1.
«Os Estados Unidos deveriam transferir imediatamente para as Nações Unidas a responsabilidade pela condução do processo que há-de levar o Iraque a ser governado por iraquianos, conforme a vontade do seu povo. Nenhuma outra instituição, senão a Organização das Nações Unidas (ONU) está em condições de minimizar os danos que decorrem da irresponsável aventura de Bush e Blair.»
«Enganaram-se redondamente os que deram a notícia, manifestamente exagerada, da morte da ONU quando o presidente norte americano quis arrepiar caminho e proporcionar chorudos negócios às empresas que o apoiaram na sua campanha às eleições presidenciais».
«Está demonstrada a demagogia dos que viam nos alertas sobre a resistência que poderia ocorrer à intervenção armada no Iraque um sinal de apoio velado ao facínora Saddam, à inominável Al-Qaida ou, apenas, aos temíveis fundamentalistas».
«Ficou clara a falácia que constitui constitui confundir clarividência (nada difícil à luz da história) com anti-americanismo».
Afirmações que decorrem da convicção de que «só as Nações Unidas podem valer aos iraquianos. Internamente, o governo instituído, (...) não sabe para que lado se virar, sem poder, sem polícia, sem apoio popular. Internacionalmente, a propaganda começa a não ser suficiente para abafar as interrogações: como é que um povo que era suposto aclamar os ocupantes (para usar apenas a expressão assumida pela coligação) resiste organizadamente (...)?» Para concluir: «Obviamente, só a ONU pode tomar o lugar da coligação. Obviamente as regras, até agora só aceites por países que fazem política de cócoras, têm que ser outras».
Tudo o que vem acima foi escrito, nesta secção, em Novembro do ano passado, há mais de seis meses, portanto. [http://www.cabecadepeixe.blogspot.com/2003_11_02_cabecadepeixe_archive.html, para quem se quiser dar ao trabalho].
Ainda não tinha espoletado a agora reconhecida crise que, sublinhe-se antes que os desonestos tentem aproveitar, começou mesmo antes do anúncio da retirada das tropas espanholas.
Meio ano depois os Estados Unidos dão mostras de reconhecer (contrariados, embora) a inevitabilidade da solução ONU no Iraque. Mas ainda há quem não queira ver.
2.
Entre os que não querem reconhecer o lodaçal em que se envolveram está o primeiro-ministro português. Durão Barroso disse da decisão do novo governo espanhol o que o presidente norte-americano, apesar da sua irresponsável verborreia, não soltou. Das palavras de Durão Barroso, além de muitas outras, pode tirar-se uma conclusão: a promessa eleitoral de Zapatero (de retirar as tropas espanholas do Iraque) que foi sufragada, deveria ser letra morta após a chegada ao poder. Um democrata exemplar.
3.
Por falar em democracia: lídimos democratas manifestavam a sua preocupação – e devem agora rezar aos deuses – pela possibilidade de o ANC, na África do Sul, obter 70 por cento dos votos num acto eleitoral à prova do teste do algodão. Um dos que primeiro se disponibilizou para manifestar, via TV, essa supremacia da conveniência democrática face ao desígnio popular foi um padre português que por lá prega. Resumindo, e pasmando simultaneamente, o senhor padre sabe melhor (por via divina, supõe-se), o que convém ao povo que mais de dois terços dos eleitores. Um crente na democracia.
4.
No afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução de (cruzes, canhoto) Abril o governo português passou a chamar-lhe «Evolução». Para não evocar os feitos dos (cruzes, canhoto) revolucionários decidiu fazer publicar livros de estatística sobre os 30 anos que inevitavelmente passaram sobre (cruzes, canhoto) 1974. Mau grado a (cruzes, canhoto) Revolução Portugal é agora um país onde (cruzes, canhoto) Durão Barroso diz que os homens já não andam de bigode e vestidos de preto. O problema é que quem fez a (cruzes, canhoto) Revolução, (cruzes, canhoto) diz que Abril ainda está por cumprir.
Apesar de tudo, o afã de minimizar a importância da (cruzes, canhoto) Revolução, traduzindo-a em números, equações e comparações estatísticas, em vez de tornarem inacessível e incompreensível a dita (cruzes, canhoto) Revolução, trá-la para um nível de comunicação que os (cruzes, canhoto) revolucionários não conseguem fazer passar quando marcham em manifestação pela Avenida da Liberdade (cruzes, canhoto?)
Havemos de voltar
21.4.04
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