10.8.04

12,9 graus centígrados, a temperatura a que a liberdade arde

Um dos elementos do juri do Festival de Cinema de Cannes disse, no certame deste ano, que não se importava por aí além com o facto de os seus filmes serem copiados e depois reproduzidos ilegalmente na China, porque essa era, provavelmente, a única forma de chegar aos espectadores chineses.
Essa é a forma como ‘Fahrenheit 9/11’, o documentário que ganhou a Palma de Ouro daquele festival este ano, está acessível a quem vive por cá, por enquanto. A edição oficial em DVD não foi ainda lançada, nem consta que alguma sala de cinema programe a obra para apresentação. É o que temos, dêmo-nos por felizes assim.
‘Fahrenheit 9/11’ é, como se disse, um documentário. O tema vagueia, objectivamente, entre a guerra no Iraque, a forma de George Bush filho fazer política e os interesses económicos instalados na Casa Branca, por um lado; do outro os povos que sofrem com a guerra: o iraquiano – e o afegão, que também tem que ver na contenda – e o americano, cujos filhos combatem os iraquianos.
Esse é apenas um dois aspectos que ‘Fahrenheit 9/11’, de Michael Moore, quer focar. De resto, é no sentido dessa conclusão que encaminha a obra, cujo epílogo é questionar se os filhos do povo norte-americano, o fornecedor de carne para canhão, continuarão a confiar no sistema depois do episódio iraquiano. A questão é académica, a resposta, provavelmente, é «sim», mas não é isso que vem ao caso.
O documentário do geralmente apelidado de «polémico» realizador (adjectivo que os jornalistas se permitem utilizar com displicência), é feito para combater a reeleição de George Bush. Disse-o o autor. Muito ao gosto americano é construído na dicotomia bem/mal, aqui representado pela verdade-documentário/mentira-política ‘bushiana’.
Antes ainda do combate entre a verdade e a mentira que o próprio documentário encerra (ou seja, quão verdade são as afirmações que Moore produz na obra), há uma verdade indesmentível: a administração Bush tentou (e conseguiu) que o filme não fosse distribuido por uma das maiores cadeias americanas, apesar de ter contrato assinado.
Dentro do confronto exposto pelo conteúdo do filme há as provas, publicadas após a contestação produzida pelos assessores do presidente norte americano, pelo próprio Moore no seu site (michaelmoore.com) a sustentar o que diz.
A obra é, no entanto, muito mais que esse confronto. Trata-se de um documento que perdurará na história e ficará como sinal dos tempos. Traz à luz muitos factos conhecidos de alguns, poucos desconhecidos até aqui, mas sobretudo dá corpo àquilo que se apreende e carece do «ver-para-crer» com que se tomam as decisões.
Do ponto de vista estritamente cinematográfico a obra é boa. Questiona-se se suficientemente boa para vencer a Palma de Ouro, por outras razões que não as políticas (como o juri fez questão de salientar). A resposta só pode ser dada por quem tenha visto as outras.
São as questões políticas que justificam ‘Fahrenheit 9/11’. Michael Moore não se conforma com o rumo que os Estados Unidos estão a tomar com a administração Bush e pôs a nu uma série de verdades. Vejamos as que são menos conhecidas (dizer que os americanos financiaram os talibãs é o mesmo que afirmar que Luís Piçarra era do Benfica) e são objectivas.
A administração Bush (leia-se: o próprio, Rumsfeld, Rice e Powell), antes dos atentados do 11 de setembro juravam a pés juntos que Saddam Hussein (Alá nos livre dele) não possuía armas de destruição em massa nem capacidade para as produzir, muito menos ligações à Al Qaida. Depois daquela data, garantiram também que nem aos atentados tinha ligação. De um momento para o outro passou a ter tudo.
Prova-se também com toda a clareza que Bush filho foi, nos negócios que mantinha antes de ascender à presidência dos Estados Unidos, um sócio importante dos sauditas, a quem a família de Bin Laden entregou milhares de milhões de dólares. Donde poderia até nem vir mal ao Mundo, não fosse dar-se o caso de ter sido o próprio governo norte americano a proporcionar aos muitos familiares do abominável terrorista uma cómoda viagem para fora do país, escassos dois dias depois dos ataques às torres de Nova Iorque.
Fica ainda demonstrado, com objectividade, que um dos lugares do planeta mais seguros para se viver neste momento são os centros de exploração de petróleo no... Iraque. Helas! De facto, não há registo de ataques aos americanos das companhias petrolíferas que exploram o petróleo praticamente desde que a guerra começou. Funcionará melhor essa segurança privada que o mais poderoso exército planetário? Os planos, pelo menos, seguramente que sim.
Além das verdades objectivas, há também as constatações cuja subjectividade aumenta à medida da simpatia. Como a que Moore nutre por Bush não é das maiores, a estupidez do presidente norte americano fica plenamente evidenciada, embora (reconheça-se) não em todo o seu esplendor. O conhecido episódio de Bush a ler um livro infantil, durante largos minutos, com ar de puto a quem tiraram o chupa-chupa, após saber que um segundo avião atingiu o World Trade Center, é apenas um.
Há porém outras verdades apenas abordadas. Entre elas as que se relacionam com as liberdades nos Estados Unidos: as cívicas, que sofreram um rude golpe com o chamado «acto patriótico», que troca privacidade pela falácia do medo. O que se passa com os prisioneiros em Guantanamo é inqualifícável e deveria enrouquecer os defensores dos direitos humanos, sempre tão solícitos em relação a qualquer traque chinês. Muito pior se explica como há censura na imprensa supostamente mais livre do mundo: a verdade é que desde os ataques do 11 de setembro a imprensa e a televisão estão proibidas de mostrar imagens de mortos norte-americanos vítimas dos inimigos. Atrás dessa proibição, outras vêm. Também as agências de notícias são vítimas desse constrangimento, que transforma em mito a liberdade de imprensa norte-americana. Consulte-se, a propósito, o site thememoryhole.org, para se perceber a dimensão do facto.
‘Fahrenheit 9/11’ é, mais que um manifesto anti-Bush, um apelo à Paz – sobretudo quando não há nada, a não ser o dinheiro, a justificar a guerra. É o «por quê», «em nome de quê», das mortes, ditos pelos famíliares dos que caem em combate ou vítimas das explosões, que fica. O que o nóvel e ignoto apaniaguado ‘bushiano’, escriba do ‘Público’, deixou nas páginas deste jornal registado como cena «que faria as delícias [...] de um canal de televisão especializado [...] na exploração de tragédias pessoais», é a dor da perda, retratada, com justificação, para explicar do que se trata. Em contraponto à propaganda ‘bushiana’ que ele segue. A vida versus a hipocrisia.
A vida humana, valor supremo entre os valores, acima da liberdade, porque irreversível quando se vai.9,11 graus fahrenheit são precisamente 12,9 graus centígrados, a temperatura a que a liberdade arde, segundo Michael Moore. Depois, arde tudo.

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