4.2.04

Contribuição atípica para a discusão curricular

Não é ruído comunicacional, mas muito barulho o que se ouve em torno da reforma curricular da Escola Portuguesa de Macau. Parece que ninguém sabe bem o que se está a discutir, com razão. De quem compete expôr as regras só se obtêm adiamentos. Quem cá está, sem poder decisório nem capacidade de intervenção, vai fazendo o que não envergonha, ou se calhar apenas respondendo àquilo que lhe perguntam.
Há, no entanto, algumas conclusões iniludíveis: a primeira é que o Ministério da Educação português faz tarde, e mal, o que se comprometeu a fazer. A segunda, que em Macau quem se relaciona com a Ecola Portuguesa não consegue consensualizar sobre o fuuro que deseja. Em terceiro, e mais grave, que nem uns nem outros pensam a presença do ensino («de matriz», como gostam de dizer) em português com perspectivas de futuro.
Tudo parte de Portugal, sem dúvida. É ao Ministério da Educação do governo português que cabem as decisões – mas de lá só chegam indecisões e adiamentos. Nada de espantar, nem inédito, de resto. Os que acham que lá não percebem nada do que aqui se passa ganham, dia a dia, novos argumentos para sustentar a tese. À boa maneira portuguesa, um presidente com ar vagamente chinês basta para gerir a presença lusa na que sería a pérola do Oriente.
Na dúvida, por cá, vai-se discutindo o menor. Quando o que se quer saber é qual a língua a ensinar (sendo que língua, por estas paragens, há só uma), põe-se a hipótese do ensino do dialecto cantonense. Ao que consta a discussão chega a Lisboa.
É neste ponto que é de justiça elogiar as recentes declarações do deputado Leonel Alves: evitando entrar em polémicas, explicou aos incautos que o importante é os ensinandos conseguirem decifrar «os riscos». Isso mesmo: ler chinês.
Parce indiscutível que, a quem chegue à Ásia e se instale em Macau, interesse, se for caso disso, dar uma educação que proporcione futuro a um filho em idade escolar. Concretizando: chegados agora dos Estados Unidos, para trabalhar num dos casinos que os magnatas aí vão abrir, com a perspectiva de permanência de cinco anos (o ensino primário, ou secundário, grosso modo), os pais de uma criança queiram assegurar-lhe uma educação que garanta algo no futuro. A aprendizagem do Mandarim é, sem dúvida, uma mais valia, aqui em Macau, em Guangdong ou em Nova Iorque. O cantonense servirá para quê?
Serve o exemplo para se porem questões: não deverá a Escola Portuguesa assumir-se definitivamente como um estabelecimento de ensino elitista, de qualidade, prestigiado, que atraia e garanta a formação dos melhores filhos da cidade de Macau? E assim assegurar propinas que lhe garantam a existência? Ou deverá, em alternativa, ser o espelho da curta visão dos emigrantes que aqui vêm passar uns anos e amealhar uns cobres, sem cuidarem (como não o fizeram durante séculos) de projectar o português com perspectivas de futuro? Por que raio hão-de ser canadianos, americanos ou ingleses a abrir a escola «referência» aqui em Macau?
É isso mesmo que se anda a pedir!
É certo que há um parti pris de algumas gerações mais recentes de chineses de Macau em relação ao que tem origem portuguesa. Embora compreensível, a atitude não é sustentável. Além do mais está a degenerar num inacreditável clima de distanciamento que só resulta numa crescente diminuição das aptidões de gestão nos organismos públicos. Em Macau está a surgir um «terceiro sistema» - social, este. Não é o primeiro por razões óbvias. Não é o segundo, porque não foi esse que o primeiro assinou em tratado internacioalmente registado. É aquele que faz com que o é avançado na gestão seja mau porque tem origem preconceituada, mas opta por regredir em todos os conceitos, porque não sabem mais.
Não seria a Escola Portuguesa o sítio onde se deveriam formar os governantes e administradores do Macau do futuro. Parece óbvio que sim, face à propaganda que vende Macau como uma terra do não-sei-quê entre o Ocidente com o Oriente.
Não se vê é nada. As nuvens vão baixas e não admira, portanto, que quem vem do continente estranhe o comportamento das gentes daqui, e os de cá não se identifiquem com a forma de funcionar mesmo dos que mandam na terra – como parece provar a recente sondagem divulgada, que revela o que todos já sabiamos: o Chefe é grande, à sua volta é o deserto.
O caso é mais grave do que a paz reinante permite viver. Macau vive, na comunidade portuguesa, que não sabe olhar o futuro nem perspectivar uma presença actualizada no Oriente, do dia-a-dia. A comunidade chinesa, a que tem todas as responsabilidades agora, não diz nada e não quer mais que ser mandada.
Razão tem, pois, quem diz que democracia à moda Ocidental não é para aqui. Pelo que nos é dado ver, não faz falta a ninguém.

Havemos de voltar

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