São incompreensíveis, por vezes, os critérios que fazem com que algumas notícias ganhem honras de publicação e outras fiquem para sempre longe do público.
Nas redacções, naturalmente, discute-se o que deve merecer honras de divulgação e o que não interessa nem ao menino Jesus, muito menos aos leitores, ouvintes ou tele espectadores. Parte-se sempre do princípio de que é conhecido o perfil dos destinatários.
Há, no entanto, notícias que apenas por moda passam a constituir o nosso dia-a-dia informativo sem que seja analisada a importância que elas encerram. É o caso do folhetim bem vendido das chamadas eleições «primárias» norte americanas, em que os diligentes editores se ocupam a relatar a vitória (ou derrota) de um proto-candidato em eleições que não envolvem sequer uma centena de eleitores. O mais caricato é que esse mesmo número de eleitores é referido como se conferisse importância à notícia quando, efectivamente, só lhe retira.
Outras notícas, vá-se lá saber por quê, ficam eternamente no limbo, apesar de envolverem muito mais gente, problemas bem mais importantes, determinarem modificações fundamentais na vida e futuro de milhões de pessoas e, ainda por cima, dizerem-nos muito mais respeito – ou seja, os critérios que conferem importância a uma notícia.
A agência LUSA, (fonte credível e nunca suspeita de estar comprada pelo terrível polvo que é a tenebrosa corrupção angolana, onde, pelo que se publica, cada ministro não consegue virar uma esquina sem que lhe caia do bolso dinheiro sujo e não há negócio que não implique baús de dólares despachados de avião para a Suíça) noticiou há duas semanas que 29 mil, sim, vinte e nove milhares, de professores foram contratados em Angola para suprir faltas que, mesmo assim, vão continuar a fazer-se sentir. Apenas para o ensino primário.
Seria tomar o leitor por estulto discorrer aqui sobre a importância da educação, ainda mais quando falamos de um país destroçado. A contratação de 29 mil professores, em tal cenário, é uma medida de inequívoca importância.
Sendo o Governo angolano a jolda que, tão eméritas quanto desconhecidas organizações denunciam, a medida só pode ter sido tomada no âmbito de uma negociata cujos contornos, obviamente, escapam ao cidadão comum e mesmo ao jornalista diligente. Diga-se a propósito que essas denúncias partem habitualmente de ONG, ou seja, organizações não governamentais.
Nos tempos que correm ser ONG corresponde a uma espécie de atestado de idoneidade que ninguém outroga e que serve, obviamente, para aproveitar o prestígio das primeiras associações que assim se deram a conhecer e que têm trabalho reconhecido e de inquestionável valor – a Médicos Sem Fronteiras é, apenas, uma delas. Descoberto o filão, muitas ONG aparecem em todos os terrenos com todos os fins.
Uma há – dados fornecidos por uma responsável da própria ONG, por sinal esposa do outro responsável, segundo e último membro da associação – que enquanto põe em prática o belo princípio de explicar aos necessitados como hão-de construir uma casa em Moçambique, aproveita para, a expensas dos Estados envolvidos (no caso Portugal e Moçambique), negociar na Europa ouro que compra na África do Sul. Tudo gente séria, no entanto, capaz de denunciar o primeiro acto corrupto do polícia de trânsito de Nampula.
Outras há, mais descaradas, que não passando de associações políticas – e sendo associações são, obviamente, não governamentais! – enganam o distraído enquanto prosseguem o seu único objectivo: a propaganda.
Facto é que, passados quinze dias sobre a notícia da LUSA, não houve ainda uma ONG que viesse explicar os malefícios da contratação de 29 mil professores. Cumprido, pois, o período de quarentena, podemos tomar a notícia, pelo menos, como verdadeira. O que certamente, o milhão de crianças que vai beneficiar com a medida em Angola não agradecerá tanto hoje como no futuro, mas é assim a infância.
Habituados que estamos a epidemias como a síndroma respiratória aguda e epizootias como a gripe das aves, sabemos bem que os períodos de quarentena variam, quando se aplicam. O período de incubação do vírus da síndroma respiratória aguda, salvo erro, é de 14 dias. Findo esse prazo, o indivíduo suspeito de ter contraído a doença podia respirar de alívio e fazer o seu caminho. Já qualquer franganote que tenha tido o azar de conviver com galináceo infectado não tem direito sequer direito a quarentena onde possa rezar as últimas preces – é extermínio certo e imediato.
Foi o que aconteceu à notícia da LUSA sobre os professores, naqueles periódicos que tudo sabem e publicam sobre Angola.
Havemos de voltar
17.2.04
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