verdade que produzia, sendo no entanto uma das suas mais certeiras reflexões filosóficas, debitou Bush que «gente realmente muito estranha pode assumir posições-chave e provocar um terrível impacto na história». Pensaria ele em Buffalo Bill?
O brilhante raciocínio do recandidato à Casa Branca tem, no entanto, outros explendores, que nos permitem ir mais longe na compreensão da história dos nossos dias. Sobre os motins que se seguiram ao tristemente célebre espancamento de um negro em Los Angeles, esclareceu o visionário, questionado por um jornalista: «Quando me perguntaram quem provocou a revolta e as mortes em Los Angeles, a minha resposta foi directa e simples: quem devemos responsabilizar pela revolta? Os revoltosos são os culpados. Quem devemos responsabilizar pelas mortes? Os que mataram são os culpados». Conclusão: o homem tem qualidades para ser nomeado cônsul em Hong Kong, pelo menos.
O saber, nos Estados Unidos, não é coisa que se cultive. Há anos foi divulgado um inquérito revelador de que mais de metade da população da potência não conseguia indicar a Europa – sim, o Continente – num planisfério. Não há razões para crer que a situação mudou, antes pelo contrário.
As mais conhecidas declarações do presidente norte-americano sobre educação postulam que «o sistema de ensino público é um dos fundamentos da nossa [deles] democracia. Além do mais, é onde as crianças da América aprendem a ser cidadãos responsáveis e as habilitações necessárias para aproveitar as vantagens da nossa sociedade oportunista». No momento em que tentou clarificar o raciocínio, a alimária esclareceu(?): «Quero dizer que a Administração Bush está orientada para o resultado, porque acredito no resultado de focalizar a própria atenção e energia na educação das crianças na leitura, porque temos um sistema educativo atento às crianças e aos seus pais, mais que ao objectivo de um sistema que recusa a mudança e que fará da América o que queremos que seja, um país de gente que sabe ler e que sabe esperar». Não se pede que leiam enquanto esperam.
Tudo isto a propósito, também, das declarações da esposa do candidato democrata à substituição de Bush. Garante ela que o marido não só lê, como até gosta de história. Esperemos sinceramente que isso lhe valha alguma coisa.
Não se pense, no entanto, que a estulta afirmação do cônsul norte-americano sobre as relações com a China são novidade em matéria de política externa. Também aí, a cartilha é ditada por Bush. Foi ele quem afirmou, após a eleição do presidente mexicano: «Falei com Vicente Fox sobre o envio de petróleo para os Estados Unidos. Assim não dependemos de petróleo estrangeiro». Ninguém se admirou, portanto, quando esclareceu a Nação que «a grande maioria das nossas [deles] importações vêm de fora do país». Sobre o «fora», numa tirada lapidar sobre as negociatas no Iraque, explicou Bush que «o problema dos franceses é que não têm uma palavra para entrepreneur». OK. Aos europeus, garantiu: «Fazemos parte da NATO. Nós temos um compromisso firme com a Europa. Nós fazemos parte da Europa». Felizmente, enganou-se.
Directamente ao ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso perguntou o ente: «vocês também têm negros?» Já agora, e índios?
Desculpe-se ao sr. Cônsul porque há a possibilidade de que seja o Oriente a fazer-lhes mal. Se não veja-se o que disse Bush em Tóquio: «A minha viagem à Ásia começa no Japão por uma razão importante. Começa aqui porque há um século e meio que a América e o Japão formam uma das maiores e mais duradouras alianças dos tempos modernos. Desta aliança nasceu uma era de Paz no Pacífico». Por que raio não saiu também ele disparado num dos intervalos, qual Major Kong, do Dr. Strangelove?!?
Sendo que todas as citações são absolutamente comprováveis e abundantemente publicadas, pensa-se que o néscio se retrata? Nem por sombras: «Mantenho todas as declarações equivocadas que fiz», disse não há muito. Uma que lhe pode servir de epitáfio.
Disse ainda a criatura, aproveitando-se aqui para concluir, antes que isto faça mal: «O holocausto foi um período obsceno na história da nossa [deles] Nação... Quero [queria ele] dizer, na história deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi nesse século!»Pois não, também o meu reino não é deste mundo.
Havemos de voltar
29.7.04
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