Sendo certo que ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, certo é que, para quem escreve regularmente num jornal, a ausência provoca, no regresso à crónica, um problema de actualidade que a escrita regular resolve. Pelo menos é esse o caso presente, pelo que se fará aqui uma revisão sem preocupações de imediatismo que geralmente estão presentes.
Neste contexto, surge a interrogação sobre a importância relativa de factos – algo que ao jornalista (geralmente) se põe sistematicamente, embora haja exemplos que a cada passo bradam à terra: a inqualificável importância e tempo de antena que se deu à inauguração de novas instalações da RTP é disso exemplo.
Questão: a esta distância temporal terá sido mais importante o atentado de 11 de março em Madrid ou as consequências eleitorais, espoletadas pelo comportamento do governo espanhol, que ele teve? Com todo o respeito pelas vítimas e suas famílias, pelas consequências civilizacionais e ilações decorrentes o resultado eleitoral teve maior importância.
Pouco importa saber se aos facínoras que cometeram os atentados de Madrid agradou o resultado. As acções terroristas deste novo tipo – as que radicam num suposto diferendo insanável entre ocidente e islão – não têm em conta o que apenas ao desenvolvimento das democracias ocidentais diz respeito, porque essas democracias, para o bem e para o mal, continuarão a ser construidas pelos povos desses países, quantas vezes ao arrepio dos seus governos, enquanto os desejos dos fundamentalistas se baseiam em desejos de poder, contrários aos desejos populares, obviamente.
Inquestionável é que o povo espanhol, bem diferente do americano, tirou ilações muito precisas do sigificado dos atentados de Madrid. Envolto ainda em dor, soube perceber a dupla ignomínia de Aznar e seus sucessores, que num só acto pretenderam alijar responsabilidades políticas pela participação no conflito iraquiano e simultaneamente as consequências da relação entre a essa decisão e os atentados. Uma bela resposta foi dada pelos eleitores espanhóis, que só fortalece a decisão do primeiro ministro eleito e demonstra a superioridade do sistema, nunca podendo, pois, a decisão de retirar as tropas do Iraque ser entendida como capitulação ou cedência aos terroristas. São questões diferentes, que não se devem misturar, ao contrário da sarrabulhada que Bush, Blair e Aznar propositadamente cozinharam para dar avançar no aventureirismo.
Seja o povo norte americano capaz de perceber a experiência espanhola.
Ainda com os atentados de Madrid como pano de fundo, ficou a saber-se através de sondagens o que já se esperava: os portugueses temem que a qualquer momento sejam vítmas de um atentado, apesar de tudo indicar que os esforços de Durão Barroso para pôr Portugal como alvo potencial saíram gorados. De qualquer forma o foguetório de páscoa, potenciado pelo nobre cagaço lusitano, promete.
A China marca pontos. Sem necessidade de exercícios de retórica, simplesmente, contrapõe a inqualificável e concreta situação dos detidos de Guantanamo às acusações difusas sobre violações de direitos humanos de que é alvo. Simultaneamente obtém a preciosa ajuda do deplorável exercício de democracia que foram as eleições em Taiwan, cujo desfecho é ainda imprevisível, apesar do recurso a investigadores criminais norte americanos para esclarecer o sucedido. Dos «liberais» de Hong Kong (e de Macau, já agora) espera-se uma tomada de posição sobre os acontecimentos: fazer política não pode ser alarido em tempos favoráveis e recolher à toca quando os ventos correm adversos. Depois de tantos silêncios comprometedores este é um momento em que uma tomada de posição seria esclarecedora.
Ao leitor pouco interessará saber se o escriba esteve de férias, muito menos onde ele esteve, ou como de lá voltou. Certo é que este foi à terra dos cabeças de peixe e a encontrou mais bela na sua simplicidade, recuperada embora ainda muito carente, feliz entre a pobreza, cheia de sons e cores e risos e olhares luminosos, sobretudo grande, muito grande, porque única e sempre olhando horizontes que não têm fim, porque o mar como o deserto nunca acabam na vista humana. Mesmo se algum homem lhes achasse o fim, a sua imaginação e engenho o fariam ganhar novo horizonte.
Havemos de voltar
7.4.04
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